terça-feira, 5 de abril de 2011

Amargo...

Arrogando-se no monopólio do bem e do justo ao coroar a si mesmo como dono da verdade, acima do bem e do mal e além das dores do mundo, multiplica feitos, fatos e ganhos, em faz de conta que a si próprio engana; em que torna real seu cenário de herói. Com fantasia de sábio a ser descartada depois de cada carnaval na vida alheia, veste arrogância disfarçada de sensatez. Evita ler com os olhos míopes da alma, as lições do Ser que a vida ministra; ele apenas decorou sabedoria, a se gabar do que nada entende, mas que repete muito bem. Sobe alto em seu ego pra de lá fazer palanque e bradar suas verdades, distraindo o seu próprio tamanho com mentiras que a todos engana e a si mesmo convence. Tem alergia às correções, e não há tropeço ou pedra no caminho que faça descer nariz empinado abaixo da linha do horizonte. Por isso, quer ver além, mas não vê nada. Joga todas as oportunidades pra debaixo do tapete, ao adoçar o amargo com adoçante e não com luta transformadora a suavizar no porvir, o gosto dos inevitáveis desafios a permear casca dura e encontrar raíz dos seus males, curando-o de vez. E por isso mesmo que, quando no fogo atravessa, não purifica, porque não dói, esquecendo-se, assim, de avançar, por pensar que já caminhou demais. Assim, é o outro quem carrega o peso, negando-se a dividir tarefa pelo falso sentir-se realeza; leva consigo apenas os elogios que coleciona aos montes. A coroa é de brinquedo. Seu manto, lençol sujo e pueril. Precisa crescer; de dentro pra fora.

"A única vez que me enganei, foi quando pensei que houvesse me enganado".

segunda-feira, 4 de abril de 2011

E letras...

"Hoje flutuam na Alma
restos de desejos rosados
cinzas estelares azuis
migalhas de sonhos violetas.

Cintilam sentidos soltos
cores,
farelos de luas e letras..."
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(Ana Luisa Kaminski)

sábado, 2 de abril de 2011

Ancorado...

"Quando já não havia outra tinta no mundo o poeta usou do seu próprio sangue.
Não dispondo de papel, ele escreveu no próprio corpo.
Assim, nasceu a voz, o rio em si mesmo ancorado.
Como o sangue: sem voz nem nascente."
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(Mia Couto)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Jardins...

"Não mais chicletes grudados no pé. Não mais pessoas flutuantes na cabeça. Não mais pôr-do-sol ser nostálgico. Não mais saudade, bala na agulha, resposta pronta. Não mais carregar gente comigo, na bolsa, nos ouvidos, na garganta. Quero me pesar e ter a certeza que o número na balança pertence somente a mim. Não mais joelho ralado, queixo ralado, coração ralado. Quero andar nas montanhas, ver meu vestido voando e ser seguida por pássaros. Entre meus sonhos e seus jardins."
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(Camila Heloíse)

terça-feira, 29 de março de 2011

O Jardim das Aflições...

Quando levar o vento todas as minhas vestes, de cores e detalhes a me distrair e adoçar meus sentidos, verei então o preto no branco e o cerne cru das coisas que, pelos seus contrários, escureceram o coração minha vida inteira. Quando vier o tempo a me cobrar semeadura neste jardim de delícias e aflições, trarei à mesa da Justiça o pão que reparti, mas também o vinho que só eu bebi, a me embriagar de exigências desmedidas e a reclamar falsos prestígios. Dos pecados que carreguei e do perdão a quem neguei, sopro aos ouvidos da morte, pedido de recomeço nas vinhas do Pai, a me fazer mais lúcido diante da Vida próxima. Assim, tomarei meu refúgio na luz que mora dentro e que por hoje se esqueceu de ser, revelando o mais além e atemporal, onde calam os símbolos e as palavras a entoar doce canto e magno plano que se realiza em nós e que só a Alma vê: O amor como quintal a me deixar ser criança pela inocência no esquecer; como bom jardineiro quando me cortar no espinho da rosa bonita e também como bom ouvinte, a contemplar tantas versões da Sua história contada pelo Sol, pela Lua e por todos nós que por aqui passeiam.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Sobre meninos e meninas...

"E eu que não sou Deus, que nem sou poeta, tão pouco sou destino ou uma destas coisas sobrenaturais, eu que não vento pra sussurrar palpites e arrepios, eu que só escrevo um menino nestas linhas retas, te digo menino: que nuvem linda e alta esta que tu voa, que menina mais bela esta que tu ama, que nos cantos dos olhos tem lâminas, que te deixam menino, aos pedaços, que menina mais graça esta menino, que tu traz nas pontas dos dedos em carinhos marotos, que eu trago nas pontas dos dedos a cada letrinha que eu cato neste teclado falante. E eu que nem sei de nada, que nem sou vivido nas coisas do amor, eu que nem fogo, paixão eu nem vi, te digo menina: que sonho doce e real é este que tu mora!deste menino sonhador, menina poesia, deste menino criador, menina criatura, o meu menino te ama menina, te ama, e eu que só escrevo e leio e tento frases e penso textos, não sei bem quando te deixei sair dos meus texto pra virar possibilidade. E eu que não sou pretensioso, que nem tenho todos os sorrisos que este menino e esta menina merecem, que não sei nada de profecias, tão pouco de ser incondicional, eu que nem sei ser óbvio, e nem sei ser utópico, eu que nunca andei em círculos, eu, só te digo menina: o impossível não existe pra quem sonha, mesmo pro menino que suspira tentando imaginar o gosto do beijo, mesmo pra mim que suspiro tentado escrever pra vocês dois, um final feliz." (Rafa Feck)

domingo, 27 de março de 2011

Primavera...

"Depois de ter cortado todos os braços que se estendiam para mim; depois de ter entaipado todas as janelas e todas as portas; depois de ter inundado os fossos com água envenenada; depois de ter edificado minha casa num rochedo inacessível aos afagos e ao medo; depois de ter lançado punhados de silêncio e monossílabos de desprezo a meus amores; depois de ter esquecido meu nome e o nome da minha terra natal; depois de me ter condenado a perpétua espera e a solidão perpétua, ouvi contra as pedras de meu calabouço de silogismos a investida húmida, terna, insistente, da Primavera."
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(Octavio Paz)

sexta-feira, 25 de março de 2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

Cantinho...

Por onde você esteve que não te vi? Por qual caminho de antes não te alcancei? Há tanto que me fiz cantinho teu; me enfeitando de cores e retalhos, formas e cadinhos de amor, como convite a repousar teus olhos cansados e perfumar tua Alma. Me reinventei de jeitos a te aconchegar no meu carinho; refúgio onde as palavras alcançam a derramar o seu alento. Hoje sou colo, sou amuleto pra te trazer mais perto: a ecoar dentro da alma, a ressoar dentro do peito, a entoar tantas doçuras, com silêncios a costurar ternuras. Aquietando os barulhos do mundo lá fora, decorando o meu jardim de gentilezas. E confesso diante dos teus olhos grandes, a lhe contar quem sou de verdade. Que lhe conta com os lábios a escorrer o doce da vida ao morder pedaço gostoso de ti e que me satisfaz; e a fazer sorriso não caber na boca. Eu sou teus planos, teus encantos; tua promessa de futuro bom. Sou espelho da tua casa interior a refletir gratidão. Eu sou mais do mesmo, como certezas de suspiros e descanso que ainda estão por vir, mas que já tem teu nome.

"Seja qual for a matéria de que as nossas almas são feitas, a minha e a dela são iguais." (Emily Brontë)

Delicadeza...

"Delicadeza é aquilo que nos alcança sem nos tocar. É a melodia que nos embala mesmo em silêncio. É quando a boca empresta um sorriso aos olhos sem que nenhuma cobrança seja feita e os sentidos se misturam sem que ninguém dispute o melhor espaço. Delicadeza é ter pensamentos e atitudes em harmonia. É atingir o outro sem que ninguém saia machucado. É quando você é seduzido por algo que vem de dentro e dividir ajuda a somar!"
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(Fernanda Gaona)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Paradoxo...

(...) antes, perdia mais do seu precioso tempo nesta terra tentando consertar as coisas do que chutando o balde. Daí aprendeu que, ao chutar o pau da barraca não lhe doía o pé, tampouco a consciência. Visto por aí como incoerente, deslocado, tresloucado e paradoxal, tecia ele no silêncio reflexo do lento progresso interior, tênue linha a juntar dentro de si, a síntese entre saber, ser e agir. Seus erros e escolhas equivocadas eram parte do inevitável: o caminho como educador a conduzir sua própria Alma à liberdade. Vícios dizia não os ter: somente bebia e fumava ao jogar. Vinha perguntar em tom irônico se ressaca moral dava enjoos ou se havia garrafada que lhe curasse. Hoje, sai pra comemorar sua vida até no dia do índio, do bombeiro e do motorista de trio elético. Deixou de comer toda sorte de porcarias, inclusive pessoas. Saiu, dançou, pecou, salvou, ascendeu e apagou rastros de passado aflitante; tomou, deu, fez, omitiu e confessou, passando o rapa e o rodo, até então a secar as lágrimas das menininhas, com pretexto claro; depois para as suas próprias quando se via preso em sua prisão, ainda que apontasse aos outros a culpa pelo cárcere interior. Assim, após o cansaço da luta, sua verdade o libertou. Pra azia, antiácido. Pra dores de cabeça, foda-se; em alto e bom som a lhe botar novamente nas rédeas da própria vida, como lembrança do que vale realmente a pena despender energia e atenção, e do que não. Escreveu a alforria de seus vãos compromissos, na alma. Passava assim, a comer apenas o recheio do bolo, do mesmo jeito que extraia apenas o doce da vida. Celebrando, então, ambos, ao invés de um só: o sagrado e o profano, ao semear sorrisos e prazeres, incitar ideias nobres e desejos sujos, limpando-os todos, com bastante álcool e boemia. Conseguiu por isto, convite em todas as festas, inclusive pras do inferno, destino certo a lhe esperar, segundo alguns. Não se preocupava, gostava do verão.

Ruínas...

"Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias".
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(Sophia de Mello B. Andresen)