sábado, 14 de outubro de 2017

Filhos da puta...

Há filhos da puta, muitos. Há os que contigo dividem a mesma repartição, o mesmo bairro e o mesmo andar. Há filhos da puta que aparecem no telejornal; outros que nos cobram o orçamento, a rebimboca inexistente e a propina. Há filhos da puta que defendem o indefensável e os que são defendidos pela mesma razão. Há filhos da puta reeleitos e com grandes chances de reeleição. Há filhos da puta que puxam tapetes, escrevem poemas, cospem quando falam, inflacionam a cerveja, publicam trabalhos de conclusão de curso, frequentam bares, saraus, minimercados, que mudam de assunto e negam o óbvio, que envenenam as esperanças. Aliás, há filhos da puta de todas as raças, credos e condições sociais. 

Acredito que num futuro próximo saberemos deles pelo IBGE.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Bolo de cenoura...

Fervia a água para o chá. Deixou o chuveiro aberto para o vapor tomar o box. Três livros recém lidos em cima da mesa de jantar junto ao pão quente. Depois do banho, comeu o pão e tomou sua xícara. De fundo, jazz - sem televisão por hoje. Folheou um dos livros e trocou algumas mensagens pelo celular convidando os amigos para o jantar. Sugeriu os vinhos. Eles, o filme. Isto para amanhã. Despediu-se. E antes de ir para a cama, comeu o pedaço do bolo de cenoura da casa da sua mãe.

Acendeu o abajur e um incenso. Rezou por 5 minutos.
Tomou dois tarja preta. 
E dormiu.

sábado, 7 de outubro de 2017

Como deve ser...

40 dias depois e 10 kg a menos. 

Não, uma não tem que ver com a outra mas mencionei a última para chamar a atenção. Coisa que vivemos a fazer por aqui, aliás. Neste tempo quase sabático, não peregrinei pelo deserto nem vivi de pão e água. Não encontrei Jesus, apenas vendedores da Jequiti, atendentes da Vivo e testemunhas de Jeová. Não recebi convites senão para chás de bebês que não pude ir. A iluminação não veio. A mega-sena também não. Mas, como não virão pelos Correios ainda mantenho a fé. Não coloquei as leituras em dia, como gostaria. Não aprendi um novo ofício. Não fui ao Rock in Rio. Não ganhei um triplex no Guarujá. Não contraí outros vícios ou novas dívidas. Não virei coach. Não me tornei monge, tampouco executivo. Não lançarei livro. Apenas saí do modo precário e contínuo de sobrevivência. Dar-se uma folga para respirar o offline leva-nos a perceber quão anestesiados estamos pelo cotidiano. Pelas redes sociais e suas recompensas emocionais. Permanecer diariamente nesta caixa de ressonância que reforça e multiplica exatamente aquilo que criticamos e que gostamos, exila-nos da realidade por devorar nosso tempo e energia preciosos por conta de um fazer compulsivo; pela repetição de um mais do mesmo a distrair-nos das coisas que realmente importam. E convenhamos, aqui não é uma delas. Mas, por não viver de direitos autorais como alguns podem acreditar, cá estou a soprar o pó das palavras que ainda não disse. A dizer as coisas certas na hora errada. E vice versa.

Um detox existencial deste ar poluído e problematizado, repleto de selfies e cards motivacionais. Para continuar. Como deve ser.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A língua...

Um dia resolvi me vestir de poesia como a minha própria vida e então nasci palavra. Um dia resolvi caminhar nas flores que eu mesmo joguei e então me fiz perfume. Vivo num reino em que se guardam as cores da alma; onde o vento é o senhor das promessas, que levam sementes ao jardim das possibilidades. Aqui me alimento com um só grão de açúcar onde mora toda a doçura do mundo. Aqui me escondo da saudade, pois no reino não mora o vazio. Outro dia resolvi fugir da boca e do papel pra me sentir silêncio, e aprendi que muitas vezes as palavras são mera distração quando o amor não se sente. Sabendo o amor, é o silêncio quem declara. O coração quando confessa, nem sempre faz barulho. A poesia quando a alma versa, nem sempre rosto tem. O amor se encontra nos olhos que desnudam os espinhos do tempo e desembaraçam histórias; um romance inteiro num só abraço. Quando me esforcei inteiro pra te pertencer, é porque eu já não me pertencia mais. Antes do sol nascer nos sabíamos ciranda; antes do anoitecer, eu me sabia você. 

Contigo aprendi a navegar na deliciosa língua da poesia.

domingo, 24 de setembro de 2017

Riacho...

Chorava. O desamparo era um riacho. O desamparo pela solidão, pelo medo, pelas noites, pelo outro. Chorava. O abandono era um soluço. O abandono dos pais, do amor, o abandono de si. Chorava os capítulos, as histórias, erros e vidas inteiras. Chorava suas prisões, seus nós, ruas sem saída, suas despedidas, seu mofo, insistências e desistências. Chorava como se bastasse. Como se se traduzisse. Como se despedisse. Como se libertasse. O alívio era um riacho. A levá-lo para muito longe. A trazê-lo para mais perto.

E permanecer.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Sem conseguir sonhar...

Ela sabe que merecia mais, poderia mais e que teria se arriscasse, mas resolveu não sair de dentro. Prendeu-se a si mesma, desaprendendo a arte de despedir-se do que não serve mais, pois ela sabe que deveria ser mais feliz e alcançar alturas que seus velhos pesos hoje não permitem, mas diz ao mundo que para soltá-los não é tão fácil assim. Como pobre substituto de uma nova vida que lhe aguarda, perde-se em mundanas distrações, colecionando pequenas conquistas a não aliviar em nada. Adia com isso, a rota de colisão com sua inevitável tristeza. Sem ousar sair de casa ou do próprio medo, conta a si mesma que isso não será o seu destino e que logo se encontrará com a mudança. Convence a todos ainda não ser o momento, visto que precisa resolver questões de toda a ordem para poder livre se ver, devendo para isso reduzir agora os riscos, os danos e as dores. Não sabe que sua justificativa é também sua covardia, não percebendo que o que busca é inalcançável exatamente para não alcançá-lo, pois teria que encarar a sua própria responsabilidade. Anestesia-se assim, para aquilo que sabe ser seu, mas que até agora não foi. Acostumou-se com espinhos, cinzas, ausências e ilusões, enamorando-se do morno pelos hábitos. Afogou-se sem mar. Caiu sem nem haver os céus. Morreu sem precisar morrer. Morreu sem conseguir viver. Viveu sem conseguir sonhar.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Recém amantes...

Atendeu. Logo cedo e mais uma vez o primeiro telefonema na empresa era dela. Não ligaria no celular. Chamaram-no para que atendesse. Ele atendeu. Sem jeito, só escutou. Não sabia o que dizer, não havia o que dizer. Sem jeito, sorriu pelas beiradas. Incômodo por sentir que seus colegas o olhavam; por saber que seus colegas comentariam, já que era a quarta vez só nesta semana. Sem jeito, suspirou. A voz do outro lado desejava os clichês dos amantes; açúcares e um poema barato. Agradecia ele a Deus por ninguém mais poder ouvir. 

Telemensagem. De bom dia. Da namorada. 
Coisa cafona.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sopro...

A gente esquece que para viver é preciso respirar. E quando nos sabemos por entre os reflexos que nos acontecem entre luzes e sombras nesta vida, respirarmos fundo pode ser vento suficiente para virarmos página já cansada da nossa própria história.

sábado, 9 de setembro de 2017

Cachorro...

O tempo passou e pude eu pensar em nós em diferentes horas e humores. Apesar das inclinações tanto para guardar rancores quanto para esquecê-los, a conclusão é a de que o seu desequilíbrio é ruína onde se ocultam suas verdades e do amor se esconde. Veja, vive solitária com o seu cachorro e seus pés de tomate. Psicopatas tiveram cachorros; ditadores foram vegetarianos. Ou seja, isto não diz muito sobre você. Mas, a sua solidão com pés de arruda no quintal, sim, este é o limbo onde seus vazios se refestelam. Os seus amargores denunciam seu quadro emocional sem moldura e qualquer cor. A sua tristeza tem espinhos. O seu destempero grita no instante que o nega. O conselho? Convide sua sombra para uma cerveja e alguns petiscos. Para digerir o que não digere. Para viver o que não vive. Para ser digna do que insiste em não ser. Para que não volte a ter crises e alergias e carências: de vitaminas, amores e amigos. Torço para que o seu cachorro abane o rabo quando da sua volta para casa ao final do dia.

Se é que existe mesmo um cachorro.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Pronto...

Cortaria-lhes as gargantas se pudesse. Calaria com a navalha da raiva e do medo os seus inimigos. Atreveria a convocar os demônios a lhe usarem inteiro para depois atirá-los todos ao precipício. Ao esquecimento. À ingratidão muda. Ao perdão amordaçado. Cortaria o rosto para desfigurar-se e ver outro que não ele. Quebraria o espelho para cortar os próprios pulsos. Não enxergaria, assim, seus desafetos. Morreria, assim, para seus demônios. Cairia ele no esquecimento. Fugiria, então, das culpas. Desmentiria, então, seus erros. Amornaria sua raiva e demais venenos. Amaria apenas o reflexo. E o seu nome. Como um homem sem casa, sem medos e sem alma. 

Somente assim, pronto para os amanhãs.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Reflexão...

A gente vem pra esse mundo com pós-doutorado em fazer merda. O que é a vida senão a tentativa de desaprender e devolver o diploma?

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sentido...

Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: caminho ao vosso lado e me ignoras; venho dar sentido à vida e recusas me agradecer. Me aproximo nos mais difíceis momentos e dou alívio aos que sofrem. Aliás, insensato, suplicas para que adie a fatalidade dos teus excessos. Culpa-me pelo inevitável. Veja, pairo além dos teus credos e da tua cor e isto porque estou em todos os credos e sou de todas as cores. Causo promessas e temores embora não tenha inimigos. Tantos ameaçam com meu nome enquanto poucos me festejam, realmente. Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: lembra-te de mim para que do meu sopro não fujas e tampouco do viver tu escapes.

Prazer, eu sou a morte.