Vivo, embora ateste minha incompetência em bem viver. Apesar dos apetites e desejos, não aprendi a devorar o mundo sem junto me destruir. Atesto a incapacidade de lidar comigo e com tudo que me orbita: medos, paixões, mágoas, prazeres, ansiedades, tristezas. Não há ponderações para o peito. Os intensos arrastam-me todos para longe de mim. Adestro-me por sobrevivência; protegendo-me num personagem que crio a andar sobre o raso sem qualquer excesso que me derrube. Calo o que condeno e perco o que amo. Os meus sentimentos são para uso doméstico, apenas. Assim, desvio da dor repetindo meus dias uniformemente num roteiro a dar-me sempre uma consistência cega e inútil. Mantenho-me vivo com a ajuda de rotinas e ilusões a cercar uma lucidez que me agarro para não me afogar, para não ser despedaçado por aquilo que não aprendi a lidar. Sou meu próprio desencontro e igualmente um choque, entre erros, o passado, os destinos, o amor, o outro. Sou um estrangeiro de mim sem coragem de falar a língua dos meus interiores movimentos; levado de uma cena a outra buscando parecer o que fui. O que fui será sempre melhor do que sou. E talvez a lembrança do que tive me impeça exatamente de que eu venha a ter. Vivo, embora declare imperícia, estupidez, inabilidade, barbeiragem em viver-me. Declaração que nada alivia, visto que não há direção contrária onde temporariamente me salve. A minha salvação é um exercício diário a que exausto me dedico debaixo das superfícies do meu dia ensolarado.
terça-feira, 14 de junho de 2016
segunda-feira, 13 de junho de 2016
Azuis...
Como se pela sua boca pudesse eu saber de alguma verdade desavisada de mim. Como se pelos seus olhos pudesse eu saber entre os azuis a minha imagem. Ela é a inexatidão a que me permite enxergar. Eu sou o inexato que a ela permito entender. E são nos desencontros de cada um onde melhor nos encontramos. Aquilo que se dá na cumplicidade de um amor. Aquilo que se tem no melhor das amizades. Aquilo que se vê no reflexo das águas. As minhas armadilhas ela desarma. As suas armadilhas de desamor, eu a ela explico. Ela se despe para vesti-la com flores. Ela costura suas próprias feridas na minha carne. Eu abraço seus medos levando-os para longe. Os seus erros falam dos meus. Ela chora as minhas tristezas. Eu celebro as suas vitórias. Ela se tornou refúgio da tempestade que me descobri. E me tornei silêncio para calar seus vendavais. A minha força é a sua força porque a verdade nos faz eco, porque as ilusões nos são parentes. Ela quem confessa e sou eu que suspiro aquilo que de mim escondo. Ela se oculta e eu verso suas entrelinhas no poema. E toda vez que nos procuramos, revela-se ao outro um inédito, uma outra cor, um novo tom para os já repetidos cansaços. Eu abençoo o seu tamanho. Ela abençoa o meu. Porque vemos aquilo que nenhum de nós enxerga: as nossas próprias alturas. Como canção, somos um dueto. Onde apenas um sabe a letra que ao outro compete.
A liberdade é o carinho que a ela eu daria caso pudesse.
Dou-lhe a poesia.
domingo, 12 de junho de 2016
Cartomantes...
Vivia
ela de improvisos: encontros, caminhos, diálogos. A única exatidão de
que tinha posse eram dos seus erros: encontros, caminhos, diálogos. Para
ela, a soma dos erros não lhe facilitavam acertos, mas a inevitável
direção dos seus destinos. Acreditava que os videntes se aproveitavam da
vida medíocre de seus consulentes. Acreditava que liam nossos erros
para a partir deles anteciparem outros mais e uma ou duas sortes entre
os intervalos. Os acertos não apareciam contundentes nas leituras pois
não lhes eram suficientes para consistentes constatações. Quão melhor a
leitura dos equívocos, melhor a leitura dos possíveis. Assim se valiam
as cartomantes - dos desajustes descritos na combinação das suas cartas.
Apenas o amor poderia recombinar as pré-visões e salvar-nos das
tristezas a que nos destinamos. O amor concede-nos a liberdade pelo
despejo dos fantasmas e das repetições. O amor revela-nos a inédita porção do espírito onde não alcança nenhum cálculo sobre os amanhãs.
O amor nos reinventa.
E é ele quem dá as cartas.
E é ele quem dá as cartas.
sábado, 11 de junho de 2016
Estilhaços...
Com metade do peito a funcionar, esquecia
diariamente um pouco mais para que servia o coração.
é para as alturas - diziam os estilhaços.
e assim dirão, sempre, a lembrar-nos do que não se deve nunca esquecer.
porque crê o amor na gente muito mais do que a
gente crê na gente mesmo.
diariamente um pouco mais para que servia o coração.
é para as alturas - diziam os estilhaços.
e assim dirão, sempre, a lembrar-nos do que não se deve nunca esquecer.
porque crê o amor na gente muito mais do que a
gente crê na gente mesmo.
sexta-feira, 10 de junho de 2016
Topada...
Vivemos a partir do medo de sermos expostos a nós mesmos; e por consequência ao outro, pois, deixar-se vulnerável é permitir que se manifestem as inevitáveis partes nossas que ao longo do tempo ocultamos pelo sofrimento que nos trouxeram. O medo é uma reação ao sofrimento passado que nos trás ao presente o próprio medo como defesa. Sofremos por ele para evitar sofrermos.
É como chutarmos uma pedra para que a dor nos impeça de sairmos do lugar e não corrermos o risco de cairmos ou chutarmos uma pedra no meio do caminho.
É como chutarmos uma pedra para que a dor nos impeça de sairmos do lugar e não corrermos o risco de cairmos ou chutarmos uma pedra no meio do caminho.
quinta-feira, 9 de junho de 2016
Testemunha...
Aos teus olhos gastos pela tristeza, refaço-os na poesia que cultivo somente a ti. Às tuas mãos castigadas pelo tempo, empresto-lhe as minhas, a levar-te a qualquer descanso. Aos teus lábios com gosto amargo, ponho-te flores à boca, lembrando-te de que o teu nome é um dia bonito. Assim, falo sobre esperanças; deito-te no colo da noite; amanheço-te com os teus sonhos. Anuncio as primaveras. Costuro o teu próprio amor para que o vistas e, traço o meu viver para tocar na tua vida. Anuncio-te aos amanhãs, este espetáculo de cores novas em que será o mundo quando tu novamente tornar-te o poema, e estiveres outra vez a florescer.
Serei eu, então, amante e testemunha dos teus milagres.
(Guilherme Antunes & Patrícia Pinheiro)
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Primeiros socorros...
Quando mais precisamos do amor próprio para seguirmos adiante, mais o colocamos em xeque pela sua ausência. Quando mais precisamos nos aceitar para nos alcançarmos, menos nos aceitamos, ficando nós para trás de nós mesmos.
Queremos nos aceitar sem nos aceitarmos; acreditando num amanhã qualquer que por algum motivo seremos outros, com menos culpas, dúvidas, raivas e ansiedades, e aí, então, poderemos nos aceitar e nos encontrar com a serenidade e o equilíbrio.
O que insistimos em não perceber é que será a partir do amor próprio - sendo ele possível existir sempre no presente - que então seremos outros sem precisarmos ser; podendo nós a partir dele dispensarmos culpas, dúvidas, raivas e ansiedades.
Aceitando-nos agora e poderemos nos aceitar amanhã. O caminho inverso não é possível, embora tanto acreditemos nele pela facilidade com que se apresenta.
Amor próprio é condição, a primeira delas. Amor próprio é o espaço onde nos aceitamos verdadeiramente sem julgamentos e cobranças, e apenas a partir do que aceitamos podemos enxergar verdadeiramente, transformando-nos se assim quisermos ou despedindo o que quer que seja se assim necessário.
terça-feira, 7 de junho de 2016
Qualquer coisa...
Dançamos com a ansiedade porque não saberíamos o que fazer parados.
Apressamos o tempo para sairmos do lugar onde estamos. Incomoda-nos
demais não fazer, não esperar, não beber, não comer, não assistir, não
dormir, não ler, não escrever, não sair, não aparecer, não "qualquer
coisa". Ocupamo-nos de todos os jeitos para nos distrairmos de nós
mesmos. Se conseguíssemos por um breve instante parar, o que ouviríamos
se nos déssemos ouvidos? O que enxergaríamos se nos permitíssemos ver?
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Para respirá-lo...
Se tão estranho é que depois de tanta mágoa podemos ainda pensar no amor, se tão estranho é que depois de tanta tristeza podemos ainda lembrar do amor, se tão estranho é que apesar de tanto sofrer podemos ainda querer o amor, se tão estranho é que apesar de tanto morrer podemos ainda renascer no amor, se tão estranho é que apesar de tanto medo podemos ainda desejar o amar, se tão estranho é que depois de tanto fugir podemos ainda encontrar o amor, se tão estranho é que depois de nos destruírmos podemos ainda perdoar por amor, que mesmo depois de muito podemos ainda sentir o amor, que mesmo depois de muito pouco podemos ainda reinventar o amor, se tão estranho é que depois de tanto, de tudo, apesar dos pesares, dos pedaços, dos cacos, das reticências, das desistências e dos cansaços, podemos ainda sonhá-lo e respirá-lo mesmo quando não há o que respirar, é porque de amor somos todos feitos.
domingo, 5 de junho de 2016
Imagem...
Somos fascinados pela imagem que mostramos ao espelho e não pelo que o espelho nos mostra. Por não sabermos lidar com tudo o que somos, declaramos o que somos para convenientemente nos convencermos da própria história que contamos, e a partir dela podermos aparentar o que gostaríamos de ser como se já fôssemos. Não à toa vivemos recheados de certezas como se estas fossem verdades reconhecidas pelo peito. Calamos os vazios e dizemos que estamos preenchidos. Calamos a raiva e declaramos que estamos em paz. Calamos a ansiedade e afirmamos que sabemos aproveitar a vida. Assim bebo até o exagero, tiro incontáveis fotos dos momentos em que digo que onde estou, com quem estou e o que faço é a vitrine de minha vida feliz. Saímos até a exaustão por não sabermos ficar conosco. Não paramos porque não sabemos parar. Não sabemos olhar para os medos, para a solidão, para as carências. Assim, direi que só serei feliz ao ser amado. Assim, farei qualquer coisa que me distraia de mim, do que também sou mas não tolero, do que também trago mas não suporto. Não, eu não sou invejoso. Os outros que me invejam. Não, eu não sou maledicente. Os outros é que falam mal de mim. Não, eu não sou impaciente. O outro é quem tanto me incomoda. Somos fascinados pela imagem que mostramos ao espelho e não pelo que o espelho nos mostra.
Às vezes, somente olhando verdadeiramente para a ilusão poderemos enxergar a verdade.
Às vezes, somente olhando verdadeiramente para a ilusão poderemos enxergar a verdade.
sábado, 4 de junho de 2016
Vela...
Ela continua a pensar em mim. E não há fracasso que a impeça disto. Ela continua a aguardar que seja o tempo a se arrepender e volte. Que o tempo volte e restaure o que por nós foi desfeito. De alguma maneira ela sofre com detalhes para passar a limpo nosso passado. De alguma maneira ela insiste nos detalhes para passar a limpo nossos pecados. Ela intenciona o absurdo. E não há fracasso a impedi-la disto. Ela busca ser reincidente no amor perdido. Isto porque crê não haver mais o que fazer depois que se perde o amor. Sonha, escreve, lê e chora como se pudesse resolver o passado. Como se fosse possível corrigir a rota do que com o final já colidiu. Alivia-se repetidamente no que guarda. Angustia-se repetidamente no que deveria esquecer. Como a ferida que deixou de doer mas limita os movimentos, o que fomos limita sua vida para dentro de si ainda sermos e estarmos. Consagra-nos, assim, não no romance, mas na tristeza que trouxe como sequela. A perversidade de voltar ao que não se pode e o prazer de voltar ao que não se deve. Como se em alguma das visitas à memória pudesse encontrar algo a resolver-nos. Algo desavisado a dissolver o sofrimento, o apego e devolvê-la a algum futuro. Algo para sentir que a alivie de sentir. O que soube ser amor amplificou seus medos, deu-lhe ansiedades, revelou mágoas, denunciou raivas. O que soube ser amor a diminuiu para não caber mais nada. O que soube ser amor oferece diariamente o veneno que recusa matá-la de vez. Ela continua a pensar em mim para não mais em mim pensar, e ainda insiste por não conseguir nos perdoar. Reviverá o passado para não arruinar-se no inevitável. Reviverá o passado para tentar arrumá-lo. Não sabe que o perdão é a única maneira de resolvê-lo. E não há fracasso que a impeça disto. Ela apenas desconhece. Pois não é o amor a questão. Ela me amou como vela que a ambos queimou e em seguida apagou-se.
Amei-a da mesma forma.
sexta-feira, 3 de junho de 2016
A única linguagem...
Às vezes a dor é a única linguagem que nos resta. A única que não podemos desaprender. Talvez porque todos dela saibam notícias. Um jeito exato de comunicar ignoradas verdades e exigir desilusórias providências. A dor é um modo de restaurar a realidade e impor consciência e lucidez a nós próprios, ainda que perdendo-as provisoriamente.
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