sábado, 30 de abril de 2016

O lado silente do poema...

O mundo se cala quando choro. Ficam apenas os ventos à superfície a empurrar pequenas coisas vulgares. Enquanto choro estabeleço o lugar exato de mim e coerência ao tempo para que se aquiete; que se descanse enquanto sou. Possuem-me as lágrimas e eu nada mais possuo, e isto me agrada. A vida se revela em mim quando choro. Chorar exige-me todo para um só lugar em que choro, deixando-me para o lado mais vazio das coisas. A lágrima dá-me substância e intensidade de quem sepulta pressas e barulhos. Para além delas, não sou verdade. Significo-me com o meu corpo inteiro: limpo ou sujo, todo eu no aqui me pertenço. Difícil dizer coisas que não se sabem ser ditas; tão silenciosas como a breve lucidez que entrega-nos desprevenidos ao que sentimos. A renúncia de que nada mais seja além do ato mesmo de chorar, prestando atenção ao dentro, subtraído todos os cenários. Choro e não penso; absorvo-o e permito-me sentir a realidade que não frequento entre os dias comuns. Sem pensar e sem mais o que em mim perseguir, sinto-me livre para os limites da minha possibilidade. A fugaz libertação dos papéis, diálogos, compromissos, personagens e o medo de que inevitavelmente voltarei a me recompor e continuar consumindo minha vida pelas metades sem chegar antes a nada.

A lágrima é o lado absolutamente silente do poema.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

 Teoria Geral do Desassossego
(um ensaio dos afetos)

Um convite à maneira mais agradável de ignorar a vida e ao mesmo tempo afirmá-la; uma leitura em que falo aos teus olhos as coisas todas cheias de significado ao mesmo tempo que lhe digo de nossa insignificância. E explico que isto não é em nada ruim, visto que pelo vão das fragilidades acontecem-nos os milagres. E junto às questões e motivos que bem explico de nossa reincidência aos abismos, aos contrários e às promessas; trago receituário de amanhecimentos, notas e instruções para asas e os desapegos. Por facilitarmos sempre o fim daquilo que amamos, explico-lhes o que sei do amor pelo que o amor não é. Ou não deveria ser. A todos nós com sentimentos tediosos de domingo ou segunda, trago-lhes a notícia sobre o outro lado de nós pouco usado e que sabe ser outra coisa que não apenas cansaço e mais do mesmo. Venho celebrar as ilusões e chamar-te a festejarmos por reconhecê-las e podermos por isso descartá-las. Este livro tem tanto o peso das tuas tristezas como o das tuas esperanças. Dependerá de qual página teu peito decida aportar. Mas eis minha provocação: que tu não aportes, que tu saias por aí a atravessar tuas próprias marés e gradue-se num degrau acima daquele que por tanto tempo parado estiveste.

A quem interessar adquirir, mande-me um e-mail: 
guglicardoso@gmail.com
ou através do Facebook: fb.com/ailhadeumhomemso

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Palanque...

A questão é que por não nos aceitarmos, queremos antecipar o que buscamos, ficando por esta exata razão para trás de nós mesmos. Há uma parte do que somos forçando a barra para se ser o que ainda não se é, adiantando conclusões e criando certezas em cativeiro a permitirmos dar-nos algum roteiro para ser trilhado; jeito de nos sentirmos um pouco menos desorientados com o que somos.

O resultado será a tensão pela corda bamba que atravessaremos entre o passado que não fomos e o futuro em que "devemos ser". A cobrança tornar-se-á culpa pelo que não conseguimos alcançar. Por não nos enquadrarmos nas possibilidades que não escolhemos, inventamos de entender que por essa razão perdemos o alvo.

Mas será que não é exatamente pelo caminho já percorrido, mesmo aos trancos e barrancos, que então podemos fazer sentido para nós próprios? Visto que é a soma das machadadas nas nossas crenças e que não nos demos conta que farão a diferença, ainda que aguardemos que a próxima e última machadada seja a responsável pela libertação daquilo que decidimos nos prender.

Enquanto não nos aceitarmos agora e deixarmos de acreditar que tudo em nós deverá passar por um rígido controle de qualidade, nada estará bom, nada será o suficiente, algo ainda e sempre faltará, e qualquer coisa será palanque para que os nossos medos e fraquezas tanto falem a convencer-nos a continuar nos boicotando.

Essencial...

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poeta românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.

(Bernardo Soares)

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Hoje...

Hoje, peço à vida ser abençoado e necessário abandono, para que o que restar de mim daqui pra frente seja a minha redenção, para que os amanhãs me acolham e me recebam outro, inteiro. Para que a próxima página esteja em branco e o coração, preenchido. Para que entre os meus erros, esteja também o meu próprio perdão. Entre os meus apertos, um horizonte em que lá eu honre os meus possíveis. Por isso escrevo, como prece, para acender luz, como pedido de absolvição da minha própria consciência; como pedido de renúncia dos medos que não me traduzem. Agora é o momento de reaver as asas. Por isso escrevo, como se aqui eu pudesse me confessar e me lembrar do que posso ser quando me sinto livre e amo; e do que posso ser ao me libertar naquilo que escrevo.

Hoje, eu me celebro.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Charme...

Diante do espelho, olhei-me, como que para ter uma conversa para a minha particular educação. Não me atrevia a perguntar nada. O coração que através dos olhos me falava. Sentia-se ele desajustado de mim, acreditando-me tanto adiado quanto atrasado para alguns saberes. Disse-me: repetes as flores e reclamas da primavera. Queres saber-se fruto sem amadurecer. Queres conhecer dos gostos ignorando sempre o amargo. A sedução não te pertence, visto que é arte do vento a mover com graça os panos que te envolvem. Isto posto, não enganes ninguém com tuas curvas ou palavras, para que fujas tu dos teus sentimentos burros. O charme do teu corpo deverá ser equivalente a elegância dos atos que te vestem; tua personalidade deverá ser leve, não importe o peso do corpo. Não disfarce mais as imperfeições da pele, melhor corrigir as da alma. A beleza real será este equilíbrio dos lados de fora e de dentro, soma fatal que faz com que sejamos quem verdadeiramente somos.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Âncoras...

A lucidez derrama-se sobre as palavras revelando-nos o padrão: a obediência ao óbvio que somos e ao lugar que ocupamos; como fórmula matemática de que padecemos; em que adequamos o incrível ao conforme e o peito aos previsíveis resultados de seus infortúnios. As palavras oferecem equação onde se é possível traçar a rota de colisão com as tristezas. Um sistema onde se é permitido saber quais vazios atraem quais ausências e como através deles nos relacionamos. Uma janela a mostrar-nos o que sobrevém às reações: depois da perda, depois do outro, depois de tudo ou mesmo antes; roteiros de diálogos prontos e calculados silêncios. A palavra antevê os passos ao descrevê-los. A leitura exata sobre os passados a dar-nos o preciso diagnóstico dos amanhãs previstos como labirinto emocional; um capítulo a mais incompleto e mal redigido por cada um de nós. A poesia e o amor concede-nos a liberdade do imprevisível; tabuleiro de peças excelentes que não mais se resumem a estreitos movimentos, anunciando derrotas e desfechos antecipados. Escrevemos por isto: desmentir os destinos. Amamos para desarmar agendas e corrigirmos a linha da vida no olhar das cartomantes. A poesia para rebelar-se contra a exatidão, contra a rotina. O amor a desviar-nos do cotidiano. O amor a calar os cinzas. Escrevemos para adestrarmos o medo e dele despedirmos ao amar. O medo é o padrão, o porão, o senão, o contrato, a promessa ameaçada, corredor sem porta ou enfeites, caminho seguro sem milagres; prisão a que nos permitimos banhos de sol e uma breve soltura das nossas âncoras.

A poesia sempre matou o medo.

domingo, 24 de abril de 2016

Curandeiro...

Quando o calendário nos aproxima dos encontros, doem-me as coisas todas amor. Sabe meu corpo das urgências que acumulei, dos erros presos nas teias do que não me é mais. E agora sabes tu igualmente, ao chegar e sem cerimônias acender a luz da minha inconsciência, exigindo tua presença que os dissolva todos. Deixaste-me nu e trouxeste a felicidade para o meu guarda-roupa, provocando-me lágrimas apenas para lavar engasgos e soluços somente para oxigenar lembranças. Sem a autorização das minhas contrariedades, puseste para fora versões de mim com gosto amargo, despediste meus infernos de estimação, receitando-me diariamente não me perder para velhos e estúpidos fantasmas. Trouxeste à superfície da pele, as alergias à tristeza que por tempo ocultei, de mim mesmo. Os passos da tua vinda espantaram minhas frações e convocaram-me aos inteiros.

Com tua chegada, passei-me a sentir doente. Doente de vida.
Vieste tu a curar-me, trazendo mais dela.

O teu amor é curandeiro.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Venenos...

É espantosa a quantidade de coisas que jogamos dentro: adoçantes, corantes, tristezas, flavorizantes, mágoas, aromatizantes, medos, raivas e demais predadores. É espantosa a quantidade de coisas que ingerimos sem prudência: venenos que buscamos para realçar sabores do que tornou-se artificial - a própria vida - ou que permitimos que já dentro circulem em nosso sangue, músculos, órgãos, alma e anestesie-nos para coisas que não queremos realçar. Os venenos sabem como nos devorar enquanto fingimos que nada nos devora, usando-os para que se sobreponham à falta de gosto ou à dor. O essencial, deixamos de fora. O essencial, não ingerimos. O essencial, não expulsamos. Como se permitíssemos morrer aos poucos diante da inconsciência que há tanto nos sequestrou para que não mudemos os hábitos, a alimentação, o rancor, as impaciências, a falta de perdão. Mudamos a direção do que nos anula para depois nos dizermos vítimas de um coração que pelos excessos decidiu parar.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Acordar pra vida...

Mudar-me inteiro, dissolver-me todo, abandonar posturas. Não cultivo dignidades nem para ser semente. Não honro a vida, o tempo e a minha relação com o próximo. Eu não sou grato com o que a vida me dá. Ando excessivamente preocupado com o que tenho, com o que quero ter e com o que não consegui que não consigo espaços na agenda para ocupar-me com quem sou. Quero para agora, pois me frustro facilmente com as coisas que não dão certo. Acho que os meus erros machucam menos do que os erros alheios que sofro, por isso uso de abundantes desculpas e me perdoo sempre. Vendo mentiras para manter meus convenientes papéis e ocultos meus defeitos. Para manter minha notória e pública leveza custa-me muito esforço. Convenço. Covarde. Distrato, nego, renego, acuso, maldigo, minto, descarto, desconto, descaso, amargos. Massacro qualquer um que me incomode, em pensamento, sem para isso precisar me desculpar e sem aprender o que preciso. Sou um pedaço de nada flutuando na continuidade dos dias. Não separo o lixo de casa, não separo o lixo de mim. Sou um amontoado de atos pequenos de bondade que não me transcendem e de mim não me livram. Tudo me cansa. O outro me arde. Tenho facilidades para a violência: verbal e existencial. Sou uma agressão enquanto espero, com o tempo do outro, com quaisquer alheios amadurecimentos. Exijo mais do que dou; e nunca doo, a não ser o que seja dispensável e sem esforço. Invento histórias que conto para me salvar do meu próprio silente julgamento. Expulsei o silêncio a ponta pés, tornando-me apenas barulho e confusão. Prometo mais do que cumpro. Condeno e não absolvo. Coletânea de muletas e preconceitos. Tenho muitos medos e falo histericamente sobre coragens. Saboreio pequenas raivas cotidianas. Demando que as coisas aconteçam como se eu tivesse o direito de exigir dos outros, sendo que não ofereço nem um terço do que exijo. Envelheço acumulando fatos, jamais experiências. Atravesso os dias sem atravessar a mim. Perco mais do que ganho. Mato mais do que salvo. Morro mais do que vivo. Minto mais do que curo. Falo mais do que sinto. Adio amanhãs em que serei aquela ideia mais genial sobre mim mesmo. Adio quando serei mais solidário, participativo, sereno, equilibrado. Que Deus me perdoe. Que eu me perdoe. 

Que eu possa aprender por ser feliz, e não o contrário.

(escrito num passado distante)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Concorda?

Não sejamos ortodoxos nem relativizemos tudo. 
Não sejamos preconceituosos nem xiitas do politicamente correto. 
Não sejamos coniventes tampouco intolerantes.

Viramos velhinhas moralistas, fiscais da vida alheia, do ânus alheio, do sal na mesa alheia, da linguagem que queremos distorcer e limitar para proteger. Proteger nossa burrice, claro.

Não se pode dizer mais isto nem aquilo. 
Se digo A, persigo B. Se digo B, logicamente oprimo A.  
Se digo B, excluo A. Se critico A, definitivamente defendo B.

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.  
Nem tanto blablablá, muito menos mimimi.

Onde raios se escondeu o bom senso? 

Há os que defendem o indefensável; os que alguma coisa afirmam porque todo o resto negam e os que não enxergam porque só olham para o outro lado. Ou para o próprio.

Não sejamos cegos, nem sejamos míopes a carregar inquisições e censuras por acreditarmos apenas no que queremos. Há os que defendem a verdade e não vêem que defendem uma crença. Axiomas, princípios, sistemas e livros podem tanto explicar quanto encarcerá-lo para bem longe da realidade.

A direita pensa que toda a esquerda é imbecil. A esquerda acredita que toda a direita é imbecil. Ambas acreditam que somente uma pode melhorar o mundo. 

Estou certo e o outro errado. 
Estou certo e o outro herege. 
Estou salvo e o outro condenado. 
E seja feita sempre a nossa vontade.

Não sejamos falsos humildes, tampouco arrogantes.  
Não sejamos ingênuos, muito menos maus caracteres.

Há os que argumentam sem a finalidade da reflexão. Há os que debatem apenas para impor seus pontos de vistas. Discutimos não mais para encontrar a solução ou desvendar o erro, mas ganhar do outro. E perdemos todos. 

Defendemos partidos e seus personagens com a paixão ignorante de uma torcida organizada. Tornamo-nos gado e dizemos que quem pasta é o outro.

A cada um que excluo aparecem 5 defendendo a idoneidade (?) do Lula.
A cada um que excluo aparecem outros 5 defendendo Bolsonaro como a salvação da lavoura.

Não sejamos inocentes, muito menos idiotas.
A merda, ainda que defendida por muitos, ainda assim é merda. Mesmo que perfumada.
Queremos destronar Satanás para empossar Belzebu. 

Bem aventurados aqueles que estão a tatear suas certezas. 
Bem aventurados aqueles que não insistem em justificar o injustificável. 

Como li outro dia: em quem eu preciso bater para ser expulso deste planeta? Enquanto eu não sou, a porta é serventia da casa, caso tenha se sentido dodói com o que leu.

Melhor para nós dois, concorda?

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Cordel...

o silêncio de uma dor que não cala
o silêncio como o amor que sussurra

a palavra de uma dor que nos fala
a palavra como o amor que se jura

a poesia para uma dor que a distraia
a poesia de um amor que nos cura

o verbo atravessando o tempo
o tempo atravessando o outro
o outro atravessando a gente
a gente nesta travessia
a gente nesta trapalhada
a gente nesta patuscada
cordel de lágrimas
e alegrias.