quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Calendário....

Tem gente que passa o ano inteiro dormindo e só resolve acordar às vésperas do novo ano; talvez pra voltar a dormir novamente. Tem gente que depende somente da sorte e não das próprias escolhas. Tem gente que irá consultar a previsão do horóscopo, o I Ching, pular 7 ondas, pular num pé só, combinar cores e fazer simpatias como se isso traçasse seus novos caminhos, pois tem gente que vive das sempre mesmas promessas de final de ano. Gente que diz acreditar no amanhã apenas pra empurrar o hoje com a barriga. Tem gente que perdoa o imperdoável para continuar acreditando no amor. Gente que não sabe que a diferença entre crer e saber é a mesma entre muleta e a chave da prisão. Tem gente que se acostuma com adoçante ao invés de doçuras. Que acredita que uma folha a menos no calendário possa ser sua redenção. Ou que pensa que só o amor de alguém possa ser sua redenção. Tem gente que coleciona entulho a vida inteira pensando ser algo de valor. Tem gente que guarda dinheiro e deixa tudo no caixão. Gente que pensa ter a vida inteira e resolve deixar para depois. Tem gente que muito se acha quando na verdade nunca se encontrou. Gente vivendo de sonhos mesmo se alimentando de ilusões. Gente que diz saber do mundo e mal conhece suas solidões. Gente que se acostumou ser gado porque está bom assim. Gente que pensa que pensa e ao final não pensa nada. Somos viciados em tentativas e dependentes de recomeços, que se servem do tempo para nos amansar a pressa e enrugar a pele, partir a alma e salvar os sonhos, pesar o corpo e libertar o peito, denunciar o amor e reparar enganos, perder de vista tristezas, perder a conta das lágrimas e não poupar sorrisos, repousar nossas verdades no colo após o cansaço das vidas caminhadas.

Ninguém é tanto tempo feliz por mais que queira, nem triste o tempo todo por mais que consiga.

(Guilherme Antunes, vulgo "eu", em 17.12.12)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Alquimia...

[...] A alquimia era esta: a raiva que viesse a sentir não deveria por ele ser condenada, pois, condená-la seria reprimi-la, tornando-se denso veneno a circular junto ao seu sangue. Condená-la seria o mesmo que condenar-se. A raiva que assim vier a sentir do outro poderá tornar-se mágoa e muro, impedindo-o de amar. A raiva que assim vier a sentir de si poderá tornar-se culpa e boicote, impedindo-se de amar.

Ambas as direções a comprometer-lhe a felicidade e os destinos.

domingo, 27 de dezembro de 2015

"Poesia", responderia...

Passou a entender o que falam as janelas quando se fecham com o vento e as esquinas quando se dobram. Passou a entender o tom grave dos trovões e a eternidade daquele senhor a vender pipocas frente ao parque. Passou a entender sinais fechados e aquele livro aberto justamente na página vinte e seis. Passou a entender repetições de filmes, carências, tédios e rinite alérgica. Passou a entender a demora do garçom e a prontidão do entregador. Passou a entender a linguagem das flores, das coincidências e dos erros de sua mãe. Passou a entender o que dizia o velho quadro no consultório, o cacoete do farmacêutico, a lágrima que hoje se convidou. Passou a entender a escuridão em torno da vela e a solidão do seu pai. Passou a entender o troco esquecido no balcão, o trocado pedido no farol, a conversa no banco de trás. Passou a entender a farpa no pé, no peito, memórias e pães embolorados e as simpatias de sua avó. Passou a entender as casas cor de ocre no centro, as igrejas sempre vazias, o comércio sempre cheio, o congestionamento sempre às sextas-feiras e as tristezas sempre aos domingos. Passou a entender desculpas e as urgências de um beija-flor, um cigarro aceso no ponto de ônibus, o cisco no olho e as entregas do carteiro ao seu vizinho. Passou a entender atrasos, acasos, desvantagens. Perdas, ganhos e fragilidades. Passou a entender o que diz o grilo, a cigarra e os medos. Passou a entender o que faz o sol na fresta da sua porta, o que acontece ao chamar o nome do seu cachorro e o café que esfriou entre as discussões. Passou a entender de estômago e de estresse. Passou a entender o olhar atento dos bebês e dos seguranças de loja. Passou a entender o que não entendem os seus amigos. Passou a entender as nuvens só para amar com a imaginação. Passou a entender a rapidez de uma chuva de verão e a inundação no corpo de quem perdeu alguém. Passou a entender o que nos causam as distâncias, as saudades, as verdades, o perdão e o amor. Passou a entender o som alto na madrugada e o que acontece quando a gente não diz o que deve dizer. Passou a entender o que é dormir, o que é sonhar e quais os dias de feira na sua rua. A vida entre seus silêncios e barulhos começou a conversar com ele e explicar-lhe tudo. E tudo que havia era uma coisa só. E como poderia ele explicar essa coisa só, caso lhe perguntassem? 

"Poesia", responderia.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Vários...

Sinto-me vários, a viverem do outro lado de mim.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Registro...

Há gente nesse mundo que mais fala com os olhos do que com a boca. Que mais confessa no abraço do que na palavra. Há gente que costura beleza nas entrelinhas enquanto remenda suas frases. Há gente que me conta dos invernos só porque ainda não ouviu sobre a coragem da semente, e que o tempo lhe será generoso se o coração estiver afinado com suas próprias verdades. Há gente que se vê pequena e que nos veste de grandeza exatamente pela grandeza que se tem sem percebê-la.

Hoje me vestiram assim de grandeza.
Obrigado pelo inesperado colorido do entardecer que me destes.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O Verbo...

Pai, verso esta oração pois Tu estás nas minhas mãos assim como eu estou nas Tuas. Vives Tu nas minhas palavras assim como em Ti eu também sou verbo. E nos meus olhos, és a semente que confessa a cor dos frutos, o nome de um rio que se rende ao mar, o filho pequeno que abraça a mãe. Pela Tua palavra aprendi a respeitar o inverno, esperar pela primavera e aceitar minhas colheitas; aprendi a ser verão e a voar com as andorinhas. Abençoa-me como abençoas o grão de areia, o vento e as estrelas, pela igual oportunidade de habitar a Tua casa. E que o eterno em mim se anuncie, afastando o veneno do meu sangue, os espinhos das minhas flores, o egoísmo dos meus amores e as lanças das minhas mãos. Torna-me doçura quando eu souber ser só amargo; torna-me cura quando souber ser só destruição; torna-me descanso para vestir todos os meus sonhos e torna-me amor, como resposta para cada pergunta da vida. Conceda-me todas as sombras da floresta para eu caminhar com a minha própria luz. E se eu cair, ferir, morrer, matar, sofrer, perder, errar; perdoa-me com o recomeçar, com o novo, com a coragem, com a gratidão por tudo aquilo que fui e pelo que ainda serei; e também com a certeza de que o Senhor é meu pastor, e nada me faltará.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Aconchego...

O meu amor
tem jeito de riacho e bebe da vida com as mãos
tem aconchego de rede
abraço de pracinha de cidade longe
e caminha como se cirandasse.

O meu amor
gosta de brincar no colo preguiçoso das manhãs
é digna de ser borboleta num final de tarde das primaveras
(talvez por isso se assuste tanto com as trovoadas)

O meu amor
tem cheirinho de café, de shampoo e de terra molhada - depende da hora
trança o cabelo como se ajeitasse caminho pro mar.
diz que não canta, mas fala poesia debaixo do chuveiro - eu já ouvi.

O meu amor
antes de deitar, chora porque reza
e chora apenas para continuar feliz.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Dentro...

Trouxeste-me vida para dentro de casa 
e te tornaste meu lar.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Café...

Procuro por um poema que te dê início; pelo verso que te celebre. Procuro insistentemente pela página que te explique com a mais palavra das ternuras. Mas tu não estás nas letras. Mas tu não estás nos livros. Tu estás em mim e isto explica tudo, visto que não há história tua antes de nós, exatamente por não ter eu história alguma antes de ti. Inventei-me outro para aprender a navegar ausências e atravessar demoras. Inventei-me num passado sem outra utilidade senão para alcançar-te. Ganhei nome apenas na tua boca; existência somente nos véus do teu corpo. Apenas e depois de ti, aprendi a desejar. E o que lhe dou continua meu como nunca antes houvera sido. Aquilo que somos, mistura-se e existe em todas as partes: isto deve ser alguma coisa de amor. Pois só tu sabes onde moram os meus milagres. Só tu sabes como trazer-me às borboletas. Os teus olhos tem tons de céu e isto deve ser definitivamente alguma coisa de amor. Veja, a chuva insiste em cantar para nós. As nuvens em sonhar para nós. O café em se perfumar para nós. O silêncio em se declarar para nós. A tua voz tem o mesmo som das alvoradas. As tuas cores todas feitas para a beleza. As sombras todas nos são descansos e porque tuas mãos em mim hoje haveriam de nascer os pássaros. Isto deve ser sim alguma coisa de amar. Porque há flores, cheiros, raízes, orgasmos, promessas, ventre, poema, verso e página que te celebram enquanto os meus silêncios todos cantam para ti. Se realmente isto é coisa de amar, então és o amor onde nunca me dói.

(para ela)

sábado, 19 de dezembro de 2015

Da leveza...

[...] e não mais houve leveza entre eles quando passaram a esperar um do outro por alguma coisa. A armadilha era essa: buscaram se assegurar da espontaneidade amorosa do início com garantias de que pudessem esperar no amanhã aquilo que no ontem haviam sentido. A leveza em nós pousa exatamente por não a convocarmos e ao desejarmos por ela não a encontraremos, pois, teremos nós pelo próprio desejo a afastado. A leveza é uma distração festiva daqueles que tanto se gostam, sem qualquer compromisso na agenda.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Am(é)m...

Amamos como nos amaram. Amamos como permitimos que nos amem. Amamos como permitimos nos amarmos. Amamos como gostaríamos de ser amados. Amamos como gostaríamos de ter sido amados. Amamos como já nos faltou amor. Amamos como faltou amarmos. Amamos de posse de todas as certezas. Amamos carregados de todas as dúvidas. Amamos como se fosse simples. Amamos como se difícil fosse. Amamos como se fosse apenas desejo, e desejamos como se pudesse ser amor. Amamos como faltou termos acertado mais. Amamos como faltou termos errado mais. Amamos como se fosse o primeiro. Amamos como se fosse o último. Amamos como se no amor tudo esperássemos. Amamos como se não quiséssemos nada mais. Amamos como se nos sobrasse. Amamos como se nos faltasse. Amamos melhorados. Amamos piorados. Amamos armados e armamos jeitos vários de não amarmos mais, para depois desamarmos ainda amando. Amamos como quem busca. Amamos como quem se encontrou. Amamos. Amemos. Ao menos, que possamos dizer que ao final tentamos.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Banheiro...

Grita-nos a verdade durante todo o tempo, mas quem se dá ao luxo de ouvi-la? Quem se permite atenção para entendê-la? Somos como o homem a ignorar o mendigo que insistente nos chama apenas para avisar-nos que a carteira do bolso caiu. Não olhamos para a verdade porque mesmo sendo bela poderá ela se parecer conosco, e assustados, descobriríamos que somos aquilo para o qual nunca olhamos. A verdade conosco caminha nua mas, ah!, nossos pudores correm a cobri-la toda com as mais enfeitadas mentiras, crenças e ideias. Ainda que não caibam. Ainda que velhas. Ainda que rotas. E disfarçados dos personagens astuciosos de nós mesmos, insistimos saber somente os diálogos que nos convém, sussurre a verdade outras tantas linhas nos bastidores a completar o espetáculo. Afinal, o que nos sobrará sem as histórias que sustentamos, as vitórias que contamos e poses que mantemos? O que me pouparei de doenças e sintomas a dolorosamente confessarem verdades que a força calei e reprimi? Qual verdade então me restará sem as verdades que fingi? Quem seremos sem as virtudes que encenamos? Sem ter o quê com o que convencer, o que nos revelará o espelho do outro? 

Por ora, contentamo-nos apenas com o do banheiro.