sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Chinesas...

"Eu queria trazer-te uns versos muito lindos colhidos no mais íntimo de mim. Suas palavras seriam as mais simples do mundo, porém não sei que luz as iluminaria que terias de fechar teus olhos para as ouvir. Sim! Uma luz que viria de dentro delas, como essa que acende inesperadas cores nas lanternas chinesas de papel! Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas do lado de fora do papel. Não sei, eu nunca soube o que dizer-te e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento da Poesia... como uma pobre lanterna que incendiou!"
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(Mário Quintana)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Resposta...

"Enquanto preparavam a cicuta, aprendia Sócrates uma canção na flauta. “Para que te servirás?" lhe perguntaram. “Para sabê-la antes de morrer”. Ouso recordar esta resposta que os manuais banalizaram, pois que ela me parece a única justificação séria da vontade de conhecer, que se dá até mesmo às portas da morte ou em outro momento qualquer".
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(Emil Cioran)

Amor-próprio...

"Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento. Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor - a negação do amor status de objeto digno do amor - alimenta a auto-aversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos. E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança, que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim temos o direito de nos entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos ouvem com atenção, com um interesse que sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em consideração. Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver "em mim" - ou não deve? - algo que só eu lhes posso oferecer. (...) Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente substituída e descartada. Eu "faço diferença" para outros além de mim. (...) O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar. Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a "amar o próximo como a si mesmo" (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. (...) Amar o próximo como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um - o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas".
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(Zygmunt Bauman)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sobre a semente...

Semente é verdade que ainda não disse a sua cor. Semente é o futuro que ainda não vingou, a espera generosa pelo porvir; o silêncio próspero que realiza sem fazer. Semente se alimenta de si e alcança o céu. E eu sou vontade faminta que pede saciedade no jardim de ti em que procurei renascer. E não ter sabido me atrair é o que te fez atraente. Pois você é a busca, eu sou o encontro. Eu sou o vento, você é a terra. Mas sou também semente, e nada sei do amanhã. Você quer de mim pista qualquer que te dê segurança quando entregue aos teus desejos; mas desejo, amor e amanhã são feitos de matérias parecidas; porque são nossos, mas são incertos. O que te dou é doçura do encontro a te fazer saber cuidar melhor da semente, saber cuidar melhor da terra, esperar serena pelo florescer, esperar sabida pela colheita e colher o fruto, sabendo o sabor de mim. Você pergunta à semente quais seus planos por querer garantias que te afastem deste medo besta do depois. Quais garantias, de fato, podemos ter na vida? As pessoas vivem se encontrando e se perdendo. As flores vivem colorindo e depois morrendo. Os laços vivem sendo feitos e depois rompendo. A vida assusta os desavisados assim mesmo, quando ela parece desse jeito, sem eira-nem-beira, do avesso, louca, pouca, muita, acolá das razões que nos afastam das alternâncias e que nos cercam na nossa ilusória zona de conforto. E quando passamos a saber que a vida é palco de muitas cores e incertezas que nos trazem o novo e a força, como as sementes que gritam amanhã qualquer da nossa colheita, aí podemos respirar macio e criar o bom e o melhor, trilhar o insuspeito, navegar pelo mistério, iluminar as nossas sombras e escolher qualquer caminho e qualquer sorriso que inevitavelmente acolherá o coração. Eu sou feito de alternâncias e me visto de contrários. Sou primavera a colher todos os meus frutos. Sou também inverno a me acolher nas expectativas.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Avesso...

Viver é mar que não espera por pés que se acostumem com ondas que vem e vão. Também não se entra aos cadinhos, tanto na vida quanto no mar, já que não se avança nem se aproveita passeio com receio de que maré derrube ou que água gelada espante. Porque o mar te pede inteiro e a vida pede mergulho, ainda que não dê pé. Porque o mar te recebe todo e a vida te pede entrega, ainda que corrente te leve pra longe ou belas conchas possam cortar. Lembra-te que existem mais belezas e cores do que perigos no fundo do mar ou no palco da vida; mas que as tolas distrações serão motivo pra deixar que sol bonito queime a tua pele e água salgada lhe amargue a boca. Lembra também que medo não é bóia, é naufrágio. E que horizonte é teu único limite. Aprende-se a nadar no mar do mesmo jeito que se aprende a viver a vida. Não há como saber se você não estiver dentro. Maré nem sempre respeita castelo de areia; construa-o mesmo assim porque, ainda que não dê pé, ainda que falte fôlego, ainda que canse, ainda que morra, ainda que parta, mergulha! Porque toda partida é chegada. E toda morte é nascer. Do avesso, por certo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Busca de mim...

Antes que eu vá adiante e me esclareça, saiba: eu sou uma farsa! Pois do que adianta eu escrever se não sei apontar verdades? Que me cabe dizer alguma coisa se ao final, não tenho coisa alguma para dizer? Por isso mesmo escrevo: para achar qualquer coisa que me satisfaça. Ao escrever, escrevo para mim; assim me encontro através de outros olhos; invento-me com elogios que me creditam ser abrigo, ainda que eu conte fantasias. Sou daqueles que dizem que a gente sempre tem o quê aprender com todo mundo qualquer um, mas que não crê em si mesmo. Eu confesso vazios e barulhos que o vento carrega; mas você, você vê brisa e aconchego. Minhas ideias são doces que não satisfazem, meus enredos são luz que não ilumina. São entrelinhas vazias que dá você o meu sentido, coroando-me com loucura ou sobriedade. Porque eu falo aquilo que você gostaria de saber; e digo tudo aquilo que você gostaria de ouvir. Eu faço dos versos cores e perfumes como se palavras pudessem te alentar; receita em que digo de amores a te brilhar os olhos e a aliviar tuas angústias. Saiba outra coisa sobre mim: sou esperto. Eu falo verdade inventada; vendo gelo pra esquimó e milagre pra santo; e amor pra quem procura por ele, ainda que eu dê tão-somente falsas promessas. No final das contas, eu te hipnotizo. Ou seja, não conte comigo. Porque se você tentar me possuir, eu fujo. Se você tentar me seguir, eu sumo. Você nunca irá me alcançar, entenda isso. Sou sonho bom com hora certa pra acabar. Sou remédio pra tua azia, insônia, vazios e outros males, mas sou de curta duração. Sou encanto que te faz me querer na tua vida com teu sobrenome enquanto desfaço tuas certezas. Você me quer na tua casa enquanto eu roubo tuas posses e fujo pelo quintal. O fato é que eu não tenho nada a lhe trazer aqui; papel em branco jamais deveria macular-se com minhas palavras. Rasgá-lo ao meio seria meu mais sincero, único e cabível, desabafo. Porque quando escrevo uma palavra me faltam outras dez pra dizer quem eu sou, e ainda que eu as encontrasse e então você me lesse, eu não seria mais quem fui. Sou muitas versões e avessos na terra de ninguém em que prossigo na incansável busca de mim.


"O meu olhar tem razões que o coração não frequenta". (Jorge Palma)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Perfume nas mãos...

Escrevo vontades e letras pra te soprar no coração; querendo ser presença, cheirinho, abraço ou qualquer gentileza que possa acolher você nesta manhã; pra que você sinta sopro leve e macio da gratidão que me namora por ser você parte do meu caminhar, essencial, tal qual é o pé para o chão ou os olhos para escolher direção. Você é nuvem em que me abrigo do calor sufocante da vida que me cobra presença em todo lugar e resposta aos desafios mais absurdos. Você é aquela paz em que repouso os olhos e a Alma enquanto dormes serena. Você é a chave que guarda todos os meus sonhos. Por isso estou aqui pra te lembrar que sou sorriso, porque já me lembrei de ti toda e inteira antes do meu café da manhã. Você é aquele meu perfume gostoso em que uso nos pulsos junto com teus laços bonitos de cores que conversam entre si, pra dizer que seu tom é poesia que decora a minha vida, e que teu cheiro é cafuné que me acolhe no teu ar. Boa sorte a minha então. Visto palavras que trocam de roupa pra embalar minha boca que fala de Amor nas coisas mais simples que te confesso agora. Você é pedido que me convida a ser melhor. Você é convite que me pede pra ficar sempre e fazer cantinho pra nós dois. Porque amanhã o Amor vai nos convidar pra comemorar o nosso encontro de qualquer jeito, ainda que em qualquer esquina, bairro ou distância, mas dentro do mundo que chamo de coração. Como o musgo e a pedra, a lua e o silêncio, o amor e a saudade, goiabada e queijo, esse jeito de dois acho tão nosso. E tua boniteza é de se pousar na vitrine pra eu querer passar a vida inteira querendo ver os teus detalhes e enfeites que sopram também minha vontade de te embrulhar de presente, com laços de felicidade e te levar toda pra mim.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Escuridão...

Antes eu soubesse esperar por promessas e certezas de vida nova para o ano que vem. Não! Quero agora. Amanhã. Daqui a cinco minutos. Porque a vida sabe esperar o fim do inverno e renascer na primavera. Eu desconheço o tempo. Meus porquês, minhas vontades e meus caminhos duram menos do que um ciclo todo; do que um ano inteiro; do que uma esquina dobrada; eles são um pouco mais do que uma rua sem saída; do que um cigarro aceso. Porque eu luto com meus monstros que não esperam minha colheita. Porque eu brigo comigo mesmo quando recuso a paciência. Porque enfrento sombras que se assustam por qualquer sopro ou vela acesa. Sou sopro, sou urgência. Sou confissão que grita querer abraço de quem seja luz a me fazer um pouco menos escuridão.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Os dois vasos...

Ganhou ele dois vasinhos bonitos que a vida lhe deu; para que assim aprendesse a cuidar de si e de cada uma das flores que em cada qual residia. Apaixonou-se pelas diferenças; das cores e da fragrância gostosa que o encantava. Passaram a enfeitar seus dias em distintas formas e tons que ali abrigavam, ainda que alguns de seus frutos, amargos, nutriam-no em promessas de fartura e longa companhia. Noutro, sempre doces, não havia de vingar, por mais que se satisfizesse o paladar ou contemplasse sua beleza. Em um lhe cabia o zelo para evitar seus espinhos e no outro, apenas o perfume de suas flores. E o vaso que a ele parecia mais gasto, seria também o mais forte. E no mais formoso, o que melhor parecia acolher as sementes do porvir. Eram os vasos, suas amantes. Seus frutos, seus prazeres. E em cada qual abrigavam todos os seus amores. Eram indispensáveis. Mesmo assim, uma há de morrer pois, no cantinho de sua alma em que o Sol habita, cabe carinho apenas pra uma delas. Não se sabe qual.


(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 19.11.10)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Morar...

'Amar
é morar dentro.
Deitar é saber canto,
ficar é sentir tanto;
e sonhar por querer perto.
Encontro de dois, onde um são...
quando dois não são mais'.

Ação...

"Imaginação é ponte que para em porta fechada. E o que a abre é o realizar".

O que vale...

"O que não vale, é escolher o avesso da felicidade.
O que vale, é avesso do que não vale mais dentro da gente".