quinta-feira, 2 de junho de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

Eu leio você. Você se desnuda no preciso instante em que me visto com as palavras. Você se entrega toda e inteira quando sou eu próprio a confessar. Eu leio você no momento exato em que você me lê. Isto porque nossos erros são previsíveis, não nossos acertos. Isto porque nossos labirintos são previsíveis, jamais os sonhos. Isto porque nossas mentiras são previsíveis, não a nossa liberdade. O plano é que façamos destes nossos escuros, degraus, e alcancemos nosso real tamanho. O que proponho é que desviemos da tristeza encarando-as com a coragem de quem sabe despedir-se sem dispensar-se, partir sem partir-se, e na hora certa. O livro é um centramento, um pedido de perdão para si que não encomendaste, um alívio que não previsto, um tempo extra para as tuas novas páginas. O livro é convite para que deixes de ser engolido para saborear: a vida, o outro, o amor, o que mais quiseres.

Definitivamente, um guia prático e impreciso de renascimentos.

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quarta-feira, 1 de junho de 2016

O paradoxo...

O coração não pondera as tempestades. Cúmplices, acreditamos que devemos naufragar; que devemos sempre naufragar por acreditarmos que não valemos coisa para sermos salvos. Afinal, tão cheios de nada, por que mereceríamos? Por conta do passado castigamo-nos para não haver futuros. Culpamo-nos para nos desculparmos; jeito tonto que encontramos para aliviar-nos enquanto sofremos; a culpa como punição e justificativa pelo que não fomos e pelo que não conseguimos ser. O paradoxo que não enxergamos é aquele que vivemos: queremos nos aceitar como somos sem aceitarmos como somos; queremos ser aquele que viremos a aceitar a partir do que ainda não aceitamos; queremos deixar de ser isto sem olharmos para isto. Insistimos na miopia e na culpa sem perceber que na culpa insistimos porque míopes. Dizemos olhar para o que somos, mas sem jamais o amor necessário. Apontamos para nossas limitações com ansiedade, para nossas frustrações com mágoas, para nosso passado com ressentimentos, para nossas fraquezas com intolerância. Olhamos sem enxergar porque sem compaixão. Somos implacáveis críticos de nós mesmos sem espaço para o perdoar. Assim, negamo-nos, pois, ao encontrarmos nossos inevitáveis escuros, logo somos maus sem direito a recomeços. E o que sobra-nos de bom não se faz suficiente visto que não sabemos do perdão. E sem sabermos o que ele é, remendamo-nos com mentiras e dores seguindo adiante presos em algum lugar. Por isso nos partimos, fracionados entre as partes que merecem a vitrine daquelas que ocultamos no porão sem qualquer voz. Não há verdade que se encontre pela metade, e é exatamente assim que vivemos: sendo menos do que somos, sendo impossível qualquer paz. A compaixão devolve-nos a nós mesmos, aceitando nossas variáveis, fraquezas e fragilidades sem distanciá-las a nos convencermos de que somos o que não somos. Só podemos despedir aquilo que aceitamos, e a compaixão é o descanso do mau hábito de rejeitarmos as partes do que inteiro é. A reeducação pela compaixão é trabalho árduo de colocarmos o dedo na ferida que fingimos por tanto tempo nunca haver.

A compaixão concede-nos a lucidez e a limpidez dos olhos para saber do peito.
A compaixão permite que nos amemos como gostaríamos de sermos amados.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Inclusive...

A certeza pode ser uma armadilha revelando-se no próprio reflexo: seja por uma verdade nela contida ou por uma ilusão que ela carrega como se verdade fosse. Às vezes enxergamos mentira como verdade numa certeza que escolhemos nos convencer. O risco é adoecermos pelo excesso daquelas que no tempo nos tornam inflexíveis e fechados dentro de nós mesmos, recusando-nos em trocá-las por outras onde possamos melhor caber junto às experiências que trazemos. Assim adoecemos. Assim nos sufocamos, por decretarmos que o que vemos deve continuar a ser ainda que não mais seja, desmentidos pela impermanência da vida que ignoramos. As certezas diminuem o mundo para que caibam todas, aliviando-nos a ansiedade e o medo que cultivamos pela necessidade de qualquer coerência e algum controle que acreditamos possuir. A vida nos arde não por conta própria, mas por insistirmos em ralar os joelhos e o coração nas mesmas velhas escolhas que não nos servem mais.

Quem decidimos ser depende inclusive das certezas que abandonamos.

Adoçante...

Tem muita gente que se acostumou com adoçante ao invés de doçura; e que se contentou com metade por não saber buscar seus inteiros. E que se prendeu às mesmas certezas por ser a única verdade que até agora encontrou.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Se despediu...

Ela quer se perdoar pelo tempo que perdeu.
Ela quer se perdoar pelo amor que insistiu.
Ela quer saber porque morrer se permitiu.
e o que ainda falta que não amanheceu.

Ela quer uma janela para a luz sempre enxergar.
Ela quer que o passado não lhe venha incomodar.
Ela quer que o presente traga um amor a lhe curar.
e que amanheça dos escuros de que tanto já sofreu.

Ela busca ser outra mas sem querer se perdoar.
Ela diz que tanto quer mas querer não é se libertar.
Ela carrega o seu passado sempre a qualquer lugar.
e acredita todo dia que o azar inteiro é seu.

Ela não sabe, mas
ela ainda não
cresceu.

Ela só sabe se vestir
como alguém com idade
para beber e mentir
insistindo em doer e sentir
por tudo aquilo que ainda
não se despediu.

domingo, 29 de maio de 2016

Inaugurar...

Ela queria desobedecer medos e frear ansiedades. Ela queria estrear-se num amor e nele, curar-se dos seus passados e metades. Ela queria uma vida que ainda não havia sentido.

Era a mesma vida que havia há muito encontrado. Apenas aguardava a hora certa para ser aquilo que apenas na hora certa poderia sentir.

Só não sabia que a hora certa toda hora por ela atravessava. Continuava a esperar o que não devia ser esperado.

Aguardava para sempre inaugurar o melhor de si.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Bonito...

O medo talvez nos seja, de alguma maneira, a primeira percepção sobre o amar, e a palavra à boca, a primeira expressão sobre o amor. O poema é um amor muito bonito; porque às palavras cabem entre outras coisas, as honestidades. O silêncio talvez nos seja o primeiro modo de sabermos, por serem os outros incapazes de discordar. Ao contrário, amor e medo são discordantes para cada uma das gentes, e equivalentes nisto: dão-nos nenhuma autoridade sobre o sentir. A única submissão de que não sofremos, talvez, seja a das palavras. Por isso falamos sobre amor como se soubéssemos. Como se donos um pouco de nós. Tudo quanto nos põe a viver tira-nos as certezas, essa segurança de que temos algum controle senão no que dizemos. Mas, nem no que dizemos temos controle, ou nem do que ouvimos. Apenas do silêncio, que confere-nos sabedorias pela inexatidão. Silêncio este que desaprendemos quando pouco depois de sermos sementes. O fruto é o poema. Um amor muito bonito. 

Um jeito de amor, e de aprendê-lo.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

O que jogo no palco para que se apresente é a sua inconsciência, em contraste com a sua própria claridade. O que ponho em xeque é a sua lucidez, sua astúcia em sempre justificar, em sempre fugir, em criar desculpas, em adiar as coisas. O que levanto dúvida são das suas certezas. Provocarei tanto as suas memórias quanto as suas mentiras, para que percam a pose, para que desçam do salto e, irritadas, entreguem as verdades todas que mantém caladas ou fingidas. O que provocarei são os seus intensos que você muito bem segura sob o verniz da educação, para que gritem suas impaciências, as suas feridas, para que apontem onde você tanto sangra enquanto finge que vive sem nada disto. O que invocarei serão suas confissões sem você precisar nada dizer. O que invocarei serão nossas vaidades, que escondem o que somos ao manter-nos reféns do que gostaríamos de ser. Somos autênticos personagens que se procuram entre atos e cenas que não prevemos. Que as páginas adiante cobrem a transparência que nos falta para enxergarmos aquilo que exatamente não sabemos o quê, mas que ainda nos falta e que sentimos diariamente esta ausência. Que com este livro possamos rondar e farejar este espaço onde nos encontramos inteiros e mais reais do que nunca, mas não sabemos onde.

E apontarmos para lá nossos destinos.

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terça-feira, 24 de maio de 2016

Quem sabe...

Sou feito de contrastes 
e contratos
rimas ricas e pobres
versos poucos mas nobres

Sou feito de muros e espaços.
Sou feito de medos e memórias
mentiras e aumentadas vitórias
ilusões e sinceras histórias
que a ninguém convence.

Sou feito de outro
Sou feito de ouro
Sou feito de barro
Sou feliz só no meu bairro
(mas sou feliz também além dele)

Sou transbordante
e o ausente
o conteúdo
e o continente
o presente
e o faltante
o amado 
e o amante
o livro 
e a estante
o inteiro 
e o instante

Sou o moinho 
e a pedra
a queda 
e o ninho
o céu 
e a tela
que na aquarela
sou passarinho

Sou a viúva 
e a casada
a solteirona 
e a namorada
a traída 
e a honrada
sou a tarde 
e a madrugada
daquela que se sabe amada.

Sou assim afeito à poesia
quem sabe falando de asa
possa eu voar um dia?

Sou assim feito de letra
quem sabe juntando todas
tenha-se alguma que aproveita?

domingo, 22 de maio de 2016

O outro...

Talvez seja preciso irmos um pouco além do que acreditamos. Talvez seja preciso lidarmos com o que convenientemente vivemos a negar. Talvez seja preciso lembrarmos de que o outro é o nosso espelho e que aquilo do que nele vemos é exatamente o que não enxergamos em nós. Talvez seja essencial lembrarmos que o outro é também a nossa própria projeção. O que recusamos em nós, acusamos no próximo. O outro poderá despertar em nós a raiva, a impaciência, a insegurança, o ciúmes, a inveja, por conta do que mal resolvido trouxemos e que atualizamos nas nossas relações presentes. A auto estima será posta em xeque diariamente através de quem nos atravessa, e o outro é o convite e a provocação para a nossa própria e incômoda confissão ao refletir a nossa imagem. Através da relação com o outro me reconheço no que sou ou no que não carrego. Apenas com o tempo contínuo a projeção será diluída, sobrando-nos a verdade do outro a comunicar a nossa própria verdade, antes oculta pelas qualidades e ideias que somente elas insistíamos ver. Não há saída, pois, seremos ou desmascarados pela ilusão ou entregues pela realidade. Não há nada fora que nos incomode que não seja algo dentro a nos incomodar. Não há o que critiquemos que não seja algo que possamos criticar em nós. Não há nada do outro que não seja nosso, e vice-versa. Seremos sempre as convenientes vítimas de nós mesmos ao nos enganarmos em apontarmos para alguém culpas como desculpas para não assumirmos a responsabilidade pelo que tão difícil nos parece assumir.

Talvez seja essencial lembrarmos que o outro somos nós, e que nós somos o outro. E que não há diferença. Se assim nos parece, trata-se desta ilusão que insistimos manter. 
E sofrer por ela.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

E o óbvio...

Quantas coisas não dizemos que assim são apenas para nos convencermos de que são assim?

Vendemos certezas apenas para nós mesmos comprarmos. Falamos para nos escutarmos e nos sentirmos melhores com isso.

Somos capazes de acreditar em mentiras sabendo de alguma maneira que mentiras são, apenas porque nos dão qualquer ilusória garantia.

Queremos eliminar as dúvidas exatamente porque elas nos são inevitáveis.

A questão é que ao sufocarmos as dúvidas, ignoramos também as verdades.

E o óbvio costuma se calar quando se trata de nós.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Equívoco...

O mundo pensa felicidades; todas elas acusam o prazer e sofre o mundo por esta razão. As palavras usamos como resgate do que não se é tranquilo trazer às superfícies. As palavras falamos para atenuarmos intensos por as usarmos com toda a intensidade. Atiramos pedra para não nos atirarmos dela - isto fazemos. Prolongamos a palavra fertilizados por esta descoberta: ela faz por nós o que não fazemos por nós mesmos. Um pouco em cada oportunidade e vamos disto nos convencendo; convencendo-nos das palavras gloriosas. Cada som a viver por si, como alma perfeita a tocar a nossa própria como uma harpa feita de silêncios. A palavra a tocá-la e traduzi-la, escutando-a acerca das decisões para os próximos gestos; denunciando-nos mais resistente do que julgávamos, e mais frágil do que pensamos. A própria vida a admirar-se no espelho. A mentira a acreditar-se no espelho. A verdade a descobrir-se na palavra. Devoramos a música crua, o tempo sem ensaios, a dor sem preparos, o amor ainda falidos. O que não se revelar palavra, se tornará sintoma. Entendemos assim enquanto acreditamos carregar sentimentos incorretos. Morremos pelos venenos do equívoco.