quarta-feira, 13 de abril de 2016

Órfãos...

Quão órfãos somos da própria realidade? Quão carentes somos de nós mesmos? Espanta-me o desespero pelas palavras como uma compensação que nos garanta, que nos alivie, que assegure, controle, prometa, alcance. Uma palavra qualquer que nos encante. Uma palavra qualquer que nos engane, mas que a cada uma nos agarramos como certeza, como um tosco salva-vidas neste mar da vida. Queremos ser salvos da nossa própria e das suas inúmeras incertezas. Queremos evitar colecionar mais dos inúmeros tons de cinza que permitimos colecionar. Entre eles e nós, cimentamos palavras, garantindo-nos o mínimo. Queremos nos proteger do outro impondo-lhe condições. Queremos nos proteger do amor impondo-lhe condições. Queremos roteiros, rotina, controle: promessas e verdades registradas em cartório que jamais mudem de ideia; o dia seguinte igual onde o milagre jamais estará presente. E para que o acordo vingue, dispensamos o imprevisível pelo provável, oferecendo obediência e resignação, o sentimento educado, a alegria controlada, a tristeza muda, as conveniências, a palavra acostumada: cláusulas de medo num contrato de risco que outro nome damos para disfarçarmos quão grosseiras são nossas fragilidades e quão gritante é a nossa dependência.

A palavra pode ser amor. O verbo pode ser amar. 
A maioria das vezes é sempre gaiola.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Para quando acordar...

Talvez o amor fosse um modo de envelhecer. O amor colocara os meus amigos, irmãos e as coisas todas a envelhecer. O tempo também se conta distorcido pelos amores. Talvez por isso, sinta-me tanto com cem como com um pouco mais de dez anos. Pelos amores que magoaram-me e decidi não serem amor. Pelas paixões que acenderam-me e que depois pensei amar. Pelas amizades que floresceram-me e que depois soube ser o que amor é. Pelo amar que reincidi nas manhãs de outono. Pelas demoras de esperar o próximo. Pelas distâncias de aguardar o mesmo. Entre somas e subtrações sobrou-me apenas o coração. Como se por tê-lo restado soubesse melhor o que fazia; o que sentia; quem eu era. E exatamente o contrário disto. Mas, como fosse, permitido de fazer futuros com ele. Quem sabe o futuro servisse, entre outras coisas, para desentristecer o passado e alegrar o coração como pássaro que visitamos a gaiola. Acreditava existir em mim dois corações: um a pulsar-me os sangues e guardar lugar para as tristezas. Como nas gaiolas. E este outro, um ainda não crescido, a estrear-se para a felicidade e levar-me junto com ele. Deitava-me toda a noite com esperanças de sonhá-lo. Para quando acordar, vivê-lo. 

Assim eu desejava.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Sobre os recomeços...

Às vezes os recomeços nos acontecem quando estamos desprevenidos, e talvez seja exatamente por isso que eles então nos aconteçam, neste intervalo entre os ensaios em que ainda não encontramos o suficiente de nós para virarmos a página e nos reinaugurarmos.

A vida não pede nossos inteiros para bater à porta; a vida bate à porta para então permitir que venhamos a encontrá-los.

domingo, 10 de abril de 2016

Recadinho...

Amigs,

Vejo gente neste vale de lágrimas, também chamado de redes sociais, a publicar cousas alheias sem o devido crédito. Vejo uma, duas, três, quatro, cinco, seiscentas e oitenta e três vezes a mesma coisa. Por semana, por dia, por hora, por minuto.

Desta patuléia efervescente e vitaminada, há aqueles que fazem de caso pensado, premeditadamente, esperando o reconhecimento e a glória que não lhes pertencem.

A estes, desejo de todo o meu coração o mármore do inferno.

E há outros, fulanílsons de coração ingênuo, para quem vai o meu recado: não, meu caro! A vida é mais do que isso e pede mais de ti. Se você se empenhou em copiar e colar - transcrever é para os fortes! - o texto, faça a gentileza de dar o crédito. Seja ao falecido, ao moribundo ou ao muito vivo. As suas mãos nem suas ações da Petrobrás irão cair. Eu lhe asseguro.

A sua atitude inocente pode virar uma confusão dos diabos quando outros a partir da tua publicação começam a levar embora as palavras emprestadas.

O que era Shakespeare vira Pedro Bial. O que era Drummond vira Jô Soares.
Deus nos livre e guarde.

A semente quando semeada já leva consigo o nome de sua flor.

Atenciosamente,

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Mesa de bar...

Não há crise que se sustente nem angústia que não se diminua numa mesa de bar. Diante da atual intolerância social e religiosa, o boteco é o templo contemporâneo que a todos aceita, sem distinções. A mesa de bar é o divã com colarinho e bolinho de bacalhau. Confessionário com burburinho e música ao vivo. Ali, amigo vira filósofo, economista, fofoqueiro, jurista, conselheiro amoroso ou qualquer outra coisa que se exija o assunto. Juntos, tornam-se assembléia de especialistas. Ou palpiteiros, tanto faz. Gosto da cerveja e da prosa fácil na mesa do bar. Tabuleiro em que se põe em xeque as dúvidas e se (re)descobrem certezas. Ao chegarmos penduraremos na cadeira nossas armaduras e demais seriedades. Convocaremos o garçom, gênio moderno a atender nossos pedidos. A cerveja, lúdica, pede-nos este ritual. A patrocinar nossas ideias. A brindar nossa existência. Beberemos todas as nossas emoções. O boteco é o álibi, o culpado e a testemunha, tanto da nossa coragem como das nossas fraquezas. Ali, histórias se desenrolarão com a imponência de um teatro grego. As confissões com detalhes de um sistema filosófico. A mesa do bar é a renovação rotineira das nossas esperanças. A terapia estendida aos finais de semana. Afinal, há bares que vem para o bem. E um homem sem bar é definitivamente um órfão, um pagão.

O boteco é a nossa alma pronta pra festa.

Realidade...

Só então pude livrar-me de idéias e maus sonhos que me perseguiam, quando percebi que era eu quem, de alguma maneira, os perseguia. Esta sutil e inesperada percepção revelou-me a responsabilidade por coisas na vida que pensei jamais ser responsável, criando caminhos sem me dar conta que minhas próprias escolhas os criavam, desenhando eu a realidade que pensei ter sido por tanto tempo e na maioria das vezes para mim imposta.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Baralha-me...

Cansado de nada fazer. Cansado de ser nada. Cansado das coisas todas. Das boas e das más. Cansado dos medos. Os motivos são vários. Tantos. Não sei como enumerá-los, cansaria-me mais ainda se o fizesse porque não conheço todos os cansaços de que padeço. Bucólicos muros. Estranho-me. Não me posso adiar para outro século. Só tenho este. E é tão curto. Não sei nunca por onde. Vou daqui para ali apenas por ir. O espelho reflete um personagem sem face. Rosto sem expressão. Sou uma constante fractura exposta que não se trata.

Gasto algumas das minhas horas assim, olhando ao redor. Respiro e deslumbro-me. Mas as nuvens pesam-me e cansado fico. A claridade confunde-me. O dia baralha-me. Ideias desconexas e desencontradas surgem na noite. Fantasmas de espírito acordam-me nesta escuridão temporária. A obscuridade nasce.

Não sou o meu lugar. Não me sinto aqui. Simplesmente aceito tudo isto. Hei-de encontrar coerência em tudo e sentir o sabor de não estar só. Quero respirar mais alto.

(Antonio José Ribeiro)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Receita

Um incômodo se não dispensado pode vir a tornar-se uma frustração.
A frustração se reincidente pode vir a tornar-se tristeza.
A tristeza se acumulada pode vir a pedir-nos remédios.

Nós e o nosso mau hábito de cultivar o que não se deve, alojando aquilo que deveria ser tão-somente passageiro. A repetição crônica do sentir e do pensar alimentam mágoas e culpas, levando-nos às reincidências e círculos viciosos interiores, impedindo-as de se dissolverem através do tempo, restabelecendo nossos inteiros.

O que é a doença senão um pedido de socorro pelos cansaços, quando deixamos a vida escapar no momento em que o vazio entrou? Não esperemos para dizermos "basta" ao que devemos dizer "basta", seja lá dentro ou fora da gente, seja para o outro ou conosco mesmo.

Mudar amanhã é desculpa para repetir o hoje.

domingo, 3 de abril de 2016

Represar...

Aceita, meu filho, o inevitável curso do rio ao mar e abençoa a nascente, mesmo que o rio todo se perca na sua foz. Permita o amor também chorar seus medos.

Assim se faz a sabedoria de jamais represarmos em nós a própria vida.

sábado, 2 de abril de 2016

O equívoco...

O amor não nos causa doença ou mal algum. O que nos causam males são os nossos escuros; estes com que envolvemos cada uma das coisas que sentimos. O equívoco está em acreditarmos que nossas ausências e medos e egoísmos não interferem no amor. O equívoco está em nos permitirmos esquecer que nos relacionamos também através da nossa imaturidade e ignorância. E por recusarmos enxergar tanto os equívocos quanto os escuros, colocamos a culpa no amor como inevitável tragédia a mastigar-nos o peito, antes ou depois de elevar-nos aos céus. É exatamente o amor quando amado junto aos enganos que o comprometem. O amor não deixa de florescer por sua própria culpa, mas por nossa responsabilidade. Ele, pelo contrário, por sua claridade, permitirá que diante do outro venhamos a reconhecer os escuros com que nos vestimos e nos abotoamos para o desnudo e entregue verbo amar.

Talentos...

Se tem coisa que muito me sobra é o talento que tenho para reunir talentos. Variados deles. Vejam, há talentos que não são como toda sorte de gente pensa ou deseja. Há os que nada tem que ver com técnicas e engenhos a realizar feitos por aí afora. Há, por exemplo, os que se tratam de uma facilidade para nada fazer ou os que carregam habilidade em se lascar. E este é o meu caso. Tenho talentos, por exemplo, para ser o que não quero e fazer o que não me apetece. Talentos em adiar compromissos ou aceitá-los todos para o mesmo dia e hora. Talentos para perder as horas e procrastinar a vida. Talentos para falar merda e não pensar duas vezes. Talentos para não lavar pratos e esquecer o feijão no fogo. Um talento hollywoodiano para as preguiças. Todas elas. Em suma, tenho habilidades em fazer merda e apagar incêndios depois. Eu sempre nadei contra a corrente destas minhas inclinações. O meu plano que por muito tempo havia sido ser um revolucionário tornando-me um outro novo que não um velho eu, nunca foi posto em prática. Sempre o executei em fases e parcelas, adiando reestréias e reformas, alongando mesmices e mudando detalhes, um aqui outro acolá, fazendo com que o plano deixasse de ter mesmo qualquer coisa de revolucionário. Então percebi o que havia necessidade de perceber e é aí onde se encontra a defesa que faço. Para ser e continuar sendo o melhor em cada um destes talentos, não careço de esforços nem ensaios. Eles me caem bem e com muita facilidade. A conclusão é que talento pode ser muitas coisas, menos sofrer por querermos ser tudo o que não somos, ainda mais com vistas a agradarmos alguém. Quando diz o filósofo que o inferno são os outros, penso que inferno seja a falta de tolerância para com os outros que se incomodam com aquele que pouco se incomoda consigo mesmo. Por isso elogio os talentos que fazem de mim quem sou, seja lá como sou, ao contrário da luta contra estas queridas características e outros simpáticos pecados. Uma coisa é disciplina, a outra é o talento para sermos fluídos. Uma é imposição, a outra aceitação. Uma não exclui a outra, e o que não se pode é a outra anular esta uma. Para sermos o que os outros nos pedem temos mandamentos e manuais, mas nenhum apontamento sobre como sermos nós mesmos. 

Reconhecendo-nos e nos perdoando. 
E seguindo adiante.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

1º de abril...

Amigos,

Sendo eu o portador eleito das verdades de que sou merecedor, declaro ser homem em vias de beatificação, vez que dissolvidos meus apegos e vaidades, encontro-me acima do bem e do mal, inclusive das picuinhas idiotas das redes sociais.

Em razão da minha atual pureza e simplicidade, tendo eu pagado todos os meus pecados e sem outros mais para pagar, aviso que muito em breve serei arrebatado aos céus, a ser amparado por querubins e serafins, deixando a vós apenas e tão-somente o meu legado de humildade e tolerância.

Assim, aproveito o ensejo, até por acreditar que cada um de vocês aqui é lindo e bonito - mantendo axilas sempre cheirosas, médias acima de 8,5, um bom senso invejável acerca da política brasileira e o nome longe do SPC/Serasa - para pedir que escolham vossas causas impossíveis e com ardorosa fé dirijam-se a mim com uma módica quantia de R$ 550,00 - para que recebam o milagre de vossas vidas de minhas abençoadas mãos em até 6 dias úteis (3 dias para a grande São Paulo).

Palavras da salvação.

PS.: De brinde levarão ainda um "squeeze" com água gaseificada do Rio Jordão e um calendário a la açougue do bairro, sem o primeiro dia do mês de abril.