quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Sem conseguir sonhar...

Ela sabe que merecia mais, poderia mais e que teria se arriscasse, mas resolveu não sair de dentro. Prendeu-se a si mesma, desaprendendo a arte de despedir-se do que não serve mais, pois ela sabe que deveria ser mais feliz e alcançar alturas que seus velhos pesos hoje não permitem, mas diz ao mundo que para soltá-los não é tão fácil assim. Como pobre substituto de uma nova vida que lhe aguarda, perde-se em mundanas distrações, colecionando pequenas conquistas a não aliviar em nada. Adia com isso, a rota de colisão com sua inevitável tristeza. Sem ousar sair de casa ou do próprio medo, conta a si mesma que isso não será o seu destino e que logo se encontrará com a mudança. Convence a todos ainda não ser o momento, visto que precisa resolver questões de toda a ordem para poder livre se ver, devendo para isso reduzir agora os riscos, os danos e as dores. Não sabe que sua justificativa é também sua covardia, não percebendo que o que busca é inalcançável exatamente para não alcançá-lo, pois teria que encarar a sua própria responsabilidade. Anestesia-se assim, para aquilo que sabe ser seu, mas que até agora não foi. Acostumou-se com espinhos, cinzas, ausências e ilusões, enamorando-se do morno pelos hábitos. Afogou-se sem mar. Caiu sem nem haver os céus. Morreu sem precisar morrer. Morreu sem conseguir viver. Viveu sem conseguir sonhar.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Recém amantes...

Atendeu. Logo cedo e mais uma vez o primeiro telefonema na empresa era dela. Não ligaria no celular. Chamaram-no para que atendesse. Ele atendeu. Sem jeito, só escutou. Não sabia o que dizer, não havia o que dizer. Sem jeito, sorriu pelas beiradas. Incômodo por sentir que seus colegas o olhavam; por saber que seus colegas comentariam, já que era a quarta vez só nesta semana. Sem jeito, suspirou. A voz do outro lado desejava os clichês dos amantes; açúcares e um poema barato. Agradecia ele a Deus por ninguém mais poder ouvir. 

Telemensagem. De bom dia. Da namorada. 
Coisa cafona.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sopro...

A gente esquece que para viver é preciso respirar. E quando nos sabemos por entre os reflexos que nos acontecem entre luzes e sombras nesta vida, respirarmos fundo pode ser vento suficiente para virarmos página já cansada da nossa própria história.

sábado, 9 de setembro de 2017

Cachorro...

O tempo passou e pude eu pensar em nós em diferentes horas e humores. Apesar das inclinações tanto para guardar rancores quanto para esquecê-los, a conclusão é a de que o seu desequilíbrio é ruína onde se ocultam suas verdades e do amor se esconde. Veja, vive solitária com o seu cachorro e seus pés de tomate. Psicopatas tiveram cachorros; ditadores foram vegetarianos. Ou seja, isto não diz muito sobre você. Mas, a sua solidão com pés de arruda no quintal, sim, este é o limbo onde seus vazios se refestelam. Os seus amargores denunciam seu quadro emocional sem moldura e qualquer cor. A sua tristeza tem espinhos. O seu destempero grita no instante que o nega. O conselho? Convide sua sombra para uma cerveja e alguns petiscos. Para digerir o que não digere. Para viver o que não vive. Para ser digna do que insiste em não ser. Para que não volte a ter crises e alergias e carências: de vitaminas, amores e amigos. Torço para que o seu cachorro abane o rabo quando da sua volta para casa ao final do dia.

Se é que existe mesmo um cachorro.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Pronto...

Cortaria-lhes as gargantas se pudesse. Calaria com a navalha da raiva e do medo os seus inimigos. Atreveria a convocar os demônios a lhe usarem inteiro para depois atirá-los todos ao precipício. Ao esquecimento. À ingratidão muda. Ao perdão amordaçado. Cortaria o rosto para desfigurar-se e ver outro que não ele. Quebraria o espelho para cortar os próprios pulsos. Não enxergaria, assim, seus desafetos. Morreria, assim, para seus demônios. Cairia ele no esquecimento. Fugiria, então, das culpas. Desmentiria, então, seus erros. Amornaria sua raiva e demais venenos. Amaria apenas o reflexo. E o seu nome. Como um homem sem casa, sem medos e sem alma. 

Somente assim, pronto para os amanhãs.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Reflexão...

A gente vem pra esse mundo com pós-doutorado em fazer merda. O que é a vida senão a tentativa de desaprender e devolver o diploma?

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sentido...

Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: caminho ao vosso lado e me ignoras; venho dar sentido à vida e recusas me agradecer. Me aproximo nos mais difíceis momentos e dou alívio aos que sofrem. Aliás, insensato, suplicas para que adie a fatalidade dos teus excessos. Culpa-me pelo inevitável. Veja, pairo além dos teus credos e da tua cor e isto porque estou em todos os credos e sou de todas as cores. Causo promessas e temores embora não tenha inimigos. Tantos ameaçam com meu nome enquanto poucos me festejam, realmente. Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: lembra-te de mim para que do meu sopro não fujas e tampouco do viver tu escapes.

Prazer, eu sou a morte.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Cuidado...

Deixaram-me nu diante da igreja. Não me recordo de nada anterior ao fato de que estou nu na porta da igreja. Que igreja? Não sei dizer. Tampouco sei que cidade estou. Parece-me de algum longe pelos silêncios a combinarem com as ruas de pedra e o cheiro de bosta de cavaloAs janelas das casas, todas de madeira, estão ainda fechadas a pouparem-me do constrangimento. O que sinto é o desespero e a iminência da desgraça. Serei eu o louco daqui? Teria eu retornado de um surto? Serei eu mal falado por aqui? Sairei como notícia insólita no jornal? Aliás, enxergo a folha de um arrastada pelo vento. Corro para buscá-la e cobrir as desvergonhas. Vejo a data e lembro-me de tudo: ontem, antes de dormir, inundado de tristeza, pedi aos céus que me levassem para longe, que esquecesse eu da humilhação de ter sido deixado pela mulher. Até agora não houve momento que isto tenha me parecido importante. Creio que meu desejo foi então e de algum jeito atendido.

"Agradeço a Deus pela graça alcançada!" foi esta a manchete do jornal do dia seguinte que recebi na cela da delegacia.

Cuidado com o que pedem. 

sábado, 29 de julho de 2017

Assim como todo mundo...

Ela que se achava tão única e sem igual era mais uma a tirar selfie no espelho do banheiro: de casa, da balada, da academia. Com a pose milimetricamente descuidada dos seus lençóis, da sua roupa, dos seus cabelos.

Com uma frase filosófica e motivacional, ou a declarar-se revolucionária e marginal. A milionésima a intitular-se "a pomba gira do absoluto". Ou melhor, do desespero.

Ela era única. Assim como todo mundo.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Sobre a condenação...

Não, não se comemora a condenação de um homem de bem que nada sabia - nem nunca soube - do que se passou durante os anos todos de governo de seu partido em que foram descobertos monstruosos esquemas de corrupção envolvendo seus homens de confiança que atualmente ou figuram como réus ou já foram condenados e presos.

Não, não se celebra a condenação de um homem simples que comparou-se a Jesus Cristo por sua honestidade e que de maneira inequívoca intimidou a imprensa e agentes públicos com suas ameaças de mandar prender todo mundo caso se tornasse novamente o presidente.

Comemora-se a condenação de um criminoso e de sua monstruosidade.

Celebra-se a condenação de um dos maiores criminosos do país. Comemora-se um pouco da justiça engasgada por tanto tempo e que ainda carece e muito de ser praticada neste território.

Comemora-se o afastamento de um dos demônios graúdos, responsável, mentor e partícipe de um projeto de perpetuação do partido no poder e que desviou cifras inimagináveis para qualquer cidadão comum.

Cifras que hoje muitas vezes equivalem à fome, ao desemprego, ao desespero e à desesperança.

Aos que estão a padecer de mimimis e a publicarem merdas e conspirações e a defendê-lo do indefensável, recomendo a leitura na íntegra da consistente sentença que o condena. Ainda que cegueira moral e ideológica não se resolva desta maneira.

Celebra-se a prisão de um símbolo do apodrecimento.
E que venhamos a celebrar, esperar e cobrar mais pela condenação dos demais demônios.

A quem sentir faniquitos por cultivar criminoso de estimação, a porta será sempre e uma vez mais a serventia da casa.

domingo, 25 de junho de 2017

Amada...

Era uma vez menina que amava a tristeza tanto e muito e mais e sempre que até os medos sentiam invejas. Apaixonou-se cedo, quando as perdas passaram a visitá-la em sua casa desde as primeiras idades. O lar que lhe escolheu o destino tornou-se decorado de ausências sentidas nos abandonos da sorte e dos seus próprios pais. Ainda criança, prendou-se com camaleões e borboletas nos ofícios sagrados da transformação, fazendo das diminutas mentiras semeadas, as imensas ilusões de colheita, enfeitando janela com que olhava seus solitários desamanhãs. Admiradora das profundidades que a dor lhe causava, graduou-se em precipícios, entregando suas asas para brechó do nunca. Ouviu estórias dos espinhos que lhe diziam na vida não haver sido convidada para florescer. Assim, convenceu a si ser terra infértil das razões para existir. Deslembrou-se do vento e da sua própria voz, abandonando os dias para carregar as noites. E quando distraída se despiu a visitar beirada de rio, algo se repentinou. A Lua por ela brilhou redondamente enamorada, a lhe dedicar iluminâncias e silenciosa companhia. Como presente aos grandes olhos da menina, acendia Lua incontáveis vaga-lumes. Revelando amor sempre crescente, convidava às pertezas dos caminhos a fala dos grilos, o canto da cigarra e a rouca voz das esquecidas esperanças de coração atontado. Adormecia então aos cadinhos, tristezas minguantes. No encanto das noites, Lua contemplou menina florescer mulher e pela primeira vez, tocou seu desnudo corpo, no prateado reflexo das fundas águas que correm no rio do tempo. Do amor feito em seu ventre, nasciam as primeiras estrelas que se ouviu falar, a guiar do infinito o destino dos homens e realizar desejos dos que entre nós ainda sonham. Quanto de céu pode habitar uma só mulher? Não se sabe ao certo. Só saberá aquela que um dia da janela no amor amanhecer.

(Texto do meu primeiro livro: "A Ilha de um homem só" publicado pela Ed. Penalux)
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. "Dar vida aos mortos é obra para infinitos deuses. Ressuscitar um vivo: um só amor cumpre o milagre." (Mia Couto)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Abstração...

Não cabe julgarmos o presente do escritor pelo que ele escreve, pois poderemos olhar para o seu passado, para o futuro, para o possível ou para os seus sonhos. E não saberemos se estamos a olhar seus atuais tempos verbais, sua própria imagem ou a nossa própria projeção.