sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Paixões...

"Não poderia desembaraçar-me de algo que não possuo, que não fiz, nem vivi. Uma liberação real só é possível se fiz o que poderia fazer, se me entreguei totalmente a isso ou se tomei totalmente parte nisso. Se me furtar a essa participação, amputarei de algum modo a parte de minha alma que a isso corresponde. O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera. Elas se mudam para a casa vizinha e poderão atear o fogo que atingirá sua casa sem que ele perceba. Se abandonarmos, deixarmos de lado, e de algum modo esquecermo-nos excessivamente de algo, correremos o risco de vê-lo reaparecer com uma violência redobrada". 

(C.G..Jung)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sobre a intuição...

Intuição é saber riacho o encontro no mar; saber a vela seu fogo ser o mesmo do sol. Intuição é relâmpago que revela na fração da claridade, os contornos do caminho. É o amanhã a confessar entre as esquinas do eterno, o que se revela no palco do presente. Intuição é saber a semente o gosto do próprio fruto. É a palavra que confessa seu sentido sem soar. É saber o Amor quando lá fora reina o medo. É gratidão por ganhar sem nada ainda receber. Intuição é o estado sublime do saber antes; que soprará vida no mergulho do tempo e das coisas mundanas, quando afinamos Alma nos acordes mais serenos. Assim, afine o olhar para verdade que se antecipa no sentir. Afine o coração para ouvir direção correta do caminhar. Silencie seus desejos tagarelas para ouvir a quietude que confessa. E pela prática de sintonia interior, cada vez mais o véu estará ausente. Saber ainda que não se saiba é isso. E isso, é intuição...

domingo, 14 de agosto de 2011

A fragilidade do Amor...

Sabe o homem separar sempre o joio do trigo? Ou distinguir medida entre remédio e veneno? Ou a mentira da verdade? Emoção de sentimento? Seria o homem bicho desatento? Pois quando recebe o Amor em sua casa, entra o medo pela porta dos fundos. Pois quando abre os braços ao desapego; ciúmes pula a janela. Em sua própria casa, distrai-se; e quando em qualquer dos cômodos encontra um, o outro nunca se encontra. E nesta alternância de se aperceber, saberia o homem sentir? Se sabe ele apontar para nuvem que o vento sopra e dizer o seu desenho, não saberia o homem também contemplar o céu de dentro em seus movimentos a defini-lo? É o amor sempre Amor? A dor é sempre um mal? Pode o começo ser final? Por que recusa o peito quando amamos, em lidar com as incertezas? É mesmo o Amor quem luta para enterrar sua precariedade e o seu sentir vulnerável, e quando obtém êxito, logo começa a se enfraquecer e definhar? Por que tão logo construímos o belo, queremos sem querer destrui-lo? Por que quando buscamos acolher, acabamos espantando? Quando controlamos, perdemos o controle e deixamos escapar? Por que diante do sublime, nos apequenamos; despindo lucidez pra vestir baixeza? Ou é tão-somente o medo que nos boicota quando aprisiona leveza no porão, ao roubar chave da porta e se tornar dono do nosso jardim, semeando qualquer coisa com nome de boa semente? Há dentro de nós dois espaços e duas pertenças: a do Amor e o da hesitação. Quando hesitamos, Amor adormece, o Amor adoece, o Amor não está. E no hesitar, vem a traça, vem a praga, a fome, o medo, a posse, a ilusão e o ego nos (des)controlar. Assim como escuridão é ausência de luz; medo é ausência do Amor. O Amor sabe; o medo hesita. Talvez quando atentos estivermos a cada uma, uma-a-uma de nossas emoções, sabendo bem quem são as visitas de nossa casa interior, possamos escolher em todas as ocasiões, o Amor como hóspede. E quando coração escolher o Amor sem hesitar; a sua vida será mesmo sua; sua escolha não será multidão de desencontros da Alma. E aí, Amor será abrigo, será verdade e porto-seguro.


"(...) às vezes quando nos chega a sabedoria, já não serve mais para nada". (Gabriel G. Márquez)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Epitáfio...

Saiu para buscar sua paz e nunca mais voltou; não porque a encontrou, e sim porque ainda não a viu, nem sentiu, nem sorriu. Só chorou. E depois de tanto matar, de tanto chorar e de tanto sofrer, decidiu ele morrer. Morrer sem paz. Morrer aflito, sem saber como morrer. Sem saber como salvar; sem saber como nascer. Culpou semente que não vingou; sol que não nasceu; coração que não bateu; má sorte que escolheu; palavra sua que amargou. Não soube ele viver; logo, não soube também morrer. Sem saber como amar, sem saber como nascer. Só soube ele doer, não soube ele doar. Saiu para buscar seu Amor e nunca mais voltou; não porque (não) o encontrou, mas porque correu, partiu, sentiu, mordeu, espantou. Só chorou. E depois de tanto somar, de tanto apanhar, de tanto bater e de tanto sofrer, decidiu diminuir. Seu brilho, seus dons, o seu perdão. Escolhas todas em vão. Escolheu sem paz. Escolheu aflito. Escolheu aflição, medos, feiúra, frustração. Não soube amar; logo, não soube ele viver. Conseguiu um pouquinho agradecer. Pelas pontes, pelos laços, carinho, entrega, ternura, abraços. E por não saber como renascer, escreveu seu epitáfio. Porque ele parte, porque ele foge; porque ele morre e você continua; a florescer, a encontrar o que ele ainda não encontrou. Por isso escreve ele todo o dia seu epitáfio; todos os dias uma nova morte, por planejar ainda renascer, amar, viver. Passou a escrever para fugir, e para se encontrar. Para sofrer, e para se curar. Para Amar, e também morrer. E depois de demais sofrer, um dia quiçá, em paz poder descansar. Saber viver, saber amar; e florescer, ao semear. Reinventar, o amanhecer. E no Amor, ressuscitar.

domingo, 7 de agosto de 2011

O que você nunca vai saber...

"Não pretendo te contar sobre minhas lutas mentais. Você terá nas mãos minha simplicidade e minha leveza, que podem não ser totalmente verdadeiras, mas foram criadas com muito carinho pra não assustar pessoas como você. Não vou ficar falando sobre a complexidade dos meus pensamentos, minha dualidade ou minhas dúvidas sobre qualquer sentimento do mundo. Vou te deixar com a melhor parte, porque eu sei que você merece. Guardo pra mim as crises de identidade e a vontade de sumir. Não vou dissertar sobre minhas fragilidades e minhas inseguranças. Talvez eu te diga algumas vezes sobre minha tristeza, mas só pra ganhar um pouquinho mais de carinho. Ofereço meu bom humor e minha paciência e você deve saber que esta não é uma oferta muito comum.

Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão.

Você não precisa saber que eu choro porque me sinto pequena num mundo gigante. Nem que eu faço coisas estúpidas quando estou carente. Você nunca vai saber da minha mania de me expor em palavras, que eu escrevo o tempo todo, em qualquer lugar. Muito menos que eu estou escrevendo sobre você neste exato momento. E não pense que é falta de consideração eu dividir tanto de mim com tanta gente e excluir você dessa minha segunda vida, porque há duas maneiras de saber o que eu não digo sobre mim: lendo nas entrelinhas dos meus textos e olhando nos meus olhos. E a segunda opção ninguém mais tem".
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(Verônica Heiss)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Bichinho verde...

Ela tem bichinho verde de estimação que encontrou em alguma fruta podre ao longo de suas andanças. Na verdade, não se sabe se tal bichinho verde é fruto do medo e da mágoa colhido em riachos passados ou, se é fruto de árvore da mentira e do mal-querer alheio. O problema é que o dito cujo a fez desconfiar do gosto sem ter ela nada provado; desistindo das cores sem ter novo fruto (es)colhido; fugindo de qualquer jardineiro ou brisa mansa que se achegue. Em suma: bichinho verde a fez desgostar do doce por senti-lo amargo em sua boca; sofrendo guria o medo de buscar entre novas promessas, doçuras a saciar coração faminto. Ou escolher entre jardins, caminho certo e não precipício; sem descansar inteira na sombra frondosa do Amor recém-chegado; receosa por sofrer ataque do vento, do tempo, ou de branca nuvem. E quando pelo cansaço baixa sua guarda, reina o ser que de si mesmo alimenta e a ela inteira o devora, a lhe causar gastura, tristeza, e inseguranças nascidas nela mesma. Monstro feio que antes era zeloso bichinho, comia pela beirada sua sanidade, ao trocar seu amor por desespero, sua alma por gaiola e leveza por descrença. O mal da naftalina é a vitória da traça, versava ele. Ciúmes era seu nome; apodrecer, o seu intento.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Costura...

Costura meu "eu" em "você" e enlaça-nos no presente querido. Soma vida tua na minha porque saudade é soma incompleta. Caminha doçura na ponte das palavras trocadas, das confissões veladas, dos suspiros sentidos e das coincidências que enfeitam caminhar nosso na direção dos planos que guardamos. Sirva-se da poesia pra te acolher no meu céu e vestir-se de sol quando tristeza se achegar de mansinho. Sente perfume na roupa a me saber todo teu; traça sorriso na boca a repousar coração aflito por descanso. Caminha e professa encanto; mas não tema o desencontro, porque medo é apenas Amor que levou um susto. E se o medo roga praga, eu rogo prece: que carinho e beijo encontre sempre a caminhada nossa. Porque sou Amor nos teus braços e neles não mais preciso dormir para aqui sonhar. Costura teus fragmentos com linha perfumada dos dias que se apresentam. Junta com tua fé, tua esperança e tua vontade os pedacinhos de luz que refletem seus próprios passos. E espera. O bordado dará pano de fundo às bençãos que aguardam nos carretéis da Vida, as suas cores. E continua você a ser quem é; ainda que cresça, ainda que perca, ainda que mude, floresça, ganhe, nasça, morra, falte ou sobre. Costura teus passos nos meus, porque és sempre bem vinda; girassol ou semente. Cinza nuvem ou sol nascente. E porque te amo.


‎"A felicidade não entra em portas trancadas". (Emmanuel)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Palco...

Dizem as bocas que me veem bonito, de que sou moderno.
Talvez eu seja mesmo, mas acho que isso é coisa da cabeça.
Porque não há alma mais ranzinza e nostálgica do que a minha.
E coração mais pueril do que o meu.
Coração de admirar palácios, de contar histórias, de brincar de maduro. 
Que se apaixona fácil e tanto, de mergulhar e bater o coco no fundo do rio.
Já a cabeça não sabe muito não. 
Parece negociante desconfiada. Se envaidece dos feitos e conquistas. 
Política, sabe?
Ela finge sério, não brinca. Se enfeita com todas as cores da moda, com todas as notícias do dia. Posuda com seu próprio design.
Gosta do papel de sabichona. Misto de sábia e malandra.
Minha alma tá tentando dar só uns minutinhos pra ela no palco-de-cada-dia.
Pra se aquietar.
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(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 12.06.10)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Silêncio...

Guardei sorrisos a colorir o meu silêncio;
Olhos fechados a confessar encantamento;
Abraço meu que nos teus braços é doce alento; 
O teu encanto que nos meus olhos vê repouso;

E como loucos a sentir amor pulsante;
Distância nossa em que se impõe descabimento;
Na ausência tua o meu sentir se faz doente;
Paixão revolta que no teu cheiro eu me amanso;

Sinto, que somos fogo alimentados pelo vento;
Que teu perfume me embriaga como sempre;
Que te encontrei quando meu passo era descrente;
Que fortaleza é o teu quarto em que descanso;

Sei, que o nosso Amor pode caber num vão momento;
Em que costuro os amanhãs a cada instante;
Ou ser sublime a transcender eterno tempo;
Fazer do encontro de nós dois um só amante;

Teu corpo amado templo meu em que me encontro;
Nas curvas tuas sorvo o doce rio nascente;
Sopro desejos nas palavras em que invento;
Contemplo Amor ser meu e seu no sol distante;
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"O senhor sabe o que o silêncio é?
 É a gente mesmo, demais". (Guimarães Rosa)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Poeminha do recomeço...

Vim fantasiado de alfabeto pra contar aos teus olhos, palavras que sopro sempre que te vejo atenta aos traços da tristeza: que você vai ficar bem; contente pelas coisas todas que tem. Que você vai florescer; que dor vai deixar logo de ser; e depois de muito morrer, a tristeza vai logo partir. Que esperança de novo irá sorrir; a qualquer momento; pois Vida é questão de viver à tempo, semear sonhos na terra e mais no vento. É questão também de entrega; e de resto, pra nada mais há regra, nem fórmula ou receita. Vive teus dias todos inteiros, vai, aproveita! Que cedo coração se renova e, paisagem nua também se transforma; vestindo certezas sempre mais belas. E com a claridade da tua janela; você encontre muito mais: da fé, do amor, de sorriso e de paz. A te levar sempre adiante; costurando o bonito a cada teu instante, de volta pro (meu) mar; voltando inteira pra cá navegar; içando as velas pra recomeçar.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Philosophie...

Tão distraído entre seus desatinos e adocicados nadas que esqueceu ele de saber o porquê das coisas e de dar valor aos laços tantos que cultivava. Vivia de opções baratas a consumi-lo em tempo e inteireza; colecionando amores opacos como quem coleciona velhas moedas e vicios como suas únicas certezas. E pelas mesas de bar, filosofava sobre o mais profundo da existência quando ele mal arranhava a superfície. Sabia bem que suas palavras eram pobres substitutas das verdades que adiava ir buscar; pois a preguiça-de-si o prendia na vida de sorrisos efêmeros e interesses mundanos. Distraia-se com qualquer coisa para evitar dor que sabia vir ora ou outra como retomada de consciência a lhe puxar orelha e lhe por nos eixos do bom senso e do bem sentir. Enquanto isso, sufocava perguntas calando dúvidas e rasgando respostas com encantos triviais e amenidades muitas que de buscador, tornou-se bon vivant; vivendo pelas folhas do calendário que se repetiam longe da trilha ditada pela Alma a lhe revelar os pequenos milagres do cotidiano, apontando nas entrelinhas verdades pouco-a-pouco colhidas em cada doçura e amargor das experiências do coração. Esquecendo-se que tinha o mesmo direito de suas irmãs estrelas; abriu mão da sua plenitude. E entre noites inteiras e sentimentos pela metade; entre garrafas inteiras e corações pela metade; entre distâncias e meias e razões sem qualquer verdade, esperava o nada chegar com trajes de Vida a lhe dar sentido e direção e o tirar deste carrossel ilusório. Aguardava na repetição infinita dos dias cor de cinza, que Deus pudesse lhe revelar algum propósito secreto em seu caminhar. Preenchendo-se de vazios esperava assim, sua redenção. Rotina era sua gaiola. Pequenos prazeres, sua ração. Deixou suas asas de canto, esqueceu-se de voar.

domingo, 24 de julho de 2011

Convite...

A vida me convidou ao recolhimento e eu só quis saber de festas. O tempo me solicitou madurez e eu andei pra trás. A vida me pediu reflexão e eu pensei só em mim mesmo. A vida me pediu prontidão e eu acordei atrasado. Ela me aconselhou disciplina e hoje assaltei geladeira. A vida me pediu paciência e eu saí pra dançar; fazendo muita gente dançar comigo. A vida me pediu partilha e eu joguei tudo fora. Ganhei laços e com elas sufoquei belezas; ganhei sementes e envenenei a terra.  A vida me pediu leveza e eu pisei nas flores; ela me cobrou escolha e fiquei entre dois amores. Vida me cobrou fé e eu paguei com dúvidas. Vida me exigiu clareza e eu vesti óculos escuros. Corações pediram alento e comprei velho romance. Sorrisos me pediram carinho e arranhei seus rostos. Quiseram salvação e eu distribui problemas. As mãos pediram doçura e eu virei as costas. A vida requereu presença e fui ao cinema de enredos mentirosos. A vida me pediu verdades e eu abri Igreja. Eu caminhei por dias e luas mas não contemplei paisagem; não descansei os pés no rio de mim. E de tanto caminhar correndo contra a luz, não vi nascer-do-sol dentro do peito; tropeçando nas sombras a cair em lugar nenhum. E por cair, fiquei. E por ficar, parti. Quando amei, doí. Quando brinquei, menti. Quando cortei, senti. Quando matei, morri. E ao morrer, no inferno me encontrei; sem saber ao certo por quais motivos ficarei.