quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Coisa difícil...

buscava o próprio perdão
pelo contínuo erro de permanecer
diante do seu predador
por tão longo tempo.

sobre o perdão: o merecia. sempre.

pena que fazemos da entrada no céu
uma coisa difícil.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Dos estilhaços...

Por não lidar com os fantasmas que carrego, mato-me aos poucos, envenenando-me com o que me afogo, anestesiado para o que não sou. Cego-me para dizer que as coisas são cinzas por sentir que não mereço enxergar as cores. E por não conseguir amar quem amo, o destruo abraçado comigo, dirigindo-nos para a violência dos abismos. Pois não há desfecho que não seja tragédia, e não há "durante" que não tenha sido uma farsa. O tempo em mim se repete como castigo. Os ponteiros servem-me apenas para magoar. As virtudes que não sou matam-me por capricho. Sangro pelos medos todos e por espinhos outros que convenientemente nomearam sentimentos.

domingo, 6 de novembro de 2016

Por dentro...

Onde estão as nossas asas, pai? Por que não se é passarinho?

Voa-se por dentro, filha. E este é o nosso maior desejo, embora por vezes nem suspeitamos que seja. Acreditar nas asas é justificativa para lamentarmos sua ausência e por isto permanecer onde estamos.

Voa-se sempre por dentro.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Inundou-me...

A ausência maior a que me sujeito é a minha. O único medo que suporto é o alheio. O tempo que tenho está perdido. O pecado que me orgulho não cometi. O espinho que tolero arranha o outro. A cura que conheço é a de terceiros. O único conselho certo não escolhi. A confissão que me sujeito não é verdade. A verdade que confesso já descartei. A única aposta que faço eu já perdi. A única diversão é aquilo que sonhei. A única esperança é o amanhã além daqui. 

 A única lágrima que permiti me inundei.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Da confusão...

Relacionamos aquilo que entendemos como felicidade às exteriores conquistas que reincidimos. O tempo revela o que por conveniência insistimos não enxergar: esta felicidade se trata apenas de um alívio. Não à toa buscamos repetir a sensação que jamais em nós se instala. Seja através de um novo emprego, um relacionamento, o carro do ano, uma viagem ou um celular e teremos com eles momento de satisfação que logo se dissolverá, continuando nós a procurarmos a felicidade naquilo em que não pode ser encontrada, insistindo no alívio como seu pobre substituto: um elogio que nos façam, um outro relacionamento, uma demonstração de reconhecimento, uma nova compra. Adquirimos, mudamos e conquistamos para obter alívio para uma condição insuficiente. Não há nada ou ninguém que possa dissolver a ânsia e o incômodo que carregamos, senão as revelar como um espelho. Somente nós podemos reconhecer a própria incompletude e um algo ou alguém não poderá completá-la, embora com eles e por eles nos distraiamos, anestesiemos e nos esqueçamos. A felicidade é algo que carregamos mas que ainda não sabemos acessá-la permanentemente. É possível que quando a alcançarmos venhamos a compreender a futilidade das nossas repetições e insistências. A felicidade é o que buscamos, embora a confudamos facilmente com euforia, excitação, inclusive ansiedade. Ela é independente do outro ou de qualquer objeto - isto é, da realidade exterior - e sim relacionada a nós e às nossas interiores dimensões. Eis a sutil diferença que toda diferença faz.

domingo, 30 de outubro de 2016

Das pedras...

Com quanta força e com qual intensidade precisa a vida se chocar em nós para despertarmos das ilusões? Será preciso ardermos por inteiro para interromper caminhos que não aceitam nossos pés nem o nosso coração? Quão inevitável violência cabe a nos aguçar quando nos arrasta para sempre-longe dos nossos habituais confortos? A flor carece apenas da mais sutil mudança de luz ou umidade para acompanhar o tempo e as estações. O homem é o irmão mais velho das pedras.

(Do meu livro: "A Ilha de um homem só" da Editora Penalux)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Poemetimize...

...
Nasceu.
O lançamento do projeto fruto da ideia de costurar a literatura ao seu encontro mais elegante.

A caligrafia dos gestos e dos sonhos que todos carregamos.
A criação, o estilo e as narrativas de que todos somos feitos.

'Poemetimize' é isto!
 
Aos olhos, o convite.

É tempo de se dar de presente a literatura no próprio corpo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Não era nada...

O medo era como sonhar sempre com abismos. Contrariava coragens quando adormecia. E na beirada de si, via-se jovem destemida a cair pelas incertezas que tinha. Jogava-se toda a noite entre os silêncios do quarto e do corpo aos abismos que lhe convocavam. Sonhava com as verdades que não alcançava. O despertar obrigava-lhe reconhecer coragens para o cotidiano duro que a impedia de sonhar. A coragem era, na verdade, a queda e o sonho. 

E o medo, não era nada.

(Guilherme Antunes & Carolina Ruiz)

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sempre por pouco...

Ela morre de medo de poder ser ela mesma. Ela morre de medo de se encontrar e por isso arruma todas as desculpas para continuar onde está. A sua tristeza é por reconhecer-se apenas diante do espelho ou de um elogio qualquer. Contradizer-se é a única coisa que sabe: para os outros lhe sobra confiança e direção, para dentro os seus vazios e angústias. A dizer-se sempre certa e sentir-se sempre errada. A sentir-se numa permanente dívida consigo pelo que não havia sido e por quem se permitira ser. A sentir-se em dívida consigo porque sempre lhe falta, porque nunca lhe é, porque sempre por pouco. Ela não lembra como nasceu. O que sabe é o que lembra e o que lembra é estar por aqui desde há muito tempo. Como num sonho em que simplesmente se está. Agarra-se às memórias como jeito de saber-se, como algo para contar aos outros e dar-lhe consistência. Apega-se ao que conta arrastando o passado que acredita ter sido como tal para que hoje ela própria possa ser. E engana-se por isso, ao contar a si do que guardou com partes manchadas pelo que doeu ou remendadas pelo que preferiu esquecer e, então, assim lembrar. Ela é protagonista do que não existe mais, pois está sempre a mudar. Ela não é mais a mesma, nem pode ser - ainda que tentasse. Mas vive presa aos enganos de ontem.

domingo, 23 de outubro de 2016

E que não perdôo...

O que foi que fizemos para sermos aquilo que não esperávamos? O que escolhemos para sentirmos o que não queríamos? O que nos aconteceu neste meio do caminho sem meios termos em que faltamos tanto para chegarmos a nós? Às casas abandonadas retorno como se pudesse corrigir a rota das felicidades ao encontrar-me comigo. Mas, com quem me encontro senão com fantasmas e agressões? 

Ameaço constantemente o meu futuro por conta do que sou. 
E que não perdôo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Dueto...

O que tenho aos poucos compreendido é a dinâmica do perdoar e da gratidão. Ambos urgentes. Ambos necessários. Ambos essenciais. Onde o primeiro se encontra e o segundo nos alcança pouco depois. Sem a gratidão sincera ou o perdão por inteiro e impossível será dissolvermos os nós que ainda nos prendem ao passado. Carregando-o, inocentemente o repetiremos de diferentes formas e projeções, atraindo-o através de outros personagens e cenários aquilo que ainda não dispensamos. Sem a gratidão e o perdão para ultrapassarmos, caminharemos com o peso do que há muito não nos serve, sendo arrastados sempre para trás. Seremos casa povoada de fantasmas a cobrar-nos a liberdade que a eles não demos dentro do peito. Ao libertá-los pelo perdão, ao deixá-los na memória quando gratos, o presente será pela primeira vez, então, inédito.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Cravada...

A palavra se atravessada na garganta, cravada no peito, amarga na boca, embrulhada no estômago, ressecada nos olhos, empoeirada no tempo, magoada no ontem, dolorida na alma, deverá ser tratada com as urgências necessárias e coragens essenciais para a sua despedida.

Do contrário vira doença,
cárcere de encantos
e milagres.