sábado, 16 de julho de 2016

Lançamento!

"Às vezes essa história de ser inteiro me deixa pela metade, de ser intenso um desgaste só. A dor sendo sombra e o prazer, fruto, qual a escolha daquele que evita o morno da vida senão sentir?"

A moda e a literatura.
Novo projeto. Em breve.


Poemetimize & Guilherme Antunes

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Narrativa...

Tenho nascido desde o início dos anos 80 até então e, ultimamente, não há um só dia que não venha a morrer. Aprender a morrer leva talvez mais tempo do que se vive e do que se aprende a viver. Sabes bem que isto não se trata de outra coisa senão de amor. Desde o cessar das pequenas coisas até a perda das coisas maiores. A morte dos amores por qualquer partida. A morte dá-nos singular e provisória percepção sobre a vida quando uma na outra se encosta, depois dissolvida no tempo e no cotidiano: este, a devorar-nos as sensibilidades. É pela devoração que aprendemos a amar com distâncias para não sofrermos aquilo que nos é inevitável: a perda. É pela devoração que aprendemos o medo, a fechar portas, abrir com cuidado as janelas, interpretar os sonhos. Buscamos no amor exatamente o que nele afastamos: motivos a sairmos do exílio no qual ininterruptamente nos colocamos. Amar é repatriar-se na vida. Viver é desaprender a morrer, e seguir. Morrer é doer para esquecer de doer, e viver. Porque torna o amor tudo o que atravessou feito de memórias. Os móveis de casa toco para sentir histórias. Meu corpo é uma costura de referências. O cheiro do café lembra-me a infância. Um livro trouxe-me de volta minha vó. Uma música devolve-me o primeiro beijo. Tenho morrido repetidamente para aprender corretamente a esquecer; isto porque grifamos estupidamente o amor quando este se torna saudade ou tristeza. Tenho nascido repetidamente para aprender corretamente a lembrar; para não perder aquilo que já perdi por não esperar o tempo de amadurecer: olhar, abraçar o suficiente, calar, declarar-se o suficiente, pedir perdão, perdoar, amar melhor. Somente o amor concede-nos prever o futuro, reparar o passado, suspender o presente, ainda que imprevisível o futuro, irreparável o passado e contínuo o presente. O amor permite-nos esta paradoxal narrativa que melhor se explica quanto melhor nos desesplica, absolvendo-nos das maneiras mais severas da sua ausência.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Os livros...

São os livros a escolher-nos e não o contrário. Silentes, farejam-nos no tempo. Sabem de nós muito antes de nós os sabermos. São feitos para nós; nascem para nós; dando-nos a acreditar que nós os encontramos. Para cada um de nós há um exato livro que nos aguarda. Para cada um de nós há verdades que nos esperam. Para cada um de nós há reflexos que somente a cada um de nós pertence.

Eis o seu momento de ser encontrado.

A última tiragem chegou.

e-mail: guglicardoso@gmail.com
fb: http://facebook.com/ailhadeumhomemso

terça-feira, 12 de julho de 2016

Problema...

O problema não foi nenhuma das nossas incontáveis, insuportáveis, intermináveis discussões; nas tardes lindas dos finais de semana em que passávamos mais tempo na cama apagando incêndios do que enamorados. O problema não foi seu incrível dom em arranjar problemas, ou até cisco no olho, naqueles dias pares e ímpares da nossa relação. O problema não foi o seu ciúme doentio, ou seus gritos, ou a sua falta de respeito, sua raiva desmesurada. O problema aqui, tampouco foi você sempre ter me sufocado, por tantas vezes me humilhado, condenado todo o meu passado, minhas escolhas e um dia quem eu fui. O problema não foi qualquer uma das minhas lágrimas, meu coração despedaçado, meu poço profundo de ressentimentos, minhas cartas rasgadas. O problema também não foi sua (in)vigilância, sua implicância, suas mil cobranças ou todas as suas tentativas de me controlar: corpo, mente e alma. Nem você ter estragado festas e noites, arruinado jantares, frustrado viagens, boicotado descansos, com pequenas bobagens que se tornaram vendavais. O problema não foi seu mau humor ser o pano de fundo da nossa história; ou todas as nossas brigas já previstas na agenda. Também não foi o meu desespero casado com a tua falta de lucidez. O problema não foi você ter despertado minhas sombras e demônios que jamais precisariam ter sido despertados. O desespero, a frustração, a nossa violência física, verbal e espiritual. Ou noites muito mal dormidas e lembranças doídas. O problema não foram seus dramas, suas mentiras ou qualquer uma das suas prisões: ter feito do medo, o ar que eu respiro; ter feito do peito, uma coleção de feiuras; ter como vício não ser feliz. A questão não foi você ter feito o inferno parecer parquinho infantil, e o amargo o pão nosso de cada dia. Não, o problema não foi eu não mais no amor ter crido, ou estar na vida morto enquanto vivo, ter por você adoecido, ou ter por completo apodrecido. O problema mesmo, meu bem, foi você um dia ter nascido.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Dos tolos...

Os tolos não vivem por completo. O que nunca aceita e sempre exige, na vida encontra-se desperdiçado de tudo. Contrariado, fervem-lhe as ânsias. Contrariado, rebela-se incapaz de transpor suas frustrações. Trouxe consigo o menino que um dia lhe deixaram ser e nada negaram. Hoje finge sentimentos educados até que lhe desmintam por aquilo que não lhe dão. Contrariado, torna-se predisposto às fúrias e pela lógica, as perdas. Aniquila-se no próprio veneno que o afasta do bom senso e do que ama. Devem os outros reagirem apenas aquilo que silencioso aceita. Pois se contrariado, ressente-se, pondo a coerência em xeque, o peito ausente, o corpo menos aliviado. Sua fragilidade é que o mundo lhe desdiga e desmascare. Sua fragilidade é o medo que o apavora e veste-o de raiva que muito sente se desdito e desmascarado. Dono das certezas e das inverdades que convive, vence apenas para não perder, e perde sempre sem saber ganhar. Os tolos não vivem por completo, mimados de tudo para suas crenças.

domingo, 10 de julho de 2016

Quando...

Os olhos fechados servem para evadir-me. Ocupo-me para justificar as fugas. Mudo de amor por covardias e permaneço neles pela mesma razão. Recuo sempre como se sempre seguisse adiante. O que desaprendi contigo me ensinou como nunca, mas para nada.

Diga-me: quem sou eu quando não estás?

sábado, 9 de julho de 2016

Se...

Se soubéssemos dos frequentes milagres e possibilidades que ocultos vivem nas distraídas escolhas do dia a dia, aguardando pacientemente a nossa permissão - uma inexatidão de nós, uma guarda baixa, uma distração - para que venham a revelar-se e salvar-nos das insistências que cultivamos em tons de cinza e naquilo que não se é mais, renasceríamos mais vezes...

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A saída...

A única saída será aquela pela qual ainda não se entrou. Ela não será uma resposta visto que a saída não é nada que se pareça com uma. A única saída será atravessar o que se oculta. A saída é o óbvio que não se enxerga. A única saída é aquela que se tardará uma vida a perceber que ela se trata exatamente da entrada. Ela se encontra por detrás do medo. Ela se sabe por detrás da vergonha. Ela se revela por detrás do orgulho. A saída não será o final, mas antes o real início. A única saída será enfrentar-se tão completamente que isto se trate de aceitar-se completamente. Ser quem se é para aí então buscar-se como aquele que se encontrou.

Ser a si mesmo é a única saída que até agora ainda não tentamos.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Outras vezes, não.

[...] e ao longo do tempo vi que entre o leitor e eu há a palavra. E entre o leitor e a palavra há um universo seu que bebe do meu universo a partir dos seus próprios humores, amores e vazios. Por isso muitas o leitor enxerga somente aquilo que pode ver: o seu próprio reflexo.

Às vezes é possível alcançar-me. 
Outras vezes, não.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Toda para nós...

 E nós, atrapalhados entre sermos tolos e apaixonados, dizíamos tanto por conta da tolice quanto por culpa do coração que o outro ainda nos salvaria por trazer consigo a felicidade toda para nós. 

Deixemos esta ideia assim, por enquanto.

terça-feira, 5 de julho de 2016

A doença...

A doença é um sintoma do impedimento das verdades que em nós deixam de circular. Quando verdade se prende no peito, no estômago, na garganta, o desequilíbrio acontece. A doença é o aviso de que a alma está corrda, sufocada ou fragmentada.

A doença é a revelação da verdade que por tanto tempo ignorada engessou-nos a nós mesmos. A ansiedade, o medo, a inveja, a tristeza por vezes são esses engessamentos de uma verdade não expressa devidamente em nós e por nós. 
Por isto a necessidade de reconhecê-la para nos reconhecermos, praticando-a como integral aceitação do que insistimos em negar, e, como desapego essencial do que insistimos em carregar a por-nos envenenados.
Às vezes exatamente por não aceitarmos uma verdade que nos cabe dispensá-la é que continuamos a carregar.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Das fidelidades...

Ao navegarmos no rio do tempo, ganhamos velocidades que não mais respeitam nossos olhos que ainda buscam acompanhar os detalhes do percurso; não nos sobrou idade e dia na agenda para isto. Quando jovens queríamos alcançar nossos objetivos, e agora nos perguntamos o que alcançamos com eles. Quantos de nós não se perderam do caminho de sermos aquilo que não somos? O que diria hoje nossa infância sobre nós? Continuamos fiéis aos sonhos de antes? Penso ser esta a mais bonita fidelidade a que nos devemos. Não estamos sozinhos na viagem: sofremos das mesmas faltas pela ideia de que éramos sempre mais felizes no passado. A vida se consome quando nos permitimos entrar neste carrossel ao mesmo tempo que da própria vida nos afastamos. Deixamos que a saudade e a tristeza sejam nossas companheiras. Você não é o único e não sei se isto te conforta. Sinto as mesmas contrações na alma que você e agora que tenho mais do que antes, sinto-me como nunca a colecionar vazios. Talvez seja esta toda a nossa miséria: a angústia de que nos falam os livros e o peito. Quem sabe aí esteja a necessidade da busca e da religação, seja através do mergulho ou do salto no interior para o encontro consigo ou com algum deus - quem sabe? Mas, quem tem tempo de encontrar seu deus para além das imediatas aflições, urgentes pedidos e minutos antes do sono? Porque estamos todos ocupados em cumprir o cotidiano. Afinal, somos pessoas tanto responsáveis quanto ansiosas e não temos tempo para nada disto.