quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Credores...

À vida resmungamos pequenas palavras sem muita delicadeza: dignos do tamanho que acreditamos ser bastante. Calar-se seria saber-nos credores de pouca abundância. Uma culpa por não semearmos melhor o próprio existir.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Bauman...

ensinou-nos Zygmunt Bauman
sobre o amor que é
a sociedade que é
a modernidade que é
líquida.

e partiu.

Graal...

A verdade, o placebo ou qualquer um com gosto menos amargo? Servem-lhe alternativas terapias ou desejas a precisão cirúrgica? Água gelada ou, ainda assim, whisky paraguaio para celebrar os amores? Os excessos como fuga. A ansiedade como perda. O medo como muro. Aceitas a tristeza como legítima amante ou preferes te divorciar da própria vida? O lado mais difícil do caminho é a sorte que costumamos escolher.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Recordadores...

A maioria das pessoas seleciona as recordações para usar como bóias: aqui eu fui feliz, é aqui que vou ficar, parado no meio do imenso e ignoto mar. Ou então: aqui fui infeliz, e daqui não quero passar. Distingue-se assim, para uso quotidiano, otimistas e pessimistas - recordadores profissionais. 

(Inês Pedrosa)

Perdemo-nos todos...

Vestia a paixão ao avesso, o humor às avessas, a sorte ao inverso, o amor impróprio, o relógio exato e o tempo impontual para os sossegos. Entre a faca e os desejos, salvamo-nos muitos. Perdemo-nos todos.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Categorias...

Saber-se é como procurar jarro antigo metido numa garagem que não visitamos, filho. No inútil, melhor nos reconhecemos e, isto, dá-nos razão das esperanças. Porque não nos sabemos com a audácia da precisão, havendo sempre espaço para as belezas e outras categorias de virtude.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O ano novo...

Organizou os livros, as roupas, sapatos, talheres, pratos, agenda, o tempo, a ansiedade, o amor, seu deus, seu diabo, seus medos, verdades, seu chefe, sua mãe, as mágoas, as contas, as cartas, carências, hipocrisias, as dores e o sono, nas prateleiras, armários, gavetas, porões, memórias, enganos, mentiras, lençóis, sintomas e nos escuros todos da palavra, do outro, do sonho, do quarto e do próprio peito.
 
Definitivamente, o ano novo de um mesmo homem.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Vida longa...

Vida longa aos que muitos incomodam com suas singularidades. Aos que perturbam sombras alheias com agudas iluminâncias. Aos que desarmam convicções idiotas com afiada inteligência. Aos que ardem e incendeiam, expulsam e perdoam, arranham e acolhem com igual facilidade. Vida longa aos que convidam à dança, ao abismo, ao amor, ao abraço e aos desequilíbrios. E aos que se alongam na vida, na mesa do bar, nos lençóis da cama e no espaço da nossa saudade.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Olhar...

A felicidade se tornou uma simplicidade quando decretou ao amado que ser feliz seria algo por estarem vivos e juntos. Apenas isto, juntos. A atenção de um detalhe lhe seria uma vida inteira cuidada pelo próprio olhar de atenção.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Sobre o sonhar...

Caminhava na orla da praia e vi dois guardas abordarem o homem de rua que cansado das horas adormeceu num dos bancos da calçada.

Senhores! Pediu a lei, a moral, os bons costumes e os cidadãos todos de bem que acordassem aquele homem atrapalhando o passeio público.

- Acorde, senhor! Saia da sua liberdade de pássaro. Abandone a ilusão e volte à miséria. Retome suas desesperanças; reencontre seus vícios todos. Volte de sua fuga para fugir uma vez mais n´outro lugar. Afinal, precisamos manter a ordem e o senhor é um incômodo para todos nós.

Se ainda o acordassem para lhe dar as boas novas. Se ainda o acordassem a lhe permitir ser qualquer coisa de feliz.

Talvez, o único evangelho daquele homem fosse seu esquecimento. O jornal de empregos, um lençol contra os invernos. Seu mal foi fechar os olhos.

Estava desqualificado para sonhar.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Tornou-se sábia...

Ela que antes viveu apenas da palavra como prisão e fuga do mundo, usará de cada uma para reencontrá-lo. A palavra como reflexo cristalino e não mais empoeirado com o ranço das coisas velhas. O que aprendeu até então era de segunda-mão, emprestado, não era seu. A palavra sexo que antes lhe era um atrevimento estreava-se no seu corpo através do prazer. A palavra desejo que antes lhe era proibição estreava-se na vida como convite. A liberdade concedia-lhe novos significados. Uma absolvição das conveniências. Sem a linha lógica e prisional das conclusões. Tornava-se a representação direta das suas próprias experiências, reivindicando a parte de Deus que lhe cabia. Antes, uma triste personagem de si. Agora, despede-se da sua versão sentimentalizada, presa do intelecto e da vida utilitária, da sua previsível miséria. A área tão inesperada para além da zona de desconforto era a coragem de ser o seu próprio presente. Devolveu o sonhar ao seu devido lugar.

Tornou-se sábia não porque desejou sê-la, mas por se tornar ela mesma quem ela mesma é.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Calar as cicatrizes...

Será que ela já se vê pronta para deixar seu passado? Abandonar cenários e festas e dores e sintomas que ainda sente? O que a deixa ainda calçada nos sapatos pertencidos aos caminhos que não mais florescem porque não podem? Quais os medos de antes traz ela para o depois? Deveria seu coração saber que a luz do dia novo há de dissolver a densidade dos escuros. Deveria despedir-se do vazio que a ronda a permitir o cheio que a preenche. Gritam assim os anjos para que não adoeçamos com as poeiras de capítulos que não merecem a releitura. Assim também espera seu amor que lhe aguarda para escreverem juntos os acertados destinos a que merece. 

Devemos calar as cicatrizes.