quarta-feira, 20 de julho de 2016

O fim...

Quem disse que no amor há final ou mentiu ou se enganou, fosse para enganar a si mesmo e salvar-se da dor. Ninguém está à salvo de um final que não acaba, vez que o amor continua sendo o que é, ainda que tenhamos deixado de ser o que éramos. A verdade é que o fim nem sempre é o final, mas apenas doloroso e cansativo recomeço. Obrigação dolorosa de impormos distâncias, abraçarmos a contragosto as ausências, lembrarmos do que se gostaria de esquecer, pois, mudamos do plural para um inevitável e apertado singular. Cansativo porque abrimos mão dos planos, sonhos e cuidados colecionados ao longo da convivência: entre o que éramos e o que seremos, continuamos vivos mesmo depois de morrermos; vivendo precária existência a espera de nos sentirmos menos do que uma metade. Ânsia angustiada para que voltemos às cores; para que o interesse nos desperte e que nada mais doa quando nos toquem. Que deixemos de nos sentir estrangeiros na própria vida, desconfortáveis em nós mesmos, quando qualquer luz ainda incomoda e cega, ao invés de ajudar-nos verdadeiramente a enxergar. O que nos dói na morte mesma é que nem sempre morremos de amor; ficamos como intervalo entre o que sentimos e o que buscamos abandonar e dissolver, a um passo do abismo interior e da desordem emocional, carregando o gosto amargo e um peso no meio do peito, da alma, do caminho, imperceptível para os pedestres. O amor não nos pede justificativas para continuar sendo, independente de nós. Por isto doemos quando não mais se é, ainda que distante continue a ser.

Mentimos que há um fim para podermos novamente começar.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Prometo levar-te flores...

Depois de tudo e tanto meu amor, não precisarei matar-te dentro de mim. Lamento informar somente agora, mas havias morrido desde muito. O erro, confesso, foi não declarar antes teu óbito. Hoje o que está a doer-me não é o final - eu já esperava o dia para me livrar do teu cadáver - e sim a necessidade de encarar-me e abandonar o peso do passado que carrego. O que está a doer-me é voltar aos inteiros quando neles não caibo mais. O mofo, a mágoa e o medo que tua alma tornou a minha ocuparam o espaço das janelas para sair. A questão é que me desacostumei com a luz por conta da tua escuridão. Saiba, meu bem, enquanto me sufocavas com a tua demência eu te asfixiava com meu desinteresse. Por isto não choro qualquer adeus. Não há por quem chorar ou partir. Partido estou eu e, se nascem-me as lágrimas são por um passado que não aconteceu e pelo medo de encarar-me no que sobrou a colar os cacos. Choro, sim, de raiva por ter me tornado moribundo entre as tuas violências. O que me restou? Exorcizar-te e não lhe contar. Enganei-me acreditando ser ainda amor, enganei-te ao permitir teus passos ao lado de um homem vazio como defesa pelas dores que me deste. A tristeza não ocorre pela despedida, mas porque não sei para onde ir a encontrar-me com uma paz que hoje não alcanço. Tu te tornaste o fantasma do fantasma que me tornei. Sou eu agora a pagar o preço para ressuscitar, reanimar o amor próprio depois de acimentar doçuras e consignar levezas. E tudo para ficar contigo sem ficar comigo mesmo. Emprestei belezas que jamais poderia ter a ti emprestado, porque tu nunca devolveste. O que mais me dói é ter que recobrar a sanidade e encarar a vergonha de permitir-me perder tempo e ter sido o que jamais teria permitido-me ser. E ainda que eu seja toda esta aridez a lhe confessar, prometo levar-te flores. Num passado em que conseguimos nos amar porque nem no túmulo hoje mereces tu a minha visita.

domingo, 17 de julho de 2016

Meu próprio farol...

Hoje, quero ser o meu melhor encontro de amor, deitado no meu abraço mais gostoso a envolver-me macio como cetim e enfeitar de sereno e cuidados minha própria alma. Porque algo aqui dentro me convida a despedir tristezas como quem lava as mãos no rio do tempo, cantarolando baixinho música a lembrar-me da infância. Hoje, namoro silêncios para com carinho consertar meu vaso rachado de esperanças e acreditar mais em mim. É hora de vestir levezas, convidar a vida para dançar ciranda e me crer amada pelos amanhãs. Algo nesta noite tece mistérios que descortinam a alma feito mágica, a me trazer sensação de surpresa boa como a delícia de um sorriso de criança que se encantou com o truque de tirar o melhor suspiro da cartola. Hoje é dia de espalhar sementes sem precisar sair do lugar. De plantar um pé-de-sol dentro do peito e respirar macio. Hoje é dia de saber o tamanho das próprias asas. É dia de adormecer os medos e desempoeirar verdades, exercitando coragens para desatar nós em laços que não mais enfeitam e dissolver mágoas no perdão de si. Sou, antes, ser inacabado que existe sendo, frase de inspirações passadas a viver um presente sem rosto, mas que quer sorrir. Para além das marés que sinto entre as noites e tempestades eu sou o meu próprio farol. Sou antes de ser flor, primavera. Antes do amanhecer, meu próprio sol. Sou a promessa da semente e preciso pertencer-me toda e inteira antes, para poder saber-me depois. Sou a lenta despedida do que não me pertence mais. 

Eu sou um delicioso plural de mim.
 
(Guilherme Antunes & Li Vereza)

sábado, 16 de julho de 2016

Lançamento!

"Às vezes essa história de ser inteiro me deixa pela metade, de ser intenso um desgaste só. A dor sendo sombra e o prazer, fruto, qual a escolha daquele que evita o morno da vida senão sentir?"

A moda e a literatura.
Novo projeto. Em breve.


Poemetimize & Guilherme Antunes

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Narrativa...

Tenho nascido desde o início dos anos 80 até então e, ultimamente, não há um só dia que não venha a morrer. Aprender a morrer leva talvez mais tempo do que se vive e do que se aprende a viver. Sabes bem que isto não se trata de outra coisa senão de amor. Desde o cessar das pequenas coisas até a perda das coisas maiores. A morte dos amores por qualquer partida. A morte dá-nos singular e provisória percepção sobre a vida quando uma na outra se encosta, depois dissolvida no tempo e no cotidiano: este, a devorar-nos as sensibilidades. É pela devoração que aprendemos a amar com distâncias para não sofrermos aquilo que nos é inevitável: a perda. É pela devoração que aprendemos o medo, a fechar portas, abrir com cuidado as janelas, interpretar os sonhos. Buscamos no amor exatamente o que nele afastamos: motivos a sairmos do exílio no qual ininterruptamente nos colocamos. Amar é repatriar-se na vida. Viver é desaprender a morrer, e seguir. Morrer é doer para esquecer de doer, e viver. Porque torna o amor tudo o que atravessou feito de memórias. Os móveis de casa toco para sentir histórias. Meu corpo é uma costura de referências. O cheiro do café lembra-me a infância. Um livro trouxe-me de volta minha vó. Uma música devolve-me o primeiro beijo. Tenho morrido repetidamente para aprender corretamente a esquecer; isto porque grifamos estupidamente o amor quando este se torna saudade ou tristeza. Tenho nascido repetidamente para aprender corretamente a lembrar; para não perder aquilo que já perdi por não esperar o tempo de amadurecer: olhar, abraçar o suficiente, calar, declarar-se o suficiente, pedir perdão, perdoar, amar melhor. Somente o amor concede-nos prever o futuro, reparar o passado, suspender o presente, ainda que imprevisível o futuro, irreparável o passado e contínuo o presente. O amor permite-nos esta paradoxal narrativa que melhor se explica quanto melhor nos desesplica, absolvendo-nos das maneiras mais severas da sua ausência.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Os livros...

São os livros a escolher-nos e não o contrário. Silentes, farejam-nos no tempo. Sabem de nós muito antes de nós os sabermos. São feitos para nós; nascem para nós; dando-nos a acreditar que nós os encontramos. Para cada um de nós há um exato livro que nos aguarda. Para cada um de nós há verdades que nos esperam. Para cada um de nós há reflexos que somente a cada um de nós pertence.

Eis o seu momento de ser encontrado.

A última tiragem chegou.

e-mail: guglicardoso@gmail.com
fb: http://facebook.com/ailhadeumhomemso

terça-feira, 12 de julho de 2016

Problema...

O problema não foi nenhuma das nossas incontáveis, insuportáveis, intermináveis discussões; nas tardes lindas dos finais de semana em que passávamos mais tempo na cama apagando incêndios do que enamorados. O problema não foi seu incrível dom em arranjar problemas, ou até cisco no olho, naqueles dias pares e ímpares da nossa relação. O problema não foi o seu ciúme doentio, ou seus gritos, ou a sua falta de respeito, sua raiva desmesurada. O problema aqui, tampouco foi você sempre ter me sufocado, por tantas vezes me humilhado, condenado todo o meu passado, minhas escolhas e um dia quem eu fui. O problema não foi qualquer uma das minhas lágrimas, meu coração despedaçado, meu poço profundo de ressentimentos, minhas cartas rasgadas. O problema também não foi sua (in)vigilância, sua implicância, suas mil cobranças ou todas as suas tentativas de me controlar: corpo, mente e alma. Nem você ter estragado festas e noites, arruinado jantares, frustrado viagens, boicotado descansos, com pequenas bobagens que se tornaram vendavais. O problema não foi seu mau humor ser o pano de fundo da nossa história; ou todas as nossas brigas já previstas na agenda. Também não foi o meu desespero casado com a tua falta de lucidez. O problema não foi você ter despertado minhas sombras e demônios que jamais precisariam ter sido despertados. O desespero, a frustração, a nossa violência física, verbal e espiritual. Ou noites muito mal dormidas e lembranças doídas. O problema não foram seus dramas, suas mentiras ou qualquer uma das suas prisões: ter feito do medo, o ar que eu respiro; ter feito do peito, uma coleção de feiuras; ter como vício não ser feliz. A questão não foi você ter feito o inferno parecer parquinho infantil, e o amargo o pão nosso de cada dia. Não, o problema não foi eu não mais no amor ter crido, ou estar na vida morto enquanto vivo, ter por você adoecido, ou ter por completo apodrecido. O problema mesmo, meu bem, foi você um dia ter nascido.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Dos tolos...

Os tolos não vivem por completo. O que nunca aceita e sempre exige, na vida encontra-se desperdiçado de tudo. Contrariado, fervem-lhe as ânsias. Contrariado, rebela-se incapaz de transpor suas frustrações. Trouxe consigo o menino que um dia lhe deixaram ser e nada negaram. Hoje finge sentimentos educados até que lhe desmintam por aquilo que não lhe dão. Contrariado, torna-se predisposto às fúrias e pela lógica, as perdas. Aniquila-se no próprio veneno que o afasta do bom senso e do que ama. Devem os outros reagirem apenas aquilo que silencioso aceita. Pois se contrariado, ressente-se, pondo a coerência em xeque, o peito ausente, o corpo menos aliviado. Sua fragilidade é que o mundo lhe desdiga e desmascare. Sua fragilidade é o medo que o apavora e veste-o de raiva que muito sente se desdito e desmascarado. Dono das certezas e das inverdades que convive, vence apenas para não perder, e perde sempre sem saber ganhar. Os tolos não vivem por completo, mimados de tudo para suas crenças.

domingo, 10 de julho de 2016

Quando...

Os olhos fechados servem para evadir-me. Ocupo-me para justificar as fugas. Mudo de amor por covardias e permaneço neles pela mesma razão. Recuo sempre como se sempre seguisse adiante. O que desaprendi contigo me ensinou como nunca, mas para nada.

Diga-me: quem sou eu quando não estás?

sábado, 9 de julho de 2016

Se...

Se soubéssemos dos frequentes milagres e possibilidades que ocultos vivem nas distraídas escolhas do dia a dia, aguardando pacientemente a nossa permissão - uma inexatidão de nós, uma guarda baixa, uma distração - para que venham a revelar-se e salvar-nos das insistências que cultivamos em tons de cinza e naquilo que não se é mais, renasceríamos mais vezes...

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A saída...

A única saída será aquela pela qual ainda não se entrou. Ela não será uma resposta visto que a saída não é nada que se pareça com uma. A única saída será atravessar o que se oculta. A saída é o óbvio que não se enxerga. A única saída é aquela que se tardará uma vida a perceber que ela se trata exatamente da entrada. Ela se encontra por detrás do medo. Ela se sabe por detrás da vergonha. Ela se revela por detrás do orgulho. A saída não será o final, mas antes o real início. A única saída será enfrentar-se tão completamente que isto se trate de aceitar-se completamente. Ser quem se é para aí então buscar-se como aquele que se encontrou.

Ser a si mesmo é a única saída que até agora ainda não tentamos.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Outras vezes, não.

[...] e ao longo do tempo vi que entre o leitor e eu há a palavra. E entre o leitor e a palavra há um universo seu que bebe do meu universo a partir dos seus próprios humores, amores e vazios. Por isso muitas o leitor enxerga somente aquilo que pode ver: o seu próprio reflexo.

Às vezes é possível alcançar-me. 
Outras vezes, não.