sábado, 4 de março de 2017

Em nós...

alegrava-me por desaguar 
em nós o me
destino.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sensatez...

O perigo de ser um excessivo sonhador era não viver o bastante para redimir-se de qualquer coisa que não havia lhe dado outro futuro e melhor oferta ao peito. O risco era bastar-se com suas interiores ilusões e invisíveis esquecimentos, prendendo a vida imensa no limitado da própria cama. Era nítido o contraste disto com as esperanças; estas que não permitia entrada no quarto a despertá-lo para continuar a procura de melhores destinos e algum amor.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Açúcar...

A miséria intelectual por aqui chega a tal monta que aquele que critica o uso abusivo do açúcar é imediatamente condenado como inequívoco defensor dos amargos.

Isto é, a estupidez de uma ideologia lançando sua própria cegueira sobre os outros.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Sobre você...

O que desejo é que você tenha todo o amor do mundo. Que o descubra aos poucos, no tempo certo de amadurecer, que é o tempo de melhor saber o amor em si. Descobrir o amor é saber amar-se. Saber amar-se é conceder a gentileza à inconsciência dos erros. Assim, que você se revele mais generosa consigo, despedindo culpas, mágoas, ansiedades e demais prisões. Que esta generosidade seja a luz a te esclarecer e iluminar os outros. Que você seja mais íntegra, honesta e leal consigo. O mundo a seguirá logo depois. O caminho se fará conforme a sua própria caminhada. Seja paciente com os seus próprios pés. O coração se fará abrigo para os que te amam e te querem bem. Será também janela para os seus ainda insuspeitos milagres.

(Carta enviada a uma amiga)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Urgências e demoras...

[...] enquanto o tempo com suas demoras faz girar o mundo e acontecer a vida, com a tua inesperada travessia em mim, passei a sofrer de urgências. Depois de ti, não acompanho ritmos nem respeito prazos, os dias se dissolveram em noites e as noites em esperas. Antes de entardecer e já amanheço sem descansos. Antes de prometer e já me cumpro, apenas para adiantar-me de algum jeito. Sobra-nos tudo, falta-nos as horas. Sobra-nos desejo, falta-me a lucidez. Ando a dormir sendo metades em que parte busca-te por entre os sonhos, e a outra mantém-se alerta a esperar tua volta. Lanço-me ao passado para cumprir minhas lembranças, revivendo abraço que não foi dado e a palavra que não foi dita. Busco-te uma vez mais para corrigir minhas tristezas e apagar ausências que sabem meu nome, mas desconhecem o teu quando por perto. És a confissão do meu mais íntimo pensamento. Por isto, sofro,  porque o teu amor se fez espelho e, sabendo de ti meu amor, saberei de mim também.

(Guilherme Antunes & Jhully Inácio)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Dos mistérios...

As infâncias nos ensinam encantamentos. Aí, quando adultos, o tempo vira relógio.

Deus, hoje, desalojado das preces despediu-se para fazer morada no amanhã:
lugar este onde estamos sempre a chegar.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Sempre...

O amor toma-me sempre nos braços.
(imagem: @carolguimaraesfoto)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Impede-nos

A própria clausura do fracasso impede-nos de percebê-lo.

sábado, 28 de janeiro de 2017

9 horas...

São 9 horas. Como combinado. A esta altura, estarei sorrindo para ti. São 9 horas e somos felizes. São 9 horas e não há tempo. São 9 horas e carregamos todos os sonhos do mundo. A esta altura, estarás sorrindo para mim. Caso-me contigo para antes e depois dos ponteiros, pois não há dia ou hora melhor para casar contigo senão o dia ou a hora em que te amo. São 9 horas. Como combinamos. À nossa volta, os pais, irmãos, a vida, os anjos, os frutos, Deus, os padrinhos, o amor.

A esta altura, todos sorrindo para nós.
E em cada um de nós, para sempre.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Criminoso...

indiciado por rebeldia
contra as tristezas,
exigia o coração
responder em
liberdade:

premeditava um poema.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Embora...

Pois deveríamos estancar nossas feridas com amor próprio. Remendar-nos. Encontrar-nos com a nossa saudade mais recente. Permitir-nos aquele frescor desta nova insegurança que nos deixa seguros do que sentimos, para encararmos quais as emoções já estão maduras para irem embora de casa.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Adormecida...

Tornou-se feia pelo amor que amaldiçoou. Tornou-se feia pelo amor que impróprio dele bebeu. Tornou-se feia pela parte da vida que não viveu e pela parte sua que enganou. Tornou-se feia pelos amargos que não despediu e pelo perdão que jamais estendeu. Tornou-se feia pelas raivas que engoliu e pelo medo que a carregou para lugar nenhum. Tornou-se feia pelas maledicências. Tornou-se feia pelas tristezas que de maneira inexata se acostumou. Tornou-se feia pelo sonho que não a despertou. Tornou-se feia porque aceitou tornar-se feia. Tornou-se feia porque nunca se reconheceu.

Definitivamente era bela. Adormecida.