quarta-feira, 30 de março de 2016

Insanidade...

Conviver: viver com ou viver sem?
Cem vezes solitário em meio a tudo!
Tanto estrondo de amor no peito mudo…
Descubro a multidão, não há ninguém!

Tanto dizer-se “não, talvez, porém”
Tanto estreitar o sentimento agudo!
Eu, que convivo só, canto e me iludo
Somente a voz do verso me faz bem…

Quanta mentira, quanto jogo vão
Quantas unhas e tapas, quantos dentes!
Tosca coreografia no salão…

Quantos amantes e convalescentes!
Todos estrangulando o coração
Nesta louca irmandade de dementes!

(Clarrissa Yemisi)

terça-feira, 29 de março de 2016

Procissão de fé...

Não sou profissional coisa nenhuma.
A poesia, em mim, é um ritual
De gozo e sacrifício sem igual
Grito por fé, não por ofício, em suma.

Trago a palavra em mim qual marginal
Faço que corte, mate e me consuma
E busco, inutilmente, a que resuma
Uma qualquer verdade, a bem ou mal.

E se, num grande acaso, eu tropeçasse
Na tal Verdade em cor e carne viva
Nada mais eu diria a não ser “Passe…

…que eu não quero cultuar nem Deus nem Diva!
Quero, tão só, rasgar o teu disfarce
E, depois de te ver, que eu sobreviva!


(Clarrissa Yemisi)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Silêncio...

Das verdades que fala o silêncio, estas são sempre as mais difíceis de reconhecermos. Como desaprendemos a frequentar os interiores espaços onde alma habita, não mais as vemos. Sendo o medo tagarela por demais, não mais as ouvimos. E por estarmos ocupados em outro lugar que não em nós, não mais as sentimos. Em suma, não mais comungamos delas. Assim, pelas facilidades da superfície e pelo hábito, tomamos por empréstimo alheias verdades fazendo delas nossas seguras crenças. Adotamos cada uma delas pela necessidade ou pela conveniência, visto que muito bem enfeitam aquela zona de conforto que nos dispensa da coragem e da inteireza. Tornamo-nos colcha de retalhos que não nos representa; somos muitos que não um; somos eles que não nós, defendendo ideias sem sabermos quais levam nossos nomes, caminhando sem sabermos ao certo para onde, cultivando vaidades sem sabermos o porquê. E para além da confusão em que nos metemos sem precisarmos sair do lugar, repousa este silêncio a nos integrar e curar, sussurrando liberdades, espelhos e sementes. Cumpre então permitirmos ao amor fruto ou às inevitáveis dores que encontramos pelo caminho, afinar nosso olhar e nossos ouvidos. 

Para isso, preciso é fazermos silêncio.

domingo, 27 de março de 2016

Das matemáticas...

Cabe ao coração compreender suas incógnitas, na relação direta entre o tempo, o espaço e o outro. Quando diante dos seus conjuntos vazios, deve o homem traçar seus planos em paralelo com a tristeza, descartando desconhecidos valores nas expressões inexatas da sua própria razão. O homem prudente não deve contar suas lágrimas, tampouco os seus amores. O número obtido nem sempre equivalerá à sua inteira felicidade. Somos feitos de reais e imaginários, sistemas e pertenças que nos significam e definem nossa natureza a cada experiência que somamos, entre medos, cenários e claro, a coragem, para além meramente dos conceitos fixos e abstratos sobre nós, sejam nas letras ou nas parábolas. Aquém das nossas diferenças ou dos ângulos em que enxergamos a vida, há pontos em comum: a saudade como medida de distância, a paixão como medida de calor, e o amor como raiz e medida de todas as coisas que nos permeiam, tocam e encantam. Vivemos buscando no outro sermos número par, e descobrir a lógica com que os elementos nos enfeitam e nos orbitam é essencial atributo da alma para, que nos encontros que nos elevam ou nas feridas que nos fragmentam, multipliquemos apenas o que nos cabe e serve, conforme os fatores e curvas do destino que nos resultam. Assim, somente pela prática, aprendemos as interiores matemáticas que nos imensam.

sexta-feira, 25 de março de 2016

A raiva...

A raiva é como atirar pedras à boca de deus; passando nós a valermos mais pelas misérias do que por qualquer outra coisa. Admiramo-nos com isso, como se tomássemos um poder a dar-nos coragens e violências de sermos deuses ciumentos e soberbos, para perdermos tudo logo a seguir, sobrando-nos as covardias e os remorsos e o que mais cabe em nosso próprio tamanho. A raiva depois de sua fúria, confessa o medo de tocarmos os nossos próprios escuros; e lá dentro respirarmos: os passados tristes; os poemas velhos; os venenos todos; as ausências todas; as inconclusões; as impaciências; a soma de tudo e a frustração ilimitada disto. A estupidez como filha que jamais reconhecemos. Avançamos o tempo da vida sem consertarmos a própria. Avançamos a nós mesmos sem mais nos alcançarmos. Como uma bênção desesperada, contamos histórias; em que somos outros para nos protegermos das nossas feridas. Contamos histórias para acreditarmos nelas, aprisionando-nos na própria narrativa. A verdade, ficará de fora; para não nos assustarmos; para não termos que fazer algo. Concedemos lugar à mesa apenas às mentiras; proibindo-nos a confissão de que as violências são modos de fragilidade. A raiva, as culpas, a mágoa, os ciúmes são os frutos do quintal de uma casa que habitamos e que do cômodo jamais saímos.


Um jeito de estarmos menos mortos enquanto vivos.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

Teoria Geral do Desassossego
(um ensaio dos afetos) 

Este livro é uma versão compactada de todos nós. E não há quem destas palavras se esconda ou delas fuja; há apenas os que nelas podem se salvar. Aqui, recusarei por nós dois as conveniências com que sempre nos escondemos. Eu proponho vendavais. Eu proponho desassossegos. Ao abrir o livro não haverá retornos: dispensarás certezas e álibis com que justificamos nossos erros. Colocarás tuas tristezas em xeque. Colocarás teus temores em suspeição. Colocarás tuas crenças em sacrifício. E talvez venhas a descobrir a cura dos abismos convidando-se a eles. Talvez venhas a aliviar tuas dores sabendo das cicatrizes. Talvez venhas a aliviar tua sede com verdades ocultas sob as superfícies e descubras que somos todos prateleiras de frascos vazios na seção dos sonhos. Por isto estarei a falar das coisas exatas e imprecisas que muito bem conheces. Veja, este livro será cirúrgico corte no peito, mas não te preocupes, somente se o coração pudesse pensar é que pararia. Eu proponho catarses. Eu proponho vendavais. Eu proponho encantamentos. Porque os teus amores neste livro são reais, porque os teus caminhos neste livro são reais, assim como as tuas mortes. Mas venho abrigar-te do que tanto sofreste. As páginas servirão para falar por ti e absolver-te do que crês ser imperdoável. Os capítulos servirão para que te permitas saber de ti com mais compaixão. O que é a literatura senão a fotografia íntima dos nossos possíveis? É o que ofereço: a tua própria nitidez. Que reconheças no espelho da palavra as tuas inquietações e saídas. Afinal, somos todos míopes, exceto para dentro. O que ofereço são outros novos olhos a te aceitarem exatamente pelo que já és. Sem mais, nem menos. E que nós, protagonistas aposentados da nossa própria existência voltemos ao palco para as necessárias revoluções interiores que nos permitam amar melhor, viver melhor e sermos felizes para além de qualquer livro ou teoria.


A quem interessar adquirir, mande-me um e-mail: guglicardoso@gmail.com
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terça-feira, 15 de março de 2016

Ensaio...

A palavra em si carrega a dimensão do pensar no conteúdo simbólico expressado. A vontade como impulso no homem que a verbaliza dá existência aos elementos habitantes no horizonte do possível, isto é, a dimensão poética existente e comunicante a todos os homens. Ou seja, o pensamento forjado no campo imaginativo poderá ganhar substância através do som ou da escrita, manifestando a ideia realizada tanto na sua forma quanto no conteúdo. A palavra nascida de uma força viva, de alguma maneira viva também é, condicionando quem diz ao que diz como verdade no instante em que declarada, ainda que seja uma nítida mentira. O verbo é criador de realidade tal qual e através do homem que o manifesta. Eis uma das nossas responsabilidades com a palavra.

(Fragmento do "ensaios sobre a palavra")

segunda-feira, 14 de março de 2016

Nunca se saberá...

Pede o espírito uso de vocabulários para expressar suas dimensões; onde o amor quando expresso nas letras deveria fazer a convocação aos esquecidos contornos de nós. Aí está a beleza da linguagem, trazer-nos sem entregar-nos a realidade das coisas. Entretanto, o amor como palavra tornou-se gasta pelo abuso romântico das carências que nela se apegam e nela costuram promessas, roteiros e cenários. Torna-se o amor na literatura chave gasta que nenhuma porta abre, embora dele tanto se fale porque a palavra ocupa-nos provisoriamente o vazio a que o real amor cumpre ocupar. Ocupamo-nos com os reflexos. Amar-nos entre os capítulos permite certas seguranças ainda que o verbo a conjugar seja frágil. A linguagem é veste que solicita às essências ser por inteira desnudada, sendo por esta razão, inclusive, a seiva dos enganos, a distrair-nos em seu próprio mundo permitindo-nos pelo descuidado, caminharmos para sempre nos círculos da lógica que não se aproxima o coração. Um utilitário pretexto para enfeitarmos as superfícies e os enganos, não tocando o lugar onde sentimos nem alcançando verdade de onde emanam os nossos próprios significados. O amor confessa no silêncio o que nas palavras esconde. O silêncio é a renúncia da palavra que no amor se rende. A vida, tal qual o próprio amor, residem nas reticências que anunciam todas as possibilidades de nós...

domingo, 13 de março de 2016

Avoar...

Quando no plano planeja se avoar a poesia,
letra é som, vira asa, tom, palavra, melodia. 
A voz em nós dança o verbo, veste o canto, 
a encantar o que é imenso, e muito e tanto,
despertar na alma o intenso, o sol e o pranto,
Servir de fuga ao pecador, ou avivar a fé do santo.
Desenha o poeta o verso da canção, pois sabe bem
que a vida pode viver inteira no refrão, ou mesmo além,
que boa música é alma imersa em oração...

então
amém.

sábado, 12 de março de 2016

Vingança...

Vingamo-nos de nós mesmos por não termos sabido nos salvarmos antes. Assim, afastamo-nos de nós, prometidos para o que é menos ou metade. Não à toa queremos ser longe insistindo em não sermos nada. Assim nos enxergamos tão iguais por coisas que nos existem e afetam, mas sem nomes. E talvez andemos por aí iludidos em crer que somos os nomes que nos habituamos a pensar a ser e que por navegar nas palavras, alcançaremos a outra margem a nos salvarmos todos; onde estaremos mais lúcidos, mais serenos, onde estaremos bem. Por ora, de cervejas e cigarros na boca, parados no tempo de partir, ficcionamos a realidade. Cheios de ideias e vazios de existências, isto já basta para não bastar, para ser vingança, para ser boicote. Por conta de sermos confusos e teimosos, buscamos ser inteligentes num discurso passível de convencer e cativar tanto a vaidade quanto as tristezas, continuando a nos confundirmos num labirinto tão ilusório quanto consistente, prendendo-nos nas promessas de sermos longe e outros, repetindo cenários onde o futuro revela-se igual aos passados que não nos salvamos. Vingamo-nos desta maneira: boicotando-nos, devendo nós vigiarmos os medos em suas casas que nunca mais foram as nossas.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Açúcares...

Ela, feita de açúcares, queria beber de outros venenos; juramento este de que encontraria com suas felicidades: começando para isto guardar vontade grande de fugir. Queria evocar o mais delicado azul para seus olhos e a mais esperta maneira de ser inocente outra vez, sem tempos para sentir faltas. Para isto, ocupava-se com a palavra, uma, que usasse todas as letras e sons até não se bastar com letras e sons e exigisse a si mesma, as lágrimas, o peito e as esperanças. Uma palavra que fosse tão feita de tudo que lhe explicasse tudo aquilo que antes não lhe fora abraço. Ela, feita de mundos, queria beber de outros venenos exatamente para que se curasse das folhas em branco. A água fervendo do café poderia lhe ser um poema: e que os poemas fossem portas por onde, por definição, poderia-se entrar, adequadas ao que se quisesse guardar ou pedir. Ela, feita de açúcares, pedia por amargos, como se a si provocasse, como convite das cicatrizes às suas próprias grandezas. A convencer-se de que, feita de açúcares e ainda que sangrasse, não mais morreria de quaisquer amargos. Enfeitava sua casa aos poucos com louças brancas e perfumes a esperar-se ainda mais bela e arrumada. Um encontro às escuras consigo mesma. Sem saber, este será seu jeito manso de fugir.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Assassinas...

"Sentia-me contente por não estar apaixonado, por não estar contente com o mundo. Gosto de estar em desacordo com tudo. As pessoas apaixonadas tornam-se muitas vezes suscetíveis, perigosas. Perdem o sentido da realidade. Perdem o sentido de humor. Tornam-se nervosas, psicóticas, chatas. Tornam-se, mesmo, assassinas".
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(Charles Bukowski)