Vingamo-nos de nós mesmos por não termos sabido nos salvarmos antes. Assim, afastamo-nos de nós, prometidos para o que é menos ou metade. Não à toa queremos ser longe insistindo em não sermos nada. Assim nos enxergamos tão iguais por coisas que nos existem e afetam, mas sem nomes. E talvez andemos por aí iludidos em crer que somos os nomes que nos habituamos a pensar a ser e que por navegar nas palavras, alcançaremos a outra margem a nos salvarmos todos; onde estaremos mais lúcidos, mais serenos, onde estaremos bem. Por ora, de cervejas e cigarros na boca, parados no tempo de partir, ficcionamos a realidade. Cheios de ideias e vazios de existências, isto já basta para não bastar, para ser vingança, para ser boicote. Por conta de sermos confusos e teimosos, buscamos ser inteligentes num discurso passível de convencer e cativar tanto a vaidade quanto as tristezas, continuando a nos confundirmos num labirinto tão ilusório quanto consistente, prendendo-nos nas promessas de sermos longe e outros, repetindo cenários onde o futuro revela-se igual aos passados que não nos salvamos. Vingamo-nos desta maneira: boicotando-nos, devendo nós vigiarmos os medos em suas casas que nunca mais foram as nossas.
sábado, 12 de março de 2016
sexta-feira, 11 de março de 2016
Açúcares...
Ela, feita de açúcares, queria beber de outros venenos; juramento este de que encontraria com suas felicidades: começando para isto guardar vontade grande de fugir. Queria evocar o mais delicado azul para seus olhos e a mais esperta maneira de ser inocente outra vez, sem tempos para sentir faltas. Para isto, ocupava-se com a palavra, uma, que usasse todas as letras e sons até não se bastar com letras e sons e exigisse a si mesma, as lágrimas, o peito e as esperanças. Uma palavra que fosse tão feita de tudo que lhe explicasse tudo aquilo que antes não lhe fora abraço. Ela, feita de mundos, queria beber de outros venenos exatamente para que se curasse das folhas em branco. A água fervendo do café poderia lhe ser um poema: e que os poemas fossem portas por onde, por definição, poderia-se entrar, adequadas ao que se quisesse guardar ou pedir. Ela, feita de açúcares, pedia por amargos, como se a si provocasse, como convite das cicatrizes às suas próprias grandezas. A convencer-se de que, feita de açúcares e ainda que sangrasse, não mais morreria de quaisquer amargos. Enfeitava sua casa aos poucos com louças brancas e perfumes a esperar-se ainda mais bela e arrumada. Um encontro às escuras consigo mesma. Sem saber, este será seu jeito manso de fugir.
quinta-feira, 10 de março de 2016
Assassinas...
"Sentia-me contente por não estar apaixonado, por não estar contente com o mundo. Gosto de estar em desacordo com tudo. As pessoas apaixonadas tornam-se muitas vezes suscetíveis, perigosas. Perdem o sentido da realidade. Perdem o sentido de humor. Tornam-se nervosas, psicóticas, chatas. Tornam-se, mesmo, assassinas".
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(Charles Bukowski)
quarta-feira, 9 de março de 2016
Erramundo...
"Palavras? Sim. De ar
e perdidas no ar.
Deixa que eu me perca entre palavras,
deixa que eu seja o ar entre esses lábios,
um sopro erramundo sem contornos,
breve aroma que no ar se desvanece.
Também a luz em si mesma se perde".
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(Octavio Paz)
terça-feira, 8 de março de 2016
Baralhar...
Queria ela assombrar seus próprios fantasmas tanto quanto eles a assombravam. Ela, esperta de tantas manias avisava-lhes de que morreria por coração partido; a perderem as dignidades e a razão de ser, pois morto só sabe falecer e para nada presta. Dava-lhes seus poucos segredos para que dela se desinteressassem; oferecia-lhes boca cheia de conversas para que prestassem atenção: acreditava que distrai-los seria como sair de onde se está. Contava como a solidão era companhia suficiente para engolir a todos. Contava sobre seus sonhos como pequenos jardins de ir embora. E ameaçava sonhar, partindo a cada noite de si para lugar algum. Sonhar era jeito de não ser; esconderijo adequado para abrigar-se enquanto buscava solução. Queria resolver os seus fantasmas. Como numa equação: extingui-los arrumando com elegância o seu passado. Queria ser alguém longe de si. Acreditava que assim resolveria. Sem instruções, sem saber como. Deixando apenas migalhas e outras pequenas tristezas frente ao espelho. Para confundi-los. Para baralhar seus fantasmas surpresos com o destino que não se revela nos reflexos do que não se é mais. E a cada ausência e outra entre as noites aprendeu o arrependimento para assombrá-los, e com isto, desaparecerem.
Conseguiu tapar a boca dos medos para respirar e viver por si mesma.
segunda-feira, 7 de março de 2016
Exagero...
Há algo perverso que nos convoca a voltarmos aos rostos que já despedimos; e sentirmos saudades do que não se gostaria de sentir. O passado é um exagero. Leva demasiado e deixa-nos muito pouco. Acumulamos dele o quanto podemos como que para sabermos de nós sem nunca sabermos, carregando-os numa pilha que fatalmente desmoronará. Há algo perverso que nos convoca a voltarmos para as tristezas. Comem-nos a felicidade com qual direito? Deitamo-nos com elas a espera de despertarmos melhores. Antes, gratos pela vida sem sabermos outra coisa que não a vida. Agora, sonhamos tudo o mesmo ou menos, a querer o mesmo ou menos. O agora é um exagero. Leva demasiado e deixa-nos muito pouco. Buscamos por medicinas e conversas a cuidarmos dos sintomas de uma única desordem: não sabermos ser. Apáticos, intensos, desesperançosos ou eufóricos são emoções tão transitórias quanto persistentes que cedo ou tarde por elas nos curamos. Mas nos curamos de quê? Há algo perverso que nos convoca a voltarmos às mortes que já superamos. Quando morremos, tudo ao redor divide-se por metade. Quanto já nos sobrou? E o que de nós ainda restará?
domingo, 6 de março de 2016
Encontrar-te...
Sou verso que leva o teu nome e qualquer coisa de sagrado; que empresta ao por-do-sol as nossas cores; palavras que confessam as dores que no amor ferem e falam das dores que no amor curam. Quando doemos pretéritos imperfeitos nas discussões mal colocadas; ao sonharmos no futuro-mais-que-perfeito que merecemos caminhar. Amar é mudar a alma de casa e morar no outro. Amar é também o verbo que nos faz sujeito de oração que nos lábios rezam o amanhã e nosso quarto; em que vou te rir baixinho e desenhar a tua boca com a minha língua; te respirar devagar, respeitando seus pontos finais e vírgulas; namorar cada uma das nossas reticências. Alongar meus cílios nas tuas costas, pendurar o teu cansaço nos meus ombros. Passear no teu peito e morrer no teu abrigo; nascer no teu abraço. A tua pele o meu refúgio. A tua ausência o meu naufrágio. Qual amor não quer morrer e renascer na poesia? Qual solidão não quer abandonar a sua velha boemia? Qual metade no amor, inteiro não seria? Quero desenhar com a ponta dos dedos teus desejos, apagar os escritos com meu riso. A paixão como ciranda dos corpos. Tuas mãos nas minhas mãos. A tua vida como a minha própria história. O testemunho sagrado da tua pele desnuda entre os meus dedos contornando ansiedade, curvas e vontades me guardando no teu beijo. Sentir na carne a plenitude de nós dois. Abrir sorriso como abro as janelas pra vida. Abençoar-te com o sal da saliva destas palavras de amor.
(Guilherme Antunes & Camila Heloíse)
(Guilherme Antunes & Camila Heloíse)
sábado, 5 de março de 2016
Anomalia...
"Toda inspiração procede de uma faculdade de exagero: o lirismo - e todo o mundo da metáfora - seria uma excitação lamentável sem esse ardor que incha as palavras até fazê-las estourar. Quando os elementos ou as dimensões do cosmo parecem demasiado reduzidos para servir de termos de comparação a nossos estados, a poesia só espera - para superar sua fase de virtualidade e de iminência - um pouco de claridade nas emoções que a prefiguram e a fazem nascer. Não há verdadeira inspiração que não surja da anomalia de uma alma mais vasta que o mundo..."
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(Emil Cioran)
sexta-feira, 4 de março de 2016
Logo ali...
Às vezes reagimos ao presente por conta - sem nos darmos conta - de algum passado incômodo que conosco trazemos preso, na tentativa de nos protegermos de que se repita já se repetindo no instante mesmo que em razão dele reagimos, deixando nós de respondermos plenamente ao aqui e vivermos às demandas do agora.
Quão
presos estamos às ausências e dores que por não termos ainda nos
despedido levamos de alguma maneira para as nossas atuais relações como um
padrão, como escolhas a atraírmos e criarmos sempre as mesmas situações ainda que com outros personagens e cenários, seja para nos confirmarmos diante de cada uma delas ou para tomarmos ciência das repetições e então delas nos libertarmos?
Por enquanto, o presente está logo ali.
Por enquanto, o presente está logo ali.
quinta-feira, 3 de março de 2016
A graça...
A verdadeira mulher é aquela cuja presença nos faz esquecer os problemas, as ideias, as inquietudes universais e as angústias metafísicas. Para aqueles que se encontram profundamente agitados por uma inquietude metafísica, a intimidade de uma mulher é corretora e reconfortante. Através da mulher, é possível atingir temporariamente uma doce, agradável e encantadora inconsciência. Nascida quase só para o amor, ela esgota todo o conteúdo de seu ser no impulso erótico. A mulher ama mais e sofre mais que o homem. [...] Gosto da mulher porque, ao seu lado, paro de pensar e posso plenamente realizar, por um curto período, a experiência do irracional. Junto de uma mulher, esquecemos que sofremos por causa do espírito, atravessamos as torturantes dualidades e retornamos a um fundo original de vida, a conteúdos primordiais e indivisíveis, derivados, como expressões orgânicas, da essência irracional da vida. Para os cavaleiros do Vazio, o contato com a mulher só pode constituir um caminho que, se não leva à salvação, com certeza gera um consenso temporário, um esquecimento reconfortante. A graça feminina tempera a tragédia masculina.
(Emil Cioran)
(Emil Cioran)
quarta-feira, 2 de março de 2016
Adeus...
Ele queria poder encerrar casos, romper os laços e despedir-se sem o sopro contínuo dos seus medos; medos que lhe faziam considerar coisas que não deveriam estar na pauta dos seus pensamentos. O medo lhe atentava às coisas mais estúpidas e triviais como dedicatórias, letras de música e empoeiradas lembranças que serviam-lhe de uso apenas para mantê-lo preso ao medo de arrepender-se e nunca mais viver o que, ironicamente, nunca mais viveu. O medo ante a irrecuperável queda nos abismos dava-lhe um falso otimismo. Assim, aliviava-se temporariamente por forçar-se acreditar que ainda poderia ser diferente daquilo que nunca mais fora igual. Cultivava o medo de se lamentar para os sempres. O temor de se ver merecedor de nada convenceu-o a não precisar atravessar suas covardias e apegos. Viu no horóscopo que se tratava de má semana para decisões e que deveria esperar então pela próxima. Ou a próxima. Levou em conta crenças que não tem: karma, dharma, lições sobre resignação, mas contrariou resposta libertadora das cartas e dos búzios. O medo dava-lhe a culpa e a sensação de que só sabia errar. Sentia-se errado. Sentia-se um erro. E por isso jamais acertaria novamente. Passou a dormir demais para conseguir sonhar. Era o único jeito para esquecer os seus amargos, sem sentir gosto algum.
terça-feira, 1 de março de 2016
Oculta...
Há uma outra mulher oculta em ti. Desmintam os outros, desconversem os amigos, ignorem os familiares. Há uma outra mulher e uma outra vida ocultas sob o teu próprio corpo, por ora invisíveis aos teus próprios olhos; mas tuas por sagrado direito. Uma mulher não mais regida pelos signos do zodíaco ou pela insegurança. Uma a não depender da sorte ou se entregar ao destino enquanto se aguarda. Uma que não se prestará aos medos ou às migalhas. Há uma mulher oculta em ti, que aprendeu a desculpar a si e a perdoar os outros. Uma que não mais carrega os dramas afetivos do passado, as complicações com seus pais e ausências tantas que ocupam no coração lugar reservado ao amar. Uma mulher que aprendeu a prestar contas somente à liberdade e não mais aos olhos de ninguém. Uma mulher que descobriu no travesseiro caberem sonhos e não tristezas. Há uma mulher oculta no teu sangue, desmintam os médicos, desconversem as carências, ignorem os familiares, que aprendeu a dispensar e a despedir. Que sabe se cuidar sozinha, que sabe se curar sozinha, porque sabe se amar sozinha. Há uma mulher oculta sob o teu próprio nome, que desaprendeu ansiedades e ressentimentos. Uma que descobriu ser maior do que jamais pensou um dia se tornar e que te aguarda paciente para isto. Uma que te verá aportar na tua própria leveza com teus tons de milagre. Há uma mulher oculta na outra margem de ti, distante dos cansaços e das resignações; que aguarda tomar o teu lugar e se permitir falar, chorar e gozar da alma, do corpo e dos cálices de vinho. Uma que confessará desejos, expulsará demônios e idiotas. Uma mulher que cravada em tua carne e feita de estrelas não te adoecerá dos escuros porque deixou de acreditar neles no instante que amanheceu. Há uma outra mulher oculta em ti a querer fazer-te outra e torná-la pública, como principal personagem no palco da tua vida, sem vergonhas, mágoas e chances perdidas. Tu és a bela adormecida oculta a si mesma que não se deu conta que o que esperas é o teu amor próprio despertar-te para si e fazer-te feliz para os sempres.
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