quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Comum...

É comum que regressemos do primeiro amor cheios de estranheza, filho. Seremos outros, chacoalhados como quem bate cabeça a entregar-se para as mortes seguida de violenta ressaca por continuar a existir. O primeiro amor é tratar-se de tropeçar no inevitável. Voltamos zangados com o mundo. Coisas em nós perdem sentido até que arranjemos outras destinações. Um intervalo abdicado das belezas. Inventaremos medos. Consultaremos desesperanças. Com as sobras de tempo, o tempo desperdiçaremos. Inclusive com monstros a falar-nos sobre a dor. Aprenderemos que tudo é feito de tudo isto, e tudo porque caímos para longe do primeiro amor. Há quem cicatrize a viver felicidade muito triste. Há quem deite a sofrer pelo amor sendo a única alegria a lhe restar. Só não será possível fugir, meu filho. Quem foge parecerá menos pessoa. Deveríamos sempre saber que o primeiro amor é apenas folha solta com que coração começa a escrever o poema. Apenas tristeza pode curar-nos definitivamente da lágrima.

Embora nunca em definitivo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A ir...

Não há o que me impeça, mas não faço, permaneço, e ainda insisto. Admiro os absurdos: o excesso de mundo para o pouco de vida a que me permito. Os convites insistentes para as verdades que não aceito e que salvariam-me da minha própria apatia e palidez. O que me é tão pouco, quero demasiado. O que me é demasiado, quero pouco. Ou nada. Temo que o viver não seja o que empurrar, inclusive este momento exato em que sou, estou e nunca me basto (ou muito me perco). Percebam: vivo sem conviver em paz com os advérbios. Aprendi a dormir, e somente sonhar. Não há nada o que me impeça, mas insisto, não o faço, não vou, não vôo. 

Mas continuamos a ir, sempre.

domingo, 14 de agosto de 2016

Curtos...

Pais são curtos. Pai e mãe são curtos porque não se demoram; não importa o tempo, não se demoram. Como nossos melhores espelhos não nos dão suficiente tempo - para que os enxerguemos como gostaríamos nós de ser enxergados. Das mágoas que sentimos e não diluímos. Das verdades que fazem com que sejam aquilo que também somos mas que insistimos em negar. Do amor que ensinam pelas linhas retas do cuidado ou pelos erros que igualmente cometemos ao tentarmos o acerto. Nós somos nossos pais pelas semelhanças, pela exatidão ou pelos avessos; o que aceitamos ou recusamos: nós os somos. E os pais são curtos, pois não se demoram o suficiente para que os aceitemos como uma das pontes para nós mesmos. À beira da vida, na procura do "eu", eles estarão juntos e de algum jeito, trejeitos, memórias, genética, presença, ausência inclusive. Amaram como nos puderam amar. Assim como amamos como sabemos amar. Assim como não sabemos amar. Assim como insistimos saber. Os pais são curtos porque não nos dão tempo de nos consertarmos para perdoarmos seus defeitos que nos doem e para verdadeiramente agradecermos. Os pais são curtos porque os carregamos ignorando a humanidade de que todos somos (des)feitos. Os pais são breves pelas lembranças demais com que se revelam em nós. Os pais são breves para celebrarem a tempo conosco o que ainda não encontramos, e que do mesmo modo buscaram para além dos seus próprios pais. A nós que resistimos tanto para aceitá-los. A eles que aceitaram ou não nossas resistências, não importa. A nós e a eles, aos pais e filhos que no papel de filhos e pais fizeram o que foi possível fazer, a gratidão possível de um homem ainda incompleto.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Consigo...

A maioria de nós cai na armadilha do medo, seja ela qual seja. Uma que entramos por liberalidade, sem convites ou convocações exteriores. O homem costuma abrigar-se daquilo que o desafia e o atemoriza nas celas que escolhe, e que dela não sai por convencer-se de que está preso e que por alguma oculta conveniência esquece que a chave o tempo todo se encontra consigo. Assim crê, e espera. Uma idéia com a verdade se parece porque passamos nela a acreditar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Terra seca...

Como a solidão, este jardim abandonado anoitece. Guardo derrotas, como se guardasse segredos. Anoiteço sobre este jardim. Agora, entre as ruínas, sou igual a estas árvores que morreram no instante em que tudo deixou de fazer sentido. No momento em que partiste, deixei de fazer sentido. O sangue, dentro de mim, é como esta terra seca. A noite não será suficiente para lhe devolver a vida. A noite será como veneno dentro desta terra e dentro de mim porque o céu da noite terá a cor dos meus cabelos, o negro absoluto do meu vestido. A noite será a certeza de que existes entre a multidão. Muito longe daqui, és uma sombra entre a multidão.

(José Luis Peixoto)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Rio das flores...

Regressava uma vez mais do rio das flores. Era como dava nome aos seus sonhos com ela. O nome lhe era precioso, a despistá-lo temporariamente das tristezas mais cortantes que dele não se separavam. Os lençóis serviam-lhe à noite para as saudades. A janela, a fixar seu olhar despovoado de si. A tristeza quem lhe convocava junto aos cansaços para adormecer. Do rio das flores bebia o que havia de nunca mais morrer. Bebia para embriagar-se e lidar com os dias próximos, atravessando-os com o cuidado para não dissolver ausências. E antes que cada memória repousasse num lugar esquecido de seu próprio corpo, sonhava, para lá viver como quem tivesse feito o certo, amado certo, amado melhor, sem qualquer agressão às pétalas. Abria os olhos e ressentia-se. O medo era de não mais poder viver. Sair da cama numa manhã chuvosa de amor perdido era, definitivamente, um ato de coragem.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Fantasmas...

A vida, meu filho, já me foi causa de receios e temores. Tive medo do amor se aproximar e eu sempre estragá-lo: a viver suspeito de que ninguém para mim serviria por não servir para ninguém; colecionando ao longo do tempo não memórias, apenas silenciosos fantasmas e fracassos interiores. E por muito sofrer por causas e motivos que criei e permiti por não saber amar, descobri que o medo que tanto senti não foi por conta da vida acontecer-me sempre toda errada. Sentia medo exatamente por ela poder acontecer-me como algo inesperado e certo.

Um tipo estúpido de precaução que para evitar doermos pela perda, filho, perdemos já antecipadamente.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Passageira...

[...] porque nós tão descrentes do amor que ao enxergarmos um, ainda que ao longe, mesmo que não o nosso, dá-nos o sutil saber de que a descrença é apenas passageira.

Ao celebrarmos o amor do outro nos enfeitamos para o nosso.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Devolução...

Ela me devolve à vida:
todo santo dia.

sábado, 30 de julho de 2016

Apesar de...

O foda é que vivemos e temos que viver, apesar de. Apesar da tristeza, vivemos. Apesar dos medos, vivemos. Apesar do cansaço, vivemos. É uma lista infindável que colecionamos de apesares e inevitável é que a colecionemos. Vivemos apesar das dores: sejam nas costas, nas pernas, no peito que apesar de bater procura sentido para continuar batendo. Apesar do tempo que perdemos e do agora que não encontramos; apesar da ansiedade, apesar do passado, a pensar no futuro, apesar das falhas, ensaios, ilusões, desencontros, solidão, desejos. Apesar do desamor, amamos. Apesar dos boicotes, insistimos. Apesar do que incomoda, corrói, aperta, sufoca, atordoa, perturba. Apesar do mal estar e do bem-me-quer. Apesar da falta de sono, da falta de sonho, da falta de sorte; apesar do que é preciso esquecer e inevitável lembrar. Apesar das ausências, das neuroses, das cicatrizes, do horóscopo, dos remédios, das culpas, da lágrima, do sal, açúcar, glúten, lactose, alergia, intolerância, impaciências. Apesar das fotos, poses, mentiras, fugas, ressacas, vícios, esperas, insatisfação. O foda é que vivemos e temos que viver, apesar de. Apesar de vivermos tantas vezes sem viver; apesar de morrermos muitas vezes sem morrer...

Quem não haveria de ter um coração de herói?

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Inocentemente...

Inocentemente defendia-se de si mesma ao boicotar-se; não se permitindo alcançar o lado mais bonito de si e o ponto mais alto do amor por acreditar que irá sempre estragar a felicidade se ela vier; evitando-a para não se convencer do que por alguma razão já se convencera: de que não serve e não lhe cabem as alturas.

Assim, quanto mais busca, mais distante se põe do que é buscado.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Quando nos apaixonamos..

Quando nos apaixonamos, ou estamos prestes a apaixonar-nos, qualquer coisinha que essa pessoa faz – se nos toca na mão ou diz que foi bom ver-nos, sem nós sabermos sequer se é verdade ou se quer dizer alguma coisa — ela levanta-nos pela alma e põe-nos a cabeça a voar, tonta de tão feliz e feliz de tão tonta. E, logo no momento seguinte, larga-nos a mão, vira a cara e espezinha-nos o coração, matando a vida e o mundo e o mundo e a vida que tínhamos imaginado para os dois. Lembro-me, quando comecei a apaixonar-me pela Maria João, da exaltação e do desespero que traziam essas importantíssimas banalidades. Lembro-me porque ainda agora as senti. Não faz sentido dizer que estou apaixonado por ela há quinze anos. Ou ontem. Ainda estou a apaixonar-me. Gosto mais de estar com ela a fazer as coisas mais chatas do mundo do que estar sozinho ou com qualquer outra pessoa a fazer as coisas mais divertidas. As coisas continuam a ser chatas mas é estar com ela que é divertido. Não importa onde se está ou o que se está a fazer. O que importa é estar com ela. O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distração vivermos assim. Com tanta sorte.

(Miguel Esteves Cardoso)