segunda-feira, 12 de junho de 2017

Subtração...

A tristeza é uma subtração dos dias dentro de mim; uma anulação do tempo para sentir-me vivo. Viro o rosto para o que mora comigo ainda que diariamente beba daquilo que ignoro. Vejo-me cheio de razões para tudo mas que para nada me aliviam. Aconteço-me sem planejamentos, como uma insistência em manter-me cego e adiado.

O descaso da chuva é sempre para mim.

domingo, 11 de junho de 2017

Amorosa...

O amor pousa mais facilmente naqueles que se encontram inteiros, caso contrário e nos será difícil discernirmos o amor de uma amorosa ilusão.

sábado, 10 de junho de 2017

As palavras...

O calendário é uma mentira para as saudades mas uma verdade para o amor. Ou vice versa.
O café é o cheiro exato na ausência do cheiro dela. 
A tristeza é uma novela na qual quase morremos no final. 
A vida é uma coleção de despedidas que nem sempre se despedem de nós.
O óbvio é aquilo que quase nunca sabemos enxergar. 
A lua e as rosas sempre servirão para os poemas de quem procurar por um.
A salvação começa por nós mesmos. A ilusão será pensar de outro jeito.
Às vezes é preciso entrar para poder sair. Tem gente que quer sair antes de entrar.
O sol é um convite silencioso para as esperanças.
O lado que ignoramos é o que mais sabe de nós.
A escravidão pode ser muitas coisas que não nos parece escravidão. 
Temos facilidades para obedecer cores escuras no peito.
As palavras podem ser doçura ou espinho: depende de como amanhece o coração.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Vício...

O homem insista em mais um copo. Era o oitavo, hoje. E era a terceira vez que voltava ao bar sozinho. Dispensou os amigos para se sentir à vontade. Dispensou-se mais cedo do trabalho para sentar no balcão e fixar seus olhos. E sorrir. E sorrir, apenas. A bebedeira o deixava envergonhado e atento o suficiente para não esbarrar na porção de amendoim. Bebia grandes goles para pedir mais uma. E outra. E outra. E isto por conta da mesma. A bartender do lugar. A paixão era seu único vício. 

Além do cigarro.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Culpa...

A culpa é o tormento insistente do erro: espiritual indigestão do tempo. O desajuste de uma máquina infeliz, rigorosa impermanência do amor próprio, a culpa é o amargor pelo perdão que a nós não oferecemos, tolice a deixar-nos ausentes para as generosidades. A culpa é uma afronta, uma atitude implacável do peito a vingar-se de si, xeque mate do mal estar. Um dizimar jardins por tornar-se cego. A alta conta pela infelicidade. Candeeiro apagado, protesto contínuo dos infernos, prostíbulo dos demônios, a culpa é o teimoso cobrador de um passado morto.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Notícia...

Parece-me haver um brilho intenso na tristeza que tantos de nós paramos para apreciá-la, seduzidos pelo tempo a tonar-se costume de diante dela permanecermos. A felicidade decreta-se como ilusório destino e coisa móvel, escapável de molduras e artifícios para prendê-la perto; apresentando-se discreta e volátil entre gostos e prazeres que não a fixam jamais no peito. A tristeza, por sua vez, denuncia esta facilidade para manter-se como companhia a diminuir um pouco de cada um.

A tristeza é como a notícia da casa a demolir-se onde já fomos felizes.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Dos afetos...

Sabia ela sobre tudo: cristais, florais, pirâmides, astrologia, radiestesia, tantra, runas, shiatsu, tarot, mandala, yoga, cabala, quiromancia, economia, anatomia, johrei, hermetismo, filosofia, búzios, teosofia, do-in, hebraico, física quântica, física clássica, xamanismo, umbanda, quimbanda, teatro, meditação, beatles, reiki, sânscrito, ovnis, plantas, mantras, yantras, shiva, vedanta, atlantes, lemurianos, cup cake e poesia.

Só não sabia sobre os afetos.
Só não sabia sobre si.

domingo, 4 de junho de 2017

Arma...

Sua arma para ferir o coração era a palavra. Trouxe consigo esta violência desde menino quando adoeceu de mundo por lhe faltar amor. Sobreviveu apesar disso. As cicatrizes silenciosas a moldar o seu destino inscreviam toda e cada vez na própria carne os traços da sua glória e suas tragédias. A palavra era o punhal que usava sobre o seu próprio reflexo a curar-se pela renúncia da ferida. Para depois do travessão, a mentira. Para além do ponto final, suas verdades.

sábado, 27 de maio de 2017

A vigésima segunda visita da generosidade...

O nome nos veio como uma revelação. A ser desesplicada pelas lógicas e anteriores teorias. O nome nasceu na beira do sonho de minha amada, que a mim despertou com ele vivo dentro da boca. O nome nela pousou como pássaro numa janela aberta. Como solo sagrado para se deitar palavras. E as palavras como nítida presença de uma generosidade que caminha ao lado de cada um de nós, independendo dos calendários ou tristezas.

Um livro para reacender esperanças antigas.
Uma releitura generosa dos óbvios.

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Belíssima fotografia da querida Jaci Bathista.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

The end...

Não deu crédito ao autor.
Não dava jamais crédito ao autor.
Dava crédito apenas à sua própria mediocridade.

E Satanás, atento que só, a acompanhando por aqui, deu-lhe caganeira e urticária.

Pedagogia do terror, sabe?

Mas a mediocridade era tamanha que ela não ligou o com o cré.

Satanás, então, a cegou.

The end.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Aqui...

Aqui, escondemos as tristezas sob o verniz da permanente e invejável felicidade com a qual nos enfeitamos. Aqui, para além dos invejosos e acima do bem e do mal publicamos fotografia com uma frase motivacional. Aqui, temos remédios para todos os males. Os alheios, é claro. Receitas para a criminalidade, para a depressão, para a situação econômica e geopolítica. Um oceano de boa-fé e opiniões sobre tudo aquilo em que nos afogamos. Aqui, somos interessantes e inteligentes além da conta e da medida. Somos os astros do que gostaríamos de acreditar, presos neste carrossel que nos distrai e inteiro nos consome. Aqui, confundimos nossos personagens sem limites com nossas vidas tão comuns. E no vão entre os dois habitam nossas mentiras e inexistências. Neste museu de grandes novidades nos apegamos às palavras como dignas de vida ou morte. Enquanto on-line nos fragmentamos, a vida segue inteira e lá fora.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A fotografia...

A fotografia. O único porta retrato da casa. Um registro apenas de si mesmo. Sorrindo numa festa dezoito anos antes. De quando era mais magro e seus pai ainda eram vivos, de quando viajava com os amigos e voltava tarde pra casa, de quando comia mal mas vivia bem, de quando dormia mal e acordava bem, de quando ainda não havia sido demitido, de quando ainda acreditava no amor, de quando se sentia mais leve, mais livre, mais outro, menos outro, mais ele mesmo.

Sentiu inveja de si, raiva de si e culpa de si por não ter sabido nunca se usar melhor. Ele foi feliz e não sabia, nunca soube. Soube apenas agora.

Jogou o porta retrato fora.