sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Ao Amor...

Ao anjo que ancorou
em mim
o seu amor

À flor que me beijou
com seu hálito
de céu

À mulher que 
devolveu o peito 
ao seu papel

Ao papel em que
a descrevo um milagre
amanhecida

Ao teu corpo
que lhe conta 
meu corpo
a ser fiel

Aos teus olhos,
alma e peito 
dou-lhes por direito
a minha vida.

(À Anna. 16.12.16)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Nó...

Viver era um nó delicado.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Da dissolução...

caminhar dissolve as dúvidas

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Cantam...

Sabes, aquieta-se o tempo só para admirar-nos
e nos teus beijos em que renasço outro
e nos teus abraços em que refaço o mundo
calam-se os desnecessários verbos e outras mudas certezas,
pois, de sonhos falamos sobre a pele,
os desejos sopramos pelo ar.

Sabes, na tua boca bebo da própria poesia,

e os meus silêncios cantam todos para ti.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Diluir-se...

poesia para não se perder e
diluir-se no cotidiano
aprendeu a me acontecer
no tempo certo.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Resoluções...

Aquele frio que lhe cortava a alma era vento forte de tempo fechado ou desilusão dos sonhos bonitos de ontem? Pois, insensível aos apelos do porvir, andava cego às gentilezas da vida e surdo às do coração. Abrigou da dor, no seu colo, a própria vida. E cansado de ser mau jardineiro a pisotear as flores que o tempo um dia o brindou com sementes muitas, queria agora curar feridas. Queria voltar a ser quem nunca foi e aprender o que ainda não havia aprendido: saber que no palco da vida ele é seu único e próprio antagonista. Cansado de refletir tristezas, passou a espelhar em si, amor. Há ainda de reconstruir caminhos antigos por onde a serenidade trilhou: a denunciar pelas suas próprias confissões a sua fé e a sua vontade de recolher por lá amor hibernando a despertar faminto. Queria também trazer você pra perto e fazer do seu colo, confessionário. E dos seus olhos, o seu espelho; da paixão, o seu abrigo; e do céu, o seu telhado. Carregava consigo tantas vontades engarrafadas a guardar em vidro bonito o seu carinho para aqueles momentos em que o cansaço mais chama o nosso nome. Salvar-se-ia de vez, daqui pra frente. E sem resoluções a fazer ele só queria se olhar e descobrir quem ele era de verdade.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 16.12.10)

sábado, 10 de dezembro de 2016

Dos (des)apontamentos sobre o amor...

amar é não ser nunca por inteiro 
não ser jamais suficiente: 
presença, tempo, outro. 
sentir a vida demasiado breve 

solução cega de busca para 
o que nos é incompleto 
temor em perder o pouco que se recebe 
e o muito que se ganha. 

medo de ser aniquilado por aquilo 
que o amor não é, 
sobrando-nos para qualquer serventia 
que não o amar. 

é querer morrer mais tarde, 
é precisar morrer mais tarde, 
é querer chegar mais cedo 

atenuar as pressas 
e sentir pressas. 

após sua partida, 
partimos nós, 

tornando inútil a existência do mundo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Embora...

o amor
no meu corpo
habita embora
responda pelo
nome
de minha
amada.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Generosos...

Somos generosos dentro das mentiras que habitamos.
Visto que não saberíamos
ser contrários a isto:
questão de dolorosa sobrevivência.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Para te amar melhor...

ando a salvar-me todo dia nos teus sorrisos.
no amor fiz canção 
a adormecer tuas ausências e 
apagar-me os escuros

deito-me apenas para os desejos estendidos no teu corpo.

às noites, em romaria 
venho visitar tua beleza.

sou um ser habitado por teu nome
procurem-me e nela 
e a mim me encontrarão

templo a dispensar-me as preces. 
não os lençóis.

inventei-te antes para te encontrar

escrevo por isso:
para te amar melhor.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Má proprietária...

Desconfiada e incomodada pelo silêncio, fazia questão de distrair-se com as inevitáveis vozes vindas do interior de si, a dizerem-lhe tudo, explicarem-lhe tanto, falarem demasiado sem resolver-lhe nada. O silêncio lhe era uma angústia porque ouvi-lo seria equivalente a escutar-se. O medo era de que pudesse ouvir sabidas feiuras e insuspeitas virtudes: tanto umas quanto outras jamais bem vindas desde miúda. O silêncio era uma liberdade que não alcançava. A liberdade que dizia não conseguir. A liberdade evitada sem suspeitar que evitava. Sua perteza e já começavam ansiedades e outras distrações. Ouvir-se seria ver-se. Ver-se seria sentir-se. E saber-se. Saber dos ocultos enganos que com a personalidade se confundiam. E despejá-los como inquilinos do próprio peito. 

Má proprietária.