segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Talvez...

A palavra não envelhece. Ela é como o riacho que corre por entre os dedos. Ela é como o fruto anunciando a vitória da semente. A palavra foi meu apoio por tanto. Como o cajado de Moisés ao atravessar o deserto, ela me deu sustentação nos momentos de aridez, de cansaço, de tropeço, de desesperança. Eu a denunciei como minha terapia, minha terapeuta, minha mágica, meu milagre. Com ela eu multipliquei pães e peixes e saciei a minha própria fome. Nela eu enxerguei meus próprios escuros. Isto porque a palavra resplandece a nossa própria luz. Talvez eu a tenha deixado de lado para me reconhecer em outros papéis. Eu a ignorei como coisa resolvida, passada, capítulo encerrado. Talvez nunca tenha sido esta a questão. A questão é que eu tive medo de preenchê-la com as minhas verdades no exato momento em que buscava desvendar minhas mentiras. As minhas ilusões. As nossas mentiras também são verdades que carregamos, mas que as nomeamos como mentiras porque nos doem, nos comprimem, nos limitam. Eu tive medo de me revelar, me desmascarar como nunca havia feito ainda que tantos acreditassem que diariamente nela eu fizesse. As minhas palavras são maneiras cirúrgicas de me reconhecer no que acredito. Eu não queria acreditar. Eu não quis. Por isto neguei a palavra por mais de três vezes antes do galo cantar. A palavra não envelhece. Como a bebida que melhora com o tempo. E dela volto a beber. Nela volto a polir o meu espírito. Nela virei a enxergar o que ainda recuso ver. Minha terapeuta, minha mágica, meu milagre, minha filha. 

domingo, 23 de janeiro de 2022

A vida depois da vida...

A passagem para a vida depois da vida ainda é um mistério para mim.

Não que eu não saiba ou desconfie do que possa haver do outro lado do véu.

O mistério é como a morte serve como luz e claridade para quem permanece.

A morte é como o cair de mil fichas sobre a nossa própria vida e sobre a nossa relação com quem segue esta jornada.

A morte grifa e acentua detalhes antes despercebidos. A morte convoca à generosidade, dissolvendo certezas, desengessando posturas. 

A morte nos ensina a ver melhor, a sentir melhor, a se despedir melhor, a confiar melhor.

O mistério é como um capítulo, ou melhor, uma passagem, pode nos contar tanto sobre uma história inteira.

A morte é o lado da vida que também nos fala do amor.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Mãe...

O primeiro amor da minha vida seguiu viagem. Ela partiu e me deixou muitas, muitas sementes. Presentes que nunca desconfiei, presentes que ainda suspeito, presentes que já reconheço. Há curas e muito amor ainda para germinar. E que eu seja este filho, este homem neste caminho de vida a colher e a semear também. 

Que meus avós, nossos anjos e guias levem você adiante nesta sua jornada de luz para além do que sabemos por aqui.

Grato por Deus ter a nós permitido sermos este dueto.

Eu amo você, mãe. 

sábado, 22 de maio de 2021

Deus já entrou

Eu rezo para a minha janela aguardando que Deus se apresente: seja como folha, nuvem, pluma ou vento. Uma delicadeza pessoal a me confortar no instante mesmo em que desdiz o cansaço - este que me põe a rezar para janelas, aguardando que Deus se apresente e me diga que logo adiante a esperança triunfou. E então eu possa não mais rezar para a janela porque me descansei e esqueci; e porque me dei conta de que Ele não precisa me responder como eu desejei que me respondesse.

Deus já entrou.

sábado, 8 de maio de 2021

Pro lado, pro alto, pro céu?

Há quanto tempo você não olha pro alto? Pergunto porque dia destes na estrada já no início da noite, eu, no lugar do passageiro resolvi abrir a janela e olhar para o céu. E eu o olhei como quem tem passado a vida no concreto cheio de luzes que apagam as estrelas. O olhar então se admirou. Ali estavam várias delas, junto ao cheiro de pasto no meio do nada. Me emocionei. Por diversas razões, mas tem esta que compartilho. A gente acostuma a pegar na direção da própria vida e vai adiante como se nada mais fosse importante senão a chegada. A gente liga o GPS, se assegura do tempo, da rota, dos atrasos e mira, se concentra e vai. E vai. E chega. Porque é aí onde a maioria de nós acredita que - agora sim! - vai aproveitar, seja lá como você tenha definido isto. Quando somos crianças a gente aproveita, como eu aproveitei, o vento frio com cheiro de mato, as vaquinhas na penumbra, as propagandas engraçadas, a parada pro banheiro, a música e as estrelas tantas que se revelavam. Isto porque eu decidi descolar os olhos da estrada e olhar para o lado. Isto porque eu me permiti estar no lugar do passageiro para escolher as músicas, contar as moedas pro pedágio e me perguntar o quanto estamos vivendo com a seriedade de alguém cansado que busca chegar para depois chegar novamente, e chegar, chegar, chegar. Que a gente desaprenda esta métrica tão adulta com que medimos a vida (e a nós mesmos) e se permita olhar pra qualquer direção porque em qualquer direção pode já estar o inesperado que você há tanto espera.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

No que você acredita sem saber que acredita?

Tem gente que acredita que não pode, e aí, não pode mesmo. Tem gente que acredita que deve, que "tem que", arranjando uma responsabilidade, uma obrigação pra chamar de sua, algo pra poder carregar, pra resolver, e aí, arranja, consegue, carrega, se entulha, se cansa, se exaure. Tem gente que acredita que a vida é uma batalha, e aí, terá um imenso e largo campo onde tudo será luta, tudo será processo, tudo será difícil. Até porque tem gente que acredita que o difícil adoça a vida, ou que apenas através dele você cresce, expande, evolui. E aí, claro, o difícil estará lá pra legitimar você, pra você poder crescer, expandir, evoluir, e o que mais você acredita para que sirva o "difícil". Talvez você confunda "desafio" com "difícil" o que é coisa bem comum mas coisas bem diferentes. Disse Henry Ford - "Se você acredita que pode ou se acredita que não pode, de qualquer forma você está certo". Porque é a partir daquilo que você acredita que você irá viver suas experiências. Uma situação pode ser vivida e elaborada de maneiras bem distintas por cada uma das pessoas que tenham vivido a situação. A mesma situação. E a mesma situação não é a mesma porque cada um se relacionará com ela de uma própria maneira. Não há certo ou errado aqui, entende? O que há é que aquilo que você acredita e que vem acreditando sobre dinheiro, sobre espiritualidade, sobre seu corpo, sobre trabalho, sobre difícil, sobre ser fácil, criará a sua experiência a reforçar aquilo que você acredita criando uma continuidade e um looping. Há milhares de pessoas vivendo experiências diferentes das suas em cada uma destas áreas (e outras mais) da vida. Quais são as histórias que você acredita sobre você? Quais as perspectivas e pontos de vista que você comprou como verdade sobre o que as coisas são, sobre quem você é, sobre o que o passado foi e que, de alguma maneira, acaba lhe dando o martelo para bater definindo que as coisas são assim ou assado? Afinal, no que você acredita sem saber que acredita?

As lentes distorcidas do que não é...

Invejava os pássaros. Adoecia de poemas atravessados na garganta. No lugar do peito, um peso. O ressentimento por lamentar os seus passados: os que lhe aconteceram e os que não vieram a ser. A tristeza o visitava antes de dormir. O cansaço e a raiva o acompanhavam durante o dia. Gritava as injustiças do mundo ignorando as que fazia consigo. Se envenenava pelos excessos e faltas de vida - onde havia de ter mais tinha de menos; onde havia de ter pouca tinha de muito. Invejava os pássaros, é verdade, mas não toda ela. Invejava os vizinhos, o chefe, os amigos. Calava a inveja à força como um bom menino que aprendeu reciclando-a em frustrações. Por quem era, por quem havia sido, pelo que perdeu, pelo que não foi. Não haviam ensinado a sentir bem, a viver bem. Ou melhor, a viver. Sentia-se um ensaio num palco inteiro onde se via sempre acuado no canto. Mas, veja, ele não invejava os pássaros. Porque ele é feito de letra, remendo das palavras que escrevi. Ele não existe, mas fique à vontade para ver nele alguma fração sua, alguma dor de estimação descrita acima. Tome o que é seu se quiser. Dê nome aos fantasmas. Mas não inveje os pássaros, não culpe o passado e não se culpe. Apenas saiba que é possível despir-se do que você vestiu como a única e legítima perspectiva vista através das lentes distorcidas do que não é.

domingo, 11 de abril de 2021

Da salvação...

Ela morria de medo do amar mas culpava os homens com quem se relacionava. Ela atraia todos os tipos que vinham a decepcioná-la, confirmando suas suspeitas de que não havia homem bom para ela. O que ela ignorava é que ela atraia os mesmos tipos para não dar certo, para se frustrar, para reforçar o coro de que não havia homem bom para ela. É claro que havia bons homens, mas ela não os reconhecia, não os encontrava num desencontro qualquer. O exemplo clássico é daquele que não enxerga o produto na prateleira na frente do nariz. Vivia ela uma profecia auto realizável. Corpo fechado para o amor pelo medo de amar. O medo a protegia muito bem, permitindo que ela escolhesse aqueles que viriam a poupá-la do amor. Ela morria de medo do amar mas culpava os homens com quem se relacionava. Jamais mergulhou, embora só se afogasse. Isto porque jamais permitiu ir além da página dois ou três. Aliás, quando se permitiu num passado distante ela se partiu e se quebrou inteira. Sobrou pouca alma para contar história. Mas isto foi apenas mais um reforço no seu sintoma, mais um grau na sua febre. Tenha ela mergulhado ou só aberto a fresta da janela, morrido ou continuamente se poupado, ela não se permitia o amor por medo dele. Ela se insinuava à solidão sem perceber os óbvios. Não sei se ela se salvou. Não sei se ela se permitiu ver o que havia por detrás do medo. O que o nutria. O que o sustentava. Era uma cética a pregar a crença de que os homens não eram bons pra ela. Andava em círculo com seu medo, sua dor, sua raiva, sua frustração. Não sei se ela um dia se salvou. 

sábado, 10 de abril de 2021

Passagem...

Há pessoas que partem pro lado de lá e que nos tocam com suas passagens sem suspeitarmos de que ficaríamos tão mexidos. Independe da proximidade, da intimidade, do parentesco - é destas e disto que estou falando. São pessoas queridas que estão em nós em algum canto de carinho que cultivamos e que representam uma época, uma lembrança, uma virtude, um sentimento. São queridos que convocam nossa sensibilidade num dia em especial, numa tarde em particular e que acabam por abrir as portas para que as emoções que costumamos represar no dia a dia fluam. São pessoas que nos lembram de abrir a janela da vida e respirar um ar mais puro, ventilar o peito, arejar o espírito, sermos menos sérios, menos preocupados, mais presentes. Elas nos desarmam. A morte delas nos desarma. Porque ao falar sobre elas, ao pensar sobre elas, sabemos de nós. A morte por vezes cumpre o papel de um desentupidor de pia ao retirar acúmulos que nos anestesiam para nós mesmos, para o outro, para o viver. É neste momento onde então vem à superfície com maior ou menor força a tristeza, a raiva, a frustração, o medo. Cada uma delas legítimas de serem o que são e de estarem onde estão. Isto porque cada uma conta uma história sobre nós. Isto porque elas vem como vem para que possamos ouvir estas histórias. A morte não nos ensina pela repetição a nos despedirmos. A morte é convite para, entre outras coisas, enxergarmos melhor. E estas pessoas, bem, as pessoas nos ensinam a sentir.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Espelho, espelho meu...

Há quem escreva por questões narcísicas. Há quem escreva por razões espirituais. Há quem escreva para esvaziar o almoxarifado das ideias. Há quem escreva para dançar com seus próprios demônios. Há quem escreva para exorcizá-los. Há quem negue que escreva para se afirmar, mas escreve. Há quem escreva para costurar feridas, suas e alheias. Há quem escreva para sangrar. Há quem escreva para semear sonhos, apagar incêndios, enxugar gelo, avivar, esquecer, corrigir o passado e o destino nas mãos das cartomantes. Se me perguntam - por que escreve? - darei resposta conforme a mudança das estações, a oscilação da bolsa e do meu próprio humor. Porque não importa ao leitor o porquê um autor escreve. A palavra será sempre um espelho a confessar ambos os lados. A questão é que você não vê o outro lado do espelho, embora ele sempre estará ali, mesmo quando ninguém estiver.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Pandêmico...

Vacinas a parte, não há quem tenha atravessado imune a esta pandemia até então. Não há quem não tenha sentido em algum nível os respingos e efeitos dela. Eu, por exemplo, estou certo de que escrevo numa versão 1.0 do ano passado. O ano que o brasileiro o repetiu por indisciplina. Alguns dirão incompetência. Não julgo. E claro, dirão muitos também que outros países também repetiram. Mas, como não moro em nenhum deles eu falo daqui mesmo. E aqui não há quem não tenha por alguma razão mordido o cotovelo, tirado as calças, pisado em cima, tido ataque de pelanca ou dormido de tênis dentro da pia. Uma semana, um dia que fosse. Há quem tenha perdido o emprego, o olfato, um parente, o equilíbrio, o bom senso. Aqui vimos - vemos! - a generosidade e o egoísmo se alternando a cada instante nas redes sociais. O eterno fla x flu imbecil de que o brasileiro tanto aprecia e estende para todas as áreas da vida. Os negacionistas, os passapanistas, os estrategistas, os desgovernantes, os cientistas, o povo e um rebosteio im-pres-sio-nan-te a cegar tantos. Lembrei-me do livro do Saramago. Um vírus que causava cegueira nos personagens. Aliás, quando tudo isto começou, lembro de que alguns bradavam de que o povo aprenderia excelsas lições e toda uma fala esperançosa de um mundo melhor Não julgo, mas acredito na mudança individual - aquela de dentro pra fora - e não uma tomada de consciência coletiva. E até agora - pasmem! - poucos aprenderam alguma coisa, e isto sem qualquer distinção de credo, cor, gênero ou classe social. Quem sabe, até o final deste cenário apocalíptico e cansativo, uma porção de gente possa dizer com alguma certeza que aprendeu a usar máscara assim como a lavar as mãos.

Às favas...

Queria mandá-los todos pra puta que pariu. Minto. Todos, não. Muitos, na verdade. A única dúvida era se cabe melhor "à" ou "pra" puta que pariu. Dando início por todos aqueles que virão a julgar esta minha vontade dita nas palavras. E por todos os que também se sentirão surpresos e incomodados pelas palavras não esculpidas por mim em meio aos anjinhos no paraíso. E por todos os que virão a questionar e problematizar com suas pautas ideológicas fedorentas. Acredito que esta seria uma boa primeira leva. Uma boa fornada dos que eu enviaria pra - ou à - puta que pariu. Sem escalas. Sem retorno. Sem dó nem piedade. A outra caravana que mandaria à puta que pariu seriam os ressentidos, vitimistas, vampiros da atenção, da vida, da energia do outro. Junto a esta caravana, os baluartes das evangélicas intenções a enquadrarem-me como errado pelo que desejo e divulgo. Nesta caravana faria questão de imprimir folhetos explicativos a dizer o quanto esta compulsão absurda de enquadrarem todos e tudo em bom e ruim, certo e errado fodeu-lhes os cornos prendendo-os numa postura de auto cobrança e rigidez. Uma vida miserável de controle e asfixia. Talvez, no próximo texto venha eu mandar às favas ao invés de mandar à - ou pra - puta que pariu. Porque o que não me faltará é vontade e quantidade de coisas, pessoas, questões, entes, a embrulhar em laço cor de rosa e despachar para o nunca mais.