segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Como o teu próprio amor...

Somos irritantemente insistentes em criarmos uma distância entre o amor e nós. Somos excelentes em desviarmos do amor; excepcionais em sermos mancos no amar. Exímios defensores da nossa indignidade, criamos, para isso, as mais diferentes estratégias quando, por exemplo, nos apegamos a alguma versão anterior de nós mal sucedida e a ela nos resumimos, repetindo-a num padrão, dizendo a nós mesmos nas entrelinhas: "veja, eu sou isso ainda, não está vendo? Eu não sou digno de ser amado. Eu não mereço algo assim. Afinal, quem sou eu para receber? Eu não mereço ser cuidado". O que é o boicote senão um desejo nosso de navegarmos para o lado contrário do que também desejamos? Eis aí um deles que muito bem frequentamos. E tudo porque atravessamos o tempo sem nos perdoarmos nem nos permitirmos. E tudo porque o tempo passou e o que não se dissolveu se acumulou e endureceu, endurecendo-nos diante de nós próprios. E tudo porque não fizemos as pazes conosco, não abandonando seja lá o que tenhamos feito ou o que tenham feito com a gente, que nos tenha muito doído ou julguemos por demais reprovável. Diminuirmos, não permitindo que a vida venha em nós caber nos parece mais fácil a crescermos ao permitir cabermos nós na vida. Assim, repetimos o que não queremos mas sutilmente julgamos que merecemos. Assim, repetimos o que não queremos como se desta vez conseguíssemos ultrapassar o que nos cortou com afiada tristeza a nossa alma. E isto só poderá ser conseguido através da dissolução das mágoas, da despedida da raiva, do perdão para todos os lados. Caso contrário reincidiremos no que buscamos sem querer, dizendo que continuamos a ser os mesmos e merecedores do que nos falta.

Enquanto não nos encontrarmos, cada amor que vier será insuficiente como o teu próprio amor.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Alcançar...

As palavras nos dizem: nós temos o mesmo alcance das nossas vontades e a mesma altura das nossas escolhas. Mas não serão pelas palavras que alcançaremos estas verdades; jamais saberemos isso de pronto. Às vezes é preciso conviver por tempos com as nossas dúvidas para podermos caminhar em paz com as nossas certezas. Às vezes é preciso nos perdermos em muitos caminhos para finalmente habitarmos a nossa própria alma, e assumirmos o nosso próprio destino.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A realidade...

Deve o escritor antes da sua escrita perdoar-se diante da palavra sob o risco de querendo se encontrar, perder-se. Ou, buscando expressar sua verdade, confessar exatamente seu oposto sem se dar conta. Isto porque a palavra é um espelho e escrever, uma busca. Porque a página em branco é um altar e a literatura, um confessionário. Quem escreve revela o que se é tanto quanto aquilo que somente desejaria contar. Afinal, refletimos de maneira direta o que somos nas nossas expressões, ainda que demoremos a perceber e tornar o insuspeito em óbvio. O escritor por detrás das suas histórias escreve como maneira de se reconhecer, seja pelo que diz buscando deixar de ser, seja pelo que diz desejando ser ou atenuando-se do que já é, ao negar ou afirmar seus escuros e iluminâncias. Nas palavras sussurramos - ou gritamos - o que tanto ignoramos e reprimimos. Por vezes falamos de inteireza porque nos sentimos em cacos. Por vezes insistimos na espiritualidade porque nos sentimos uma fraude. Por vezes insistimos na liberdade por nos sentirmos presos. Por vezes reincidimos no amor por não sabermos o que ele é. Por vezes narramos vitórias e derrotas para elogiarmos a nossa própria vaidade. O escritor tem como nobre ofício polir palavras tornando-as cristalinas para que o leitor se reconheça nas suas fragilidades e venturas particulares ou enxergue a condição na qual estamos todos imersos. Assim, escrevemos por excesso de mundo ou de ausências e vazios que desde distantes passados carregamos. Assim, escrevemos para reparar o erro e sermos reparados, por nós mesmos e pelo olhar que o outro nos concede para também nos enxergarmos. Deve o escritor antes da sua escrita perdoar-se diante da palavra sob o risco de não saber como doer quando esta descrever inesperadamente sua própria realidade.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Desconheço-me...

Eu não sei ao certo quando é que ponho a matar-me um pouco de mim ou avivar-me naquilo que escrevo. Confundo as confissões com os sonhos, estes com as verdades e aquelas com as mentiras. Dissolvo-me no sutil território das minhas afirmações. Permito-me nas negações de que me aproveito. 

Para antes de um ponto final, busco saber quem sou. 
Para depois dele, desconheço-me.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Mera visita...

Ao dizermos "estou cansado de mim" ou "preciso de umas férias de mim" declaramos tanto um desabafo quanto um sintoma. Cansar-se de si pode vir a indicar o ciclo interior que já poderia ter sido superado pela compreensão, mas que insistimos em permanecer por inúmeras e particulares razões, naquilo que em nós já se esgotou. Acredito que será a compreensão adequada esta nossa superação. Antes, o que viermos a dizer será a evidência de que temos entulhado coisa demais e que precisamos da leveza de quem pode resolver, desatar, despedir e deixar para trás. Desejos, mágoas, culpas e quaisquer destas e outras coisas sejam em excesso ou desnecessárias. Qualquer um destes invisíveis que andem nos prendendo na gente mesmo. Pedir pelas férias de si muito fala sobre nossas acumuladas frustrações que passaram de mera visita a hóspede em nossa casa. Por não sabermos - ainda - como convidá-las a irem embora, pedimos pelo alívio temporário de quem pretende ir e voltar, para encarar inevitavelmente com aquilo que deve em nós ser entendido e por isto, atravessado.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Botar lume...

Para você me enxergar como diz enxergar, confesso, há muitos pontos cegos. Pontos onde muito sou e nada apresento; onde tanto tenho e não revelo; onde há para ler e pouco contei. Para que você me veja como diz me ver, tanto construí e destruí ao longo do tempo, moldando-me seja pelo encontro com minhas verdades como com minhas mentiras, permitindo-me reconhecê-las por cair nas tentações, armadilhas e vitórias da minha própria vaidade. Eis o paradoxo: eu sou uma amálgama bem planejada e completamente imprevista. E não saberia dizer-te hoje o que é meu desde antes ou o que tomei dos outros e assumi como sempre meu. Vejo que ambos são legítimos, pois que dão-me o preciso lugar onde me percebo e você me vê, ainda que existam tantas mentiras e verdades como pontos cegos a botar-lhes lume. Creio que assumir histórias e farsas e mofos que colecionei diante da consciência fez-me sentir pela primeira vez honesto, e por conseguinte, inteiro: sem falas decoradas, distrações, troféus, citações, crenças e outras muletas. Senti-me eu mesmo. Originalmente imperfeito. Talvez isto seja o efeito de botar lume e dissolver os pontos cegos.

Não dos teus olhos, mas da minha própria existência.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Phalaenopsis Lilas...

Deu-me um beijo no rosto e uma flor morta
Amputado o estilete, a cor e o cheiro
Disse assim (o olhar baço): “a vi primeiro”
Deu-me o beijo e a flor, mas o que importa

Deu ao Tempo que o fez seu prisioneiro
Deu, também, a outra mão que o reconforta
Desta flor que meu dedo, agora,  entorta
Sobe a náusea das frestas de um bueiro

Uma orquídea vestida em borboleta!
“Obrigada, meu bem, quanta bondade
posso ler nesta pétala violeta…”

Uma orquídea, a gran mestra em falsidade!
Qual você, que já agarra a maçaneta…
… Sempre li nas suas costas a verdade.

(Clarrissa Yemisi)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Da desaprendizagem...

Eu desaprendo algo todos os dias. Assim, pouco a pouco, desaprendo, sabendo menos do que sei e do que sabia. E sem me impor ao que conheço e venho continuamente a conhecer, desaprendo pela contradição. Eu desaprendo porque me confronto comigo e perco, porque me lanço ao fracasso e ganho; desaprendo pelo cansaço do enredo e pela liberdade a que me permito enredar-me. Eu desaprendo por desistir, ou no instante em que a vida insiste em convocar-me ao acerto e eu, insistentemente, erro. Eu desaprendo porque desamparo, porque desapego, sem qualquer esforço ou investimento para desaprender, como se apenas nunca ouvisse falar, como se nunca soubesse, como se jamais conhecesse: rostos, lugares, livros e o amor que cotidianamente esqueço. O que me sobra é a atual e inédita sabedoria dos ventos. O alívio das memórias que se misturam e de mim se perdem e se despedem. Eu reuni uma multidão de mim exatamente para isso, mas, não que eu tenha planejado. Trata-se de uma perda inevitável em que me diluo. Somei todos os territórios e máscaras e cicatrizes para abandoná-los. Colecionei nomes e cidades e histórias para dissolvê-los.

Eu desaprendo para tombar-me no mistério que em mim habita e perceber que sou eu que habito meu próprio mistério. E é nesta alternância entre uma e outra onde vivo e mal percebo.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Clichês...

Há gentes por todo lado com preconceito contra os clichês.

Tem implicâncias, aquietam-se se chegam à ponta da língua, desconversam, fingem que não são com elas e viram a cara quando uma estende a mão para cumprimentar.

Eu gosto, por isso não entendo. A vida é cheia delas. O amor é clichê, por exemplo. E qualquer destas duas frases anteriores se tratam de clichês.

Uma, um clichê sobre o que sentimos. A outra, um clichê sobre os clichês.
Vejam, não há chances de escaparmos sem esbarrar em alguma, cedo ou tarde.
Cedo ou tarde, outro clichê.

O óbvio quando se repete no tempo e no espaço condensa-se numa constatação. A constatação quando se repete na boca de qualquer sujeito torna-se um clichê. Ou ditado, que é um clichê mais bem arrumadinho e com pinta de sabedoria de avô.

Clichês são sementes de verdade que todo mundo pode levar no bolso.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Cadente estrela...

soprasse eu à cadente estrela
desejo para que fosses vizinha

a pedir-me açúcar pra bolo,
velas para o escuro,
colo para o peito,

convidando-me a
repartir o bolo
dividir os dias
partilhar a casa

dizendo-me: 
amor é celebrar as horas todas do dia.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Sobre o sofrimento e os tempos...

Por que ao homem parece mais fácil declarar que fora feliz no passado? Parece-me que éramos sempre mais felizes no passado. Parece-me que, embora algo sempre nos faltasse, felicidade havia de ser coisa bocado mais duradoura e simples entre os enganos e as dores de antes. Parece-me que concedemos ao passado algum ar de inocência que perdemos ao aterrissar no presente, atenuando o olhar com que julgamos nossas páginas anteriores. Ao agora lançamos o rigor da nossa insatisfação. Ao hoje gritamos os incômodos de existir, os medos, as culpas, angústias, ansiedades, a incapacidade de lidarmos conosco mesmo por morrermos um pouco mais a cada dia por estes incômodos. Ignoramos o óbvio: pela inclinação à insatisfação o presente não nos satisfará. O presente nos é incompleto pela projeção da nossa incompletude, pois não há o que enxerguemos sem que nos acompanhem nossas sombras e pontos cegos. Assim, apenas o passado se faz perfeito visto que é irretocável e em nada se pode acrescentar. Não sem distorcê-lo e torná-lo outra coisa, prática comum que usamos para convivermos com mentiras que contamos para sobreviver com alguma coerência. O presente é o único tempo vivo, imediato, contundente a cortar-nos na carne as ilusões, trazendo-nos a urgência da vida, a iminência da morte, da perda, a possibilidade do erro, o temor da loucura, o sentido da vida e do próprio passado. Quão frágeis somos e quão seguros nos sentimos ao nos abrigarmos nas memórias que escolhemos contar, ficção onde acreditamos ter alguma consistência? Quão melhores nos sentimos por elogiarmos dores passadas apenas porque passadas são? Desta maneira, alternamos entre saudades, nostalgias, planos e sonhos para podermos viver sem nos sufocarmos pelo excesso de qualquer coisa, fracionando a existência em tempos; sofrendo inevitavelmente por esta razão. O que buscamos para nos distrairmos da dor será o que igualmente nos fará doer. A fuga que viremos a criar para nos perdermos será também a ponte para nos encontrarmos. A memória será material para os sonhos. 

E os sonhos servirão para nos acordar.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Afinemos os ouvidos...

Não basta somente a dor; dói-nos ainda mais porque doemos. Dói-nos mais por permitirmos chegar a doer. Afinal, quem de nós ousaria deixar-se chegar a este ponto? Quem permitira atestar a própria inabilidade, a incompetência emocional em se gerir? Quem baixaria guarda aceitando a própria queda diante de si? Rezam velhas vozes que aceitar as próprias derrotas é se permitir acertar na próxima. Reconhecer nosso real tamanho é árduo mas necessário ofício. Assumir fraquezas é ato honesto de coragem, pois que tendemos a nos agigantar para fugir da responsabilidade que dizemos não ser nossa, ou nos apequenamos a decretar nossa incapacidade de não lidarmos com o que nos ameaça. O irônico é que embora seja difícil nos encontrarmos em qualquer uma destas polaridades, parece-nos mais fácil do que aceitarmos o peso e alcance das nossas ações. Por cômodo equívoco, desconhecemos a exatidão da nossa grandeza. Culpamos o outro pela impossibilidade de não sermos melhores - gritando à vida as injustiças que nos cometeram pela infelicidade que não coube em nossas metades - ou nos projetamos maiores e mais perfeitos: é o outro que erra, não eu; é o outro quem sempre erra, jamais eu. Não assumimos a paternidade dos monstros por não querermos que eles nos devorem, quando na realidade é por aceitá-los na nossa casa que então na hora certa poderão partir. Nós que estamos tão certos de tudo e não sabemos fazer nada, nós que buscamos o céu mas não sabemos o que fazer quando perdemos o chão, cumpre lembrarmos aquilo que nos conta a alma: as sombras nos gritam certezas, a luz nos sussurra verdades. 

Afinemos os ouvidos.