domingo, 23 de outubro de 2016

E que não perdôo...

O que foi que fizemos para sermos aquilo que não esperávamos? O que escolhemos para sentirmos o que não queríamos? O que nos aconteceu neste meio do caminho sem meios termos em que faltamos tanto para chegarmos a nós? Às casas abandonadas retorno como se pudesse corrigir a rota das felicidades ao encontrar-me comigo. Mas, com quem me encontro senão com fantasmas e agressões? 

Ameaço constantemente o meu futuro por conta do que sou. 
E que não perdôo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Dueto...

O que tenho aos poucos compreendido é a dinâmica do perdoar e da gratidão. Ambos urgentes. Ambos necessários. Ambos essenciais. Onde o primeiro se encontra e o segundo nos alcança pouco depois. Sem a gratidão sincera ou o perdão por inteiro e impossível será dissolvermos os nós que ainda nos prendem ao passado. Carregando-o, inocentemente o repetiremos de diferentes formas e projeções, atraindo-o através de outros personagens e cenários aquilo que ainda não dispensamos. Sem a gratidão e o perdão para ultrapassarmos, caminharemos com o peso do que há muito não nos serve, sendo arrastados sempre para trás. Seremos casa povoada de fantasmas a cobrar-nos a liberdade que a eles não demos dentro do peito. Ao libertá-los pelo perdão, ao deixá-los na memória quando gratos, o presente será pela primeira vez, então, inédito.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Cravada...

A palavra se atravessada na garganta, cravada no peito, amarga na boca, embrulhada no estômago, ressecada nos olhos, empoeirada no tempo, magoada no ontem, dolorida na alma, deverá ser tratada com as urgências necessárias e coragens essenciais para a sua despedida.

Do contrário vira doença,
cárcere de encantos
e milagres.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Dissolução...

partilha das minhas raízes com os lobos
arranca-me os trevos e toda a sorte
escava meu lugar na terra
devora-me, antes, as partes na tinta negra das noites
enamora dos meus cansaços
humilha-me com tuas ásperas palavras
engana-me com teus úmidos olhos
crava-me as feridas e a dependência
decreta-me a falência dos órgãos e da lucidez
diz-me burro, pouco, insuficiente
sacrifica-me aos teus deuses, pobres diabos e egoísmos
desfaz-me de mim a cada escárnio
despeça-se e deixa-me sozinho junto às sarjetas

só conserva a tua própria vida
para que por ela eu me torne outro
e sendo outro, amanhã
eu jamais te reconheça.

sábado, 15 de outubro de 2016

Dique...

Diante do próprio amadurecimento, buscamos fazer o que é melhor - ainda que nitidamente não seja. Tornamo-nos inconscientes por liberalidade, quando queremos certezas que a vida e o outro não poderão nos dar. Queremos garantias de que seremos amados amanhã, de que não seremos deixados antes do café, de que as coisas estarão como gostaríamos que estivessem. Fazemos escolhas cruéis sem nos darmos conta, ajustando-nos à rotina e ao morno, à mágoa e ao mesmo. Ignoramos verdades que mudam conforme o tempo e os sentimentos. Queremos engessar promessas, laços e permanências. Queremos o que não nos é possível. Assim, permitimo-nos aceitar o que antes jamais aceitaríamos, em nome da convivência e de uma falsa sensação de segurança. Assim, doemos em silêncio porque garantimos o jantar a dois. Assim, doemos em silêncio para evitarmos dores maiores no palco que ainda nos aguarda. Adiamos tragédias porque acreditamos que hoje não é o dia para se estourar o dique.

Apenas adiamos.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Radiografia...

[...] deixou de lado os noticiários, pois, para que soubesse das más notícias que nos leva e traz o tempo, bastava que lesse a radiografia dos seus pacientes.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A própria luz...

A fragilidade da vida oculta segredos e inteligências antigas. Até a fundura do homem e do tempo, depois de contornado o engano de haver alguma alma estragada, suspeita-se que a consistência é aquela que não se vê. O amor desfeito revela apenas o quanto há dentro para habitar amor. As dúvidas contam-nos sobre o compromisso com a verdade. O medo aponta-nos ser o guardião do próprio destemor. A fragilidade não nos apronta caprichos, não nos guia ao tropeço ou à quietude da dor. Devemos discernir pelos contrastes: a ausência de pulsação fala-nos sobre o quanto ainda há para pulsar. A fé não será dada pela certeza, mas por sua falta. Protestamos por não nos sabermos muito valentes. A confissão é que estamos à mercê das interiores sombras que nos desabitam e somente delas. Isto porque para cada uma há de termos a nossa própria luz.

sábado, 8 de outubro de 2016

Prateleiras...

Acreditamos que as nossas opiniões são resultado de anos de ponderações e análises racionais quando, de fato, são fruto de informações que confirmam aquilo que acreditamos, ao mesmo tempo que temos por facilidade ignorar conteúdos que desafiam o que já conosco carregamos.

Queremos combustíveis para as nossas crenças: sites, palestras, livros, portais, pesquisas, opiniões que pré filtrem o mundo para unir as visões de mundo existentes. Nós os consumimos não apenas pela informação, mas pela confirmação que nos dão a sentirmo-nos consistentes.

Há uma tendência em procurarmos por informações que confirmem o que somos e como enxergamos a realidade, pelo desejo de nos sentirmos certos o tempo inteiro - ainda que venhamos a negar! - e por conta do desejo de nos vermos coerentes sob a luz que nos projetamos. Isto se chama "viés da confirmação".

As prateleiras da sua estante e os históricos do seu navegador são um resultado direto disto.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Quão cegos...

Queremos vender a verdade que construímos. Queremos vender a imagem que moldamos. Queremos vender, e que nos comprem. Que nos aceitem para que nos aceitemos, que nos amem para que nos amemos. Invertemos a ordem condenando-nos às superfícies. A profundidade, ignoramos pela conveniência dos medos. Sabermo-nos frágeis, raivosos, dependentes, carentes - ausentes de nós - leva-nos a convocar ansiedades, compulsões e demais distrações para não lidarmos com as dores e monstros que carregamos calados para que não nos ouçam e não nos revelem, ainda que permaneçamos nós os seus reféns e eles sob o risco das suas próprias rebeliões. O outro será sempre facilitador para nossas verdades. O outro convida-nos à nós mesmos como espelho que comumente recusamos ao acusá-los quando neles nos reconhecemos. A culpa será sempre do outro, a responsabilidade jamais será minha. Assim, pularemos de galho em galho, de amor em amor, e tudo para não sermos flagrados por aquilo que somos. Aceitamos metade negando a outra, vivendo menos sem saber que menos vivemos.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Outro dia...

A vida é uma desobediência. Uma falta de respeito. Uma afronta. Um convite. Uma pornografia. Um recato. Um namoro. Um revide. Um poema. Um amor com defeito. O poente. Os teus cabelos. Um café. O desamparo. Outro dia.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Para medicar-se...

Temos por hábito medicar tristezas e excessos da alma quando esta nos assusta. Isto pois a consciência se mais abundante revela-se em nós sua própria curteza. Medicamo-nos por conta dos paradoxos. Ansiosos para tornarmo-nos menos mortos mas sem vivermos por completo, e a tanto fugir do que sofremos que com o sofrimento nos encontramos: a vida decidimos então não poder andar. Nós, atrapalhados de sermos gente, para as urgências da cabeça e do corpo anestesiamos a cabeça e o corpo, agravando as distâncias entre o que somos. A religião, o poema, o remédio são formas de boa fé. De insistências. De se perseverar para ocupar nossos amanhãs. Isto porque nada acontece à revelia do amor ou da morte. Mas, por mau hábito frequentamos os destinos já medicados para as tristezas e para os excessos. E tão pouca gente consegue ser grande no tamanho da alma. Teimamos a contar-nos de nós coisas admiráveis pelo receio de nada se ter de admirável. Por isto, enganados pelo que acreditamos e nunca pelo que somos, adoecemos verdadeiramente de profundas e quase fatais tristezas. 

Coisa esta, sim, para medicar-se.

sábado, 1 de outubro de 2016

Aniversário...

Há exato um ano eu vim a morrer. Com a deselegância de um afogado, soube de minha morte como não soube da minha vida. Vim a perecer pelo desespero de quem perdeu a si mesmo sem esperanças por reaver-me. Morri com a pouca dignidade que juntei para viver. A falência das minhas verdades e o colapso das minhas mentiras decretaram-me o óbito. Sujeitei-me cortar nos próprios estilhaços pelo abismo que criei ao atirar-me junto aos futuros. Morri sem anúncios, avisos ou suspeitas: como indigente, calei-me pela vergonha de haver morrido. Calado por não haver aprendido o perdão. Calado por não haver sido fiel ao peito. Calado pelo passado atravessado à garganta. Calado por ver-me trancado à minha particular caixa de Pandora. Adoeci da morte que não planejei para curar-me da vida que não vivi. Há exato um ano que venho eu a renascer. Com a deselegância de um homem sempre atrasado; como promessa que se carrega para cumprir-se. Renasço entre às primeiras horas dos meus amanhãs. Renasço entre os medos que enfrento por ter me assustado quando morri; entre os sonhos estranhos que noturnamente despeço; entre as ilusões que cotidianamente despedaço; entre as sombras que abraço e as verdades que desminto. Renasço por haver feito as pazes com a lucidez. Renasço por haver-me tempo para ser outro no espelho que me vejo. Renasço carregando as dores todas de um parto reincidente. Renasço por dispensar anjos e demônios que aguardam-me desistente. Não o sou. Não o serei. Renasço porque seria-me pouco manter-me morto. Renasço por não haver saída ou fuga senão renascer. Aniversario a minha morte porque tenho vida para isto. E hoje sei, ando a morrer um pouco a cada dia para poder viver. Viver melhor.