domingo, 3 de julho de 2016

Ausências...

Transformou ausências, ainda agarradas nos contornos de dentro, em planos muitos. Calou medo com o olhar no silêncio festejou, impedindo boicote de entrar para roubar a festa e celebrar também. Convidou seu melhor sorriso para amanhã se reinaugurar.

E nunca mais permitiu aproximar engano sem saber qual sua proposta.

sábado, 2 de julho de 2016

O que queremos do amor...

Se tenho alguma coisa a dizer sobre o amor é que não tenho coisa alguma sobre o amor para dizer. Aliás, alguma coisa sempre se tem mas qualquer conselho que eu venha a dar, penso que a maioria seja desaconselhável. De qualquer maneira, cá estou a dar minhas impressões e pitacos. Aos estreantes ou em vias de estrearem neste inevitável e atualíssimo assunto, peço desculpas, pois falarei àqueles já estreados no confuso palco dos relacionamentos e que carregam no bolso existencial da vida, curriculum amoroso com aquelas frases manjadas de que somos dinâmicos e estamos sempre dispostos a aprender e a fazer nosso melhor, cousa que usamos para impressionar o próximo nalguma entrevista disfarçada de encontro. Pois bem, o que queremos do amor é que ele nos reconduza a ele mesmo. Nada mais evidente! Depois de tantos desatinos e pés pelas mãos, queremos um amor que nos leve de volta ao amor mesmo. Queremos novamente as borboletas no estômago que matamos ao usarmos os antiácidos da discórdia e do cansaço, e levezas outras que passamos a ver léguas de distância porque não nos pertencem mais. Para isso é preciso desconvocar mágoas, despir-se das armaduras e desconstruir fortalezas sentimentais erguidas com a argamassa de desesperançosas desilusões. Devemos desmurar o medo deixando-nos disponíveis para que o amor volte. Mas isto não quer dizer que o amor seja avesso às batalhas pois, para conquistá-lo pede-se uma, para deixá-lo limpinho e cheiroso pede-se outra, para não asfixiá-lo outra e para evitarmos centenas de milhares de implicâncias são ainda outras tantas. O que queremos de fato do amor é que ele nos dê férias do dia-a-dia que tedioso se repete como uma engrenagem, engraxando-nos com algum encanto, dando ventilação ao peito congestionado de desânimos. Mas para merecido descanso, devemos redobrar o trabalho e a dedicação aos detalhes que compõem o universo de dois. O que queremos de fato do amor é que ele nos devolva a atenção, fazendo com que o mundo seja saboroso novamente, que o milagre seja permitido a qualquer hora e que a vida volte a ser uma grande atração, ainda que de curta temporada. O que queremos de fato do amor é que ele nos mostre com alguma delicadeza os nossos próprios espinhos, que ele nos permita saber o verdadeiro alcance daquelas raivinhas e tolices que pecamos por orgulho ao acumulá-las e que estrategicamente - sem querer - jogamos no outro. O que precisamos saber do amor é que o amor não é econômico: para que ele nos dê o que desejamos é necessário investirmos sem nos pouparmos. O amor rende quanto mais descomplicado ele for. Discussões em excesso, dores de cabeça em série e elucubrações alongadas o matarão aos bocadinhos, devendo nós usarmos de tais expedientes apenas para periódicas recauchutagens em caso de desalinhamento. O que precisamos saber de fato do amor é que o amor não precisa ser épico para ser grandioso, tampouco dramático para ser intenso. O que precisamos saber de fato sobre o amor é que ele é passaporte para o nosso inevitável - e sempre oscilante - direito à felicidade, e que ele sem acrescentar-nos em nada, nos dará muito.

(Texto publicado na antologia "Crônicas de um amor crônico" da Editora Penalux)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O homem absurdo...

Era um homem absurdo; vivendo ansioso por carregar-se em cada pensamento; por carregar-se no medo de ser ele mesmo. Arrastava vazios com todo o peso de si e admitia ser para si mesmo metade; isto a ele bastava. Qual seria o poder que haveria de ter se se soubesse? Como despertaria cheio de vontades e sonhos? Ocuparia o lugar inteiro do mundo, justificando-se quando até agora um rascunho, um improviso. Qual dor não traria esta lucidez?  Era um homem absurdo. Por deixar-se vítima; ser vítima dos outros era lucrar com algo que não era, permitindo tristeza à paisana, a raiva pronta para o ataque, a sorte a buscar sempre o erro, o coração sempre burro descalço à beira dos abismos. Sem responsabilidades para ser reflexo, preferia-se assim a saber-se. Encontrar-se é resolver-se e isto é dar o que se tem. Todos damos o que não temos, e no prejuízo saímos fingindo que estamos todos a ganhar, com a vida e os sorrisos em dia. Resolver-se é enxergar aquilo que se poder enxergar; tornando o óbvio, óbvio. E por que se atreveria a isso? Era um homem absurdo, como todos os outros homens. Um homem inseguro e covarde é capaz de tudo, menos de enxergar para buscar-se em paz. Esta, entre todas e tantas, não era a sua maior ambição.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Defeitos...

Amamos, e amamos cheios de defeitos. Ao longo dos venenos, dos invernos e das mortes que a nós e ao amor oferecemos, tão mais frágeis, tão mais resistentes nos tornamos. De alguma maneira no amor e na miséria insistimos. E obviamente tolos por querermos ser donos de qualquer razão, revelamo-nos no instante em que nos desconhecemos. Desmoronamos para continuar seguindo: a doer e ensaiar esperanças. Sem nos bastarmos exigimos dos jeitos mais estúpidos que o outro nos baste. Sobrevivemos pelas insistências. E a vida pouco oportuna aponta-nos os lugares em nós onde amamos e onde não; qual diálogo habitam os egoísmos; qual fala denunciam inseguranças; qual atitude mascara o medo; o que nos falta para poder bastar o outro. Às vezes enxergamos o amor exatamente quando não o vemos.

Porque são nas contrariedades todas que nos permite o amar que então o amor ensina.
E assim ensina porque amamos cheios de defeitos.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

Um livro para contar-nos tudo aquilo que já sabíamos, 
mas que não havíamos ainda descoberto 
que sabíamos. 

E que se faz essencial sabermos.
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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Licença...

A vida pede-nos licença antes de nascer, e engana-se aquele que pensa tê-la desde seu próprio início. A vida é uma aquisição. Adquire-a aquele que toma posse de si mesmo como ato de coragem a derramar-se sobre seu próprio ser. A vida é um batismo anterior aos ensaios e uma conquista para depois deles. Talvez a única genuína a ser-nos possível, a revelar-se após as sucessivas mortes que nos acontecem. Amadurece-nos a vida como fruto no tempo. E o tempo engravida-nos de vida para parirmos já em avançadas idades; quando pudermos em nós nos sentirmos em casa. Anterior a isto, seremos sempre brevíssima varanda a enxergar passados. 

A vida desmente-nos a ideia de que vivemos e somente assim é que verdadeiramente nascemos, passando do acontecer para existir.

sábado, 25 de junho de 2016

Ontens...

O ontem me parece ser o único lugar onde não me é possível exigir e cobrar-me nada além daquilo que já fui. Pois não há urgências no ontem, ainda que sintamos a angústia como seus efeitos. Ali posso descansar-me no mesmo, sem correr os sagrados riscos em viver maiores alturas e eventualmente morrer de amor. O ontem é terreno fértil para distorções e ruas sem saída; e há gente de todo o tipo que ali se culpa dizendo que por lá se perdoou. Há quem volte ao ontem com habitualidade impressionante. Há quem o traga dispensando o próprio presente. Há quem, por isto, despeça-se dos amanhãs como se nunca mais fosse voltar a vê-los, numa viagem sem volta patrocinada pela tristeza a algum passado a dar-nos asilo e qualquer familiar conforto ainda que igualmente nos prenda. O excesso de ontens que colecionamos distancia-nos de nós mesmos pela repetição que anestesia-nos para os agoras. Ainda que os amanhãs façam caminhar as saudades, ontens em demasia as apodrecem dentro da gente. E não me parece acertado viver num lugar onde o sonhar jamais poderá fazer morada.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Respiro melhor...

Escrevo para abrigar-me das tristezas, como chuva que me acontece e me inunda, inesperada. Para além somente de vivê-las, venho para dentro de mim a buscar seus verdadeiros pais e devolvê-las à paternidade que acreditei por tanto minha desde que as encontrei na porta de casa, no meio do peito, ao final do poema, ao final de semana, entre os dias iguais. Disseram-me que pelas semelhanças cabiam-me, e eu, sem saber o que dizer, levei-as comigo. Consolo-me na palavra que as enfrenta, na beleza que as afasta, numa memória que me inocenta, num silêncio que as dissolve e me justifica por não esperar por mim. Aguardo-me feliz nas reticências. Ali, espero-me outro. À beira das palavras, respiro melhor.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Demais...

[...] Sabe qual o nosso problema? Pensamos demais! 
Embora falemos que sentir exageradamente seja o nosso sofrimento. 
A questão mesmo é que pensamos demais, e pensar demais nos causa incontáveis marés que nos roubam de nós visto que nos arrastam para longe por não sabermos dentro do peito navegar.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Piegas...

Se um dia você receber uma carta, longa, linda e passional, com repetidas declarações coloridinhas, alcançando voltas no teu quarteirão, serei eu, diante de ti com sabor cafona de paixão adolescente. Se por um acaso você ouvir pela tua janela um burburinho, abra-a, pois lá estarei eu, fazendo serenata no sereno da noite, declamando versos, cantando liras e ganhando gripe sem me preocupar. Por favor, não me repreenda! Deixe-me ser o que no amor ainda não fui. Se por um acaso você olhar para o alto e me encontrar, ali estarei eu, aprendendo a pilotar avião só para jogar lá do alto pétalas de rosas dinamarquesas que colhi para ti. Mas não fique brava comigo, não! Além da minha reação alérgica, deixe-me voar no teu amor, seja nas asas da metáfora ou num teco-teco bem velhinho. Se um dia andando na pracinha você encontrar escultura sua feita de palitinho de sorvete, serei eu, aprendendo por ti nobres ofícios e me tornando amigo do sorveteiro. Não fique chateada comigo! Diga no máximo que sorvete demais faz mal pra minha garganta. Permita-me ser clichê, lugar-comum, piegas, batido, romântico açucarado, bobo e feliz! Deixe-me ser no teu amor aquilo que sonhei quando acordasse. Deixe-me ser aquilo que ainda serei quando no teu amor crescer.

domingo, 19 de junho de 2016

Mão estendida...

É comum dizermos palavras pequenas quando o outro precisa coisas maiores de nós. É comum colocarmos a aflição do outro na fila de espera enquanto ainda carregamos a nossa. É comum passarmos por cima das dores do outro com as nossas próprias enquanto não paramos de perder a oportunidade em sermos amorosos. Às vezes nosso egoísmo entende o que o outro é como ameaça; às vezes nossas raivas enxergam o que o outro não é como inimigo, e tudo por conta da semelhança dos sintomas que apresentam e que convocam aquilo que também nos falta para estar presente e lidarmos. Talvez por isso seja mais simples medirmos o outro a partir do que não nos fará sair perdendo. Talvez por isso seja mais simples olharmos o outro a partir de nós mesmos, onde o outro sempre será o outro. Por isso seja essencial não buscarmos sempre entender ou não analisar a dor do outro, mas sermos para ele aquilo que precisamos ser para ele; sendo para ele aquilo que precisamos ser para nós mesmos: sujeitos de compreensão e compaixão. Ou do contrário gritarão as nossas feridas quando é a ferida do próximo quem tanto precisa dialogar. Ou do contrário aproveitaremos o momento do outro para expormos o nosso. Parece-me que pela guarda baixa do outro aproveitamos para nos sentirmos um pouco melhores - ou menos piores - do que estamos, e por indigna comparação. Às vezes falta perceber que podemos nos deixar para depois para darmos a vez e ainda assim estarmos juntos. A nossa mesquinhez veste-se com boas roupas apresentando-se com outros nomes para não nos sentirmos, assim, mesquinhos. E quando a deixamos de escolher, quando o outro mais precisa de nós, que nós mais precisamos do outro também: para lembrarmos que só somos amor quando o amor em exercício. E que sendo amor tornamo-nos uma via de mão dupla.

Às vezes quando mais precisamos de uma mão estendida é a nossa própria mão que devemos estender.

sábado, 18 de junho de 2016

Qualquer jardim...

Se a rosa não aceitasse seus próprios espinhos não poderia ela revelar sua beleza e, sentindo-se culpada pelo que é, desejaria ser outra que não a si mesma.

Assim, a rosa viveria ocultando parte do que é e sofrendo por isto, incomodando-se por ver nas outras rosas aquilo que também carrega.

Adoeceria a rosa por recusar-se, sentindo-se menos exatamente por negar seus inteiros, acreditando não merecer qualquer jardim ou primavera.