Dizia ela amar aquela menina sonhadora que por vezes encontrava no espelho do seu quarto. Amor era verbo vivo no reflexo e hoje preso no passado; porque menina odiava não mais conseguir sonhar. Ignorava que não mais sonhava por amor se encontrar dormindo. Havia ela se esquecido como seria novamente não precisar dormir para se sonhar. Sonhar sem medo. Porque o que lhe restava era pesadelo como enfeite no quarto que tanto a assustava e a deixava presa na cama, impedindo-a de caminhar serena no jardim de si. Acostumou-se com monstros e frustrações que a convenceram a ficar por ali, sem sal, sem gosto, sem vida, sem novos capítulos e voos mais altos. Mas quando faminta se alimentou de surpresas e novidades que colheu, lembrou que arriscar era mais vantajoso e prudente do que se encolher. E aí, menina voltou a sonhar.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Salvos...
Se os pensamentos combinassem sempre com os sentimentos e estes, com aqueles sempre se correspondessem, as pessoas estariam completamente perdidas, ou definitivamente salvas.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Sobre a poesia...
Poesia é caso de amor entre o espírito e as palavras; jeito do coração dizer ao outro a sua prece. Poesia é declaração nua da beleza que dela nem todos entendem. Pois são as pessoas, desavisadas dos olhos; não entendem por não se afinarem com as entrelinhas. Eu falo por elas e por elas me faço. As palavras são todas emprestadas do silêncio, que uso a confessar meus sopros vestidos de ideias, minhas alegrias e tempestades. E ainda que poesia não fale de mim, nela deixo meu perfume em cada verso; nela traço um mundo meu em cada letra. Poesia é tecelã habilidosa em costurar o sentido da doçura e da sutileza na vida nossa. Gosto de pensar que sou seu aprendiz. Poesia tem um papel de ponte, levando os olhos à Alma, as cores pra dentro e a vida pra fora. Poesia é igualmente o barro do artesão, a tela do pintor, o rasgar da semente, o parto de toda mãe, o prazer da criação, o êxtase do amor. Oficio sagrado este de traduzir a verdade e seu avesso que se escondem nas sílabas, a loucura e o saber que habitam as criaturas, o céu e a terra que se conversam em cada horizonte, a vida e a morte que se permeiam em cada um de nós. Abençoado ofício; nobre e inevitável destino. Afinal, existem os sãos, existem os vãos, os loucos e os normais. E existem os poetas.
"Eu fui poesia, antes de tudo". (Priscila Rôde)
Possibilidade...
As pessoas só podem dar aquilo que elas tem, e dão de acordo com o que compreendem.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Samsara...
O monge perguntou ao Mestre:
“Como posso sair do Samsara?.”
O Mestre respondeu:
“Quem te colocou nele?“
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(Conto Zen)
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(Conto Zen)
Broncos...
"Caí em meu patético período de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balanço a cabeça. Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali".
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(Charles Bukowski)
sábado, 8 de outubro de 2011
Uvas...
"Quem nada conhece, nada ama.
Quem, nada pode fazer, nada compreende.
Quem nada compreende, nada vale.
Mas quem compreende também ama, observa, vê...
Quanto mais conhecimento houver inerente numa coisa
tanto maior o amor...
Aquele que imagina que todos os frutos
amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas,
nada sabe a respeito das uvas".
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(Paracelso)
Quem, nada pode fazer, nada compreende.
Quem nada compreende, nada vale.
Mas quem compreende também ama, observa, vê...
Quanto mais conhecimento houver inerente numa coisa
tanto maior o amor...
Aquele que imagina que todos os frutos
amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas,
nada sabe a respeito das uvas".
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(Paracelso)
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Murar o medo...
"O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas".
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(Mia Couto)
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Um pouquinho...
Quando brisa mansa se fez vento forte, arrastando promessas e sonhos a tornar árido meu reino da esperança e deserto o jardim das minhas cores, vem você semear sorrisos e reconstruir horizontes. Quando tristeza é tom e cansaço é o som dos meus passos, sob o vendaval que me arrasta pra longe do templo do amanhã, aparece você adormecendo as aflições e me ensinando serenidade. Quando verso é tema incerto das minhas crenças, e amor o saldo devedor pelas fichas perdidas e ruas tortas, você se aproxima a me acolher no teu abraço-abrigo. Quando o desengano são as únicas portas abertas com as quais me deparo, chega você bordando luz; trazendo resposta pra qualquer uma das minhas aflições, e doçuras pra qualquer um dos meus amargos. Quando bebo da miséria da solidão em que silêncio é qualquer vazio a engolir minha direção, ainda que as estrelas me apontem a caminhada, vem você prenunciar meu ano novo e a importância do desapego. Quando verdade pra nada serve mais e recolho então as velas da minha jangada, ouço tua voz falar do perdão que conforta e da necessidade da coragem. Quando não quero mais e me satisfaço com metade, chega você apontando o inevitável mergulho na vida, a saciedade da entrega e os milagres da rendição. Quando sou grosso, vestes tu a singeleza. Quando sou demasiado, sussurras tu as entrelinhas. Quando sou seco, choves tu no meu quintal. É tua presença, teu carinho, tuas palavras, teu silêncio, tuas cores, teu bem-querer, nossos laços, amassos, filosofias, desejos, encontros, sonhos e vontades que alimentam minha alma e me fazem bem, ainda que flor queira morrer um pouquinho por não acreditar hoje e só hoje, no florescer.
"A neve e as tempestades matam as flores, mas nada podem contra as sementes". (Khalil Gibran)
domingo, 2 de outubro de 2011
Dedicatória...
Estas palavras são pra você, que acorda vez ou outra se sentindo deslocado, distante e fora de si; sem saber o que pensar, sem saber o que fazer, aonde ir, o que sentir; onde as únicas coisas que falam de você é a sua identidade na carteira, seu mais do mesmo, sua desesperança. As memórias distantes do que você foi e viveu falam mais sobre você do que quem você é hoje. Estas palavras são pra você, que afirma sua existência pelas negações e ausências, pelas condicionais e meras possibilidades. Que se sente um rascunho; uma ideia genial que se esquece numa distração; um projeto interessante deixado envelhecendo na gaveta. Pra você que vive quando os dias são pesados, os tons são de cinza, em que falar se torna esforço e estar sozinho é a melhor e única escolha, mas também a pior. Quando não saber é a única coisa que se sabe. Pois são tuas roupas repetidas, teu corte de cabelo, as piadas prontas e as séries de tv que mais sabem de você, porque você nem se reconhece mais no teu espelho. Pra você que nas entrelinhas dos desencontros decorou poesia triste e bonita como bordão. Estas palavras são pra você, que procura o Amor e nele busca se encontrar, mas nunca o encontrou por nunca ter sabido e reconhecido o que ele é. Pra você que entre tantos caminhos novos se acostumou com esquinas. Que se sente merecedor de lugar nos banquetes de luz e se satisfez com mesas de bar. Pra você que preferiu entre suspiros, cigarro forte. Que se sente miserável e todo final de noite dorme em cima dos tesouros ocultos do coração. Estas palavras são pra você, que conta as horas porque se incomoda com o eterno. Que não reza por ser você quem verdadeiramente nunca escutou ninguém. Você que reprime os desejos e desiste dos sonhos por se guardarem na estante mais alta. Você que expulsa demônios e sombras todo santo dia. Estas palavras são pra você, que aceita os desacertos como inevitáveis e o destino como ironia. Que acha que dificuldade faz sempre parte do jogo. Que não arrisca por ter apego de estimação. Que só não desiste porque não dá pra desistir. Estas palavras são pra você, que é metade apenas por não saber ser inteiro.
sábado, 1 de outubro de 2011
Valor...
"As mesmas palavras podem ser lugares comuns ou extraordinárias, de acordo com a maneira por que sejam faladas. E essa maneira depende da profundidade da região de um ser humano de que procedam, sem que a vontade seja capaz de fazer qualquer coisa. E, por um maravilhoso concerto, elas alcançam a mesma região em quem as ouve. Assim, o ouvinte pode discernir, se tiver algum poder de discernimento, qual é o valor das palavras".
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(Simone Weil)
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(Simone Weil)
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Chinesas...
"Eu queria trazer-te uns versos muito lindos colhidos no mais íntimo de mim. Suas palavras seriam as mais simples do mundo, porém não sei que luz as iluminaria que terias de fechar teus olhos para as ouvir. Sim! Uma luz que viria de dentro delas, como essa que acende inesperadas cores nas lanternas chinesas de papel! Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas do lado de fora do papel. Não sei, eu nunca soube o que dizer-te e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento da Poesia... como uma pobre lanterna que incendiou!"
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(Mário Quintana)
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