segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A própria luz...

A fragilidade da vida oculta segredos e inteligências antigas. Até a fundura do homem e do tempo, depois de contornado o engano de haver alguma alma estragada, suspeita-se que a consistência é aquela que não se vê. O amor desfeito revela apenas o quanto há dentro para habitar amor. As dúvidas contam-nos sobre o compromisso com a verdade. O medo aponta-nos ser o guardião do próprio destemor. A fragilidade não nos apronta caprichos, não nos guia ao tropeço ou à quietude da dor. Devemos discernir pelos contrastes: a ausência de pulsação fala-nos sobre o quanto ainda há para pulsar. A fé não será dada pela certeza, mas por sua falta. Protestamos por não nos sabermos muito valentes. A confissão é que estamos à mercê das interiores sombras que nos desabitam e somente delas. Isto porque para cada uma há de termos a nossa própria luz.

sábado, 8 de outubro de 2016

Prateleiras...

Acreditamos que as nossas opiniões são resultado de anos de ponderações e análises racionais quando, de fato, são fruto de informações que confirmam aquilo que acreditamos, ao mesmo tempo que temos por facilidade ignorar conteúdos que desafiam o que já conosco carregamos.

Queremos combustíveis para as nossas crenças: sites, palestras, livros, portais, pesquisas, opiniões que pré filtrem o mundo para unir as visões de mundo existentes. Nós os consumimos não apenas pela informação, mas pela confirmação que nos dão a sentirmo-nos consistentes.

Há uma tendência em procurarmos por informações que confirmem o que somos e como enxergamos a realidade, pelo desejo de nos sentirmos certos o tempo inteiro - ainda que venhamos a negar! - e por conta do desejo de nos vermos coerentes sob a luz que nos projetamos. Isto se chama "viés da confirmação".

As prateleiras da sua estante e os históricos do seu navegador são um resultado direto disto.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Quão cegos...

Queremos vender a verdade que construímos. Queremos vender a imagem que moldamos. Queremos vender, e que nos comprem. Que nos aceitem para que nos aceitemos, que nos amem para que nos amemos. Invertemos a ordem condenando-nos às superfícies. A profundidade, ignoramos pela conveniência dos medos. Sabermo-nos frágeis, raivosos, dependentes, carentes - ausentes de nós - leva-nos a convocar ansiedades, compulsões e demais distrações para não lidarmos com as dores e monstros que carregamos calados para que não nos ouçam e não nos revelem, ainda que permaneçamos nós os seus reféns e eles sob o risco das suas próprias rebeliões. O outro será sempre facilitador para nossas verdades. O outro convida-nos à nós mesmos como espelho que comumente recusamos ao acusá-los quando neles nos reconhecemos. A culpa será sempre do outro, a responsabilidade jamais será minha. Assim, pularemos de galho em galho, de amor em amor, e tudo para não sermos flagrados por aquilo que somos. Aceitamos metade negando a outra, vivendo menos sem saber que menos vivemos.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Outro dia...

A vida é uma desobediência. Uma falta de respeito. Uma afronta. Um convite. Uma pornografia. Um recato. Um namoro. Um revide. Um poema. Um amor com defeito. O poente. Os teus cabelos. Um café. O desamparo. Outro dia.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Para medicar-se...

Temos por hábito medicar tristezas e excessos da alma quando esta nos assusta. Isto pois a consciência se mais abundante revela-se em nós sua própria curteza. Medicamo-nos por conta dos paradoxos. Ansiosos para tornarmo-nos menos mortos mas sem vivermos por completo, e a tanto fugir do que sofremos que com o sofrimento nos encontramos: a vida decidimos então não poder andar. Nós, atrapalhados de sermos gente, para as urgências da cabeça e do corpo anestesiamos a cabeça e o corpo, agravando as distâncias entre o que somos. A religião, o poema, o remédio são formas de boa fé. De insistências. De se perseverar para ocupar nossos amanhãs. Isto porque nada acontece à revelia do amor ou da morte. Mas, por mau hábito frequentamos os destinos já medicados para as tristezas e para os excessos. E tão pouca gente consegue ser grande no tamanho da alma. Teimamos a contar-nos de nós coisas admiráveis pelo receio de nada se ter de admirável. Por isto, enganados pelo que acreditamos e nunca pelo que somos, adoecemos verdadeiramente de profundas e quase fatais tristezas. 

Coisa esta, sim, para medicar-se.

sábado, 1 de outubro de 2016

Aniversário...

Há exato um ano eu vim a morrer. Com a deselegância de um afogado, soube de minha morte como não soube da minha vida. Vim a perecer pelo desespero de quem perdeu a si mesmo sem esperanças por reaver-me. Morri com a pouca dignidade que juntei para viver. A falência das minhas verdades e o colapso das minhas mentiras decretaram-me o óbito. Sujeitei-me cortar nos próprios estilhaços pelo abismo que criei ao atirar-me junto aos futuros. Morri sem anúncios, avisos ou suspeitas: como indigente, calei-me pela vergonha de haver morrido. Calado por não haver aprendido o perdão. Calado por não haver sido fiel ao peito. Calado pelo passado atravessado à garganta. Calado por ver-me trancado à minha particular caixa de Pandora. Adoeci da morte que não planejei para curar-me da vida que não vivi. Há exato um ano que venho eu a renascer. Com a deselegância de um homem sempre atrasado; como promessa que se carrega para cumprir-se. Renasço entre às primeiras horas dos meus amanhãs. Renasço entre os medos que enfrento por ter me assustado quando morri; entre os sonhos estranhos que noturnamente despeço; entre as ilusões que cotidianamente despedaço; entre as sombras que abraço e as verdades que desminto. Renasço por haver feito as pazes com a lucidez. Renasço por haver-me tempo para ser outro no espelho que me vejo. Renasço carregando as dores todas de um parto reincidente. Renasço por dispensar anjos e demônios que aguardam-me desistente. Não o sou. Não o serei. Renasço porque seria-me pouco manter-me morto. Renasço por não haver saída ou fuga senão renascer. Aniversario a minha morte porque tenho vida para isto. E hoje sei, ando a morrer um pouco a cada dia para poder viver. Viver melhor.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

As saudades curtas...

Parecem estúpidas as saudades curtas. São certamente insensíveis e solipsistas, perante as saudades longas e profundas, que não têm cura nem, por serem insolúveis, têm a esperança de, um dia, deixarem de existir. São saudades de uma hora, de um almoço perdido, de uma tarde interrompida. Parecem irracionais e ingratas, estas saudades curtas, de que sofrem as pessoas apaixonadas e felizes ou infelizes. Mas não são. Daqui a um X número de horas, vou morrer. Daqui a um Y número de horas, vai morrer a Maria João. Morra quem morra, com a maior ou mais pequena das antecedências, o certo é que o tempo da vida e da saudade está contado. Cada hora que não estou com ela está para sempre, definitivamente, finitamente perdida. E é daí que vêm as saudades curtas do amor, que tomam cada momento por uma vida. Só por amor se vive assim.

(Miguel Esteves Cardoso)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

O próprio peito...

Comprometidos com o tempo passado, presos ao nosso próprio futuro: entre todas as possibilidades e possíveis combinações, nós somos o que poderíamos ser. Não nos sendo possível sermos outros, aceitemos as versões que compõem a nossa história, aceitemos os lados e avessos que ora carregamos ora nos carregam. Ao navegarmos no rio do tempo, sopremos nós a favor ou rememos contra, somos e seremos sempre o nosso próprio destino.

Assim, sejamos generosos conosco, ainda que nos percamos entre as nossas marés. O melhor lugar para aportarmos será, se permitirmos, em nosso peito - a nossa casa.

domingo, 25 de setembro de 2016

Quem...

Quem ama, veste-se de poesia como o jardim se veste de flores. Quem não sabe do Amor, veste-se de palavras como o homem envergonhado veste sua velha roupa. Quem ama, põe-se de cores como o sol que colore o céu ao final da tarde. Quem não entende do Amor, enfeita-se de cores para gritar qualquer coisa que em si não lhe pertence. Quem não ama, contenta-se com esquinas. E quem sabe amar, sabe que o mundo inteiro lhe pertence.

(Do meu livro: "A Ilha de um homem só" da Editora Penalux)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Compra!

Tem gente que compra.
Tem gente que não quer comprar.
Tem gente que diz que vai comprar e compra.
Tem gente que diz que vai comprar e não compra.
Tem gente que diz que vai comprar e esquece.
Tem gente que diz que vai comprar e desaparece.
Tem gente que se enrola pra comprar, mas compra.
Tem gente que te enrola pra comprar e não compra.
Tem gente que jura de pé junto que vai comprar e some.
Tem gente que diz que só pro outro mês, senão morre de fome.


Dedicatória bacanuda.
Preço bacanudo.
Conteúdo, capa, envelope, tudo bacanudo.


A quem interessar, chama-me:
guglicardoso@gmail.com
http://www.facebook.com/ailhadeumhomemso
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Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós.

(Franz Kafka)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A meu respeito...

A alegria é um corredor que distraído atravesso. Escrevo para expandir-me do lugar que me encontro: jeito de viver duas vezes um pouco melhor na segunda. Reescrevo-me conforme o passado que ainda me dita o que não sou, pois, o que é o agora senão uma reedição incompleta de mim?  Na ordem rebelde das coisas, fixado na teimosia e na incompreensão, insisto em ressuscitar o que deveria manter morto. Pesa-me tudo aquilo que dou vida e revisito: cenários, diálogos, tristezas, monstros que sabem horríveis verdades a meu respeito. E o medo que não atravesso é o medo que alimento. O medo que alimento é o medo que tenho de atravessar-me. Mantenho-me então imóvel, a espera de que a solução prenda-se à tempo nas teias de vida que sem querer acabei por criar.

E paciente - o silêncio desconsertado de tudo ensaia-me a coragem no poema.

sábado, 17 de setembro de 2016

Será?

não duvide,
contrarie, argumente
ponha em xeque
a verdade de um poema.

porque mesmo não o sendo verdadeiro,
real, factível
será todo ele sincero:

e isto
porque feito de sangue
porque feito de nuvem
porque feito de sonho

isto
porque sempre
inocente.