domingo, 12 de junho de 2016

Cartomantes...

Vivia ela de improvisos: encontros, caminhos, diálogos. A única exatidão de que tinha posse eram dos seus erros: encontros, caminhos, diálogos. Para ela, a soma dos erros não lhe facilitavam acertos, mas a inevitável direção dos seus destinos. Acreditava que os videntes se aproveitavam da vida medíocre de seus consulentes. Acreditava que liam nossos erros para a partir deles anteciparem outros mais e uma ou duas sortes entre os intervalos. Os acertos não apareciam contundentes nas leituras pois não lhes eram suficientes para consistentes constatações. Quão melhor a leitura dos equívocos, melhor a leitura dos possíveis. Assim se valiam as cartomantes - dos desajustes descritos na combinação das suas cartas. Apenas o amor poderia recombinar as pré-visões e salvar-nos das tristezas a que nos destinamos. O amor concede-nos a liberdade pelo despejo dos fantasmas e das repetições. O amor revela-nos a inédita porção do espírito onde não alcança nenhum cálculo sobre os amanhãs. 

O amor nos reinventa. 
E é ele quem dá as cartas.

sábado, 11 de junho de 2016

Estilhaços...

Com metade do peito a funcionar, esquecia
diariamente um pouco mais para que servia o coração.

é para as alturas - diziam os estilhaços.

e assim dirão, sempre, a lembrar-nos do que não se deve nunca esquecer.

porque crê o amor na gente muito mais do que a
gente crê na gente mesmo.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Topada...

Vivemos a partir do medo de sermos expostos a nós mesmos; e por consequência ao outro, pois, deixar-se vulnerável é permitir que se manifestem as inevitáveis partes nossas que ao longo do tempo ocultamos pelo sofrimento que nos trouxeram. O medo é uma reação ao sofrimento passado que nos trás ao presente o próprio medo como defesa. Sofremos por ele para evitar sofrermos.

É como chutarmos uma pedra para que a dor nos impeça de sairmos do lugar e não corrermos o risco de cairmos ou chutarmos uma pedra no meio do caminho.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Testemunha...

Aos teus olhos gastos pela tristeza, refaço-os na poesia que cultivo somente a ti. Às tuas mãos castigadas pelo tempo, empresto-lhe as minhas, a levar-te a qualquer descanso. Aos teus lábios com gosto amargo, ponho-te flores à boca, lembrando-te de que o teu nome é um dia bonito. Assim, falo sobre esperanças; deito-te no colo da noite; amanheço-te com os teus sonhos. Anuncio as primaveras. Costuro o teu próprio amor para que o vistas e, traço o meu viver para tocar na tua vida. Anuncio-te aos amanhãs, este espetáculo de cores novas em que será o mundo quando tu novamente tornar-te o poema, e estiveres outra vez a florescer. 

Serei eu, então, amante e testemunha dos teus milagres.

(Guilherme Antunes & Patrícia Pinheiro)

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Primeiros socorros...

Quando mais precisamos do amor próprio para seguirmos adiante, mais o colocamos em xeque pela sua ausência. Quando mais precisamos nos aceitar para nos alcançarmos, menos nos aceitamos, ficando nós para trás de nós mesmos.

Queremos nos aceitar sem nos aceitarmos; acreditando num amanhã qualquer que por algum motivo seremos outros, com menos culpas, dúvidas, raivas e ansiedades, e aí, então, poderemos nos aceitar e nos encontrar com a serenidade e o equilíbrio.
 
O que insistimos em não perceber é que será a partir do amor próprio - sendo ele possível  existir sempre no presente - que então seremos outros sem precisarmos ser; podendo nós a partir dele dispensarmos culpas, dúvidas, raivas e ansiedades.

Aceitando-nos agora e poderemos nos aceitar amanhã. O caminho inverso não é possível, embora tanto acreditemos nele pela facilidade com que se apresenta.

Amor próprio é condição, a primeira delas. Amor próprio é o espaço onde nos aceitamos verdadeiramente sem julgamentos e cobranças, e apenas a partir do que aceitamos podemos enxergar verdadeiramente, transformando-nos se assim quisermos ou despedindo o que quer que seja se assim necessário.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Qualquer coisa...

Dançamos com a ansiedade porque não saberíamos o que fazer parados. Apressamos o tempo para sairmos do lugar onde estamos. Incomoda-nos demais não fazer, não esperar, não beber, não comer, não assistir, não dormir, não ler, não escrever, não sair, não aparecer, não "qualquer coisa". Ocupamo-nos de todos os jeitos para nos distrairmos de nós mesmos. Se conseguíssemos por um breve instante parar, o que ouviríamos se nos déssemos ouvidos? O que enxergaríamos se nos permitíssemos ver?

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Para respirá-lo...

Se tão estranho é que depois de tanta mágoa podemos ainda pensar no amor, se tão estranho é que depois de tanta tristeza podemos ainda lembrar do amor, se tão estranho é que apesar de tanto sofrer podemos ainda querer o amor, se tão estranho é que apesar de tanto morrer podemos ainda renascer no amor, se tão estranho é que apesar de tanto medo podemos ainda desejar o amar, se tão estranho é que depois de tanto fugir podemos ainda encontrar o amor, se tão estranho é que depois de nos destruírmos podemos ainda perdoar por amor, que mesmo depois de muito podemos ainda sentir o amor, que mesmo depois de muito pouco podemos ainda reinventar o amor, se tão estranho é que depois de tanto, de tudo, apesar dos pesares, dos pedaços, dos cacos, das reticências, das desistências e dos cansaços, podemos ainda sonhá-lo e respirá-lo mesmo quando não há o que respirar, é porque de amor somos todos feitos.

domingo, 5 de junho de 2016

Imagem...

Somos fascinados pela imagem que mostramos ao espelho e não pelo que o espelho nos mostra. Por não sabermos lidar com tudo o que somos, declaramos o que somos para convenientemente nos convencermos da própria história que contamos, e a partir dela podermos aparentar o que gostaríamos de ser como se já fôssemos. Não à toa vivemos recheados de certezas como se estas fossem verdades reconhecidas pelo peito. Calamos os vazios e dizemos que estamos preenchidos. Calamos a raiva e declaramos que estamos em paz. Calamos a ansiedade e afirmamos que sabemos aproveitar a vida. Assim bebo até o exagero, tiro incontáveis fotos dos momentos em que digo que onde estou, com quem estou e o que faço é a vitrine de minha vida feliz. Saímos até a exaustão por não sabermos ficar conosco. Não paramos porque não sabemos parar. Não sabemos olhar para os medos, para a solidão, para as carências. Assim, direi que só serei feliz ao ser amado. Assim, farei qualquer coisa que me distraia de mim, do que também sou mas não tolero, do que também trago mas não suporto. Não, eu não sou invejoso. Os outros que me invejam. Não, eu não sou maledicente. Os outros é que falam mal de mim. Não, eu não sou impaciente. O outro é quem tanto me incomoda. Somos fascinados pela imagem que mostramos ao espelho e não pelo que o espelho nos mostra.

Às vezes, somente olhando verdadeiramente para a ilusão poderemos enxergar a verdade.

sábado, 4 de junho de 2016

Vela...

Ela continua a pensar em mim. E não há fracasso que a impeça disto. Ela continua a aguardar que seja o tempo a se arrepender e volte. Que o tempo volte e restaure o que por nós foi desfeito. De alguma maneira ela sofre com detalhes para passar a limpo nosso passado. De alguma maneira ela insiste nos detalhes para passar a limpo nossos pecados. Ela intenciona o absurdo. E não há fracasso a impedi-la disto. Ela busca ser reincidente no amor perdido. Isto porque crê não haver mais o que fazer depois que se perde o amor. Sonha, escreve, lê e chora como se pudesse resolver o passado. Como se fosse possível corrigir a rota do que com o final já colidiu. Alivia-se repetidamente no que guarda. Angustia-se repetidamente no que deveria esquecer. Como a ferida que deixou de doer mas limita os movimentos, o que fomos limita sua vida para dentro de si ainda sermos e estarmos. Consagra-nos, assim, não no romance, mas na tristeza que trouxe como sequela. A perversidade de voltar ao que não se pode e o prazer de voltar ao que não se deve. Como se em alguma das visitas à memória pudesse encontrar algo a resolver-nos. Algo desavisado a dissolver o sofrimento, o apego e devolvê-la a algum futuro. Algo para sentir que a alivie de sentir. O que soube ser amor amplificou seus medos, deu-lhe ansiedades, revelou mágoas, denunciou raivas. O que soube ser amor a diminuiu para não caber mais nada. O que soube ser amor oferece diariamente o veneno que recusa matá-la de vez. Ela continua a pensar em mim para não mais em mim pensar, e ainda insiste por não conseguir nos perdoar. Reviverá o passado para não arruinar-se no inevitável. Reviverá o passado para tentar arrumá-lo. Não sabe que o perdão é a única maneira de resolvê-lo. E não há fracasso que a impeça disto. Ela apenas desconhece. Pois não é o amor a questão. Ela me amou como vela que a ambos queimou e em seguida apagou-se. 

Amei-a da mesma forma.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A única linguagem...

Às vezes a dor é a única linguagem que nos resta. A única que não podemos desaprender. Talvez porque todos dela saibam notícias. Um jeito exato de comunicar ignoradas verdades e exigir desilusórias providências. A dor é um modo de restaurar a realidade e impor consciência e lucidez a nós próprios, ainda que perdendo-as provisoriamente.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

Eu leio você. Você se desnuda no preciso instante em que me visto com as palavras. Você se entrega toda e inteira quando sou eu próprio a confessar. Eu leio você no momento exato em que você me lê. Isto porque nossos erros são previsíveis, não nossos acertos. Isto porque nossos labirintos são previsíveis, jamais os sonhos. Isto porque nossas mentiras são previsíveis, não a nossa liberdade. O plano é que façamos destes nossos escuros, degraus, e alcancemos nosso real tamanho. O que proponho é que desviemos da tristeza encarando-as com a coragem de quem sabe despedir-se sem dispensar-se, partir sem partir-se, e na hora certa. O livro é um centramento, um pedido de perdão para si que não encomendaste, um alívio que não previsto, um tempo extra para as tuas novas páginas. O livro é convite para que deixes de ser engolido para saborear: a vida, o outro, o amor, o que mais quiseres.

Definitivamente, um guia prático e impreciso de renascimentos.

A quem interessar adquirir, mande-me um e-mail: 
guglicardoso@gmail.com
ou através do Facebook: fb.com/ailhadeumhomemso

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O paradoxo...

O coração não pondera as tempestades. Cúmplices, acreditamos que devemos naufragar; que devemos sempre naufragar por acreditarmos que não valemos coisa para sermos salvos. Afinal, tão cheios de nada, por que mereceríamos? Por conta do passado castigamo-nos para não haver futuros. Culpamo-nos para nos desculparmos; jeito tonto que encontramos para aliviar-nos enquanto sofremos; a culpa como punição e justificativa pelo que não fomos e pelo que não conseguimos ser. O paradoxo que não enxergamos é aquele que vivemos: queremos nos aceitar como somos sem aceitarmos como somos; queremos ser aquele que viremos a aceitar a partir do que ainda não aceitamos; queremos deixar de ser isto sem olharmos para isto. Insistimos na miopia e na culpa sem perceber que na culpa insistimos porque míopes. Dizemos olhar para o que somos, mas sem jamais o amor necessário. Apontamos para nossas limitações com ansiedade, para nossas frustrações com mágoas, para nosso passado com ressentimentos, para nossas fraquezas com intolerância. Olhamos sem enxergar porque sem compaixão. Somos implacáveis críticos de nós mesmos sem espaço para o perdoar. Assim, negamo-nos, pois, ao encontrarmos nossos inevitáveis escuros, logo somos maus sem direito a recomeços. E o que sobra-nos de bom não se faz suficiente visto que não sabemos do perdão. E sem sabermos o que ele é, remendamo-nos com mentiras e dores seguindo adiante presos em algum lugar. Por isso nos partimos, fracionados entre as partes que merecem a vitrine daquelas que ocultamos no porão sem qualquer voz. Não há verdade que se encontre pela metade, e é exatamente assim que vivemos: sendo menos do que somos, sendo impossível qualquer paz. A compaixão devolve-nos a nós mesmos, aceitando nossas variáveis, fraquezas e fragilidades sem distanciá-las a nos convencermos de que somos o que não somos. Só podemos despedir aquilo que aceitamos, e a compaixão é o descanso do mau hábito de rejeitarmos as partes do que inteiro é. A reeducação pela compaixão é trabalho árduo de colocarmos o dedo na ferida que fingimos por tanto tempo nunca haver.

A compaixão concede-nos a lucidez e a limpidez dos olhos para saber do peito.
A compaixão permite que nos amemos como gostaríamos de sermos amados.