A gente vem pra esse mundo com pós-doutorado em fazer merda. O que é a vida senão a tentativa de desaprender e devolver o diploma?
terça-feira, 5 de setembro de 2017
sexta-feira, 11 de agosto de 2017
Sentido...
Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: caminho ao vosso lado e me ignoras; venho dar sentido à vida e recusas me agradecer. Me aproximo nos mais difíceis momentos e dou alívio aos que sofrem. Aliás, insensato, suplicas para que adie a fatalidade dos teus excessos. Culpa-me pelo inevitável. Veja, pairo além dos teus credos e da tua cor e isto porque estou em todos os credos e sou de todas as cores. Causo promessas e temores embora não tenha inimigos. Tantos ameaçam com meu nome enquanto poucos me festejam, realmente. Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: lembra-te de mim para que do meu sopro não fujas e tampouco do viver tu escapes.
Prazer, eu sou a morte.
Prazer, eu sou a morte.
segunda-feira, 31 de julho de 2017
Cuidado...
Deixaram-me nu diante da igreja. Não me recordo de nada anterior ao fato de que estou nu na porta da igreja. Que igreja? Não sei dizer. Tampouco sei que cidade estou. Parece-me de algum longe pelos silêncios a combinarem com as ruas de pedra e o cheiro de bosta de cavalo. As janelas das casas, todas de madeira, estão ainda fechadas a pouparem-me do constrangimento. O que sinto é o desespero e a iminência da desgraça. Serei eu o louco daqui? Teria eu retornado de um surto? Serei eu mal falado por aqui? Sairei como notícia insólita no jornal? Aliás, enxergo a folha de um arrastada pelo vento. Corro para buscá-la e cobrir as desvergonhas. Vejo a data e lembro-me de tudo: ontem, antes de dormir, inundado de tristeza, pedi aos céus que me levassem para longe, que esquecesse eu da humilhação de ter sido deixado pela mulher. Até agora não houve momento que isto tenha me parecido importante. Creio que meu desejo foi então e de algum jeito atendido.
"Agradeço a Deus pela graça alcançada!" foi esta a manchete do jornal do dia seguinte que recebi na cela da delegacia.
Cuidado com o que pedem.
sábado, 29 de julho de 2017
Assim como todo mundo...
Ela que se achava tão única e sem igual era mais uma a tirar selfie no espelho do banheiro: de casa, da balada, da academia. Com a pose milimetricamente descuidada dos seus lençóis, da sua roupa, dos seus cabelos.
Com uma frase filosófica e motivacional, ou a declarar-se revolucionária e marginal. A milionésima a intitular-se "a pomba gira do absoluto". Ou melhor, do desespero.
Ela era única. Assim como todo mundo.
quarta-feira, 12 de julho de 2017
Sobre a condenação...
Não, não se comemora a condenação de um homem de bem que nada sabia - nem nunca soube - do que se passou durante os anos todos de governo de seu partido em que foram descobertos monstruosos esquemas de corrupção envolvendo seus homens de confiança que atualmente ou figuram como réus ou já foram condenados e presos.
Não, não se celebra a condenação de um homem simples que comparou-se a Jesus Cristo por sua honestidade e que de maneira inequívoca intimidou a imprensa e agentes públicos com suas ameaças de mandar prender todo mundo caso se tornasse novamente o presidente.
Comemora-se a condenação de um criminoso e de sua monstruosidade.
Celebra-se a condenação de um dos maiores criminosos do país. Comemora-se um pouco da justiça engasgada por tanto tempo e que ainda carece e muito de ser praticada neste território.
Comemora-se o afastamento de um dos demônios graúdos, responsável, mentor e partícipe de um projeto de perpetuação do partido no poder e que desviou cifras inimagináveis para qualquer cidadão comum.
Cifras que hoje muitas vezes equivalem à fome, ao desemprego, ao desespero e à desesperança.
Aos que estão a padecer de mimimis e a publicarem merdas e conspirações e a defendê-lo do indefensável, recomendo a leitura na íntegra da consistente sentença que o condena. Ainda que cegueira moral e ideológica não se resolva desta maneira.
Celebra-se a prisão de um símbolo do apodrecimento.
E que venhamos a celebrar, esperar e cobrar mais pela condenação dos demais demônios.
A quem sentir faniquitos por cultivar criminoso de estimação, a porta será sempre e uma vez mais a serventia da casa.
domingo, 25 de junho de 2017
Amada...
Era uma vez menina que amava a tristeza tanto e muito e mais e sempre que até os medos sentiam invejas. Apaixonou-se cedo, quando as perdas passaram a visitá-la em sua casa desde as primeiras idades. O lar que lhe escolheu o destino tornou-se decorado de ausências sentidas nos abandonos da sorte e dos seus próprios pais. Ainda criança, prendou-se com camaleões e borboletas nos ofícios sagrados da transformação, fazendo das diminutas mentiras semeadas, as imensas ilusões de colheita, enfeitando janela com que olhava seus solitários desamanhãs. Admiradora das profundidades que a dor lhe causava, graduou-se em precipícios, entregando suas asas para brechó do nunca. Ouviu estórias dos espinhos que lhe diziam na vida não haver sido convidada para florescer. Assim, convenceu a si ser terra infértil das razões para existir. Deslembrou-se do vento e da sua própria voz, abandonando os dias para carregar as noites. E quando distraída se despiu a visitar beirada de rio, algo se repentinou. A Lua por ela brilhou redondamente enamorada, a lhe dedicar iluminâncias e silenciosa companhia. Como presente aos grandes olhos da menina, acendia Lua incontáveis vaga-lumes. Revelando amor sempre crescente, convidava às pertezas dos caminhos a fala dos grilos, o canto da cigarra e a rouca voz das esquecidas esperanças de coração atontado. Adormecia então aos cadinhos, tristezas minguantes. No encanto das noites, Lua contemplou menina florescer mulher e pela primeira vez, tocou seu desnudo corpo, no prateado reflexo das fundas águas que correm no rio do tempo. Do amor feito em seu ventre, nasciam as primeiras estrelas que se ouviu falar, a guiar do infinito o destino dos homens e realizar desejos dos que entre nós ainda sonham. Quanto de céu pode habitar uma só mulher? Não se sabe ao certo. Só saberá aquela que um dia da janela no amor amanhecer.
(Texto do meu primeiro livro: "A Ilha de um homem só" publicado pela Ed. Penalux)
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. "Dar vida aos mortos é obra para infinitos deuses. Ressuscitar um vivo: um só amor cumpre o milagre." (Mia Couto)
(Texto do meu primeiro livro: "A Ilha de um homem só" publicado pela Ed. Penalux)
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. "Dar vida aos mortos é obra para infinitos deuses. Ressuscitar um vivo: um só amor cumpre o milagre." (Mia Couto)
quinta-feira, 22 de junho de 2017
Abstração...
Não cabe julgarmos o presente do escritor pelo que ele escreve, pois poderemos olhar para o seu passado, para o futuro, para o possível ou para os seus sonhos. E não saberemos se estamos a olhar seus atuais tempos verbais, sua própria imagem ou a nossa própria projeção.
quarta-feira, 21 de junho de 2017
Esquina...
O que ela queria era
um futuro a dois quarteirões
de distância com o seu amor
a esperando na esquina.
domingo, 18 de junho de 2017
Padecimento...
Padeço por aquilo que já acabou. Anuncio discretamente as saudades. Denuncio meus medos. Revisito tristezas. Reincido nos erros. Prevejo o que nunca será. Sinto culpas de validade vencida. Calo silêncios a força. Enveneno os afetos. Ando em círculos, dou murro em pontas de faca, ouço o tédio das paredes. E me anulo de maneiras incríveis.
Reconheço corpos e memórias, diariamente.
Reconheço corpos e memórias, diariamente.
quarta-feira, 14 de junho de 2017
Metade...
Ao longo dos caminhos, tornamo-nos metade. Metade para caber menos. Menos do sofrer, por certo, mas por infeliz (in)consequência, menos do viver e do amar. A metade nos acontece pela distância que criamos entre nós e o outro, entre nós e a própria vida. Quem se faz metade, anestesia-se para mais facilmente despedir o que o consome. Deixamos de sentir urgências em existir e pouco passa a nos devorar, a não ser nossa própria metade. Ignoramos as alturas do Amor, não mais sabendo a dor da queda, tampouco as nossas liberdades. (Não é pelo risco de cairmos no precipício que sabemos dos nossos voos?) Quem é metade, metade é para não se arriscar nos apuros de ser inteiro. Ser metade é sofrer menos, sendo menos feliz inclusive. Aquele que é metade garante não cair com a cara no chão nem trocar os pés pelas mãos, pois não sairá de casa, da casca, nem de si. Há quem escolheu ser metade porque um dia doou seu inteiro ao Amor que (se) partiu. Então não mais se permite, não se apega, não se queima e não se cura. Não morre, mas também não recomeça. Quantos de nós não escolhe morar neste conforto que faz a vida e o coração não pedir muito da gente? Aquilo que dói, facilmente se resolve. O amor, pela metade, abandona-se. O desejo, pela metade, engole-se. A possibilidade de fuga torna-se grande, nesta monótona linha reta sem os interessantes becos sem saída no labirinto das paixões. Dispensamos as riquezas dos encontros por não querermos lidar com os encargos que a vida junto nos cobra. E a única que sussurra entre os silêncios que instalamos à força em nossas marés é a tristeza que intui merecermos mais do que nos tornamos. Tornamo-nos hábeis em manter um pé atrás dentro da armadura emocional que construímos com o tempo que não aproveitamos em ressignificar nossas dores e seguirmos adiante. Encarcerados em nós, nada nos queimará infernalmente - nem deliciosamente - como antes. As asas não precisarão ser largas, e o mergulho nem tão profundo. Preenchendo-nos com vazios, focando trivialidades e fugazes prazeres, passamos às emoções em rodízio. Pela nossa fragilidade, queremos facilidades. Pelo nosso endurecimento, exigimos a qualquer custo a leveza. Assim, fugimos da responsabilidade de acolher o Amor com todas as suas sombras e deveres, porque o Amor nos convoca às inteirezas. O Amor rasga, mas também costura. Evitamos entrar e nos dedicarmos porque não queremos mais doer como um dia doemos. E o amadurecimento que deveria fazer nossa transição para dias melhores, não acontece porque resolvemos não despertar do sonho de ser semente. Quem sabe um dia lembremos que a beleza da flor aconteceu porque ela ousou ser cor entre as tormentas.
(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)
(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)
segunda-feira, 12 de junho de 2017
Subtração...
A tristeza é uma subtração dos dias dentro de mim; uma anulação do tempo para sentir-me vivo. Viro o rosto para o que mora comigo ainda que diariamente beba daquilo que ignoro. Vejo-me cheio de razões para tudo mas que para nada me aliviam. Aconteço-me sem planejamentos, como uma insistência em manter-me cego e adiado.
O descaso da chuva é sempre para mim.
domingo, 11 de junho de 2017
Amorosa...
O amor pousa mais facilmente naqueles que se encontram inteiros, caso contrário e nos será difícil discernirmos o amor de uma amorosa ilusão.
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