quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Crenças...

Buscadora de si, pisou na areia com pés firmes, abrindo mão dos falsos atalhos que escolhera. Navegou por toda sua vida de antes, com velas içadas a ser levada pelo sopro de outras vozes, ideias tantas e conselhos muitos. E assim, chegando onde não queria, alcançou lugar nenhum. Hoje era o primeiro dia de um ano inteiro a lhe revelar o novo e, entre todos os que lá estavam a contemplar céu colorido e beber champanhe, esperava ela sua primeira promessa do porvir vinda de dentro. Queria traduzir-se amanhã e depois em muitas versões de si mesma, a desmentir o velho triste e a colher próspero interior a florescer madurez. Cansada de levantar muralhas a cobrir o infinito das bençãos procuradas ou, de querer saber qual lado da moeda se irá mostrar, abandonou seus pedaços, seus cacos e suas crenças: pular sete ondas, acender sete velas, colher sete rosas, dar três pulinhos, notas no sapato, lençóis limpos, comer lentilhas, romã, uvas, folhas de louro; não mais entregaria ao destino a boa sorte. Agora, era ela a boa sorte a não mais esperar o mar lhe trazer conchas bonitas ou pedras opacas; resolveu decorar ela mesma de formas novas e cores outras a sua vida. Remaria contra a maré, mas com o vento a seu favor.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 05.01.2011)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Dependesse...

Ele aguarda. A cerveja gelar. O pagamento cair. O domingo para esquecer. O e-mail. A campainha. A encomenda. O aniversário. O jogo do campeonato. O sexo casual. O resultado dos exames. O final do ano. O começo das férias. Cada noite de sono. Cada cigarro aceso. E a cada amor perdido, ele aguarda sem saber. E na rotina que diariamente o ignora, ele aguarda como se nada aguardasse e de tudo dependesse.

Ele se aguarda. Mas não sabe disto.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Anuncia-Te...

Pai, permita-me ser o espelho dos meus escuros e o eco das minhas verdades. Ensina-me a aceitar-me no tempo entre as sementes e a colheita. Dá-me o próximo e os amanhãs para partilhar a compaixão que hoje me faltou. Coloca-me diante dos meus egoísmos para o necessário diálogo com a alma que reage às próprias feridas. Apresenta-me ao perdão que tanto busco, mas ainda não reconheci. Conceda-me a coragem para atravessar os medos. Revela-me os medos para descobrir a fé. Permita-me a gratidão que ontem não enxerguei, e os milagres que à porta não atendi. Abençoa-me através dos silêncios. Anuncia-Te através do poema. Ensina-me o amor como caminho de duas mãos. E permita que ofereça as minhas ao Teu trabalho.

Que eu comece diariamente a partir de onde estou e anuncie adiante a vitória da luz.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Perdas & Ganhos...

Afinal, o que ganhamos? O que aprendemos apesar das tolices? O que atravessamos apesar dos cansaços? O que celebramos? O que ganhamos e por que perdemos? Por que falta-nos generosidade e sobra-nos reclamação? O que celebramos, entãoPor que tanta cotidiana maledicência? Por que das invejas? Por que culpamos o outro e a vida pelo que nos dói? Qual momento assumimos a responsabilidade? Por que perdoamos apenas o que é fácil? Por que mais pedimos do que entregamos? Por que corremos pelos dias como se nunca fosse o bastante? O que ganhamos hoje senão o amanhã que se revelará espelho do que somos? O que ganhamos hoje senão o amanhã que revelará a verdade do que viremos a ser? Que ninguém se perca do significado.  

Que ninguém se perca do próprio sentido, porque o mundo começa e também termina a partir de cada um.

Amor...

Que amar nos seja um verbo constante.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Vésperas...

E foi então que ele a notou e depois que a viu passou ali nada mais notar. Entre todas se destoava. Entre tudo se sobressaía. Teria a sorte lhe aprontado assim, tanto? Sem ensaio, sem dar aviso algum da sua visita? Ela estava ali, para ele e, delicada, veio com um sorriso de salvar-nos da tristeza, com perfume de levar-nos aos mais distantes paraísos. Arrebatado, lia todos seus movimentos em tons de encanto e mais fácil se apaixonava. Pensou no que dizer, mas não disse nada. Aliás, disse, ao respondê-la sem prestar atenção nas palavras e na pergunta solicita dela. Sem perceber que hoje e tão somente hoje ela atenderia a todos os seus pedidos. Ignorou saber pelo turvo fascínio exercido que aqueles vivos olhos castanhos a decifrar suas vontades e sua doce gentileza eram apenas truques para conseguir o seu intento. Vender. Ela era definitivamente o seu número. O da sua camisa. E assim se enganou.

Às vésperas do Natal, voltaria para trocar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O Verbo...

Pai, verso esta oração pois Tu estás nas minhas mãos assim como eu estou nas Tuas. Vives Tu nas minhas palavras assim como em Ti eu também sou verbo. E nos meus olhos, és a semente que confessa a cor dos frutos, o nome de um rio que se rende ao mar, o filho pequeno que abraça a mãe. Pela Tua palavra aprendi a respeitar o inverno, esperar pela primavera e aceitar minhas colheitas; aprendi a ser verão e a voar com as andorinhas. Abençoa-me como abençoas o grão de areia, o vento e as estrelas, pela igual oportunidade de habitar a Tua casa. E que o eterno em mim se anuncie, afastando o veneno do meu sangue, os espinhos das minhas flores, o egoísmo dos meus amores e as lanças das minhas mãos. Torna-me doçura quando eu souber ser só amargo; torna-me cura quando souber ser só destruição; torna-me descanso para vestir todos os meus sonhos e torna-me amor, como resposta para cada pergunta da vida. Conceda-me todas as sombras da floresta para eu caminhar com a minha própria luz. E se eu cair, ferir, morrer, matar, sofrer, perder, errar; perdoa-me com o recomeçar, com o novo, com a coragem, com a gratidão por tudo aquilo que fui e pelo que ainda serei; e também com a certeza de que o Senhor é meu pastor, e nada me faltará.

domingo, 18 de dezembro de 2016

O sol...

O amor revela-se o mais importante começo de nós.
Se fazendo preciso esperarmos
como que distraídos à porta de casa.
Como se nunca 
se ausentasse o sol.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Aconchego...

O meu amor
tem jeito de riacho e bebe da vida com as mãos
tem aconchego de rede
abraço de pracinha de cidade longe
e caminha como se cirandasse.

O meu amor
gosta de brincar no colo preguiçoso das manhãs
é digna de ser borboleta num final de tarde das primaveras
(talvez por isso se assuste tanto com as trovoadas)

O meu amor
tem cheirinho de café, de shampoo e de terra molhada - depende da hora
trança o cabelo como se ajeitasse caminho pro mar.
diz que não canta, mas fala poesia debaixo do chuveiro - eu já ouvi.

O meu amor
antes de deitar, chora porque reza
e chora apenas para continuar feliz.

(À Anna. 16.12.16)

Ao Amor...

Ao anjo que ancorou
em mim
o seu amor

À flor que me beijou
com seu hálito
de céu

À mulher que 
devolveu o peito 
ao seu papel

Ao papel em que
a descrevo um milagre
amanhecida

Ao teu corpo
que lhe conta 
meu corpo
a ser fiel

Aos teus olhos,
alma e peito 
dou-lhes por direito
a minha vida.

(À Anna. 16.12.16)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Nó...

Viver era um nó delicado.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Da dissolução...

caminhar dissolve as dúvidas