Relacionamos aquilo que entendemos como felicidade às exteriores conquistas que reincidimos. O tempo revela o que por conveniência insistimos não enxergar: esta felicidade se trata apenas de um alívio. Não à toa buscamos repetir a sensação que jamais em nós se instala. Seja através de um novo emprego, um relacionamento, o carro do ano, uma viagem ou um celular e teremos com eles momento de satisfação que logo se dissolverá, continuando nós a procurarmos a felicidade naquilo em que não pode ser encontrada, insistindo no alívio como seu pobre substituto: um elogio que nos façam, um outro relacionamento, uma demonstração de reconhecimento, uma nova compra. Adquirimos, mudamos e conquistamos para obter alívio para uma condição insuficiente. Não há nada ou ninguém que possa dissolver a ânsia e o incômodo que carregamos, senão as revelar como um espelho. Somente nós podemos reconhecer a própria incompletude e um algo ou alguém não poderá completá-la, embora com eles e por eles nos distraiamos, anestesiemos e nos esqueçamos. A felicidade é algo que carregamos mas que ainda não sabemos acessá-la permanentemente. É possível que quando a alcançarmos venhamos a compreender a futilidade das nossas repetições e insistências. A felicidade é o que buscamos, embora a confudamos facilmente com euforia, excitação, inclusive ansiedade. Ela é independente do outro ou de qualquer objeto - isto é, da realidade exterior - e sim relacionada a nós e às nossas interiores dimensões. Eis a sutil diferença que toda diferença faz.
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
domingo, 30 de outubro de 2016
Das pedras...
Com quanta força e com qual intensidade precisa a vida se chocar em nós para despertarmos das ilusões? Será preciso ardermos por inteiro para interromper caminhos que não aceitam nossos pés nem o nosso coração? Quão inevitável violência cabe a nos aguçar quando nos arrasta para sempre-longe dos nossos habituais confortos? A flor carece apenas da mais sutil mudança de luz ou umidade para acompanhar o tempo e as estações. O homem é o irmão mais velho das pedras.
(Do meu livro: "A Ilha de um homem só" da Editora Penalux)
(Do meu livro: "A Ilha de um homem só" da Editora Penalux)
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
Poemetimize...
...
Nasceu.
Nasceu.
O lançamento do projeto fruto da ideia de costurar a literatura ao seu encontro mais elegante.
A caligrafia dos gestos e dos sonhos que todos carregamos.
A criação, o estilo e as narrativas de que todos somos feitos.
'Poemetimize' é isto!
A caligrafia dos gestos e dos sonhos que todos carregamos.
A criação, o estilo e as narrativas de que todos somos feitos.
'Poemetimize' é isto!
Aos olhos, o convite.
É tempo de se dar de presente a literatura no próprio corpo.
É tempo de se dar de presente a literatura no próprio corpo.
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
Não era nada...
O medo era como sonhar sempre com abismos. Contrariava coragens quando adormecia. E na beirada de si, via-se jovem destemida a cair pelas incertezas que tinha. Jogava-se toda a noite entre os silêncios do quarto e do corpo aos abismos que lhe convocavam. Sonhava com as verdades que não alcançava. O despertar obrigava-lhe reconhecer coragens para o cotidiano duro que a impedia de sonhar. A coragem era, na verdade, a queda e o sonho.
E o medo, não era nada.
(Guilherme Antunes & Carolina Ruiz)
terça-feira, 25 de outubro de 2016
Sempre por pouco...
Ela morre de medo de poder ser ela mesma. Ela morre de medo de se encontrar e por isso arruma todas as desculpas para continuar onde está. A sua tristeza é por reconhecer-se apenas diante do espelho ou de um elogio qualquer. Contradizer-se é a única coisa que sabe: para os outros lhe sobra confiança e direção, para dentro os seus vazios e angústias. A dizer-se sempre certa e sentir-se sempre errada. A sentir-se numa permanente dívida consigo pelo que não havia sido e por quem se permitira ser. A sentir-se em dívida consigo porque sempre lhe falta, porque nunca lhe é, porque sempre por pouco. Ela não lembra como nasceu. O que sabe é o que lembra e o que lembra é estar por aqui desde há muito tempo. Como num sonho em que simplesmente se está. Agarra-se às memórias como jeito de saber-se, como algo para contar aos outros e dar-lhe consistência. Apega-se ao que conta arrastando o passado que acredita ter sido como tal para que hoje ela própria possa ser. E engana-se por isso, ao contar a si do que guardou com partes manchadas pelo que doeu ou remendadas pelo que preferiu esquecer e, então, assim lembrar. Ela é protagonista do que não existe mais, pois está sempre a mudar. Ela não é mais a mesma, nem pode ser - ainda que tentasse. Mas vive presa aos enganos de ontem.
domingo, 23 de outubro de 2016
E que não perdôo...
O que foi que fizemos para sermos aquilo que não esperávamos? O que escolhemos para sentirmos o que não queríamos? O que nos aconteceu neste meio do caminho sem meios termos em que faltamos tanto para chegarmos a nós? Às casas abandonadas retorno como se pudesse corrigir a rota das felicidades ao encontrar-me comigo. Mas, com quem me encontro senão com fantasmas e agressões?
Ameaço constantemente o meu futuro por conta do que sou.
E que não perdôo.
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
Dueto...
O que tenho aos poucos compreendido é a dinâmica do perdoar e da gratidão. Ambos urgentes. Ambos necessários. Ambos essenciais. Onde o primeiro se encontra e o segundo nos alcança pouco depois. Sem a gratidão sincera ou o perdão por inteiro e impossível será dissolvermos os nós que ainda nos prendem ao passado. Carregando-o, inocentemente o repetiremos de diferentes formas e projeções, atraindo-o através de outros personagens e cenários aquilo que ainda não dispensamos. Sem a gratidão e o perdão para ultrapassarmos, caminharemos com o peso do que há muito não nos serve, sendo arrastados sempre para trás. Seremos casa povoada de fantasmas a cobrar-nos a liberdade que a eles não demos dentro do peito. Ao libertá-los pelo perdão, ao deixá-los na memória quando gratos, o presente será pela primeira vez, então, inédito.
terça-feira, 18 de outubro de 2016
Cravada...
A palavra se atravessada na garganta, cravada no peito, amarga na boca, embrulhada no estômago, ressecada nos olhos, empoeirada no tempo, magoada no ontem, dolorida na alma, deverá ser tratada com as urgências necessárias e coragens essenciais para a sua despedida.
Do contrário vira doença,
cárcere de encantos
e milagres.
Do contrário vira doença,
cárcere de encantos
e milagres.
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Dissolução...
partilha das minhas raízes com os lobos
arranca-me os trevos e toda a sorte
escava meu lugar na terra
devora-me, antes, as partes na tinta negra das noites
enamora dos meus cansaços
humilha-me com tuas ásperas palavras
engana-me com teus úmidos olhos
crava-me as feridas e a dependência
decreta-me a falência dos órgãos e da lucidez
diz-me burro, pouco, insuficiente
sacrifica-me aos teus deuses, pobres diabos e egoísmos
desfaz-me de mim a cada escárnio
despeça-se e deixa-me sozinho junto às sarjetas
só conserva a tua própria vida
para que por ela eu me torne outro
e sendo outro, amanhã
eu jamais te reconheça.
arranca-me os trevos e toda a sorte
escava meu lugar na terra
devora-me, antes, as partes na tinta negra das noites
enamora dos meus cansaços
humilha-me com tuas ásperas palavras
engana-me com teus úmidos olhos
crava-me as feridas e a dependência
decreta-me a falência dos órgãos e da lucidez
diz-me burro, pouco, insuficiente
sacrifica-me aos teus deuses, pobres diabos e egoísmos
desfaz-me de mim a cada escárnio
despeça-se e deixa-me sozinho junto às sarjetas
só conserva a tua própria vida
para que por ela eu me torne outro
e sendo outro, amanhã
eu jamais te reconheça.
sábado, 15 de outubro de 2016
Dique...
Diante do próprio amadurecimento, buscamos fazer o que é melhor - ainda que nitidamente não seja. Tornamo-nos inconscientes por liberalidade, quando queremos certezas que a vida e o outro não poderão nos dar. Queremos garantias de que seremos amados amanhã, de que não seremos deixados antes do café, de que as coisas estarão como gostaríamos que estivessem. Fazemos escolhas cruéis sem nos darmos conta, ajustando-nos à rotina e ao morno, à mágoa e ao mesmo. Ignoramos verdades que mudam conforme o tempo e os sentimentos. Queremos engessar promessas, laços e permanências. Queremos o que não nos é possível. Assim, permitimo-nos aceitar o que antes jamais aceitaríamos, em nome da convivência e de uma falsa sensação de segurança. Assim, doemos em silêncio porque garantimos o jantar a dois. Assim, doemos em silêncio para evitarmos dores maiores no palco que ainda nos aguarda. Adiamos tragédias porque acreditamos que hoje não é o dia para se estourar o dique.
Apenas adiamos.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
A própria luz...
A fragilidade da vida oculta segredos e inteligências antigas. Até a fundura do homem e do tempo, depois de contornado o engano de haver alguma alma estragada, suspeita-se que a consistência é aquela que não se vê. O amor desfeito revela apenas o quanto há dentro para habitar amor. As dúvidas contam-nos sobre o compromisso com a verdade. O medo aponta-nos ser o guardião do próprio destemor. A fragilidade não nos apronta caprichos, não nos guia ao tropeço ou à quietude da dor. Devemos discernir pelos contrastes: a ausência de pulsação fala-nos sobre o quanto ainda há para pulsar. A fé não será dada pela certeza, mas por sua falta. Protestamos por não nos sabermos muito valentes. A confissão é que estamos à mercê das interiores sombras que nos desabitam e somente delas. Isto porque para cada uma há de termos a nossa própria luz.
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