[...] atravessei demoras, numa lentidão do tempo a querer nada comigo. em tudo esbarrei embriagado de cansaços. fiz sinônimo aos cotidianos e desesperanças. sufoquei-me na densidade dos vazios. dormi entre as tristezas. repeti capítulos. a vida estava onde eu relutava ou resistia. impedia-me isto de saber milagres nos detalhes paralelos à minha casa. eu me desaconteci quando expulsei o amor de mim e sobrou-me apenas o mundo. presença minha adulterada, desistida dos laços antes mesmo de tentá-los. por acaso reaprendi meu nome numa semente que me escolheu, e o acaso se fez meu em re-encanto. reescrevi o inexato caminho dos destinos e das felicidades. naveguei no mar das coisas ditas sem naufragar. mas somente quando deixei de lutar e permiti-me aceitar os reflexos. consagrei-me num reino que desconheço.
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
Resoluções...
Aquele frio que já lhe cortou alma era vento forte de tempo fechado ou desilusão dos sonhos de ontem? Pois, insensível aos apelos do porvir, andou cego às gentilezas da vida e surdo às do coração. Abrigou da dor no colo o seu próprio peito. E cansado de ser mau jardineiro a pisotear as flores que o tempo lhe brindou com sementes muitas, queria agora era curar feridas. Queria voltar a ser quem nunca foi e aprender o que não havia até ontem aprendido: lembrar que no palco da vida somente ele poderá ser seu antagonista. Cansado de refletir tristezas, passou a espelhar em si a própria luz. Há ainda de construir novos caminhos a denunciar suas escolhas de fé. Salvar-se-á de vez, daqui pra frente.
E sem resoluções a fazer ele quer olhar-se e descobrir quem ele é. De verdade.
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
Casei-me...
Mulher, lembra-te do dia que a moça do caixa sorriu a dizer-nos que tu eras esposa atenciosa comigo enquanto colocávamos as compras no carrinho? Ali, casei-me contigo. Casei-me contigo quando decidiste perder o por do sol para ganhar o meu abraço. Quando tu choraste por medo de perder-me. Quando adotaste as borboletas como mensagem secreta de amor. Casei-me contigo ao final daquela noite por cantar versão engraçada de música antiga mas com meu nome. Casei-me contigo no primeiro silêncio nosso do café da manhã. Ao te farejar nos lençóis da minha cama, na toalha de banho, na blusa esquecida na cadeira. Quando pela primeira vez entrelaçaste tuas pernas nas minhas. Quando me vi a ligar-te de madrugada por conta e culpa das saudades. Casei-me contigo ao te ver a mulher mais linda pronta pra festa, e ao tornar-te ainda mais bela nua depois dela. Casei-me contigo ao lhe apresentar meu pior defeito e tu a fingir que nada viu. Casei-me contigo quando sentiste conhecer-me desde os eternos. Quando escolhemos não enjoarmos nunca do mesmo restaurante. Casei-me contigo ao ver tua roupa conquistando minhas gavetas. Ao ver a minha velha roupa conquistando teu corpo nos domingos. Casei-me contigo antes do primeiro sonho que te sonhei. Casei-me contigo depois do último. A primeira foto. O primeiro beijo. A primeira música. Casei-me contigo quando me flagrei chamando-te de poesia e musa. Quando percebi que havia aprendido a escrever apenas para encontrar-te.
Casei-me contigo para assim te namorar para sempre.
(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)
Casei-me contigo para assim te namorar para sempre.
(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Começar...
Ele precisa por em dia os milagres, afastar-se dos medos e pecados. Ele tem urgências para escrever e exorcizar os seus enganos, crenças erradas e fatalidades. Ele tem pressas para curar-se do que acredita que deve se curar. Ele tem data marcada para estrear-se. Ele não pode esperar pelo que já esperou demais. Ele se põe como adequado, correto, direito, puro para poder merecer. Ele não sabe o que é merecer. Ele atualiza suas esperanças por conta das angústias. Ele espera a revelação, a intervenção, o salto, a descontinuidade. Ele se banha para jamais se sujar. Ele se pune por não se sentir outro, melhor, mais digno. Ele não pode mais esperar pelo que já esperou demais. A ansiedade é a muleta com que se dirige ao peito. Sente ânsias. Sente o medo. E mal sabe que ao desistir de tudo poderá tudo então (lhe) começar.
Diariamente...
Ela quer ir embora de todos os fracassos. Ela não quer a cura, mas livrar-se deles. Ela tem urgências que apoiam a estupidez de insistir naquilo que diariamente a diminui. Busca o amor a ponta pés, embola a linha dos caminhos e fatalidades, barganha com a felicidade seu próprio sofrimento. Ela engole palavras pontiagudas e morre pelo excesso de mundo, diariamente. Ela reza de costas para os amanhãs e distrai-se frente aos precipícios. Ela discorda dos erros mas os promove. Ela anuncia esperanças mas as boicota. Seu altar são as fugas que enfeita. Seus deuses são convocados pela tristeza. A gratidão resvala no seu corpo e este expulsa a sua sorte. A porta estreita, a porta aberta, o peito aberto mantém-se dela segura distância. O sonho é o lugar onde se corrige. Ela quer ir embora de todos os medos. Ela não quer a cura, mas livrar-se deles. Busca o amor cheia de dentes para dilacerá-lo na sua casa. Ela não quer somente a cura, mas livrar-se dela. Dela mesma. Como se ela não fosse sua própria casa, seu próprio amor, sua única esperança e inevitável destino.
Diariamente.
No tempo...
A ansiedade é uma fuga cheia de medos. Uma invencionice para alcançar lugar nenhum. Uma incompetência para ajustar-se no corpo, na palavra, no tempo. A onipotência da fragilidade. A ansiedade é um medo cheio de fugas. Uma invencionice para se estar em lugar nenhum. Uma incompetência para transbordar-se do corpo, na palavra, no próprio tempo. A onipresença da vulnerabilidade. Uma estupidez em que recusamos diariamente os méritos.
quinta-feira, 9 de novembro de 2017
Apesar de...
Apesar das ausências, das más notícias, das saudades, das neuroses, dos erros e dos boicotes, da falta de açúcar ou de sorte, dos excessos de sal, dos medos, das prisões, das palavras, da intolerância ao glúten, à lactose, ao próximo, da insatisfação com o trabalho, com a política, com o amor, com o espelho e com o outro lado dele, vivemos e temos que viver.
Apesar de.
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Morrer...
Talvez morrer não seja a questão. A questão talvez seja como terminar, como partir, como deixar de ser se a vida inteira não fomos. Como sair se na vida por inteiro nunca estivemos. Como partir se não soubemos aqui permanecer. Nossa identidade é frágil percepção do que aproveitamos das memórias que carregamos: conjunto de peças e retalhos que se recombinam e se aproveitam conforme conveniências e caminhos. Sabemos de nós naquilo que não esquecemos e por aquilo que preferimos recordar. A questão sobre a morte é o enfrentamento da própria vida, esta, que nunca nos pertenceu o bastante. Talvez morrer seja o ponto aparentemente distante que angustia-nos por não sabermos quem somos. Porque a morte é o descanso para a alma que no corpo habitou. Mas e nós que ainda procuramos pela nossa?
quarta-feira, 1 de novembro de 2017
Mansidões...
Amor, escrevo carta para lhe avisar que estou perdendo minhas habituais razões. A lucidez se percebe como chama quase dormida de vela em quarto imenso de mim. Ando perdendo certezas como um corpo perde os pés nas fundas águas. Doutor me disse que ando sofrendo de inexatidão e mansidões por causa de amor incompleto. A metade que me preenche, tomba-me para o lado dos severos sintomas da paixão. Explico. Pelas demoras interiores, sabemos nossos graus de febre e encantamento. Tenho piscado os olhos bem mais lentamente e respirado com bem mais atenção, para não perder detalhes da vida antes despercebidos, para não assustar com ligeiros movimentos qualquer singeleza pousada a minha volta, para saborear diminutas e instantâneas doçuras. Em mim pressa se amansou sem mesmo pedir: nítido sintoma de contentamento. Pois felicidade se sabe pela devagareza de nós. E pela demasia de amor que sofro, sinto movimentos como provocação. Saudade que sinto também agravou o quadro. Assim, ando a dissolver-me anestesiada e quieta. Tão quieta a invejar estátuas. Amor, é urgente que te encontre a salvar esta parte desenganada do tempo e da distância que mora em mim. Por isso lhe escrevo carta, para não me perder de vez. Pois se tardares mais, talvez eu seja qualquer outra que não eu. Enlouquecida, perderei a mim ganhando asas, diluída no firmamento. Depois do amor, seja o céu ou teu lençol, é nele em que me abrigo. Apenas e quando você passou a existir em mim, aprendi a desejar. Desejo então e agora que me salve do equilíbrio morno e da sobriedade cinza dos que não amam ou desamaram. Seu toque criou mundos e amores dentro de mim. Tua presença é o meu momento exato a me fazer colorida.
(Texto do meu livro "A Ilha de um homem só", publicado pela Ed. Penalux)
(Texto do meu livro "A Ilha de um homem só", publicado pela Ed. Penalux)
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Afastamento...
Preenchia-se de vazios e era a falta que lhe oprimia o peito. Uma ausência que o acompanhava agravando-se durante as noites. Vivia para esquecer-se; corria para evitar-se. O elevador vazio, o escritório cheio, a academia, o engarrafamento, as ansiedades, o almoço, o jantar, o medo e o olhar distante eram expedientes para jamais encontrar-se consigo. O que diria a si caso pudesse? Qual verdade esfregaria na própria cara? Qual tristeza escolheria para poder chorar? Afastava o amor quando o amor o escolhia. E talvez fosse este seu grande mal. Apenas não maior do que não perceber que era exatamente disto que sofria.
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
Um lugar...
"E então há um lugar para onde vão os sonhos que a gente desacredita, onde moram os anéis que perdemos, os brincos descasados, o pé de meia preferido, o batom engolido pela bolsa. Há um lugar, um sumidouro, para onde são tragados os sorrisos que não voltam, o cheiro do cabelo, um colarinho manchado, o perfume na manga do vestido, teu nome no bilhete, um gosto de vinho grudado na língua. Ficam lá, suspensos numa órbita improvável e inacessível, ao som de três ou quatro frases para sempre repetidas que a gente procura esquecer. E um dia esquece."
(Patrícia Antoniete)
(Patrícia Antoniete)
terça-feira, 17 de outubro de 2017
Brasília...
Acreditamos que Brasília seja um outro país, um outro planeta, quiçá, uma ficção de banca de jornal. Que por lá habitam homens e mulheres distintos dos homens e mulheres de cá, distantes de nós pelo calor, pela corrupção, pela canalhice, além, é claro, pela conta corrente.
Acreditamos porque queremos acreditar. Porque precisamos acreditar. Para podermos apontar os dedos todos da nossa mão como se não fôssemos responsáveis. Como se fôssemos alguma vez sensatos. Como se pudéssemos dizer que são nossos vizinhos, e nunca nós, que os colocaram ali.
Vejam, senhores, condenamos Satanás para no ano seguinte elegermos Belzebu, tendo novamente Satanás como conchavo, vice ou adversário.
A danação é cíclica.
A política é o espelho do povo. E não há por lá outros senão o próprio povo: empresários, advogados, torneiros mecânicos, engenheiros, economistas, jornalistas, professores e toda a sorte de brasileiros que por uma, duas, três vezes vereadores, prefeitos, síndicos de prédio foram levados - por nós - a estarem onde estão.
Que na próxima a ressaca e o pesadelo não venham juntos.
Já nos basta a caganeira.
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
Os deuses nossos...
(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)
sábado, 14 de outubro de 2017
Filhos da puta...
Há filhos da puta, muitos. Há os que contigo dividem a mesma repartição, o mesmo bairro e o mesmo andar. Há filhos da puta que aparecem no telejornal; outros que nos cobram o orçamento, a rebimboca inexistente e a propina. Há filhos da puta que defendem o indefensável e os que são defendidos pela mesma razão. Há filhos da puta reeleitos e com grandes chances de reeleição. Há filhos da puta que puxam tapetes, escrevem poemas, cospem quando falam, inflacionam a cerveja, publicam trabalhos de conclusão de curso, frequentam bares, saraus, minimercados, que mudam de assunto e negam o óbvio, que envenenam as esperanças. Aliás, há filhos da puta de todas as raças, credos e condições sociais.
Acredito que num futuro próximo saberemos deles pelo IBGE.
terça-feira, 10 de outubro de 2017
Bolo de cenoura...
Fervia a água para o chá. Deixou o chuveiro aberto para o vapor tomar o box. Três livros recém lidos em cima da mesa de jantar junto ao pão quente. Depois do banho, comeu o pão e tomou sua xícara. De fundo, jazz - sem televisão por hoje. Folheou um dos livros e trocou algumas mensagens pelo celular convidando os amigos para o jantar. Sugeriu os vinhos. Eles, o filme. Isto para amanhã. Despediu-se. E antes de ir para a cama, comeu o pedaço do bolo de cenoura da casa da sua mãe.
Acendeu o abajur e um incenso. Rezou por 5 minutos.
Tomou dois tarja preta.
E dormiu.
sábado, 7 de outubro de 2017
Como deve ser...
40 dias depois e 10 kg a menos.
Não, uma não tem que ver com a outra mas mencionei a última para chamar a atenção. Coisa que vivemos a fazer por aqui, aliás. Neste tempo quase sabático, não peregrinei pelo deserto nem vivi de pão e água. Não encontrei Jesus, apenas vendedores da Jequiti, atendentes da Vivo e testemunhas de Jeová. Não recebi convites senão para chás de bebês que não pude ir. A iluminação não veio. A mega-sena também não. Mas, como não virão pelos Correios ainda mantenho a fé. Não coloquei as leituras em dia, como gostaria. Não aprendi um novo ofício. Não fui ao Rock in Rio. Não ganhei um triplex no Guarujá. Não contraí outros vícios ou novas dívidas. Não virei coach. Não me tornei monge, tampouco executivo. Não lançarei livro. Apenas saí do modo precário e contínuo de sobrevivência. Dar-se uma folga para respirar o offline leva-nos a perceber quão anestesiados estamos pelo cotidiano. Pelas redes sociais e suas recompensas emocionais. Permanecer diariamente nesta caixa de ressonância que reforça e multiplica exatamente aquilo que criticamos e que gostamos, exila-nos da realidade por devorar nosso tempo e energia preciosos por conta de um fazer compulsivo; pela repetição de um mais do mesmo a distrair-nos das coisas que realmente importam. E convenhamos, aqui não é uma delas. Mas, por não viver de direitos autorais como alguns podem acreditar, cá estou a soprar o pó das palavras que ainda não disse. A dizer as coisas certas na hora errada. E vice versa.
Não, uma não tem que ver com a outra mas mencionei a última para chamar a atenção. Coisa que vivemos a fazer por aqui, aliás. Neste tempo quase sabático, não peregrinei pelo deserto nem vivi de pão e água. Não encontrei Jesus, apenas vendedores da Jequiti, atendentes da Vivo e testemunhas de Jeová. Não recebi convites senão para chás de bebês que não pude ir. A iluminação não veio. A mega-sena também não. Mas, como não virão pelos Correios ainda mantenho a fé. Não coloquei as leituras em dia, como gostaria. Não aprendi um novo ofício. Não fui ao Rock in Rio. Não ganhei um triplex no Guarujá. Não contraí outros vícios ou novas dívidas. Não virei coach. Não me tornei monge, tampouco executivo. Não lançarei livro. Apenas saí do modo precário e contínuo de sobrevivência. Dar-se uma folga para respirar o offline leva-nos a perceber quão anestesiados estamos pelo cotidiano. Pelas redes sociais e suas recompensas emocionais. Permanecer diariamente nesta caixa de ressonância que reforça e multiplica exatamente aquilo que criticamos e que gostamos, exila-nos da realidade por devorar nosso tempo e energia preciosos por conta de um fazer compulsivo; pela repetição de um mais do mesmo a distrair-nos das coisas que realmente importam. E convenhamos, aqui não é uma delas. Mas, por não viver de direitos autorais como alguns podem acreditar, cá estou a soprar o pó das palavras que ainda não disse. A dizer as coisas certas na hora errada. E vice versa.
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
A língua...
Um dia resolvi me vestir de poesia como a minha própria vida e então nasci palavra. Um dia resolvi caminhar nas flores que eu mesmo joguei e então me fiz perfume. Vivo num reino em que se guardam as cores da alma; onde o vento é o senhor das promessas, que levam sementes ao jardim das possibilidades. Aqui me alimento com um só grão de açúcar onde mora toda a doçura do mundo. Aqui me escondo da saudade, pois no reino não mora o vazio. Outro dia resolvi fugir da boca e do papel pra me sentir silêncio, e aprendi que muitas vezes as palavras são mera distração quando o amor não se sente. Sabendo o amor, é o silêncio quem declara. O coração quando confessa, nem sempre faz barulho. A poesia quando a alma versa, nem sempre rosto tem. O amor se encontra nos olhos que desnudam os espinhos do tempo e desembaraçam histórias; um romance inteiro num só abraço. Quando me esforcei inteiro pra te pertencer, é porque eu já não me pertencia mais. Antes do sol nascer nos sabíamos ciranda; antes do anoitecer, eu me sabia você.
Contigo aprendi a navegar na deliciosa língua da poesia.
Contigo aprendi a navegar na deliciosa língua da poesia.
domingo, 24 de setembro de 2017
Riacho...
Chorava. O desamparo era um riacho. O desamparo pela solidão, pelo medo, pelas noites, pelo outro. Chorava. O abandono era um soluço. O abandono dos pais, do amor, o abandono de si. Chorava os capítulos, as histórias, erros e vidas inteiras. Chorava suas prisões, seus nós, ruas sem saída, suas despedidas, seu mofo, insistências e desistências. Chorava como se bastasse. Como se se traduzisse. Como se despedisse. Como se libertasse. O alívio era um riacho. A levá-lo para muito longe. A trazê-lo para mais perto.
E permanecer.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Sem conseguir sonhar...
Ela sabe que merecia mais, poderia mais e que teria se arriscasse, mas resolveu não sair de dentro. Prendeu-se a si mesma, desaprendendo a arte de despedir-se do que não serve mais, pois ela sabe que deveria ser mais feliz e alcançar alturas que seus velhos pesos hoje não permitem, mas diz ao mundo que para soltá-los não é tão fácil assim. Como pobre substituto de uma nova vida que lhe aguarda, perde-se em mundanas distrações, colecionando pequenas conquistas a não aliviar em nada. Adia com isso, a rota de colisão com sua inevitável tristeza. Sem ousar sair de casa ou do próprio medo, conta a si mesma que isso não será o seu destino e que logo se encontrará com a mudança. Convence a todos ainda não ser o momento, visto que precisa resolver questões de toda a ordem para poder livre se ver, devendo para isso reduzir agora os riscos, os danos e as dores. Não sabe que sua justificativa é também sua covardia, não percebendo que o que busca é inalcançável exatamente para não alcançá-lo, pois teria que encarar a sua própria responsabilidade. Anestesia-se assim, para aquilo que sabe ser seu, mas que até agora não foi. Acostumou-se com espinhos, cinzas, ausências e ilusões, enamorando-se do morno pelos hábitos. Afogou-se sem mar. Caiu sem nem haver os céus. Morreu sem precisar morrer. Morreu sem conseguir viver. Viveu sem conseguir sonhar.
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Recém amantes...
Atendeu. Logo cedo e mais uma vez o primeiro telefonema na empresa era dela. Não ligaria no celular. Chamaram-no para que atendesse. Ele atendeu. Sem jeito, só escutou. Não sabia o que dizer, não havia o que dizer. Sem jeito, sorriu pelas beiradas. Incômodo por sentir que seus colegas o olhavam; por saber que seus colegas comentariam, já que era a quarta vez só nesta semana. Sem jeito, suspirou. A voz do outro lado desejava os clichês dos amantes; açúcares e um poema barato. Agradecia ele a Deus por ninguém mais poder ouvir.
Telemensagem. De bom dia. Da namorada.
Coisa cafona.
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