sexta-feira, 6 de maio de 2011

Sonolência...

Quando no mais escuro mergulho a vida se encontra imersa; quando no silêncio ela se faz ouvir pelos quatro cantos de direções confusas, é o antevir do dia que (se) esclarece, e o início do despertar dos que ainda dormem. A vida nos conta pelos ciclos, os símbolos e ciclos nossos, de uma verdade que nos abarca e somente se revela, aos límpidos olhos do espírito. As nuvens que, assim escondem o sol nascente, são como os pensamentos que encobrem o lume da Alma que sente. As estações que enfeitam a natureza de contrastes, tal qual é o homem que vive seu luto, seu descanso, seu florescer e o seu trabalho. O homem é reflexo do que o transcende. 
Afinal, assim como é em cima, também é embaixo.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Processo...

O Amor é o único elemento que se multiplica quando o dividimos. Quanto mais damos, mais temos. E engano o nosso achar que não podemos. O amor é parte da gente; é palco, é pano de fundo; é sol que a todos alcança e acolhe, àqueles quem sob o céu se entregam. Quanto mais damos, mais somos. A vida é esse constante processo de nos lembrarmos disso; através do outro, através da gente, através da vida mesma. E (re)lembrar da nossa essência, faz toda a diferença.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O Milagre...

Talvez eu comece a deixar de uma vez por todas, tentar entender o mundo. Vejo ser o mundo pano de fundo ilimitado de sensações e contrastes, reflexos e combinações, presenças e histórias, estímulos e caminhos onde me cabe perceber sempre um só graveto, um só cantar, apenas um raio de sol, quando não a chuva e a tempestade que só em mim desaba. Acho eu que essa minha insistência em olhar pra Vida como um campo de batalha só me faça ver soldados cinzentos, ou pregos, caso eu carregue um martelo. Talvez minha desistência seja, pelo contrário, uma entrega e um permitir disfarçados, uma renúncia ao azar, à ingratidão e ao mofo da Alma; vindo daí uma aceitação tímida, de que a vida é bem-vinda no meu quintal, na minha festa, seja lá com qual roupa ela venha. E ao invés de correr para as montanhas e viver escondido e intimidado pela plenitude que me convida a um agora próspero e bonito, eu possa me expor à chuva e também ao sol, às perdas como também aos ganhos e, por isso, eu me permita levantar os véus da ilusão e ver a Vida um campo infinito de possíveis realidades onde escolhemos a que nos cabe e nos ressoa, onde (re)criamos e multiplicamos as oportunidades; de nos expressarmos na Verdade que habita em nós e que atua através de cada um. Somos nós quem permitimos o milagre e a graça. Melhor mesmo deixar viver e contemplar o mistério das coisas ao tomar meu chá antes de dormir...


"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento". (Clarice Lispector)

domingo, 1 de maio de 2011

Amor-frescobol...

Tem gente na vida da gente que nos consegue convencer o coração sizudo e desinteressado pra passear e tomar sol; gente que nos tráz óculos de lentes bonitas a desfazer o preto-e-branco dos dias vazios que se repetem. Tem gente com cheirinho de aconchego que dá vontade de guardar no bolso e levar sempre pra qualquer lugar. Há algumas luas que te encontrei assim, tão pedaço meu, lugar de carinho bom, delicadeza a preencher meu mundo para, desde então, costurarmos no silêncio o encontro de nós dois, cercando aos poucos o coração de doçuras, a trazer alento e encanto, bordando gentilezas na estrada nossa. Culpa sua que paixão e fantasia me deixaram eloquente, pelas mãos que confessam desejos e vontades a te querer mais perto, pelos beijos roubados a te fazer entregue sob os lençóis da nossa casa e a árvore do nosso quintal. E entre os carinhos que se fazem com o corpo e os carinhos que se fazem com as palavras, colho as mais bonitas delas a enfeitar ponte que nos levará até o outro onde a comunhão se dê, a cantar na janela da tua alma, serenata de suspiros e sensações gostosas em poesia que te gosta; a compor carta de amor que escrevo nas entrelinhas da minha vida, mas que explicam o seu nome e o seu sorriso. O que faz bem deve ser dito, sussurrado e semeado: pra nos lembrarmos daquelas verdades das coisas que só o Amor declara; e é nele onde guardamos os sonhos e desejos que dão fundo e cor ao coração; e é através dele onde te vejo aqui, ainda que tão longe. Onde te sinto em mim, mesmo que não-aqui. E é por tudo isso, isto e aquilo onde me faço inteiro e te amo. Sabe amor-frescobol? Aquele que não se encerra no prazer como sombra dos sentidos e das satisfações imediatas? Aquele que se delicia com longas conversas que se revezam em silêncios bonitos? Aquele que preserva as mútuas escolhas e os sonhos de cada um? Onde a parceria não deixará nunca que o outro caia ou se machuque? Me sinto no começo de um jogo contigo, onde jamais nenhum de nós (se) perderá.


"Não escreva o que sentiria se acordasse comigo. Acorde comigo. Não imagine meu cheiro. Me cheire. Não fantasie meus gemidos. Me faça gemer. O amor só existe enquanto amar. Ação. Calor. Verbo. Presença. Milímetros. Hálito'. (Gabito Nunes)

sábado, 30 de abril de 2011

Universo de coisas...

"Para manter o espírito vivo e criativo é preciso se despir de preconceitos, combater a inércia e, sair da zona de conforto. Há um universo de coisas interessantes a serem descobertas.”
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(Vik Muniz)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Entrega...

Além do prazer imediato que lá buscava, tecia ela afinidade cada vez mais forte. Ela o procurava com frequência, pois, ele era o único que a fazia liberar suas tensões. E entre suor e incensos e portas fechadas, esquecia-se do tempo, das contas, dos seus próprios erros e até do seu companheiro, que há tanto tempo não era mais bem-vindo no seu coração. Tornou por hábito deixar ao sair, sorrisos e lágrimas, segredos e desabafos, a limpar o canto escuro do coração não apenas pelos suspiros e arrepios dela, mas pelo toque das mãos e das palavras de alento dele. A cada encontro, saia outra. Era seu massagista de confiança. Agenda lotada.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A Ilha de um homem só.

Que meu momento presente seja a confirmação de todas as escolhas feitas e desfeitas de outrora. Inclusive as que escolhi não fazer...
Uma ilha reflete a ilusão por estar só na superfície. Ao mergulhar, percebe-se que ela é una com toda a terra. O homem só, anda acompanhado...
O homem só, é na verdade, muitos...
Como pode se reconhecer, sozinho, quando apenas com o outro ele se expressa?
Quando sozinho, não há medida e não há além?
A semente em si, não cresce só.
Pois.. Gratidão é tema de dois; partilha também.
Comunhão é tema de Um. Amor também. O dois que se torna Um.
Que o ciclo que se recicla, seja mais seu..
Que o nosso caminho, seja de encontros e reencontros, cobertos pelas bençãos por nós merecidas!
Que o novo nos brinde com harmonia, consciência e inevitável crescimento...
O que desejo a mim, desejo a você..
E aquilo a mim desejado, multiplicado seja, colorindo nosso arredor.
.. pois sem a prosperidade e a felicidade do outro, como posso eu ser feliz também?
Por isso quero o mais belo, o mais sonoro, o mais carinhoso e intenso.. em tua vida!
A minha será apenas consequência! E saiba que a Ilha, é continente!
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(Guilherme C. Antunes)


“Toda humanidade é um só volume. Quando alguém morre, seu capítulo não é rasgado, mas traduzido para uma linguagem melhor… nenhum homem é uma ilha, inteiro em si“. (John Donne)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Resposta...

"Tem paciência com tudo não resolvido em teu coração e tenta amar as perguntas em ti, como se fossem quartos trancados ou livros escritos em idioma estrangeiro. Não pesquises em busca de respostas que não te podem ser dadas, porque tu não as podes viver, e trata-se de viver tudo. Vive as grandes perguntas agora. Talvez, num dia longínquo, sem o perceberes, te familiarizes com a resposta."
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(Rainer Maria Rilke)

domingo, 24 de abril de 2011

Todo fim é recomeço...

Ela voltou a mentir, ele voltou a pecar. Ele voltou a sorrir, ela voltou a chorar. Ela voltou a fugir, ele voltou a ficar... com a alma leve de pés no chão e assim, voltou a voar, pois todo fim é recomeço. O apagado ficou aceso. O que era reto e chato, ficou do avesso. A guerra virou sossego. Passear de mãos dadas com o coração. Lavar tristeza, água e sabão. Trocar presença por solidão. Assim, o certo ficou incerto; o longe se manteve perto. E o incerto, chato. Saudades morando ao lado. Aí, ela voltou a pedir, ele voltou a tentar. Ele voltou a vestir (a carapuça), ela voltou a brigar. E assim voltaram a ficar... com as almas soltas no espaço perdido. Voltaram a cair e a se machucar. Assim, o aceso se apagou. O reto de vez se entortou. A paz cessou, no horizonte que se apertou. E sem saída, constataram: Todo fim é fim mesmo.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Parada Obrigatória...

Às vezes a distância é a melhor coisa que pode acontecer.

Na guerra ou na vida, períodos de recuo são essenciais em qualquer boa estratégia. Ou simplesmente acontecem, atropelando nossa vontade - mesmo assim, continuam sendo estarrecedoramente úteis (depois de passada a raiva por termos sidos detidos na marcha, claro). Eles nos forçam a enxergar a situação sob outro prisma, com mais frieza e, por isso mesmo, de forma mais acertada e isenta dos erros de julgamento que a intensidade e a bile nos levam a cometer (o significado do ditado chinês "o lugar mais escuro é sempre debaixo da lâmpada" tornou-se, de repente, tão claro para mim como areia em dia de sol).

O grande barato de, vez por outra, nos distanciarmos do que nos importa é sentir o que esse redimensionamento nos causa. E seja ele qual for, a retomada nunca é insípida: ou nos faz enxergar a placa de "rua sem saída" que teimávamos em não ver ou, feito polimento em prata, devolve o brilho ao que o tempo havia enegrecido. Talvez por isso alguns casais só se entendam depois de uma separação: a dor, a sensação de ficar sem centro gravitacional, não ter mais ali ao lado quem se ama, pode provocar verdadeiros milagres na dinâmica de uma vida em comum (e na vida solo). Mas não podemos contar com milagres, precisamos da razão. O problema é que nossa suposta sapiência tende a sub-avaliar o que se tem ou (talvez seja pior), exagerar na importância e, se quisermos ser felizes, é inútil proclamar independência emocional ou tornar-se escravo das paixões. Qualquer extremismo nos isola-e, curiosamente, é só dando um pequeno mergulho na solidão que compreendemos o valor do que nos rodeia e mora dentro de nós.

Tente um Monet

Depois de sofrer feito o cão por encarar tudo na base do oito ou oitenta, fiz um pacto comigo mesma: jamais levaria coisa alguma a ferro e fogo porque nada importa tanto. Absolutamente nada é imprescindível. Nem ninguém. Esse não é um discurso de auto-suficiência, pelo contrário, é uma reflexão de alguém que aprendeu na porrada (ou melhor, no choro) que só relativizando, tornando a existência e o coração mais leves, é que se pode ser feliz e, então, ser feliz com alguém. Pare de arrastar correntes, levar tudo tão a sério: a única coisa que você vai conseguir é uma úlcera. Cuide de quem ama mas não faça disso o objetivo da sua vida porque ficará, inevitavelmente, frustrado quando não tiver deles o que deu pra eles. Ou não tiver deles o que você ACHA que eles deveriam devolver. E será bem feito: você fez o que quis, porque quis, então não venha reclamar o troféu. Não existe prêmio para quem doa amor. Por isso, distanciar-se deveria ser uma tarefa cotidiana: evitaria que fôssemos sugados pelo redemoinho que sempre começa logo ali nos nossos pés, mas estamos ocupados demais pra ver. Evitaria que exercêssemos de forma tão eficaz, e perigosamente despercebida, nossos piores defeitos.

Quando algo começar a te enlouquecer, enfernizar ou surtar, use a técnica dos grandes admiradores de arte: recue diante da tela, mude de ângulo em relação a ela, observe as cores, os traços e os detalhes que, na correria, sempre passam despercebidos. Então notará que ela é muito mais do que aquele ponto preto que ficava, insistente, diante dos seus olhos.

Ser feliz, no final das contas, não é questão de sorte ou azar. É questão de perspectiva.
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(Ailin Aleixo)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Amor maduro...

"O amor maduro é a valorização do melhor do outro e a relação com a parte salva de cada pessoa. Ele vive do que não morreu, mesmo tendo ficado para depois, vive do que fermentou criando dimensões novas para sentimentos antigos, jardins abandonados, cheios de sementes..."
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(Artur da Távola)

Setecentas vezes...

"Minha boca já perdeu o fôlego de contar quantas vezes te mandou embora. Setecentas vezes e mais essa. Minha capacidade de me enxergar em dois lugares ao mesmo tempo me rendeu uma espécie de estrabismo sentimental. Meu coração, minha cabeça, meus braços andam cansados de querer coisas. Não é desejar coisas que me comove, mas não saber do que será. Querer, um dia a gente consegue. Não saber é entregar a emoção à primeira tormenta. Não saber um futuro, não saber um nome, não saber uma esquina, não saber um perfume, não saber um fim."
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(Gabito Nunes)