Diante do seu riacho fluido de Consciência, sentou ele à margem para observar; silenciosamente, os sutis movimentos da paisagem que o acolhiam. Olhou para as águas, turvas, como sentimentos seus. E percebeu que fora ao longo de sinuoso percurso que riacho se contaminou, mas que sua fonte, secreta sob o céu e as montanhas, continuava doce e pura. Tomou em suas mãos cascalhos e pedras, analisando uma a uma como se pensamentos fossem, separando aquelas que enegreciam suas águas com limo e sujeira, ou a destoar sua elegância, daquelas outras que compunham harmonia, deixando correnteza levar o resto que não servia. Sabia ele que o riacho era na verdade rio profundo, de fundo lodoso e movediço em muitos dos seus trechos. Tinha medo de atravessar e se afogar, afundar, morrer; de enfrentar o fluxo que o convidava a se entregar e desaguar, em qualquer lugar ou em lugar nenhum. Sabia também que entre lama e limo, escondia o rio tesouros que só ele conhecia, mas que não mais (se) achava. E pela cinza nuvem a fazer chuva como tristeza do céu que o velava, tempestade era seu descontrole a inundar e arrancar as flores, destruir as casas, afastar amores e acabar com as vidas pelo caminho. Entendendo que os seus excessos viriam da mudança do seu curso, removeu entraves. E assim, aprendeu a nadar. Limpou o rio e construiu pontes; ajeitou leito que não era mais de morte e bebeu a vida, daquela mesma água; alimentando pássaros, céus e sementes. E quem mais viesse.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
O mundo é meu...
"Eu? Eu não sou somente boa. Sou uma pessoa muito bonita. Generosa e linda – e quem aguentar, aguentou. Como prêmio, terá meu amor. Saberá da minha verdade. Dará boas gargalhadas. Mas terá que suportar uma boa dose daquilo que sinto. Pois, apesar de tudo ser diversão, nada é simples. Nada é pouco quando o mundo é meu."
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(Fernanda Young)
Desmascarada...
“Chegava em casa e quase não falava, esgueirava-se, imperceptível, a qualquer instante, como se temesse ser desmascarada. Fechada em seu quarto no final do corredor, como se esperasse que lá, em algum momento, alguma coisa aconteceria. Camilla parecia estar constantemente esperando alguma coisa, um aceno, uma carta, um sinal, alguém que chamasse o seu nome, Camilla”.
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(Carola Saavedra)
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Confissão...
Sou intérprete do coração que pede às mãos pra confessarem Alma, nela em que cabem todos os meus vazios e também o meu Amor. Assim confesso nas letras o que ela me sopra: saudades, contrastes, avessos, doçuras, sonhos, amargos, verdades, devaneios, eu e você. Sou papel em branco a ser traduzido em jardins bonitos e campos de batalha. Costuro meu silêncio com palavras, pontos e prantos, à espera de não mais escrever; à espera de conseguir desenhar na minha própria vida o sol de dentro. Escrevo levezas pra poder esconder minhas sombras todas debaixo do tapete. As bonitezas me servem pra disfarçar cansaço. As doçuras pra calar amargo. E o desapego das dores serve pra fingir o meu tamanho. Distraio-me das mentiras que acredito, com verdades que não vivo. A direção a que aponto, nem sempre a sigo. Que bom você poder beber e se enfeitar das minhas palavras que guardam nas entrelinhas, vento bom. Porque eu também sou vendaval. Sou muitas perguntas e também sou muitas respostas; mas que não me servem, que não uso, que não me cabem. Talvez elas sirvam pra você se libertar, enquanto eu me afogo agarrado em cada uma delas. Talvez elas sirvam pra você se conhecer, enquanto eu nego a autoria dos meus pecados. O fato é que todas elas apontam direção a se levantar as velas e navegar por mares mais calmos, mais lúcidos, mais claros. Pena eu ser tão escuro e sombrio, a perder o caminho do farol. E não quero perder se não for pra ganhar. Não quero morrer se não for pra amar. O que quero mesmo é que você vença os monstros que eu mesmo não conseguiria vencer no seu lugar, e afaste tristeza já que a minha fez morada aqui no peito. E hoje além de mero intérprete, sou pai dos erros que declamo com propriedade, ciente de que não posso ser apenas palavras a se repousar os olhos se meu coração vive aflito por encontrar descanso.
"A palavra é a amante e o amigo do poeta, seu pai e sua mãe, seu deus e seu diabo, seu martelo e sua almofada. Também é seu inimigo: seu espelho". (Octavio Paz)
Sossega...
"Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme".
(Fernando Pessoa)
terça-feira, 6 de setembro de 2011
O Arco e a Lira...
"A poesia é metamorfose, mudança, operação alquímica, e por isso confina com a magia, a religião e outras tentativas para transformar o homem e fazer 'deste' ou 'daquele' esse 'outro' que é ele mesmo. O universo deixa de ser um vasto armazém de coisas heterogêneas. Astros, sapatos, lágrimas, locomotivas, salgueiros, mulheres, dicionários, tudo é uma imensa família, tudo se comunica e se transforma sem cessar, um mesmo sangue corre por todas as formas e o homem pode ser, por fim, o seu desejo: ele mesmo."
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(Octavio Paz)
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(Octavio Paz)
domingo, 4 de setembro de 2011
Assassinato...
Hoje eu não queria chegar até você e confessar mas, não acredito que eu tenha outra escolha; então eu lhe digo assim mesmo: perdoa mulher, mas eu vou ser obrigado a te matar. E que fique claro; que seja uma morte limpa e rápida, sem qualquer requinte de crueldade. Até porque cruel é o jeito que te mantenho viva em mim; artificialmente com ajuda de aparelhos (o celular quando toca me desatina). Não, eu não quero que você sofra, e nem eu, não mais do que já sofremos quando vivos, quando juntos. Quero sua morte porque você é moribunda que anda me perseguindo e esculhambando meus pensamentos. Em cada novo encontro, lá está você, ao lado dela, falando junto. Enquanto ela me conta histórias, você me tráz as memórias que eu guardei na gaveta. Ela se aproxima de mim e eu sinto o teu perfume. Eu vou pra balada e lá ouço tua música. Eu abro revista e lá leio teu nome. Não dá. Quero te enterrar embaixo de 86 palmos, número esse pra combinar com os meses em que vivemos juntos. Mas por favor, não ressuscite e volte pra cá. Você anda visitando tanto minha cabeça que não paro de pensar em você. Se eu te chamar de boicote, é bem capaz de você atender. Aliás, se eu não te chamar de nada, você aparece de qualquer jeito. A loira do banheiro é bem menos assustadora do que a casa abandonada que se tornou meu coração. Por isso, morra! Morra em mim, por favor. Pra que eu não precise apagar da lembrança, o que de bom ficou. Ou riscar dos meus sonhos, alguns planos e ideias de antes. Hoje eu sorrio e choro na mesma frase, e dissolvo tudo na mesma lágrima. Meu lenço deveria ser tua certidão de óbito. Mas não, molho todas as cartas que não consigo queimar. O que ainda está vivo, preciso matar. De algum jeito: meditação, balada, museu, hipnose, amnésia; dessas de ser resultado de pancada forte na cabeça. Mas quem sabe, vai que eu me acidento e você aparece preocupada comigo; aí eu me derreto. Preciso de alguma droga pesada pra fugir do presente. O álcool não me serve mais. Só se for pra matar você afogada em alguma emboscada. Porque preciso ser arrebatado, pro céu, pro inferno, pro deserto ou pro Alasca, mas longe de você. Com você, não sei continuar. Sem você, não sei recomeçar. Quer saber? Não quero mesmo é te deixar. Então, morro eu.
"Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar". (Miguel Esteves Cardoso)
sábado, 3 de setembro de 2011
Zodíaco...
"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco".
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(Gabriel García Marquez)
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Menino...
(...) e o menino, que vivia com a cabeça nas nuvens, ainda tinha medo de tirar os pés do chão. Distraído, acompanhava as estrelas sem perceber que nas flores ele pisava. Saberia ele decidir onde ficar? Pois se perdia ao tentar se encontrar. Até que soube dos passarinhos que no ar viviam e na terra também se aninhavam. Viu cometa que rasgava o céu sem nele dor trazer. Viu semente que morria pra contar suas cores e se tornar novamente aquilo que um dia ela foi. Viu a vida acontecer acima e abaixo do horizonte que trilhava. E depois de tanto adoecer os olhos com tristezas, tratou de cuidá-los com poesia, na terra macia em que depositava sua fé e o seu Amor. Amor este que lhe lembrou das verdades esquecidas pela cabeça, mas sabidas desde sempre pelo coração: Que vida é feita de esquinas de muitas cores. Que caminhar é escada de degraus infinitos. Que o que não mata nos fortalece. Que culpa e medo são apenas prisões. Que quando se dá um passo em direção à Existência, ela dá mil na nossa direção. Que às vezes a gente ensina aquilo que mais precisa aprender. E que amanhecer, tecer, buscar e encontrar são atributos do espírito. Semeando seu coração no jardim que esqueceu, soprou alto tudo aquilo que viveu. E sentiu, que podia ele andar leve no verde e beber do azul. Era ele filho da Vida. Os caminhos todos lhe eram seus. As bençãos todas lhe eram suas. Com as asas que se machucaram, sabia ele cicatrizarem mais plenas no amanhã. O céu lhe pertencia. Arriscou entrega. Voou.
"Quem quer que haja construído um novo céu, só no seu próprio inferno encontrou energia para fazê-lo". (Nietszche)
"Quem quer que haja construído um novo céu, só no seu próprio inferno encontrou energia para fazê-lo". (Nietszche)
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Recuperação...
Tantas são as alternativas e múltiplas escolhas que escondem no enunciado, meias verdades e falsas certezas. História mal contada, que não cabe resposta com macetes. Não há fórmulas no caminho de cada um. Cabe sim, o contínuo estudo de nós mesmos; a correção das imperfeições e a multiplicação dos atributos do Ser. Saber o bem, de cabeça. E o justo, de coração. E se diante de tanto, podemos chamar os universitários? Lógico, e certo de que a grande Universidade põe alunos a nossa volta para compartilhar também. Quanto as provas, sempre poderão ser refeitas. Amar a si mesmo é graduação. Paciência é professor. E lembre-se que a desatenção nos detalhes, mais a falta de carinho em cada uma destas provas nos deixará em recuperação. Mesmo que a nossa progressão seja sempre continuada...
(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 23.09.10)
domingo, 28 de agosto de 2011
Sobre o boicote...
Boicote é jeito bobo de afastar o Amor e deixar solidão reinar sozinha. Boicote é se enganar pra dentro; história mal contada, piada de mau gosto do coração distraído; é jogar seus tesouros todos pela janela. Boicote é desviar curso do rio e inundar a própria vida. É naufragar o próprio barco e deitar para dormir. Boicote é capataz do medo, sombra do desconhecido. É pintar com as cores erradas sua janela. É o futuro pedindo pra não ser. É se acostumar com o morno, com o mesmo, com metade; esconder as chaves da porta sem deixar felicidade entrar, ainda que ela chame. Vestir casaco no verão; é castelo de cartas seguido de um espirro. Boicote é lembrete ao avesso da gente mesmo, de pedir pra olhar pra dentro; e com carinho. É como a febre que avisa que algo está errado, só não se sabe o quê. Aviso que aponta os alicerces frágeis que sustentam nossas certezas; gaveta velha em que insistimos em guardar nossas pobres convicções e belezas empoeiradas; boicote é convite sussurrado baixinho pra se revisitar, abandonar o velho e escolher o novo; ficando com o melhor que ecoa na Vida. Boicote é primo pobre da harmonia que espera retornar à sua casa.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Farpas e conchas...
Parece que longe da Ilha, ela é mais feliz. Mas por quê me parece isso se a tempestade que a assusta, não tem culpa o meu canto? Construo bonita cabana e é a farpa que lhe encontra; na areia em que desenho meu amor, é a concha que lhe corta. E remando contra a Ilha, em jangada frágil de boicote, parece querer voltar. É saudade, o mar que a circunda? É solidão as velas içadas? Naufraga dentro de si a ideia de que a Ilha, em verdade é porto seguro? Não se encontram ameaças na plenitude dos mistérios frondosos que a enfeitam. Cuido dos pastos com esperança. Convido-a ao regresso com a luz do farol. Carinho é trilha. Talvez não enxergue com medo de que as cores confudam, ou a promessa de herdar tal terra a sufoque. Ainda que o único desafio seja a semeadura interior de paz diante do reino que lhe entrego, coberto pelo manto estrelado do céu. Não há riscos, nesta Ilha de um homem só...
(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 27.09.10)
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