terça-feira, 25 de outubro de 2011

Inesperado...

Quando a gente menos espera amadurecer, e cansados desistimos do plano, aí então crescemos. A Vida não faz força para ser, o sol não faz força pra nascer, a grama não faz força pra crescer, o peixe não se esforça pra nadar. E raiz não se esforça em se firmar e permitir que árvore bonita alcance as alturas merecidas. Quando deixamos de olhar pra trás, percebemos o quanto já caminhamos. E no céu chegamos sem esperar subir.

Maçã do amor...

(...) e ele vive por aí, preenchendo-se de vazios com seu charme peculiar. Reúne em sua agenda, telefones, aventuras e romances, bem como lágrimas e solidão sentidas ao final de cada noite; mas elegante que só ele. Alimenta o desejo e o imaginário de cada uma delas com os capítulos mais interessantes de toda uma história que gostaria mesmo é de esconder. E com sua irresistível presença, sentia-se um zé ninguém. E com todo o seu carisma, sentia-se um miserável. E com todo seu encanto, sentia-se amaldiçoado. Desmentia o espelho o seu sofrer antes de cada festa; lembrava-se dele no árido silêncio da sua casa. Altivo e garboso, era ele uma armadilha; a colecionar sorrisos, cinturas, perfumes e nomes em seu coração empoeirado, por dentro. Por fora era a mais bonita maçã do amor.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Lógica...

(...) e na lógica da sedução, enfeitou o corpo de encontro e a pele como linguagem. A língua como convite. Tomou do vinho e do desejo; o gemido a voz da alma; no sexo, o seu diálogo. O lençol era descanso na madrugada que amanheceu silêncio. Amante mercador de promessas; carregou consigo todos os seus amores. Desnudou o corpo mas não se revelou inteiro. Olhos que amam porque fechados; encontros marcados porque carentes. Não soube o coração escolher os seus caminhos; prazer era seu único mapa; álcool era o seu único desapego. Armou o descaso, amava o passado, retribuia vazios, sofria calado, sorria mentindo a semear ilusões por cada porta que cruzava. E na lógica avessa do esquecer, trilhou a ponte entre as saudades e o amanhã; sem jamais chegar. Sabia incensos, velas, seda, perfumes, pegadas, ritmos e cor das cortinas. Só não sabia mais de si.


"Estou nu diante da água imóvel. Deixei minha roupa no silêncio dos últimos ramos. Isto era o destino: chegar à margem e ter medo da quietude da água". (Antonio Gamoneda)

Dispensa...

O Amor é tanto e tudo que dispensa qualquer palavra, mas dá um cadinho de vontade de dizer qualquer coisa, só pra agradecer.

domingo, 23 de outubro de 2011

Ensinamento...

Dizem os místicos que uma árvore só é árvore porque os olhos do homem a veem. Não havendo nenhum homem, nem seus olhos para dar realidade à árvore, ela nada seria. A vida só é vida porque a vivemos. O Amor só é Amor porque o sentimos. Assim, você é porque eu sou. E eu sou porque me sabes; não sabendo de mim, eu também nada seria.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sobre o poeta...

O poeta é místico e palhaço, que carrega nas cores a própria sombra. Que se faz verbo e se faz vento; amante do saber que na beleza se veste de palavra e a ressalta nas entrelinhas. O poeta é o sábio pecador, que nas paixões se entrega, aos seus excessos e intensos em que nelas busca o seu sagrado; santidade que apenas as palavras conferem. O poeta se faz além dos sentidos para que os olhos possam saber. O poeta é hábil em raios de sol e laços, silêncios e dores. O poeta é terapeuta que a si espera receber alta, mas que nunca se cura. O poeta é o algoz distraído de suas prisões que aos outros convida visitar. O poeta é o pássaro mestre que ao céu leva os outros a conhecer. O poeta é árvore que carrega muitos frutos, e neles suas sementes. O poeta é o mais sincero mentiroso e o mais ardiloso dos videntes; pois ensina com jardins, belas virtudes. Que demonstra com o Amor, suas verdades. Que aponta no infinito, a nossa Alma. Serve-se do poeta a poesia, que nos deságua a saber o que não se sente e de sentir o que se busca. Fala o poeta sobre o possível a se refletir no real, a lua que se espelha no oceano. Não posso tocar a lua no silêncio de suas águas, mas através dela entendo o firmamento. O poeta expressa suas impressões assim como o vento dá jeito e forma aos desertos. O poeta é pai e também o filho de suas obras; e aquele que nelas mergulha, gratidão compartilha. Seu lírico vive todos os amores do mundo e morre por todos eles; e em si renasce porque poesia é verbo caminhante. Poesia germina e floresce. O poeta é gênero; e poesia, o seu princípio.

"O poeta é uma mentira que sempre diz a verdade". (Jean Cocteau)

Insegurança...

Insegurança é o convite pra cabeça se fazer presente quando a gente está feliz; lá na festa do boicote. Porque é na felicidade que a gente precisa menos da mente e mais do coração e, quando cabe mais sentir do que pensar, a insegurança aparece como uma bela desculpa pra nem tudo sair como queremos, por nossa própria conta.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Hóspede...

Amor é hóspede que nos faz jogar a chave de casa fora pra nos trancarmos dentro juntos, esquecidos do mundo.

Respostas...

As perguntas, muitas vezes, levam-nos ao final do arco-íris como às ruas sem saída. As respostas também.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Costume...

A gente costuma se preocupar por coisas que na maioria das vezes não acontecerão, e chorar por coisas que já não existem mais.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ironias...

Ao longo do tempo deixamos em brasa na pele os nossos apegos e sombras, contradições e mágoas; marcas profundas do nosso tamanho que dóem com sopro qualquer que nos balance. Pois são os contornos das nossas dores que nos devoram e nos derrubam, porque ainda sangram. E só Deus sabe quando alma cicatrizará as chagas, e o passado. E só Deus sabe quando cicatriz não vai mais doer, e o amargo sairá da boca, sairá da pele e do coração; sairá da memória. Deus nunca nos disse que a vida seria justa, e nem que seria fácil. Acreditar nisso é apenas mais uma ilusão marcada na pele; muleta de frágeis esperanças; um falso descanso entre as perturbações. Atente ao fato de que a vida é feita de alternâncias. Que nos convida ao céu azul e logo depois ao precipício. Que nos pede por semente e nos deixa chorar flor esmagada. Que nos ensina e nos reprova nos velhos novos amores que buscamos. Que nos distrai das dores com outras maiores ainda. Que nos mata a sede com inundações. Que nos rasga inteiro quando também nos costura. E entre as ironias e doçuras que nos cortam e nos acolhem, que ardem mas também nos fortalecem, as cicatrizes passam a contar aquilo pelo qual não se deve mais sofrer; quando dor educa quando deixou de doer; quando levantar depois da queda nos faz escolher outros caminhos. Cicatriz é a renúncia da ferida; e o acerto só aparece quando erro já saiu da festa, depois de tanto aproveitar. Não sofre aquele que já morreu de tanto sofrer e hoje renasce no céu de dentro.

“Tomarei contra minha alma o partido da desesperança e me tornarei o inimigo de mim mesmo”. (Emil Cioran)

sábado, 15 de outubro de 2011

Futuro do pretérito...

Eu queria saber o que escrever enquanto você se ocupa com a vida que pede tua presença e nem desconfia das minhas vontades. Eu queria saber o que dizer a você que transbordasse carinho e gratidão; saber dizer alguma coisa e qualquer coisa que pudesse te acolher e te embalar, e que esse querer pudesse olhar nos teus olhos com sorriso de fazer o céu mais azul. Eu queria saber você, saber mais perto, pra poder me fazer todo presença, com tudo o que sou, fazer poesia com a boca, fazer silêncio com os olhos e com as mãos dizer qualquer coisa de cafuné. Saber você sorrindo, tomando café-da-manhã comigo, conversando sobre qualquer coisa que seja bom pra nós. Eu queria ser promessa, ser canção, paixão, mel, biscoito, tinta, papel. Ser todo entregue à tua vida seria o único jeito em que poderia agradecer. Queria ser qualquer palavra que se ache no dicionário de bom e bonito que pudesse combinar com teu nome. Apesar dos pesares e da distância, das saudades, tristezas e do desânimo que às vezes se assomam e nos assombram como se pudessem ser hóspedes da nossa casa, queria dizer que você pode descansar em mim e se acolher; e se derramar; que serei ouvido, olhos, colo, paisagem, cheirinho, massagem e que também quero envolver você em bolinhas azuis de tranquilidade. Eu queria saber confessar minha história, minhas doçuras e amargos, enlaçar você pra mais perto e não te fazer correr nem se assustar com espinhos de flor que só querem perfumar. Porque eu quero te fazer mais leve, mais suave, mais plena; levar teu coração pra passear, segurar tuas mãos, fazer graça e sonhar acordado, fazendo você respirar macio. Eu queria ser mais do que sou, porque contigo ser menos não dá. E você me merece por inteiro. Porque nós merecemos o inteiro. Eu queria poder contar aquilo que sua Alma bem conhece mas que por hoje esqueceu; contar aquilo que não cabe no poema mas que se lê nas conchas do mar, nas cestas de flores, na cadeira de balanço, no perdão e no abraço. Qualquer coisa que te fizesse entender o meu Amor.

"Levai tudo: o brilho fácil das pratas, o acre toque das sedas. Deixai só a incomensurável memória das labaredas". (A.M. Pires Cabral)