sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Quão cegos...

Queremos vender a verdade que construímos. Queremos vender a imagem que moldamos. Queremos vender, e que nos comprem. Que nos aceitem para que nos aceitemos, que nos amem para que nos amemos. Invertemos a ordem condenando-nos às superfícies. A profundidade, ignoramos pela conveniência dos medos. Sabermo-nos frágeis, raivosos, dependentes, carentes - ausentes de nós - leva-nos a convocar ansiedades, compulsões e demais distrações para não lidarmos com as dores e monstros que carregamos calados para que não nos ouçam e não nos revelem, ainda que permaneçamos nós os seus reféns e eles sob o risco das suas próprias rebeliões. O outro será sempre facilitador para nossas verdades. O outro convida-nos à nós mesmos como espelho que comumente recusamos ao acusá-los quando neles nos reconhecemos. A culpa será sempre do outro, a responsabilidade jamais será minha. Assim, pularemos de galho em galho, de amor em amor, e tudo para não sermos flagrados por aquilo que somos. Aceitamos metade negando a outra, vivendo menos sem saber que menos vivemos.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Outro dia...

A vida é uma desobediência. Uma falta de respeito. Uma afronta. Um convite. Uma pornografia. Um recato. Um namoro. Um revide. Um poema. Um amor com defeito. O poente. Os teus cabelos. Um café. O desamparo. Outro dia.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Para medicar-se...

Temos por hábito medicar tristezas e excessos da alma quando esta nos assusta. Isto pois a consciência se mais abundante revela-se em nós sua própria curteza. Medicamo-nos por conta dos paradoxos. Ansiosos para tornarmo-nos menos mortos mas sem vivermos por completo, e a tanto fugir do que sofremos que com o sofrimento nos encontramos: a vida decidimos então não poder andar. Nós, atrapalhados de sermos gente, para as urgências da cabeça e do corpo anestesiamos a cabeça e o corpo, agravando as distâncias entre o que somos. A religião, o poema, o remédio são formas de boa fé. De insistências. De se perseverar para ocupar nossos amanhãs. Isto porque nada acontece à revelia do amor ou da morte. Mas, por mau hábito frequentamos os destinos já medicados para as tristezas e para os excessos. E tão pouca gente consegue ser grande no tamanho da alma. Teimamos a contar-nos de nós coisas admiráveis pelo receio de nada se ter de admirável. Por isto, enganados pelo que acreditamos e nunca pelo que somos, adoecemos verdadeiramente de profundas e quase fatais tristezas. 

Coisa esta, sim, para medicar-se.

sábado, 1 de outubro de 2016

Aniversário...

Há exato um ano eu vim a morrer. Com a deselegância de um afogado, soube de minha morte como não soube da minha vida. Vim a perecer pelo desespero de quem perdeu a si mesmo sem esperanças por reaver-me. Morri com a pouca dignidade que juntei para viver. A falência das minhas verdades e o colapso das minhas mentiras decretaram-me o óbito. Sujeitei-me cortar nos próprios estilhaços pelo abismo que criei ao atirar-me junto aos futuros. Morri sem anúncios, avisos ou suspeitas: como indigente, calei-me pela vergonha de haver morrido. Calado por não haver aprendido o perdão. Calado por não haver sido fiel ao peito. Calado pelo passado atravessado à garganta. Calado por ver-me trancado à minha particular caixa de Pandora. Adoeci da morte que não planejei para curar-me da vida que não vivi. Há exato um ano que venho eu a renascer. Com a deselegância de um homem sempre atrasado; como promessa que se carrega para cumprir-se. Renasço entre às primeiras horas dos meus amanhãs. Renasço entre os medos que enfrento por ter me assustado quando morri; entre os sonhos estranhos que noturnamente despeço; entre as ilusões que cotidianamente despedaço; entre as sombras que abraço e as verdades que desminto. Renasço por haver feito as pazes com a lucidez. Renasço por haver-me tempo para ser outro no espelho que me vejo. Renasço carregando as dores todas de um parto reincidente. Renasço por dispensar anjos e demônios que aguardam-me desistente. Não o sou. Não o serei. Renasço porque seria-me pouco manter-me morto. Renasço por não haver saída ou fuga senão renascer. Aniversario a minha morte porque tenho vida para isto. E hoje sei, ando a morrer um pouco a cada dia para poder viver. Viver melhor.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

As saudades curtas...

Parecem estúpidas as saudades curtas. São certamente insensíveis e solipsistas, perante as saudades longas e profundas, que não têm cura nem, por serem insolúveis, têm a esperança de, um dia, deixarem de existir. São saudades de uma hora, de um almoço perdido, de uma tarde interrompida. Parecem irracionais e ingratas, estas saudades curtas, de que sofrem as pessoas apaixonadas e felizes ou infelizes. Mas não são. Daqui a um X número de horas, vou morrer. Daqui a um Y número de horas, vai morrer a Maria João. Morra quem morra, com a maior ou mais pequena das antecedências, o certo é que o tempo da vida e da saudade está contado. Cada hora que não estou com ela está para sempre, definitivamente, finitamente perdida. E é daí que vêm as saudades curtas do amor, que tomam cada momento por uma vida. Só por amor se vive assim.

(Miguel Esteves Cardoso)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

O próprio peito...

Comprometidos com o tempo passado, presos ao nosso próprio futuro: entre todas as possibilidades e possíveis combinações, nós somos o que poderíamos ser. Não nos sendo possível sermos outros, aceitemos as versões que compõem a nossa história, aceitemos os lados e avessos que ora carregamos ora nos carregam. Ao navegarmos no rio do tempo, sopremos nós a favor ou rememos contra, somos e seremos sempre o nosso próprio destino.

Assim, sejamos generosos conosco, ainda que nos percamos entre as nossas marés. O melhor lugar para aportarmos será, se permitirmos, em nosso peito - a nossa casa.

domingo, 25 de setembro de 2016

Quem...

Quem ama, veste-se de poesia como o jardim se veste de flores. Quem não sabe do Amor, veste-se de palavras como o homem envergonhado veste sua velha roupa. Quem ama, põe-se de cores como o sol que colore o céu ao final da tarde. Quem não entende do Amor, enfeita-se de cores para gritar qualquer coisa que em si não lhe pertence. Quem não ama, contenta-se com esquinas. E quem sabe amar, sabe que o mundo inteiro lhe pertence.

(Do meu livro: "A Ilha de um homem só" da Editora Penalux)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Compra!

Tem gente que compra.
Tem gente que não quer comprar.
Tem gente que diz que vai comprar e compra.
Tem gente que diz que vai comprar e não compra.
Tem gente que diz que vai comprar e esquece.
Tem gente que diz que vai comprar e desaparece.
Tem gente que se enrola pra comprar, mas compra.
Tem gente que te enrola pra comprar e não compra.
Tem gente que jura de pé junto que vai comprar e some.
Tem gente que diz que só pro outro mês, senão morre de fome.


Dedicatória bacanuda.
Preço bacanudo.
Conteúdo, capa, envelope, tudo bacanudo.


A quem interessar, chama-me:
guglicardoso@gmail.com
http://www.facebook.com/ailhadeumhomemso
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Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós.

(Franz Kafka)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A meu respeito...

A alegria é um corredor que distraído atravesso. Escrevo para expandir-me do lugar que me encontro: jeito de viver duas vezes um pouco melhor na segunda. Reescrevo-me conforme o passado que ainda me dita o que não sou, pois, o que é o agora senão uma reedição incompleta de mim?  Na ordem rebelde das coisas, fixado na teimosia e na incompreensão, insisto em ressuscitar o que deveria manter morto. Pesa-me tudo aquilo que dou vida e revisito: cenários, diálogos, tristezas, monstros que sabem horríveis verdades a meu respeito. E o medo que não atravesso é o medo que alimento. O medo que alimento é o medo que tenho de atravessar-me. Mantenho-me então imóvel, a espera de que a solução prenda-se à tempo nas teias de vida que sem querer acabei por criar.

E paciente - o silêncio desconsertado de tudo ensaia-me a coragem no poema.

sábado, 17 de setembro de 2016

Será?

não duvide,
contrarie, argumente
ponha em xeque
a verdade de um poema.

porque mesmo não o sendo verdadeiro,
real, factível
será todo ele sincero:

e isto
porque feito de sangue
porque feito de nuvem
porque feito de sonho

isto
porque sempre
inocente.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Cadente...

No amor, suas palavras eram estrelas cadentes,
por lhe prometer realizar
os desejos todos
quando no peito,
nada mais
quisesse.

(o silêncio no amor era seu céu)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sul da Ilha...

Estou no extremo sul da ilha. Se eu nadasse numa linha reta, imagino que em algum momento chegaria ao Antártico. Terras austrais. De qualquer forma, o extremo sul não significa muita coisa, quando o extremo norte fica a pouco mais de duas horas de carro. Poucas horas de carro, e pronto, terminou a ilha. O mar, em compensação, parece inesgotável. Assustador. O mar aqui é um mar que ainda não foi domesticado. Nunca lhe foi imposto limite algum. Até mesmo as cores, o cheiro, as algas, tudo nele parece que acaba de surgir. E me vem sempre a sensação de estranhamento quando olho em volta e vejo estradas, casas, pessoas, como em qualquer outro lugar.

(Carola Saavedra)