A maioria de nós cai na armadilha do medo, seja ela qual seja. Uma que entramos por liberalidade, sem convites ou convocações exteriores. O homem costuma abrigar-se daquilo que o desafia e o atemoriza nas celas que escolhe, e que dela não sai por convencer-se de que está preso e que por alguma oculta conveniência esquece que a chave o tempo todo se encontra consigo. Assim crê, e espera. Uma idéia com a verdade se parece porque passamos nela a acreditar.
sexta-feira, 12 de agosto de 2016
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Terra seca...
Como a solidão, este jardim abandonado anoitece. Guardo derrotas, como se guardasse segredos. Anoiteço sobre este jardim. Agora, entre as ruínas, sou igual a estas árvores que morreram no instante em que tudo deixou de fazer sentido. No momento em que partiste, deixei de fazer sentido. O sangue, dentro de mim, é como esta terra seca. A noite não será suficiente para lhe devolver a vida. A noite será como veneno dentro desta terra e dentro de mim porque o céu da noite terá a cor dos meus cabelos, o negro absoluto do meu vestido. A noite será a certeza de que existes entre a multidão. Muito longe daqui, és uma sombra entre a multidão.
(José Luis Peixoto)
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
Rio das flores...
Regressava uma vez mais do rio das flores. Era como dava nome aos seus sonhos com ela. O nome lhe era precioso, a despistá-lo temporariamente das tristezas mais cortantes que dele não se separavam. Os lençóis serviam-lhe à noite para as saudades. A janela, a fixar seu olhar despovoado de si. A tristeza quem lhe convocava junto aos cansaços para adormecer. Do rio das flores bebia o que havia de nunca mais morrer. Bebia para embriagar-se e lidar com os dias próximos, atravessando-os com o cuidado para não dissolver ausências. E antes que cada memória repousasse num lugar esquecido de seu próprio corpo, sonhava, para lá viver como quem tivesse feito o certo, amado certo, amado melhor, sem qualquer agressão às pétalas. Abria os olhos e ressentia-se. O medo era de não mais poder viver. Sair da cama numa manhã chuvosa de amor perdido era, definitivamente, um ato de coragem.
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
Fantasmas...
A vida, meu filho, já me foi causa de receios e temores. Tive medo do amor se aproximar e eu sempre estragá-lo: a viver suspeito de que ninguém para mim serviria por não servir para ninguém; colecionando ao longo do tempo não memórias, apenas silenciosos fantasmas e fracassos interiores. E por muito sofrer por causas e motivos que criei e permiti por não saber amar, descobri que o medo que tanto senti não foi por conta da vida acontecer-me sempre toda errada. Sentia medo exatamente por ela poder acontecer-me como algo inesperado e certo.
Um tipo estúpido de precaução que para evitar doermos pela perda, filho, perdemos já antecipadamente.
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
Passageira...
[...] porque nós tão descrentes do amor que ao enxergarmos um, ainda
que ao longe, mesmo que não o nosso, dá-nos o sutil saber de que a
descrença é apenas passageira.
Ao celebrarmos o amor do outro nos enfeitamos para o nosso.
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
sábado, 30 de julho de 2016
Apesar de...
O foda é que vivemos e temos que viver, apesar de. Apesar da tristeza, vivemos. Apesar dos medos, vivemos. Apesar do cansaço, vivemos. É uma lista infindável que colecionamos de apesares e inevitável é que a colecionemos. Vivemos apesar das dores: sejam nas costas, nas pernas, no peito que apesar de bater procura sentido para continuar batendo. Apesar do tempo que perdemos e do agora que não encontramos; apesar da ansiedade, apesar do passado, a pensar no futuro, apesar das falhas, ensaios, ilusões, desencontros, solidão, desejos. Apesar do desamor, amamos. Apesar dos boicotes, insistimos. Apesar do que incomoda, corrói, aperta, sufoca, atordoa, perturba. Apesar do mal estar e do bem-me-quer. Apesar da falta de sono, da falta de sonho, da falta de sorte; apesar do que é preciso esquecer e inevitável lembrar. Apesar das ausências, das neuroses, das cicatrizes, do horóscopo, dos remédios, das culpas, da lágrima, do sal, açúcar, glúten, lactose, alergia, intolerância, impaciências. Apesar das fotos, poses, mentiras, fugas, ressacas, vícios, esperas, insatisfação. O foda é que vivemos e temos que viver, apesar de. Apesar de vivermos tantas vezes sem viver; apesar de morrermos muitas vezes sem morrer...
Quem não haveria de ter um coração de herói?
Quem não haveria de ter um coração de herói?
quinta-feira, 28 de julho de 2016
Inocentemente...
Inocentemente defendia-se de si mesma ao boicotar-se; não se
permitindo alcançar o lado mais bonito de si e o ponto mais alto do amor
por acreditar que irá sempre estragar a felicidade se ela vier;
evitando-a para não se convencer do que por alguma razão já se
convencera: de que não serve e não lhe cabem as alturas.
Assim, quanto mais busca, mais distante se põe do que é buscado.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Quando nos apaixonamos..
Quando nos apaixonamos, ou estamos prestes a apaixonar-nos, qualquer coisinha que essa pessoa faz – se nos toca na mão ou diz que foi bom ver-nos, sem nós sabermos sequer se é verdade ou se quer dizer alguma coisa — ela levanta-nos pela alma e põe-nos a cabeça a voar, tonta de tão feliz e feliz de tão tonta. E, logo no momento seguinte, larga-nos a mão, vira a cara e espezinha-nos o coração, matando a vida e o mundo e o mundo e a vida que tínhamos imaginado para os dois. Lembro-me, quando comecei a apaixonar-me pela Maria João, da exaltação e do desespero que traziam essas importantíssimas banalidades. Lembro-me porque ainda agora as senti. Não faz sentido dizer que estou apaixonado por ela há quinze anos. Ou ontem. Ainda estou a apaixonar-me. Gosto mais de estar com ela a fazer as coisas mais chatas do mundo do que estar sozinho ou com qualquer outra pessoa a fazer as coisas mais divertidas. As coisas continuam a ser chatas mas é estar com ela que é divertido. Não importa onde se está ou o que se está a fazer. O que importa é estar com ela. O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distração vivermos assim. Com tanta sorte.
(Miguel Esteves Cardoso)
terça-feira, 26 de julho de 2016
O jogo...
Viver vai além do que se quer garantir; do que se deseja controlar; do que se espera acontecer. Apesar da falta e do excesso de sentido desta vida, vive-se. Vive-se apesar de, apesar das: ânsias, angústias, esperas: pelo dia do pagamento, pelas férias, pelo final de semana, pelo final do campeonato, pelo fim do expediente, pelo churrasco de domingo, por um amor qualquer ou por qualquer amanhã onde se espera ser feliz. Viver vai bem além do que reconhecemos como viver. Apesar da ansiedade e do medo que nos anulam no presente, vivemos. Além do que ignoramos e insistimos para não sofrer, do que nos sujeitamos para não sofrer, vivemos. E sofremos exatamente pelo que insistimos, ignoramos, nos sujeitamos. Além do egoísmo que escondemos, da inveja que negamos, dos ciúmes que calamos, das mágoas cultivadas, das culpas cativadas, da impaciência praticada, das verdades aumentadas, das mentiras sustentadas, vivemos. Viver nos acontece além das justificativas de que o erro não é nosso, embora o cativeiro seja. Colonizados pela rotina, pelo espelho, pelas dietas, pelas ausências, pelos cansaços, pelas ocupações que nos distraem das misérias acumuladas nos anos perdidos. Vive-se apesar do celular, da compulsão, do sono interrompido, do sonho posto de lado, da tristeza de estimação, dos remédios usados para se lidar com aquilo que o peito não conseguiu.
O jogo que não aceitamos perder é o mesmo que não pode ser vencido.
E é por isto e só por isto - por não aceitarmos - que vivemos a perder.
O jogo que não aceitamos perder é o mesmo que não pode ser vencido.
E é por isto e só por isto - por não aceitarmos - que vivemos a perder.
segunda-feira, 25 de julho de 2016
A seco...
Ela por bem engoliu a seco as palavras que fariam a diferença. E por bem guardou tanto e tudo porque não queria perder. Ela se sente longe de casa dentro do próprio peito. E não sabe o que fazer com o que sente, e como é não se sentir sempre incômoda, apressada, atrasada e na dúvida se o que viveu até então não poderia dar-lhe algum descanso. Ela quer o que a alivie desta sensação de não se encaixar; no amor que não encaixa, na solidão que não encaixa, na vida que não encaixa. Ela busca o que a salve do caminho sempre tão difícil, do que crê ser improvável, do que já aceitou ser impossível. Sofre das distrações que não alimentam; sofre da falta de sentido; da falta de amor próprio; sofre de boicote; de insônia; de um silencioso e crônico desajuste dentro de si. Cabe onde não lhe cabe mais e insiste. E se prende. E mastiga. E procura: nos romances que não vingam, entre os erros que se vingam, nos livros que devora. Distraindo-se na poesia, nas ansiedades, no sexo, no sono, na sedução, nos elogios dos outros que coleciona no espelho que não se enxerga. Luta contra os medos, contra o tempo, contra a velhice, contra o estresse, contra a tristeza. Conta histórias para acreditar. Conta lembranças para convencer. Conta vantagens para ocultar o tédio, o emprego, o amor e a rotina sem altitude. Não sabe o que é renascer, apenas se remendar. Assim não se perdoa, não esquece, não se aceita, se envenena: de carências, mágoas, frustrações, passados. Ela que agrada a todos queria ser rebelde. Ela tão rebelde não sabe sentir-se amada. Ela não sabe. Ela suspeita, ela planeja, ela deseja. Ela sonha, mas não desperta.
Ela quer ser quem ainda não foi.
E ver se dá certo.
domingo, 24 de julho de 2016
Eu te odeio...
Eu te odeio. Odeio por não conseguir despedir-me do que não deveria pertencer-me mais, e que leva teu nome. As lembranças tuas são de doce insuportável misturadas neste amargo presente. O contraste embrulha o estômago, oprime o peito, dá-me gosto ruim. Odeio-te por cair em todos os buracos que o meu amor próprio permitiu. Eu te odeio por querer-te demais, e há frustrações demais por detrás disto. Querer-te demais é a doença e a punição que sofro enquanto desejo. Odeio-te por caminhar para o abismo. Odeio-te por sua ausência cobrar-me qualquer obrigação. Eu te odeio porque espero que lembres de mim no mesmo grau e intensidade; que sinta o mesmo veneno filho das tristezas. Eu te odeio porque não é isto o que realmente espero e porque de ti não tenho notícias. Odeio-te por não saber o que fazer contigo. Odeio-te por não saber o que fazer com o tempo que sobrou. Odeio-te por perder o norte, o rumo, o lume. Eu te odeio porque não sei mais de mim como sabia. Odeio-te por enterrar certezas, esmiuçar cansaços e calar-me para que só ele fale. Dói-me o orgulho. Doem-me as fraquezas. Odeio-te por não haver palavra que alivie, prazer que alivie, fuga em que eu escape, e então, levo-te comigo a me castigar. Odeio-te por não haver nada bom o suficiente, ainda que seja nítido que tudo possa ser melhor que ti. Odeio-te pelos sintomas todos. Por estes pequenos grandes inúmeros tormentos. Por frágeis e inconstantes previsões. Odeio-te por não ter combinado nada para ser feliz amanhã. Odeio-te porque sangro para sempre. Odeio-te porque fui marcado pelo amor que trouxeste. Odeio-te por não servir para outra coisa senão o amor.
Eu te odeio por isto, justamente porque te amo.
Eu te odeio por isto, justamente porque te amo.
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