segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Tal qual...

parece-me que apenas
a eternidade bastaria:
calar as marés, saciar-me com
o silêncio e despir-me das tensões.
mas sou filho do tempo -
de mãos vazias me despedi
de mãos vazias regressarei


eternidade é palavra
vazia
tal qual eu.

domingo, 11 de setembro de 2016

Amargo...

Não, eu não sou um cara legal. Afinal, do que sabem os olhos quando não convivem comigo? Eu sou uma coleção de manias, pecados, neuroses, defeitos, esquisitices e encrencas que enganam muito bem o espelho, nos elogios de que me sirvo como terapia de que nada me serve. Quer exemplos? Sou um ressentido; lembro daquele dia cinza que você tingiu o meu céu em agosto de 1946. Sou de arder em azia pelas palavras que você disse e que eu não digeri bem naquele recreio da 6ª série; sou de me consumir em silêncio enquanto em alto e bom som prego sobre o perdão. Guardo cartas, imãs de geladeira e rancor, muito rancor. Cada pisada no meu pé e eu viro monstro. Uma ofensa tua que me corte equivale a trezentas ofensas minhas a te massacrar. Sou bem justo, como você pode perceber. O tratamento aqui se dá como se eu fosse a alma mais pura e você, o mais sujo vilão. Pinto ares de apocalipse pra qualquer vento mais forte. Cobro a cura dos meus arranhões quando não me preocupo em evitar tuas dores. Clamo vingança pelo ego doído enquanto verso a compaixão como minha natureza; isto quando me convém. Uso da violência para calar fragilidades e das palavras para conseguir o que eu quero, sem pesos ou medidas. Meus ciúmes são sintomas de controle; minha inveja é reflexo da pobreza; meu mal-querer é fruto de antigo coração partido. Sou demônio disfarçado de arcanjo que aprendeu a sorrir somente pra sorrisos receber; que aprendeu a falar dos milagres como digno de todos eles; que fala virtudes como se falar fosse o mesmo que vesti-las; que diz amor nas linhas para atenuar as faltas na carne. Troco qualquer nobre valor por conveniências que pro meu orgulho interessam. Guardo no bolso, mentiras, gentilezas, amantes, histórias e outros prêmios que uso para me enfeitar e me deixar bem aos olhos dos outros, enquanto silencio egoísmos e feiuras, jogando tudo pra debaixo do tapete. E pra que varrer se eu posso jogar a culpa em alguém? Acreditar que o inferno são os outros e que o mundo gira ao meu redor me absolve dos estragos que faço no jardim alheio. Mas você não vai perceber os meus avessos, porque comigo você não dura muito tempo. E saiba: minha bondade é apenas um verniz, uma fuga, propaganda, degrau em que piso para me sentir o mais alto dos mortais. Por debaixo da fina camada de doçura que fácil se arranha, há um gosto bem amargo que guardo em mim, difícil de engolir. Sou cego de alma, como eu jamais pude notar.

(Do meu livro "A Ilha de um homem só" publicado pela Editora Penalux)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Formalidade...

Mas como a gente chama alguém que foi embora? Alguém que está longe, alguém que não está? A distância deveria imediatamente impor um tom mais solene, ou menos íntimo, afinal há a distância. Mas como a gente trata com distanciamento alguém que acabou de estar tão perto, ao meu lado, há pouco deitado ao meu lado, na minha cama, onde todo dia, todas as noites, algo tão íntimo como dividir a cama e os lençóis da cama quando o dia amanhece e os lençóis ficam lá, abertos, escancarados, com suas manchas e sua noite impregnada. Como alguém sai da cama da gente para a formalidade?"

(Carola Saavedra)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Quando serenos...

deitam teus lábios nos meus
repousam teus olhos nos meus
e então finalmente desperto,

a envolver-me em rede tecida pelos milagres 
pequenos e cotidianos
estes! que nos permite enxergar o amor
quando serenos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Labirinto...

Não. Eu não estou satisfeito e talvez eu nunca vá estar. Eu não a visto porque não me cabe; ideia que ocupa lugar na alma mas que não preenche. Parece que essa estranheza, essa inexatidão de mim, essa metade com que calculo minha vida inteira, essa falta e esse vazio me dão um sentido torto; uma direção avessa, uma fome que me sacia por esquecê-la. Sou o mendigo que não quer abandonar sua pobreza. Sou o sofrer que não quer despir-se da tristeza. Eu sou a cobra que persegue a própria cauda e a si inteira devora. Eu persigo horizontes e me canso parado; reclamo do que me falta por ignorar o que tenho; reclamo da luz por me assustar com as sombras. Sou ampulheta que areia devora o passar do tempo; sou o amargo descontente por não ter achado ainda o meu traço, o meu passo, minha canção, o meu par. Sou ingrato ao jardim pelas sementes que poupei. Sou ingrato à boca pelos sorrisos que não mereci. Sou também o medo, a desconfiança, o meio amor, o mero acaso, a meia entrega, o vazio todo, o inexato, a incerteza. E me despeço todo dia dos meus amores. Ensaio as perdas todo dia ao nascer do sol. Vivo a me recuperar dos pesadelos e me convalescer das ilusões. Eu sou a fome a recusar o alimento, o náufrago a não querer mais salvação. Distraio-me com qualquer labirinto e me perco com qualquer distração. Sou daqueles que não sabem o que querem por saber bem o que me topa, o que me serve, o que eu mereço. Coleciono manias, carências e angústias no porão de mim em que verdade envelheceu e onde o amor desbotou. A loucura e o sereno vivem dentro, a paz e o desespero são o meu reino. Sou eu o velho rei, querendo fugir do próprio trono a tropeçar no próprio manto.

sábado, 3 de setembro de 2016

Meu maior medo...

O que custa é acreditar naquilo que se tem, quando todos os dias, ao longo de longos anos, se consegue encontrar esse amor que se procura, na pessoa que se ama e no lugar e no tempo - aqui, agora, daqui a bocadinho - em que mais gostamos de encontrá-lo. Hoje a Maria João e eu fazemos doze anos de casados e a única esperança que eu tinha - que se tornasse mais fácil acreditar na sorte que me coube na pessoa que ela é e na cegueira de olhar uma segunda vez para mim - acabou por ser mentira. Há um castigo para tudo: até para a maior felicidade. É o medo não só que tudo acabe mas que se descubra, de alguma maneira, que nunca tenha começado. Por exemplo, se ela se apaixonasse por outra pessoa. "Não vai durar, não pode durar, é bom de mais para durar": é isto que repito no êxtase da minha alegria roubada ao sol, como se o nosso amor e a nossa vida um com o outro fossem um prazer retumbante com um fim à vista, naturalmente aceite quando chega, como comer um gelado. Mas dura e, quanto mais tempo dura, mais medo tenho que esteja mais perto de acabar. Não há habituação possível a esta felicidade. Não há conforto nenhum na passagem dos anos por este amor. Cada vez mais, torna-se a única coisa que peço a Deus e a ela: Maria João, por favor, não me deixes nunca. 

(Miguel Esteves Cardoso)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Cafajeste...

Leva-se tempo para nascer entre o comum dos homens, original canalha. Assim como a natureza inclina-se em suas demoras para desenhar perfeição nas paisagens, igual se dá a construção do caráter genuinamente cafajeste. Ainda mais o cafajeste versado nos lirismos como meio e fim. Un hombre com o olhar de um Nelson Rodrigues aliada à paixão de um Vinícius. Um homem de sagrado ofício nos encantamentos da mulher, eivado de exclusivas dedicações às palavras como tentação e convite; com a precisa sutileza a seduzir, nos labirintosos caminhos da paixão, a alma de uma fêmea. Aliar os carnais desejos à poesia é uma daquelas raras probabilidades matemáticas que abençoam os poucos e únicos canalhordas da modernidade. Uma alquímica combinação de predicados e dons, a desenhar de forma ideal dentro do poeta, delicioso e sonoro canalha. Crê este homem - fruto do lírico pecado - ser a poesia sublime pretexto para as entregas. Crê também este homem, que a poesia nasceu mulher. Pois fruto do encanto e do desejo, impreciso e imperfeito, busca através do sagrado feminino, oculto nas curvas das letras e da mulher amada, dedicar-se e ser inteiro; ainda que a descarte no dia seguinte como páginas já percorridas de um livro já conhecido. Afinal, todo personagem em sua história tem seu tempo e sua vez. Ao poeta-canalha filho do tempo e dos desencontros, o que mesmo importa é a imutável natureza que permeia todas as fêmeas, e o inspira; o amor abstrato e imenso onde navegam seus corpos e movimentos, e que o seduz, para além das formas e nomes e telefones que coleciona. Assim se atreve, sintonizando alma com nudez, sexo com redenção. Alimenta-se das luxúrias que a linguagem nos concede para, tal qual serpente astuta do paraíso, envolver sua dama e presa nas artes do convencimento e da entrega. Deita-se a mulher pretendida na cama da poesia.

(Texto do meu livro: Teoria Geral do Desassossego)

domingo, 28 de agosto de 2016

O sentido...

A poesia não tem pretensão de responder-nos sobre o sentido da vida, embora alivie a ausência daquele que não crê, celebre a presença de quem nele crê e, facilita-nos a convivência com esta ausência ou presença - ambas possivelmente complexas e incômodas - de que se serve a poesia mesma.

A poesia é a celebração do que somos, independentemente de como estejamos.

A poesia alivia-nos da angústia de saber ou não, crer ou não, ou então, alivia-nos apenas de viver.

sábado, 27 de agosto de 2016

Aos psicólogos...

Aos que permitem que o espelho da linguagem nos denuncie. Aos que promovem a confissão dos nossos próprios silêncios. Aos que facilitam o abraço dos avessos, o perdão pelos nossos escuros. Aos que põem lume entre as marés e entrelinhas. Aos que nos apresentam a geografia dos nossos intensos. Aos que ajudam a desatar nós, enganos, passados, verdades e mentiras. Aos que sabem que ouvir é um ato de amor.

Gratidão.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Seria tudo...

o que me restaria agora seria desejar um beijo num beijo teu.
o que me restaria agora seria pedir um dia a mais para depois da última noite.
o que me restaria agora seria confiar na facilidade com que éramos felizes.
o que me restaria agora seria saber que por não lembrarmos das horas tínhamos todo o tempo do mundo.

o que me restaria agora
fora este nada que me sobra
seria tudo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Rebelar-se...

Queremos curar uma verdade incômoda fechando-lhe a porta na cara. Vivemos a fugir da própria sombra como se isto fosse possível. Os corpos amam em excesso como se nada nunca bastasse. Da realidade toda feita de agoras, nos esquivamos. O peito todo cheio de paixões, insinua-se. O medo feito todo de tempo, atira-nos para longe. Vivemos acrescentando cinzas às janelas e dúvidas aos milagres. Inundamo-nos de mundo, mas não de vida, protegidos no claustro das certezas. Moldamos a rotina como sentença que cumprimos sem espaço às reviravoltas. Talvez seja isto mesmo que queiramos. Combinamos fazer de conta que somos vítimas e que responsável é o outro. Ou o resto. Atravessamos o caminho na busca das pequenas imortalidades que nos compõem mas de que não somos feitos. Sem sucessos, permitimo-nos ressentimentos. Somos donos de violências contra nossa própria história. E nela nos prendemos por esta razão. Aguardamos liberdade criando confortos onde nunca há. Aguardamos a mudança para mudarmos. Amamos as contradições e exigimos lógica. Queremos curar uma verdade incômoda fechando-lhe sempre a porta na cara.

Corre risco o escravo ao saber da sua escravidão, rebelar-se, mas sem saber fugir.

sábado, 20 de agosto de 2016

Centopéia...

'Você já usou algum manual de redação?
Qual livro de técnicas para redigir você me indica?

Vez ou outra alguém me pergunta algo do tipo. Nunca parei muito pra pensar como escrevo. Destes livros, a única coisa que li foram as capas. Quando muito os índices. Tenho medo de pensar demais e desaprender; talvez por isso não tenha ido adiante.

Escrever, para mim, é como dançar a dois. Se eu puser a atenção detalhadamente em cada um dos movimentos, acabo me atrapalhando todo. Por isso apenas danço. Erro menos.

Sinto-me abençoado. As palavras me obedecem pelo carinho que a elas dedico. Elas se entregam a mim no instante que eu me entrego a elas. Caso de amor, sabe? Creio que só seja possível assim.

Isso me lembra a história da centopéia.

Uma vez, o besouro a encontrando, perguntou:

- Dona Centopéia, como a senhorita faz para andar?
- Ah?! Como?! Não entendi a pergunta.
- Como você caminha com tantas perninhas? Como se move, como se mexe, qual perninha você põe primeiro e quais as seguintes? Como você as sincroniza todas com exatidão?

E a dona Centopéia que nunca havia parado pra pensar nisso, nunca mais conseguiu andar.