domingo, 13 de novembro de 2011

Ofício...

"Sim, jamais escrevi sobre o que não me doesse, nem sobre o que doesse somente a mim. Com a exceção das mensagens divinas, de que não sou portador eleito, são as dores do mundo, na medida em que participamos delas com a inteireza de nossa alma, que constituem a única matéria digna do ofício de escrever e falar em público".
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(Olavo de Carvalho)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Quinhão...

Amor é a prece que cantam os passarinhos; é decorar sua gaveta de bençãos, sentir a cor e o peso dos laços, saber qual seu reflexo nos milagres, e colecionar sorrisos. Amor é o caminho entre o abismo dos dias, vazios em que reinam sombra e não escapa luz, onde o tempo cala e o silêncio dói. Amor é um lembrar-de-Alma que desmistura avessos e contraria tristezas, quando semente se esqueceu de germinar. O Amor acerta os compassos e desfaz enganos; constrói perdão e amansa o medo, perfuma olhares e colore os jardins. O Amor suaviza certezas amargas em que o amanhã sepultou a esperança. O Amor é também lembrar o caminho de volta pra casa, quando a fé na vida se perdeu; e lembrar é o suficiente pra muita coisa aqui dentro: que serenidade é o correr do riacho e o pulsar do coração; que abrigo é o sol que nos banha e a noite que nos veste; que no número de estrelas cabem todas as nossas virtudes; que travesseiro é testemunha de todos os nossos sonhos; que existem mãos que despertam os olhos, e letras que acordam a Alma. Amor é cirandar com o que é vivente, ardente, poente, amante, nascente, reinante no próprio peito que sente. Amar é amanhecer dentro da gente; celebrando gratidão mesmo quando o dia de ontem trouxer saudades. Amar é saber o seu quinhão no mundo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Artesão...

Aos que nascem e morrem nas palavras: em que nelas se encontram, mas também se perdem; em que nelas se ferem, mas também se curam; os que nelas abrigam, mas também expulsam. O poeta é o artesão do silêncio que leva vida inteira para provar do próprio fruto. Aquele que escreve escolhe paisagens já vividas ou colore alguma nova de que queira falar. Universo ilimitado de possibilidades que nem sempre nos pertencem, mas que nós as expressamos com nosso singular perfume. Não precisa o poeta acreditar naquilo que escreve, exceto no instante em que escreve, pois o artesão dá a vida a sua escultura, mas não é ele o barro; o jardineiro floresce os jardins, mas não é ele a terra. Criador é reflexo, mas nem sempre a imagem. Ele é sopro, a criação e a própria criatividade que em sua obra habita. Ele conta lágrimas, ainda que por detrás do pano sorria. É vendaval, ainda que tenha amanhecido azul sereno. O poeta ao publicar sua poesia dela se liberta; pois o que a arte exige do artista é a devoção à sua obra ao criá-la, e não fidelidade a ela depois de pronta. Aos que nascem e morrem nas palavras, mas que também as transcendem: o artesão traz ao mundo o sublime e o sagrado quando confessa nas palavras, o infinito; para ir depois tomar sua cerveja, fumar o seu cigarro e beijar sua amante.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sobre a distância...

Distância é espaço que nos desfaz em dois; é saudade que pode ser medida pelos passos que dou ao fugir dela. Distância é horizonte que não admiro; passeio que não quero; grandeza além do meu sonhar. Distância é sinônimo do tempo em que não sei; mas que multiplica o sentir e o pensar. Pois será que quando um pensa no outro, não se faz ponte? Ponte que nos faz mais próximos ainda que de jeito sutil e sereno? Será que pensamento com jeito e forma de quem se gosta não é abraço que acolhe nossa atenção e porta que recebe nosso carinho? E será que somos tão distantes e separados assim pra porta não ter o outro lado em que nos sabemos inteiros? Não seríamos nós, portas que se conversam e se esperam? Tem os sentimentos língua própria que confessam você em mim e o que dentro de nós habita. Quando dentro e imerso, dissolvem-se os reflexos e os limites que nos separam. São os pensamentos feitos da mesma essência e do mesmo encontro quando o Amor deságua no mesmo mar. E lá navego na tua mesma rota que me serves de farol. Porque distância não é, nem nunca foi assunto da alma; coração desconhece o tempo. Quando me enlaço na tua história, sou promessa cumprida hoje; mas também pedido. Que venha você desfazer os velhos conceitos e as teias de aranha da mesmice ao me ensinar mistério que dissolve ilusão, desmentindo o espaço que nos desfaz em dois, que espera saber o nosso encaixe e dissolver nossos limites. Afinal, quem tem limite é município. Eu sou imensidão que te busca e que distância nenhuma toca, quando vivo em nós.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Combinação...

“Tu tens a sombra e a luz e eu penso que a música é a combinação das duas. Apenas luz não tem sentido para mim. Mas se for apenas sombra é demasiado escuro, não consegues ver nada. Precisas de luz e sombra, precisas do contraste de tristeza e esperança, amor e raiva. É isso que faz com que a minha música seja dramática, bonita. Esse conflito está sempre presente na minha vida. Por muito que queira caminhar para a luz, tenho de passar pela escuridão para chegar à luz.”
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(Lhasa de Sela)

Visões...

"Nego-me a submeter-me ao medo que tira a alegria de minha liberdade, que não me deixa arriscar nada, que me torna pequeno e mesquinho, que me amarra, que não me deixa ser direto e franco, que me persegue, que ocupa negativamente minha imaginação, que sempre pinta visões sombrias".
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(Rudolf Steiner)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Sopro...

(...) após longo combate do Amor para sobreviver, morreram. E então, fez-se um silêncio. Silêncio árido, denso, amargo; daqueles de enlouquecer os feridos. Aquele silêncio de cemitério, de campo de batalha em que viveram suas mágoas e trincheiras. Eles resistiram e se carregaram, até abrirem mão. Não se sabe se sucumbiram ou se renderam a este silêncio. Silêncio de não mais ver os olhos e de não saber da pele.  Cobranças cortaram, lembranças traíram, nas noites se odiaram e na manhã refizeram-se, mas não puderam, não aguentaram. E quando menos esperavam, quando aguardavam o perdão e a renúncia dos erros num amanhã ilusório de paz; tombaram de exaustão, sem fôlego, de solidões partilhadas e interrogações infindáveis. Morreram sem saber viver; viveram sem saber amar. Acreditaram sem poder seguir. Pela gastura dos laços e dos frágeis alicerces da relação, um mero sopro os derrubou. Um tropeçar ingênuo que os atirou ao precipício. Uma farpa qualquer que os rasgou em sangue o peito. Quando mentira foi uma verdade imprevisível, morreram de sopro no coração.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Diálogo...

- O meu coração não bate.. me espanca.
- E você não amaciou ainda? O que mais falta então? Chorar mais quanto? Sofrer mais quanto? A gente não é automóvel que precisa rodar e se desgastar um tanto pra só então fazer a revisão. Revise-se; reviva-se e re-torne para a estrada.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre gravetos e chinelas...

Após laços desbotados e desencontros tantos; por acaso se encontraram. Universos tão diferentes a somar suas diferenças em resultados de bem-querer a olhos vistos, ainda que ela não enxergasse lá muito bem. Apaixonaram-se perdidamente onde ganhavam o pão; ainda que não comessem carne. Trabalho se fez palco de carinhos e confissões que, entre desejos e planos, confessavam também cansaço de capítulos passados e páginas rasgadas a sufocar liberdade dos momentos já escritos. E por amargarem suas tristezas, hoje, faziam dos seus bilhetes, pétalas deixadas na mesa, entre pastas e bombons, memorandos e suspiros, versos e papéis do trabalho que os uniam no expediente do coração. E pela cumplicidade de suas histórias; tendo os dois caminhado entre muitos gravetos a sangrar passos passados, usavam agora as mesmas chinelas, a descansar seus pés e abraços cansados da caminhada torta. Queriam a mesma leveza. Ela era doçura que tocava sua boca; ele poema a tecer sua esperança. Amizade e faíscas na identidade dos sonhos e na intensidade das agendas; buscando assim os mesmos compromissos. Cheirosa de Alma, queria ele perfumar sua vida inteira...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Vai saber...

Serve o nascer do sol para dissolver o vazio que amanhece do nosso lado na cama. O mesmo vazio que tentamos preencher com a mesma coisa a terminar igual. Igual porque iguais são tantos e tantas que repetem o mesmo ato, a mesma cena, o mesmo drama, a mesma dúvida. É com o nascer do sol de dentro que a coisa toda muda. Vai saber...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Os olhos...

Os olhos piscavam rápido. Respiração era atropelo. Ansiedade era cúmplice de procura qualquer por alívio que a fizesse encontrar, ou simplesmente esquecer. E entre palavras e enganos, suspiros, desencantos, sonhos e tortos planos, percebeu ela que havia algo além das longas conversas de adocicados nadas, copos meio cheios, intenções todas vazias e convites para festas de fim de semana. A vida acontecia além do amanhã, no aqui, que cobrava sua atenção, e no agora, que gritava intensidade decifrando-a nos encontros e momentos que lhe brindavam olhos fechados; e no silêncio a sussurrar suas verdades e denunciar seus sentimentos. Eram instantes de vontades, mergulhos e desejos que traçavam seus caminhos e seu próprio rosto. Sentiu que aconchego não era questão de quando e nem de sonhos. Desenhou o seu presente se tornando parte dele. Cuidou bem das sementes sem esperar por flor. O desapego das suas respostas calavam suas perguntas e esperas; era então chave da sua liberdade a ecoar pela sua vida inteira.

Sabida...

Você é linda; muito linda. Por dentro. O que me cabe é te lembrar disso. E por fora, bem... por fora você já sabe.