(...) não morra de inveja; pois a inveja sempre afasta aquilo que busca e, busca destruir aquele que é invejado. Pelo contrário, morra de vontade. E faz da busca o teu encontro.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
O Homem de gelo...
Tive que desaprender o seu cheiro; desconhecer teu rosto, teu gosto, teu jeito; rasgar tuas cartas e nossas memórias. Tive que me cegar pra não ver mais você nos meus sonhos. E por precaução, deixei também de adormecer. Tive que dissolver doçura com qualquer amargo esquecido entre uma briga e outra. Tive que inventar qualquer mágoa pra fazer distância entre nós dois; qualquer dor que pudesse me distrair das lembranças; qualquer raiva que pudesse me ocupar; um ruído nos dias a me levar pra longe do teu existir. Sem o nosso Amor, exorcizei a poesia. Um pôr-do-sol tornou-se apenas prenúncio da noite. Uma rosa, espécie do reino vegetal. Sorriso, uma expressão do rosto. Sorvete, apenas uma sobremesa. Sem o teu Amor me rendi a boemia e aos vazios que antes sua presença ocupava. Sem o teu Amor me vendi a qualquer prazer barato. Os teus pés são passos passados e os meus, corridos em resolver minha angústia como se fosse uma equação matemática; meu desespero como se adestra um bicho arredio. Tuas roupas, peças de brechó. Teu carinho, peça de museu. Tua bossa nova e teus discos velhos arranham a alma quando até um sopro arde. E hoje sofro pelos frutos perdidos, pelos filhos não tidos, pelo adeus não superado. Sou descortês com qualquer encanto da Vida que possa cair no meu colo, apenas pela vã ideia de me lembrar do teu nome, do teu perfume, ou do teu sorriso. Estou insensível às dores do mundo; apenas as minhas tem vez. Hoje vivo aquela profecia que eu mesmo tanto anunciava: que serei inevitável descanso, que serei distância, que serei descaso e que serei razão, quando eu queria tanto ser um erro desmentido. E hoje, sou coração de pedra e não há quem me carregue. Hoje, sou homem de gelo e não há quem me derreta. Sou uma desilusão orgulhosa de ser; uma esperança em extinção, e não há ninguém nesse mundo que me salve.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Libertação...
O Amor é a entrega que de nós nos faz inteiros. O Amor é a nascente e sua foz; é o mergulho e o flutuar. É dimensão do mistério que nos toca a inspirar; é o caso do fruto com a semente; o amanhã com o depois. O vício com a virtude; o leve e seu contrário. O Amor é o agir e o contemplar. Amar é acolher o inexato e o certeiro; o impossível e o esperado. É o sereno e o cansaço; é ansiedade e desapego. Amor é corda-bamba em que caminhamos seguros; a sabedoria que nos prende aos laços que também nos deixam livres. É gratidão a se saber no silêncio e no olhar. É o adormecer e tão logo o despertar. O Amor é uma escolha que a si renova e se expande na busca de se manter o mesmo, e ao mesmo tempo, maior. É o espaço não-sabido entre os amantes em que confiar os faz presença. É o espaço entre e dentro de nós que permite o crescer, a criatividade e a comunhão. É semente que busca realizar-se no estrito espaço entre o céu e a terra. O Amor se vê na posse destes dois. É o chocolate, mas também o anti-ácido; o doce e o amargo. É a lucidez e a ressaca. Amor é a mística e a dogmática; a teoria e sua prática. Mestre da paixão e do desejo; mãe dos sonhos e do suspirar. O Amor é o emburrecer da Matemática, em que dois são um; onde se multiplica ao partilhar. O homem no Amor não tem escolha, pois compaixão é sempre a resposta. Sua luz é sua única cor. E quando no eclipse da Alma, o medo chama seu nome. O medo é o Amor que se envergonha; que tomou um susto; é um verão que sente frio. A raiva é sua filha rebelde; o cansaço seu velho manto; a covardia seu árido reino; a sombra sua única cor. Medo é Amor que não se vê no espelho; eis que também nos permite avançar, abandonar gaiolas e crenças que enfeitamos com tantos nomes, mas que nos sufocam. O medo é o pulo pra fora, a dor que rasga mas que cura, a cegueira que nos torna mais hábeis em escutar, é o tropeço que nos atira ao precipício e releva nossas asas; é o sair pela tangente. E o medo ao se lembrar Amor, com novo nome se batiza: Libertação.
"(...) mas eu não estou interessado em nenhuma teoria; em nenhuma fantasia; nem no algo mais. Amar e mudar as coisas me interessam mais". (Belchior)
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Jornada...
Morrer talvez seja passar de uma linha para outra; de um nome para outro; de uma a outra estação, como um breve mas profundo silêncio entre as canções. Ando suspeitando que morrer seja pra poucos; porque muitos deixam apenas de funcionar, param, cessam. Poucos podem mesmo morrer. Morrer por inteiro, morrer por entrega, morrer despido do medo, morrer na morte mesma. Muitos de nós morremos em vida e isso não é difícil. É preciso intensidade, uma partida por completo, um mergulho, alquimia, expansão, um mistério que nos acolha, uma jornada em que o dia convide a noite a confessar o outro dia. É preciso atravessar a porta entre o poço e o reino; entre as memórias e o futuro, entre os pecados e os perdões. Tantas são as jornadas e incontáveis são os jeitos de partir, mas também de chegar. Só vive quem pode mesmo morrer; porque só renasce aquele que um dia morreu. E tantas são as mortes e tantas são as vidas depois delas. Dói quem fica, sofre quem resiste. A morte é o bom-senso da eternidade. É o sobrenome da própria Vida.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Respirar...
(...) e a gente esquece que para viver é preciso também respirar. E quando nos vemos por inteiro no reflexo da vida que nos acontece entre suas sombras e sóis, respirar fundo pode ser sopro suficiente para virar mais uma página da nossa história. Somos versões daquilo que não somos mais; mas também do que viremos a ser.
domingo, 1 de janeiro de 2012
Caminhar...
Que o velho morra para dar lugar ao novo...
Pois toda morte é um renascimento;
Que eu possa ir fundo, dentro de mim, para poder tocar o céu...
Que eu possa alcançar o horizonte...
Que eu possa ter tempo para tudo aquilo que deixei de realizar, e que poderia fazer a qualquer momento...
Que as horas passem devagar quando precisem... os dias menos depressa...
E que eu possa conquistar o atemporal. Não pelo que eu faço, mas por quem eu sou.
Além do sucesso, minha integridade. Além dos objetivos, minha inteireza.
Que eu possa perceber que sou eu quem carrego a chave das próprias prisões que crio..
E que eu me liberte, livre do medo, da angústia, da aflição...
E neste vôo, possa lançar as sementes do Amor.
Amor que todos devemos cultivar.
Além da bela silhueta, além dos preciosos amigos, além de qualquer explicação ou teoria lógica e lapidada.
Além de belos títulos de livros ou filmes. De boas marcas. De comentados lugares.
Eu possa me encontrar. Em tudo aquilo e mais um pouco. Ou menos.
E que eu possa refletir, como um espelho, todos a minha volta.
Que o porvir possa acalmar a ansiedade do dever-ser e do vir-a-ser
Porque eu ainda não sou, nada além, do que eu já sou.
E em mim, tudo basta. Mesmo quando me sinto vazio..
E que, diante do vazio, eu não me preencha com mais dele.
Mas possa decorar minha mente e minha alma de boas conversas, de poesia, de paisagens, de comida frugal e música.. daquelas que tocam o ser.
Que eu aprenda a perdoar, primeiro a mim, por não saber perdoar.
Que eu lembre do melhor e esqueça o necessário..
..O desnecessário para crescer. Pois crescer é inevitável.
E que o inevitável venha. E assim, eu aprenda a aceitar.
Que eu possa criar. Que eu volte a ser quem eu nunca fui, e quem um dia eu deixei de ser.
Sorrisos e lágrimas. Criador e criatura. Céu e terra.
Que os monstros se tornem disciplina e Compaixão.
Tenho equilíbrio. Procuro por mais.
Equilibrei-me por desequilibrar-me.
Além das palavras, o agradecimento contido em cada uma delas.
Pois é a experiência que me brinda com a realidade que me envolve.
Escada de degraus infinitos.
Um recomeço de um caminhar eterno.
Abençoado, próspero, tranquilo. Para mim e para você.
Só para você.
Só para mim.
2012. (Guilherme Antunes)
Pois toda morte é um renascimento;
Que eu possa ir fundo, dentro de mim, para poder tocar o céu...
Que eu possa alcançar o horizonte...
Que eu possa ter tempo para tudo aquilo que deixei de realizar, e que poderia fazer a qualquer momento...
Que as horas passem devagar quando precisem... os dias menos depressa...
E que eu possa conquistar o atemporal. Não pelo que eu faço, mas por quem eu sou.
Além do sucesso, minha integridade. Além dos objetivos, minha inteireza.
Que eu possa perceber que sou eu quem carrego a chave das próprias prisões que crio..
E que eu me liberte, livre do medo, da angústia, da aflição...
E neste vôo, possa lançar as sementes do Amor.
Amor que todos devemos cultivar.
Além da bela silhueta, além dos preciosos amigos, além de qualquer explicação ou teoria lógica e lapidada.
Além de belos títulos de livros ou filmes. De boas marcas. De comentados lugares.
Eu possa me encontrar. Em tudo aquilo e mais um pouco. Ou menos.
E que eu possa refletir, como um espelho, todos a minha volta.
Que o porvir possa acalmar a ansiedade do dever-ser e do vir-a-ser
Porque eu ainda não sou, nada além, do que eu já sou.
E em mim, tudo basta. Mesmo quando me sinto vazio..
E que, diante do vazio, eu não me preencha com mais dele.
Mas possa decorar minha mente e minha alma de boas conversas, de poesia, de paisagens, de comida frugal e música.. daquelas que tocam o ser.
Que eu aprenda a perdoar, primeiro a mim, por não saber perdoar.
Que eu lembre do melhor e esqueça o necessário..
..O desnecessário para crescer. Pois crescer é inevitável.
E que o inevitável venha. E assim, eu aprenda a aceitar.
Que eu possa criar. Que eu volte a ser quem eu nunca fui, e quem um dia eu deixei de ser.
Sorrisos e lágrimas. Criador e criatura. Céu e terra.
Que os monstros se tornem disciplina e Compaixão.
Tenho equilíbrio. Procuro por mais.
Equilibrei-me por desequilibrar-me.
Além das palavras, o agradecimento contido em cada uma delas.
Pois é a experiência que me brinda com a realidade que me envolve.
Escada de degraus infinitos.
Um recomeço de um caminhar eterno.
Abençoado, próspero, tranquilo. Para mim e para você.
Só para você.
Só para mim.
2012. (Guilherme Antunes)
"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente". (Carlos Drummond de Andrade)
sábado, 31 de dezembro de 2011
Nudez...
"A rosa: tua nudez feita graça.
A fonte: tua nudez feita água.
A estrela: tua nudez feita alma".
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(Juan Ramón Jiménez)
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Crenças...
Buscadora de si, pisou na areia com pés firmes, abrindo mão dos falsos atalhos que escolhera. Navegou por toda sua vida de antes, com velas içadas a ser levada pelo sopro de outras vozes, ideias tantas e conselhos muitos. E assim, chegando onde não queria, alcançou lugar nenhum. Hoje era o primeiro dia de um ano inteiro a lhe revelar o novo e, entre todos os que lá estavam a contemplar céu colorido e beber champanhe, esperava ela sua primeira promessa do porvir vinda de dentro. Queria traduzir-se amanhã e depois em muitas versões de si mesma, a desmentir o velho triste e a colher próspero interior a florescer madurez. Cansada de levantar muralhas a cobrir o infinito das bençãos procuradas ou, de querer saber qual lado da moeda se irá mostrar, abandonou seus pedaços, seus cacos e suas crenças: pular sete ondas, acender sete velas, colher sete rosas, dar três pulinhos, notas no sapato, lençóis limpos, comer lentilhas, romã, uvas, folhas de louro; não mais entregaria ao destino a boa sorte. Agora, era ela a boa sorte a não mais esperar o mar lhe trazer conchas bonitas ou pedras opacas; resolveu decorar ela mesma de formas novas e cores outras a sua vida. Remaria contra a maré, mas com o vento a seu favor.
(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 05.05.11)
(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 05.05.11)
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Pacote completo...
"Talvez meu maior pecado tenha sido achar que o desenrolar da vida estava nas minhas mãos. Monopolizei os fatos, conduzi-os como eu - menina iludida - achei que fosse o certo. Os caminhos já estão trilhados, essa é a verdade. Não adianta querer mudar a ordem do espetáculo. Ainda estou no primeiro ato, com o mesmo figurino, do mesmo jeito. Eu sou apenas um pequeno ser humano. E como um exímio exemplar de minha espécie, ratifico cada vez mais a minha miudeza. A questão é que tudo deu errado. Tudo. Quis ser dona do meu império sem saber que não passava de uma pobre serva. Escrava de mim mesma. E agora estou aqui, carregando uma tonelada de mágoas nas costas. Minhas mãos estão calejadas, meu pés estão inchados, meu olhos perderam o brilho. Ao que tudo indica, dessa vez, não haverá luz do fim do túnel. Haverá apenas restos. Resquícios do amor que não vingou, da felicidade que não cresceu, da confiança que se perdeu. Soluços. Mas não os meus soluços, porque todo o meu estoque já foi gasto. Nem o direito às lágrimas eu tenho, vendi junto aos meus sorrisos. Pacote completo. O pessimismo continua. Cresceu, solidificou, se firmou e por aqui permanecerá. O afeto ainda existe, e é por esse afeto que não me entreguei. Até porque eu sei que o caminho não chegou ao fim. Essa é uma das poucas certezas que me restam. Somente quando eu estiver de frente ao abismo é que vou decidir se pulo ou não".
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(Rebeca Amaral)
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Amanhãs...
"Ela parece tão calma, tão concentrada, tão quieta, mas seus olhos continuam fixos no horizonte. Você acha que sabe tudo o que há para saber sobre ela assim que a conhece, mas tudo o que acha que sabe está errado. A paixão flui através dela como um rio de sangue. Ela só desviou o olhar por um momento, e a máscara escorregou, e você caiu. Todos os seus amanhãs começam aqui".
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(Neil Gaiman)
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Inconsciente...
"Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo. De vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado."
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(Adélia Prado)
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