Não. Eu não estou satisfeito e talvez eu nunca vá estar. Eu não a visto porque não me cabe; ideia que ocupa lugar na alma mas que não preenche. Parece que essa estranheza, essa inexatidão de mim, essa metade com que calculo minha vida inteira, essa falta e esse vazio me dão um sentido torto; uma direção avessa, uma fome que me sacia por esquecê-la. Sou o mendigo que não quer abandonar sua pobreza. Sou o sofrer que não quer despir-se da tristeza. Eu sou a cobra que persegue a própria cauda e a si inteira devora. Eu persigo horizontes e me canso parado; reclamo do que me falta por ignorar o que tenho; reclamo da luz por me assustar com as sombras. Sou ampulheta que areia devora o passar do tempo; sou o amargo descontente por não ter achado ainda o meu traço, o meu passo, minha canção, o meu par. Sou ingrato ao jardim pelas sementes que poupei. Sou ingrato à boca pelos sorrisos que não mereci. Sou também o medo, a desconfiança, o meio amor, o mero acaso, a meia entrega, o vazio todo, o inexato, a incerteza. E me despeço todo dia dos meus amores. Ensaio as perdas todo dia ao nascer do sol. Vivo a me recuperar dos pesadelos e me convalescer das ilusões. Eu sou a fome a recusar o alimento, o náufrago a não querer mais salvação. Distraio-me com qualquer labirinto e me perco com qualquer distração. Sou daqueles que não sabem o que querem por saber bem o que me topa, o que me serve, o que eu mereço. Coleciono manias, carências e angústias no porão de mim em que verdade envelheceu e onde o amor desbotou. A loucura e o sereno vivem dentro, a paz e o desespero são o meu reino. Sou eu o velho rei, querendo fugir do próprio trono a tropeçar no próprio manto.
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
sábado, 3 de setembro de 2016
Meu maior medo...
O que custa é acreditar naquilo que se tem, quando todos os dias, ao longo de longos anos, se consegue encontrar esse amor que se procura, na pessoa que se ama e no lugar e no tempo - aqui, agora, daqui a bocadinho - em que mais gostamos de encontrá-lo. Hoje a Maria João e eu fazemos doze anos de casados e a única esperança que eu tinha - que se tornasse mais fácil acreditar na sorte que me coube na pessoa que ela é e na cegueira de olhar uma segunda vez para mim - acabou por ser mentira. Há um castigo para tudo: até para a maior felicidade. É o medo não só que tudo acabe mas que se descubra, de alguma maneira, que nunca tenha começado. Por exemplo, se ela se apaixonasse por outra pessoa. "Não vai durar, não pode durar, é bom de mais para durar": é isto que repito no êxtase da minha alegria roubada ao sol, como se o nosso amor e a nossa vida um com o outro fossem um prazer retumbante com um fim à vista, naturalmente aceite quando chega, como comer um gelado. Mas dura e, quanto mais tempo dura, mais medo tenho que esteja mais perto de acabar. Não há habituação possível a esta felicidade. Não há conforto nenhum na passagem dos anos por este amor. Cada vez mais, torna-se a única coisa que peço a Deus e a ela: Maria João, por favor, não me deixes nunca.
(Miguel Esteves Cardoso)
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
Cafajeste...
(Texto do meu livro: Teoria Geral do Desassossego)
domingo, 28 de agosto de 2016
O sentido...
A poesia não tem pretensão de responder-nos sobre o sentido da vida, embora alivie a ausência daquele que não crê, celebre a presença de quem nele crê e, facilita-nos a convivência com esta ausência ou presença - ambas possivelmente complexas e incômodas - de que se serve a poesia mesma.
A poesia é a celebração do que somos, independentemente de como estejamos.
A poesia alivia-nos da angústia de saber ou não, crer ou não, ou então, alivia-nos apenas de viver.
sábado, 27 de agosto de 2016
Aos psicólogos...
Aos que permitem que o espelho da linguagem nos denuncie. Aos que promovem a confissão dos nossos próprios silêncios. Aos que facilitam o abraço dos avessos, o perdão pelos nossos escuros. Aos que põem lume entre as marés e entrelinhas. Aos que nos apresentam a geografia dos nossos intensos. Aos que ajudam a desatar nós, enganos, passados, verdades e mentiras. Aos que sabem que ouvir é um ato de amor.
Gratidão.
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
Seria tudo...
o que me restaria agora seria desejar um beijo num beijo teu.
o que me restaria agora seria pedir um dia a mais para depois da última noite.
o que me restaria agora seria confiar na facilidade com que éramos felizes.
o que me restaria agora seria saber que por não lembrarmos das horas tínhamos todo o tempo do mundo.
o que me restaria agora
fora este nada que me sobra
seria tudo.
o que me restaria agora seria pedir um dia a mais para depois da última noite.
o que me restaria agora seria confiar na facilidade com que éramos felizes.
o que me restaria agora seria saber que por não lembrarmos das horas tínhamos todo o tempo do mundo.
o que me restaria agora
fora este nada que me sobra
seria tudo.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Rebelar-se...
Queremos curar uma verdade incômoda fechando-lhe a porta na cara. Vivemos a fugir da própria sombra como se isto fosse possível. Os corpos amam em excesso como se nada nunca bastasse. Da realidade toda feita de agoras, nos esquivamos. O peito todo cheio de paixões, insinua-se. O medo feito todo de tempo, atira-nos para longe. Vivemos acrescentando cinzas às janelas e dúvidas aos milagres. Inundamo-nos de mundo, mas não de vida, protegidos no claustro das certezas. Moldamos a rotina como sentença que cumprimos sem espaço às reviravoltas. Talvez seja isto mesmo que queiramos. Combinamos fazer de conta que somos vítimas e que responsável é o outro. Ou o resto. Atravessamos o caminho na busca das pequenas imortalidades que nos compõem mas de que não somos feitos. Sem sucessos, permitimo-nos ressentimentos. Somos donos de violências contra nossa própria história. E nela nos prendemos por esta razão. Aguardamos liberdade criando confortos onde nunca há. Aguardamos a mudança para mudarmos. Amamos as contradições e exigimos lógica. Queremos curar uma verdade incômoda fechando-lhe sempre a porta na cara.
Corre risco o escravo ao saber da sua escravidão, rebelar-se, mas sem saber fugir.
sábado, 20 de agosto de 2016
Centopéia...
'Você já usou algum manual de redação?
Qual livro de técnicas para redigir você me indica?
Vez ou outra alguém me pergunta algo do tipo. Nunca parei muito pra pensar como escrevo. Destes livros, a única coisa que li foram as capas. Quando muito os índices. Tenho medo de pensar demais e desaprender; talvez por isso não tenha ido adiante.
Escrever, para mim, é como dançar a dois. Se eu puser a atenção detalhadamente em cada um dos movimentos, acabo me atrapalhando todo. Por isso apenas danço. Erro menos.
Sinto-me abençoado. As palavras me obedecem pelo carinho que a elas dedico. Elas se entregam a mim no instante que eu me entrego a elas. Caso de amor, sabe? Creio que só seja possível assim.
Isso me lembra a história da centopéia.
Uma vez, o besouro a encontrando, perguntou:
- Dona Centopéia, como a senhorita faz para andar?
- Ah?! Como?! Não entendi a pergunta.
- Como você caminha com tantas perninhas? Como se move, como se mexe, qual perninha você põe primeiro e quais as seguintes? Como você as sincroniza todas com exatidão?
E a dona Centopéia que nunca havia parado pra pensar nisso, nunca mais conseguiu andar.
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Às horas incertas...
Sofro de caminhos mais longos. A tortura do medo, reincido. A verdade mais clara, ignoro. Deixo pendentes tristezas e sintomas para resolver. O ontem serve-me para trazer notícias: do amor insuficiente, do agora insuficiente, do perdão insuficiente. Ocupo-me com personagens que magoam-me e machuco num enredo quase desconhecido. O sucesso me é uma distração, tal como o fracasso. Pesam-me as reticências de que sou feito. Dói-me sempre morrer entre os parágrafos, capítulos, estações e continuar. A ressurreição espero guardada em alguma esquina que ainda não passei. Sofro de pressão alta e baixas altitudes. Quero ser o que de mim ainda não imagino. Parece-me que estar aqui se trata de atrevidamente fazermos frente ao impossível. Os milagres acontecem às horas incertas.
Distraio-me com as flores do poema.
Distraio-me com as flores do poema.
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Comum...
É comum que regressemos do primeiro amor cheios de estranheza, filho. Seremos outros, chacoalhados como quem bate cabeça a entregar-se para as mortes seguida de violenta ressaca por continuar a existir. O primeiro amor é tratar-se de tropeçar no inevitável. Voltamos zangados com o mundo. Coisas em nós perdem sentido até que arranjemos outras destinações. Um intervalo abdicado das belezas. Inventaremos medos. Consultaremos desesperanças. Com as sobras de tempo, o tempo desperdiçaremos. Inclusive com monstros a falar-nos sobre a dor. Aprenderemos que tudo é feito de tudo isto, e tudo porque caímos para longe do primeiro amor. Há quem cicatrize a viver felicidade muito triste. Há quem deite a sofrer pelo amor sendo a única alegria a lhe restar. Só não será possível fugir, meu filho. Quem foge parecerá menos pessoa. Deveríamos sempre saber que o primeiro amor é apenas folha solta com que coração começa a escrever o poema. Apenas tristeza pode curar-nos definitivamente da lágrima.
Embora nunca em definitivo.
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
A ir...
Não há o que me impeça, mas não faço, permaneço, e ainda insisto. Admiro os absurdos: o excesso de mundo para o pouco de vida a que me permito. Os convites insistentes para as verdades que não aceito e que salvariam-me da minha própria apatia e palidez. O que me é tão pouco, quero demasiado. O que me é demasiado, quero pouco. Ou nada. Temo que o viver não seja o que empurrar, inclusive este momento exato em que sou, estou e nunca me basto (ou muito me perco). Percebam: vivo sem conviver em paz com os advérbios. Aprendi a dormir, e somente sonhar. Não há nada o que me impeça, mas insisto, não o faço, não vou, não vôo.
Mas continuamos a ir, sempre.
domingo, 14 de agosto de 2016
Curtos...
Pais são curtos. Pai e mãe são curtos porque não se demoram; não importa o tempo, não se demoram. Como nossos melhores espelhos não nos dão suficiente tempo - para que os enxerguemos como gostaríamos nós de ser enxergados. Das mágoas que sentimos e não diluímos. Das verdades que fazem com que sejam aquilo que também somos mas que insistimos em negar. Do amor que ensinam pelas linhas retas do cuidado ou pelos erros que igualmente cometemos ao tentarmos o acerto. Nós somos nossos pais pelas semelhanças, pela exatidão ou pelos avessos; o que aceitamos ou recusamos: nós os somos. E os pais são curtos, pois não se demoram o suficiente para que os aceitemos como uma das pontes para nós mesmos. À beira da vida, na procura do "eu", eles estarão juntos e de algum jeito, trejeitos, memórias, genética, presença, ausência inclusive. Amaram como nos puderam amar. Assim como amamos como sabemos amar. Assim como não sabemos amar. Assim como insistimos saber. Os pais são curtos porque não nos dão tempo de nos consertarmos para perdoarmos seus defeitos que nos doem e para verdadeiramente agradecermos. Os pais são curtos porque os carregamos ignorando a humanidade de que todos somos (des)feitos. Os pais são breves pelas lembranças demais com que se revelam em nós. Os pais são breves para celebrarem a tempo conosco o que ainda não encontramos, e que do mesmo modo buscaram para além dos seus próprios pais. A nós que resistimos tanto para aceitá-los. A eles que aceitaram ou não nossas resistências, não importa. A nós e a eles, aos pais e filhos que no papel de filhos e pais fizeram o que foi possível fazer, a gratidão possível de um homem ainda incompleto.
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