A felicidade se tornou uma simplicidade quando decretou ao amado que ser feliz seria algo por estarem vivos e juntos. Apenas isto, juntos. A atenção de um detalhe lhe seria uma vida inteira cuidada pelo próprio olhar de atenção.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Sobre o sonhar...
Caminhava na orla da praia e vi dois guardas abordarem o homem de rua que cansado das horas adormeceu num dos bancos da calçada.
Senhores! Pediu a lei, a moral, os bons costumes e os cidadãos todos de bem que acordassem aquele homem atrapalhando o passeio público.
- Acorde, senhor! Saia da sua liberdade de pássaro. Abandone a ilusão e volte à miséria. Retome suas desesperanças; reencontre seus vícios todos. Volte de sua fuga para fugir uma vez mais n´outro lugar. Afinal, precisamos manter a ordem e o senhor é um incômodo para todos nós.
Se ainda o acordassem para lhe dar as boas novas. Se ainda o acordassem a lhe permitir ser qualquer coisa de feliz.
Talvez, o único evangelho daquele homem fosse seu esquecimento. O jornal de empregos, um lençol contra os invernos. Seu mal foi fechar os olhos.
Estava desqualificado para sonhar.
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Tornou-se sábia...
Ela que antes viveu apenas da palavra como prisão e fuga do mundo, usará de cada uma para reencontrá-lo. A palavra como reflexo cristalino e não mais empoeirado com o ranço das coisas velhas. O que aprendeu até então era de segunda-mão, emprestado, não era seu. A palavra sexo que antes lhe era um atrevimento estreava-se no seu corpo através do prazer. A palavra desejo que antes lhe era proibição estreava-se na vida como convite. A liberdade concedia-lhe novos significados. Uma absolvição das conveniências. Sem a linha lógica e prisional das conclusões. Tornava-se a representação direta das suas próprias experiências, reivindicando a parte de Deus que lhe cabia. Antes, uma triste personagem de si. Agora, despede-se da sua versão sentimentalizada, presa do intelecto e da vida utilitária, da sua previsível miséria. A área tão inesperada para além da zona de desconforto era a coragem de ser o seu próprio presente. Devolveu o sonhar ao seu devido lugar.
Tornou-se sábia não porque desejou sê-la, mas por se tornar ela mesma quem ela mesma é.
Tornou-se sábia não porque desejou sê-la, mas por se tornar ela mesma quem ela mesma é.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Calar as cicatrizes...
Será que ela já se
vê pronta para deixar seu passado? Abandonar cenários e festas e dores e
sintomas que ainda sente? O que a deixa ainda calçada nos sapatos
pertencidos aos caminhos que não mais florescem porque não podem? Quais
os medos de antes traz ela para o depois? Deveria seu coração saber que a
luz do dia novo há de dissolver a densidade dos escuros. Deveria
despedir-se do vazio que a ronda a permitir o cheio que a preenche.
Gritam assim os anjos para que não adoeçamos com as poeiras de capítulos
que não merecem a releitura. Assim também espera seu amor que lhe
aguarda para escreverem juntos os acertados destinos a que merece.
Devemos calar as cicatrizes.
Devemos calar as cicatrizes.
domingo, 1 de janeiro de 2017
Das exigências...
Por vezes as coisas
boas vão se instalando em nossa vida aos poucos, sem antecipados
avisos, barulhos ou exigências de novos espaços, como processos
contínuos que nos desarmam e nos expõem novamente ao viver,
permitindo-nos escolher e aceitar finalmente o acerto, a prosperidade e
por-nos disponíveis uma vez mais aos milagres.
Caminhar...
Que o velho morra para dar lugar ao novo, pois, toda morte é um renascimento.
Que eu possa ir fundo para poder tocar o céu; que eu possa alcançar o horizonte.
Que eu possa ter tempo para tudo aquilo que deixei de realizar, e que poderia fazer a qualquer momento.
Que as horas passem devagar quando necessário; os dias menos depressa.
E que eu possa conquistar o atemporal: não pelo que eu faço, mas por quem eu sou.
Além do sucesso, minha integridade. Além dos objetivos, minha inteireza.
Que eu possa perceber que sou eu quem carrego a chave das próprias prisões que crio.
E que eu me liberte do medo, das angústias, da aflição.
E neste vôo, possa lançar as sementes do amor. Amor que todos devemos cultivar.
Além da bela silhueta, além dos preciosos amigos, além de qualquer explicação ou teoria lógica e lapidada; além de belos títulos de livros ou filmes, de boas marcas e comentados lugares.
Eu possa me encontrar, em tudo aquilo e mais um pouco. Ou menos.
E que eu possa refletir como um espelho todos a minha volta.
Que o porvir possa acalmar a ansiedade do dever-ser e do vir-a-ser, porque eu ainda não sou, nada além, do que já sou.
E em mim, tudo basta. Mesmo quando me sinto vazio. E que diante do vazio eu não me preencha com mais dele.
Que eu aprenda a perdoar, primeiro a mim, por não saber perdoar.
Que eu lembre do melhor e esqueça o necessário; o desnecessário para crescer, pois, crescer é inevitável.
E que o inevitável venha e, assim, eu aprenda a aceitar.
Que eu possa criar, que eu volte a ser quem nunca fui e que um dia eu deixei de ser.
Sorrisos e lágrimas. Criador e criatura. Céu e terra.
Que os monstros se tornem disciplina e compaixão.
Tenho equilíbrio e procuro por mais. Equilibrei-me por desequilibrar-me.
Além das palavras, o agradecimento contido em cada uma delas.
Pois é a experiência que me brinda com a realidade que me envolve.
Escada de degraus infinitos.
Um recomeço de um caminhar eterno.
Abençoado, próspero, tranquilo.
Para mim e para você.
2017.
sábado, 31 de dezembro de 2016
Que assim seja...
Que entre as
folhas do teu calendário habitem seus novos sonhos. Que a partir de
hoje os dias sejam mais seus. Que você se lembre que há sempre mais
coisas a se pensar e a se fazer do que coisas já pensadas ou decididas. E
que por isto, você abençoe seus amanhãs. Abençoe também a sua rotina,
mas a evite o quanto puder. Que você possa respirar macio como não
respirou no ano que passou. Que você não se afogue no mar da vida e que
guarde espaço e tempo para os suspiros e estratégicas faltas de ar. Que
os passos sejam mais leves. Que tenha boa saúde para ser quem se é por
inteiro e ir atrás do que se busca. Que a vida lhe dê bonitezas e
caminhos muitos em que as certezas caibam melhor. Que o amor possa
preencher tua agenda de compromissos, taças de vinho e perdão. Para os
próximos capítulos, mais intensos e transbordamentos; menos excessos.
Mais frutos, sementes, planos e 'de repentes'. Mais poesia, corpo e alma. Mais entregas e menos metades. Mais abraços e menos saudades.
Mais vôos e pés no chão. Sorrisos e cheiro de terra molhada, bebês,
incensos e de quem se gosta. Mais livros, destinos, menos despedidas.
Que você seja dono dos melhores pensamentos sobre si mesmo. E que a
gratidão atraia sempre mais coisas pelas quais seremos gratos.
Que assim seja...
Que assim seja...
(Guilherme Cardoso Antunes, vulgo "eu", em 04.01.2013)
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
Calendário...
Às vésperas de um novo ano, escutamos com maior atenção as interiores vozes que nos permeiam, ao amansarmos acumulados cansaços de um ciclo que se encerra. As verdades que nos sempre falam mas que abafamos por inúmeras razões, contam-nos agora com estratégica intensidade, das esperanças que retornam com fôlego e força para cumprirmos os compromissos e promessas que nos justificam sobre este chão. Assim, cabe à poesia trazer à claridade, as marés que nos compõem. E diz ela, primeiramente, que nos tornemos mais nós mesmos, ainda que para isso precisemos despedir uma boa parte do que somos. Que o espelho não seja causa de grandes importâncias ou preocupações mas, seja nosso reflexo, o fiel confessionário dos nossos contornos. Agigantemos os sonhos, patrocinemos nossas coragens, não respeitando as demandas da tristeza, mas acolhendo toda e qualquer lágrima que justa resolver nos visitar. Recusemos ao máximo com ensaiada disciplina, os círculos viciosos das paixões que nos custam saúde e equilíbrio emocional. Desapeguemo-nos do que tem verniz de amor mas é carência, medo, controle ou egoísmo. Aprendamos que a inveja é sintoma de imaturidade, devendo ser tratado quem sente com doses de generosidade e paciência. Aceitemos sempre - e desarmados - os elogios que nos dedicam, separando com prudência as sementes do bem querer das más ervas da bajulação interesseira. Quando necessário falar, cuidemos para não declararmos uma verdade que não tenhamos certeza que será verdade amanhã também. Saibamos que sem quaisquer objetivos e pelo acaso poderemos ser carregados. Não atribuamos ao azar o que é de nossa responsabilidade. Curemo-nos nas despedidas, curemos o próximo pelas chegadas. Que possamos ser como a gota d´água que, mesmo diante do imenso mar, ainda tenha o que lhe acrescentar. Que daqui pra frente possamos juntar coragem suficiente para aquelas decisões e riscos que a vida nos pede para nos fazer mais felizes. E se inevitavelmente e por acaso a dor em nós tardar, que por ela amanheçamos.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
No varal das coisas ditas...
No varal das coisas ditas, estendo a gratidão aos olhos cúmplices que visitaram meu quintal ao longo deste ano. Agradeço a generosidade daqueles que nas letras em que costurei meus aconchegos, nelas também se descansaram. Agradeço aos que fizeram da palavra a ponte para afinados encontros. Aos que mesmo sem saber, tomaram minhas sementes para além dos meus limitados horizontes, expandindo-me nos literários reinos que transitamos todos. Agradeço por me permitirem ser um pequeno tradutor das suas imensidões, confessionário das marés interiores, delator eleito pelas próprias tempestades que acabamos por celebrar ao reconhecê-las no espelho da literatura. Agradeço àqueles que sei dos seus nomes e àqueles que de nada sei e que de alguma maneira igualmente me atravessaram. Peço dirigido perdão a todos aqueles que na minha vida pelas palavras os fiz pequenos, fazendo-me ainda menor por isto, ferindo pelo que deveria dizer quando nada disse ou pelo silêncio que deveria ser o único a ser declarado, mas por mesquinhez o calei. Que eu possa ser versão mais nobre de mim, refletindo mais as virtudes do que as sombras, nas palavras que pelas linhas e boca ainda me pertencerão.
Gratidão.
Crenças...
Buscadora de si, pisou na areia com pés firmes, abrindo mão dos falsos atalhos que escolhera. Navegou por toda sua vida de antes, com velas içadas a ser levada pelo sopro de outras vozes, ideias tantas e conselhos muitos. E assim, chegando onde não queria, alcançou lugar nenhum. Hoje era o primeiro dia de um ano inteiro a lhe revelar o novo e, entre todos os que lá estavam a contemplar céu colorido e beber champanhe, esperava ela sua primeira promessa do porvir vinda de dentro. Queria traduzir-se amanhã e depois em muitas versões de si mesma, a desmentir o velho triste e a colher próspero interior a florescer madurez. Cansada de levantar muralhas a cobrir o infinito das bençãos procuradas ou, de querer saber qual lado da moeda se irá mostrar, abandonou seus pedaços, seus cacos e suas crenças: pular sete ondas, acender sete velas, colher sete rosas, dar três pulinhos, notas no sapato, lençóis limpos, comer lentilhas, romã, uvas, folhas de louro; não mais entregaria ao destino a boa sorte. Agora, era ela a boa sorte a não mais esperar o mar lhe trazer conchas bonitas ou pedras opacas; resolveu decorar ela mesma de formas novas e cores outras a sua vida. Remaria contra a maré, mas com o vento a seu favor.
(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 05.01.2011)
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Dependesse...
Ele aguarda. A cerveja gelar. O pagamento cair. O domingo para esquecer. O e-mail. A campainha. A encomenda. O aniversário. O jogo do campeonato. O sexo casual. O resultado dos exames. O final do ano. O começo das férias. Cada noite de sono. Cada cigarro aceso. E a cada amor perdido, ele aguarda sem saber. E na rotina que diariamente o ignora, ele aguarda como se nada aguardasse e de tudo dependesse.
Ele se aguarda. Mas não sabe disto.
domingo, 25 de dezembro de 2016
Anuncia-Te...
Pai, permita-me ser o espelho dos meus escuros e o eco das minhas verdades. Ensina-me a aceitar-me no tempo entre as sementes e a colheita. Dá-me o próximo e os amanhãs para partilhar a compaixão que hoje me faltou. Coloca-me diante dos meus egoísmos para o necessário diálogo com a alma que reage às próprias feridas. Apresenta-me ao perdão que tanto busco, mas ainda não reconheci. Conceda-me a coragem para atravessar os medos. Revela-me os medos para descobrir a fé. Permita-me a gratidão que ontem não enxerguei, e os milagres que à porta não atendi. Abençoa-me através dos silêncios. Anuncia-Te através do poema. Ensina-me o amor como caminho de duas mãos. E permita que ofereça as minhas ao Teu trabalho.
Que eu comece diariamente a partir de onde estou e anuncie adiante a vitória da luz.
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