Deus concedeu
para a vida árida e seca
sempre lágrimas
para molhar.
Deus nos deu assim
o alívio
e as esperanças.
terça-feira, 29 de novembro de 2016
domingo, 27 de novembro de 2016
Sem distinção...
A pessoa se atira ao precipício pelos seus próprios tropeços e crê que a vida lhe enviará brancas andorinhas para que numa se segure e, assim, salve-se da queda.
A realidade lhe manda urubus e ela, por isso mesmo, os ignora diante da espera pelo socorro que não enxerga porque crê.
O precipício a engolirá sem distinção de credo.
A realidade lhe manda urubus e ela, por isso mesmo, os ignora diante da espera pelo socorro que não enxerga porque crê.
O precipício a engolirá sem distinção de credo.
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
Tripas...
Disse que aprenderia sobre o amor à força de o observar. Pesquisaria-o como um animal de tripas à mostra. Haveria de o ressuscitar para si. Talvez espere que se acalme o tempo para deitar os olhos sobre o próprio peito despercebido. Cansada de rejeitar o mundo pela anulação, queria o mesmo, mas por conta das felicidades. De boca cheia de silêncios, era mais triste do que nós. Isto por conta da memória que a assombrava como uma velha morta. À espera do significado de não se despedir, andava a corrigir a proposta das lembranças só quando dormia. Desejava ela ter pássaro no lugar das tristezas, para que voasse com a urgência grande de esquecer assuntos. Aprenderia sobre o amor à força de o observar. Como nunca fez: ao fechar os olhos e enxergar a casa excêntrica da sua própria alma. Haveria de a ressuscitar para si.
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
Grande...
Desejava ela ter pássaro no lugar das tristezas,
para que voasse com a urgência grande
de esquecer assuntos.
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
Elogio...
Talvez exista um lugar que negamos haver em nós justamente porque nos pede atenção; e que mais ignoramos quanto mais nos convoca. Um lugar a guardar nossos vazios. Um cativeiro para as nossas rejeições. Um cárcere para todos os medos. Um espaço invisível a desabitar-nos por inteiro desocultado apenas pela inconsciência. A consciência pouco sabe e pouco desconfia. Acredita no que vê. Magoa-se com a palavra. Apaga se ameaçada. Sujeita às interrupções. A inconsciência é o palco em que a vida se ouve mesmo calada. Sabe da lágrima, da culpa, dos nós. Aguarda-nos no sonho, na palavra, no erro. Espera-nos do lado avesso da liberdade. Uma liberdade que preservamos às custas deste lugar que negamos haver em nós e que nos convoca. A liberdade que somente acreditamos. Aquela que não é. Aquela onde nunca estamos.
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
Facebook...
Vou trabalhar, vou à academia, vou à faculdade, vou ao banheiro, vou à balada, vou ao proctologista, vou dormir, vou vomitar. Diretas, indiretas, frases de impacto, correntes, maledicências, incoerências, mimimis, blablablás e mais do mesmo. Gente pedindo paz e gente querendo confusão. Experts em economia, ciências políticas, falta de noção, sociologia, educação, psicologia, clichês, filosofia, babaquice, literatura, egocentrismo, coitadismo e polêmicas. Imagens motivacionais, animaizinhos, piadinhas, fotos posadas e posudas, gente bacanuda para além da inveja e do recalque, sempre por cima da carne seca. Pessoas sempre felizes, amigos para sempre, lugares paradisíacos, festas inesquecíveis, jantares maravilhosos, viagens fantabulásticas. A família da propaganda de margarina, namorados de propaganda de pasta de dente. Fãs instantâneos de quem acabou de morrer. Comentaristas políticos, futebolísticos, religiosos, de teledramaturgia e da vida alheia. Citações do escritor da moda, do pensador da época, poemas açucarados, frases de música engajada e mela-cueca. Briga de egos. Guerra de vaidades. Polêmicas. O politicamente correto. Textões. Textões. Textões. Convites infernais para joguinhos, páginas, comunidades, eventos e para o raio que nos parta. Afetações, intolerâncias e muita, muita burrice. Entusiastas das banalidades e de tragédias. Muitos animais se levando à sério demais e outros tantos bichos não catalogados.
Se nada disso houvesse, nada sobraría(mos).
Cidade fantasma.
Se nada disso houvesse, nada sobraría(mos).
Cidade fantasma.
Silêncios.
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Reluz...
talvez construa o amor
entre as óbvias
coisas às quais não
sabemos dar valor.
tudo bem.
sem o entendermos direito
a beleza sempre
comparece.
por isso,
o amor reluz por dentro da palavra,
do silêncio,
do abraço e
da saudade.
entre as óbvias
coisas às quais não
sabemos dar valor.
tudo bem.
sem o entendermos direito
a beleza sempre
comparece.
por isso,
o amor reluz por dentro da palavra,
do silêncio,
do abraço e
da saudade.
sábado, 12 de novembro de 2016
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Coisa difícil...
buscava o próprio perdão
pelo contínuo erro de permanecer
diante do seu predador
por tão longo tempo.
sobre o perdão: o merecia. sempre.
pena que fazemos da entrada no céu
uma coisa difícil.
pelo contínuo erro de permanecer
diante do seu predador
por tão longo tempo.
sobre o perdão: o merecia. sempre.
pena que fazemos da entrada no céu
uma coisa difícil.
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Dos estilhaços...
Por não lidar com os fantasmas que carrego, mato-me aos poucos, envenenando-me com o que me afogo, anestesiado para o que não sou. Cego-me para dizer que as coisas são cinzas por sentir que não mereço enxergar as cores. E por não conseguir amar quem amo, o destruo abraçado comigo, dirigindo-nos para a violência dos abismos. Pois não há desfecho que não seja tragédia, e não há "durante" que não tenha sido uma farsa. O tempo em mim se repete como castigo. Os ponteiros servem-me apenas para magoar. As virtudes que não sou matam-me por capricho. Sangro pelos medos todos e por espinhos outros que convenientemente nomearam sentimentos.
domingo, 6 de novembro de 2016
Por dentro...
Onde estão as nossas asas, pai? Por que não se é passarinho?
Voa-se por dentro, filha. E este é o nosso maior desejo, embora por vezes nem suspeitamos que seja. Acreditar nas asas é justificativa para lamentarmos sua ausência e por isto permanecer onde estamos.
Voa-se sempre por dentro.
Voa-se por dentro, filha. E este é o nosso maior desejo, embora por vezes nem suspeitamos que seja. Acreditar nas asas é justificativa para lamentarmos sua ausência e por isto permanecer onde estamos.
Voa-se sempre por dentro.
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
Inundou-me...
A ausência maior a que me sujeito é a minha. O único medo que suporto é o alheio. O tempo que tenho está perdido. O pecado que me orgulho não cometi. O espinho que tolero arranha o outro. A cura que conheço é a de terceiros. O único conselho certo não escolhi. A confissão que me sujeito não é verdade. A verdade que confesso já descartei. A única aposta que faço eu já perdi. A única diversão é aquilo que sonhei. A única esperança é o amanhã além daqui.
A única lágrima que permiti me inundei.
A única lágrima que permiti me inundei.
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