quarta-feira, 11 de maio de 2016

Rigor...

A vida, filho, é demasiadamente emotiva e temos por isto, medo. Assim nos prendemos aos números, como necessidade de algum sossego e de garantir a perfeição: quanto se deve ganhar para que não falte, quanto se deve sobrar para bem viver, qual a distância para chegarmos, qual a idade para sonharmos, quanto de cansaço para partirmos, quanto nos falta para amarmos? Assim nos garantimos, sem garantirmos coisa alguma, com esta ideia de querer maquinarmos o mundo como uma disciplina de rigor.

O rigor, meu filho, embora seja jeito de controle dos medos é um conceito muito estúpido para o espírito.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Nada é como queremos...

Tu és aquela que habita os escuros do meu pensamento destroçado. A quem tanto neguei para afirmar-me, agora que te ponho distante, busco afirmar-te. Afirmar-te como peça minha, página minha, parte do que fui, projeção das memórias tristes que colecionei e hoje volto a sentir, rever, reviver para despedir. Sinto-te para não te mais sentir. O que tu és hoje me é saudade - mas saudade do quê, meu Deus, se tudo nos era tragédia? Acredito que tu sejas a minha própria sombra a que dei o teu nome para que através dele eu possa atravessar o que muito me atravessou: os medos, as vinganças, as mortes e as humilhações que calei fundo demais para contigo continuar seguindo sem nos matarmos num adiante que tornava-se denso, insuportável e para nós anunciando o inevitável: o de que não seríamos mais. Do imperdoável nasceu-me a necessidade do perdão para continuar-me. E tu és aquela que habita minha casa para que dela tu então possas partir. Porque a vida sem ti já não me dói. O que era o que tanto queria quando contigo.

Nada é como queremos, não?

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sentido de existir...

Entre as evidências e a própria ignorância, costuramos jeito que amamos e vivemos, como contínuos sustos de que nunca nos recuperamos. Estamos tão à mercê do mundo que o corpo nos é nossa casa inteira. Uma casa com requintes de sonhar; cheia de segredos. Lugar onde fabricamos continuamente o sentido de existir e continuamente esquecemos que ali existimos.

domingo, 8 de maio de 2016

Sobre a impermanência...

A impermanência é o que nos toca e nos alerta para dissolvermos ilusões e insistências com as quais decretamos como imutáveis nossas certezas. A impermanência põe-nos em real perspectiva sobre ideias que se alternam entre o nunca mais e o para sempre; abrindo o jogo acerca da vida para ensinar-nos a enxergar melhor as relações e aproveitarmos seus tempos - dando valor ao que é merecido - pois nada temos que não seja temporário e nada somos a não ser agora. A impermanência comunica insistentemente sobre o perdão, as ansiedades e a paciência, a morte e os inevitáveis renascimentos nas diversas dimensões que atravessamos.

A impermanência é uma boa notícia.

sábado, 7 de maio de 2016

Suficiente...

É comum estarmos ao contrário do que nos pediríamos caso nos encontrássemos conosco. Eu me diria que nada está a prender-me embora precise eu muito de fugir. Estava em fuga sem sair dos habituais lugares que frequento. Mas era como pedir-me que não gostasse demasiado de mim mesmo para não estragar o jeito que arrumei os passados e inventei-me desde lá. Ao fugir não há tempo de reparar nas tristezas e outros sentimentos sem educação que seguem-me mesmo de longe. Como se eu imantasse as coisas passadas para que viessem a ser comigo sentimentos sem educação ainda hoje. E eu sem maneiras no coração, sentia cada coisa de antes como coisas de agora de indisciplinada força. Somente um algo novo se aparecia entre isso. A frustração. Como tivesse sido inventada somente para grifar os momentos zangados e sentisse eu como se prometessem nunca ir embora. Queria que tudo se calasse. Se calasse ouviria a todos nós pedindo o mesmo: que tudo se calasse. Qual a vantagem de fugir ou se achar valente consigo se com todo o amanhã levássemos um velho fruto de mesmo gosto? Queria ser semente para estar árvore e nunca mais saber, tanto de passado quanto de futuro. Amanhecer me era todo um suficiente.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Adiante...

É comum que tentemos aparentar estarmos melhores do que estamos, talvez para acreditarmos que estamos melhores do que realmente estamos. Como é possível seguirmos quando se está carregado de inconclusões, tristezas acumuladas, raivas engasgadas, memórias mofadas, mágoas represadas e outras verdades sem nome que conosco empurramos? Não podemos ir adiante, apenas andarmos em círculos, o que muito bem fazemos ao dizermos que se está tudo bem apenas porque andamos.

A mais bonita...

Talvez a palavra mais bonita entre todas as palavras, escutando a tristeza dos nossos dias, recusou a revelar-se para isto. Talvez a palavra mais bonita entre todas as palavras tivesse vidências do futuro, adiando-se para algum poeta ainda mais tarde. Talvez a palavra mais bonita não quisesse fazer parte dos assuntos; ser dada como garantias; causar invejas às demais palavras. Talvez a acusassem por sua beleza, a assustassem por sua beleza, fizessem perguntas demais e a ameaçassem. Talvez a palavra mais bonita não possa ser exposta ou discutida porque se cale ou se torne outra. Talvez a palavra mais bonita entre todas as palavras esteja a pensar mais profundo, sentir mais profundo, viver mais profundo.

Talvez a palavra mais bonita entre todas seja um sonho ou um silêncio.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

Quero agarrar-te pelas tripas e interrogações do teu peito há tanto presas. 
Quero que o mastigue e o devore e cuspa aquilo que te amarga. 
Quero devolver-te verbos desaparecidos. 
Quero ajudar-te a recuperar desejos perdidos 
e sonhos amarelados. 
Quero ensinar-te rotas de fugas 
e apontar coragens. 
Anseio por tirar-te da condição de rascunho, 
de fração, de fraude, de que já é tarde. 

Use-o como mapa dos territórios das verdades que te compõem. 
O que acontecerá ao encontrá-las, não saberei dizer; 
porque dei conta apenas da metade, 
para que te ocupes com a outra 
reconhecendo os teus próprios inteiros.


A quem interessar adquirir, mande-me um e-mail:
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ou através do Facebook: fb.com/ailhadeumhomemso

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sobressaltos...

Dizia aquilo para me enganar, mas gostava muito que ele fizesse o esforço para me enganar. A dar-me colo e dizer-me flores, como se levasse carícias para o interior todo do corpo. Anunciava pequenas esperanças, muitas delas, para que poucas viesse eu a lembrar e a cobrá-lo por elas. Apontava-me pássaros como contrário aos medos, a migrarem para longe de mim qualquer um deles. E eu, com tanta impressão de enganar-me aqui sobre tudo, gostava muito que ele fizesse o esforço para me enganar. A dar-me o mundo em pequenas gotas, para que não me engasgasse com ele. Havendo tantas histórias e ruas e pessoas dava-me ele de beber o suficiente para que não me afogasse, ensinando-me a navegar aos poucos em mim mesma sem sobressaltos.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Piada...

Apegam-se à coisas demais para sofrer os que insistem em exigir que a vida garanta qualquer verdade sobre nós, sem que percebam isto os insistentes. Quem poderá negar? Asseguramos certezas como imutáveis para mantermos alguma coerência, aparentamos alguma solidez sem nos flagrarmos nas inevitáveis contradições que carregamos. Somos rigorosamente lógicos porque a lógica nos falta. Dizemos o que as coisas são para escutarmos o que as coisas são e assim nos convencermos. E não ouse a vida nos desmentir nem o outro nos desdizer: somos frágeis para contrariedades. Por isto nos agarramos às convicções de que sabemos porque assim pensamos, para não nos perdermos na inexatidão de todas as coisas. Apegamo-nos à bloco de admiráveis e confortáveis verdades perdendo a própria generosidade por querermos controlar a vida. O amor - próprio e alheio - passará por um rígido controle de qualidade. Seremos inflexíveis com o inesperado. Não daremos o braço a torcer ao que nos revele, não abriremos exceções ao que nos desminta. Enquadraremos o amor e o restante em nossa particular área de segurança: não levaremos o peito para conhecer o outro ou a si mesmo; não riremos de nós com facilidade nem nos perdoaremos porque erramos. Pouparemos felicidade para evitarmos as dores. Anestesiaremos as dores com outras. E não sendo possível iluminarmos o total território dos amanhãs, exigiremos promessas, garantias, precauções, construindo personagem que ao público finge saber relacionar-se e lidar com seus azares. Distrairemos os sentimentos com a ansiedade de quem exige o controle dos próprios sentimentos, e tudo porque não sabemos sentir, doer, viver, partir. Como quem não quer mais perder porque não sabe o que tem a ganhar, nos levaremos a sério demais.

O bom humor se vier a não perdoar, nos tornará piada. De mau gosto.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Que não lembramos...

O amor jurava lembrar-se. Mas não naquele momento. Quem sabe para amanhã haveria de ter mais sortes. Ela gostava da ideia de ajudá-lo quando soubesse ao certo o que fazer. O mundo era um lugar de gente enganada, menos o amor. O amor apenas não lembrava. Por ora e por hábito, substituíamos deus pela oração e a felicidade por ideias poéticas a colocarmos versos no lugar de cada coisa. Para lermos depois, enquanto o amor não se lembra. Para reescrevermos depois, muitas vezes, enquanto não lembramos do amor. Talvez o poema seja como termos encontrado uma coisa perdida há muito. Que não lembrávamos.

domingo, 1 de maio de 2016

Por um dia...

Às vezes por um dia em que não somos; por um dia em que deixamos de ser; por este um dia em que nos pegamos desprevenidos sendo aquilo que não gostaríamos, não significa dizer então que estamos condenados a ser o que neste dia fomos, nem afirmar que em razão deste dia não possuímos aquilo que já possuímos.

Ou seja, por um dia em que faltemos com amor não significa dizer que não amamos. Por um dia em que faltemos com a bondade não significa falar que somos maldosos.

Carregamos tanto a escuridão da nossa ignorância quanto a luz do nosso aprendizado; trazemos conosco tanto os invernos quanto as primaveras a revezarem-se conforme o palco que atuamos. Isto serve para mostrar-nos o quanto nos falta e o quanto já conquistamos. Isto serve para mostrar-nos que somos muito mais do que pensamos e que somos menos do que acreditamos ser.

Afinal, acreditar não é necessariamente saber.

As verdades, tão contraditórias quanto possíveis, servem-nos tanto para dar voz às virtudes quanto para calar as vaidades. As verdades, tão opostas quanto reais, podem coexistir em nós como capítulos que nos ensinam o que há ainda para ser trabalhado, para ser descartado e para ser construído.

Tenhamos a compaixão com nossas alternâncias, que avisam-nos que não somos absolutamente bons nem completamente maus, e sim que estamos na travessia para nos reconhecermos, e a partir disso, atuarmos na versão mais nobre de nós mesmos.