segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Parentesco...

"Mais tarde eu saberia que certas experiências se partilham - até mesmo sem palavras – só com gente da mesma raça. O que não significa nem cor, nem formato de olho, nem tipo de cabelo, mas o indefinível parentesco da alma."
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(Lya Luft)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Apertos...

"Eu fujo dos apertos, só me encontro onde há espaço. Nada pode ser tão largo que nos deixe muito solto, nem tão estreito que não seja confortável. E não aceite conselhos em relação a isso, não existe um modelo único de liberdade. Só você sabe, de fato, onde é o seu encaixe".
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(Fernanda Gaona)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Negativa...

“Ao completar trinta anos, você ganhará os olhos duros dos sobreviventes. Só verá sua amada na parte da manhã e da noite, só encontrará seus pais de vinte em vinte dias. E quando seus velhos morrerem, você ganhará um dia de folga para soluçar e gritar que deveria ter ficado mais próximo deles. Sorria, você é um jovem monolito e a vida vai ser pedrada. O trabalho é uma grande cadeia e você sentirá muito alívio por ter uma. A cadeia engrandece o homem. E o sangue do dinheiro tem poder. Reze. Reze ajoelhado por uma carreira, dê a sua vida por ela. Viva como todo mundo vive, você não é melhor que ninguém. Porque o dinheiro move montanhas, o dinheiro é a igreja que lhe dará o céu. Sorria, você é um jovem monolito e o mundo é uma pedreira. Eles irão moer você todinho. De brinde, muitos domingos para chorar sua falta de tempo ou operar uma tendinite. Nas terríveis noites de domingo, beba. Beba para conseguir dormir e abraçar mais uma monstruosa segunda-feira. (...) A vida é uma grande seca, mas ninguém sente calor: Nas salas refrigeradas, seus colegas de trabalho fabricam informação e, frios, sonham com o dia dez do próximo mês. Você é o Babaca do Dia Dez, não há como mudar o seu próprio destino. Babaca que acorda assustado, porque ninguém deve atrasar mais de vinte e cinco minutos. Eles descontam em folha e você é refém da folha, do salário, do medo. Ninguém tem o direito de ser feliz, mas você ganhará a sua esmola de seis feriados por ano. E todos nós vamos enfrentar, juntos, um imenso engarrafamento até a praia. Para fingir que ainda estamos vivos. Para mostrar que ainda somos capazes de sentir prazer. Para tomar um porre de caipirinha sentado em uma cadeirinha de praia. É uma grande solução. E você ainda ganhará quinze dias de férias para consertar a persiana, pagar contas, fazer uma bateria de exames. Ninguém quer morrer do coração, ninguém quer viver de coração. Eu não duvido da sua capacidade de vencer: Lembre disso no primeiro divórcio, no primeiro infarto, no primeiro AVC.”

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cura rimada...

De todas as suas fraquezas e manias, inventava problemas e dores
O quadro era conhecido:
Sofria de hipocondria.
Remédios para tudo havia;
mal-estar, enjoos, náuseas, azia.
Conhecendo ao acaso, outro dia
moça jovem prestes a lhe salvar; a lhe tirar desta fria.
Se encantaram, namoraram, se juntaram sob as bençãos do altar.
Assim, era o amor que chegava e doença que partia.
Nova vida então lhe mudou, curar-se-ia com filha bonita a chegar.
Seu nome?
Analgesia.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Costura...

"Vontade de passar o tempo costurando nuvens... Com a linha do horizonte vermelho-poente para arrematar minha tarde. Atividade inútil. Romantismo de quem não sabe mais como esticar a alma... Ah, não sou muito adepta de atividades físicas. E estou exausta... Porque sempre dei tudo de mim. Ah, então não se queixe! Esse abismo é obra de tuas mãos! Ou será porque agora eu já não sei o que fazer com elas?! Costura! Reune os retalhos... Parte por parte... Deixa a linha da vida traçar o desenho... E, mais uma vez, eu sei, vou dar tudo de mim. Supura... Que o tempo cura a ferida. Colágeno... Costura. Criança que cai da bicicleta mas, não perde nunca a coragem e o desejo de pedal-ar.... Máquina de costura a pedal... Vida que se vai tecendo, ao vestir sonhos e despir os medos. Ah, minha linha da vida vai dourar de estrelas... E esse pano de fundo negro... Vai se tornar o tecido ideal: Céu visto... Em noite estrelada."
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(Cecília Braga)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Nós sabemos...

"Os homens que procuram a felicidade são como bêbados que não conseguem encontrar a própria casa, mas sabem que têm uma." (Voltaire)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

As egrégoras e o carvão...

“Um membro de um determinado grupo, ao qual prestava serviços regularmente, sem nenhum aviso deixou de participar de suas atividades.

Após algumas semanas, o líder daquele grupo decidiu visitá-lo. Era uma noite muito fria. O líder encontrou o homem em casa sozinho, sentado diante da lareira, onde ardia um fogo brilhante e acolhedor.

Adivinhando a razão da visita, o homem deu as boas-vindas ao líder, conduziu-o a uma grande cadeira perto da lareira e ficou quieto, esperando. O líder acomodou-se confortavelmente no local indicado, mas não disse nada. No silêncio sério que se formara, apenas contemplava a dança das chamas em torno das achas de lenha, que ardiam.

Ao cabo de alguns minutos, o líder examinou as brasas que se formaram e cuidadosamente selecionou uma delas, a mais incandescente de todas, empurrando-a para o lado.

Voltou então a sentar-se, permanecendo silencioso e imóvel. O anfitrião prestava atenção a tudo, fascinado e quieto.

Aos poucos a chama da brasa solitária diminuía, até que houve um brilho momentâneo e seu fogo apagou-se de vez. Em pouco tempo o que antes era uma festa de calor e luz, agora não passava de um negro, frio e morto pedaço de carvão recoberto de uma espessa camada de fuligem acinzentada.

Nenhuma palavra tinha sido dita desde o protocolar cumprimento inicial entre os dois amigos.

O líder, antes de se preparar para sair, manipulou novamente o carvão frio e inútil, colocando-o de volta no meio do fogo. Quase que imediatamente ele tornou a incandescer, alimentado pela luz e calor dos carvões ardentes em torno dele.

Quando o líder alcançou a porta para partir, seu anfitrião disse: -Obrigado. Por sua visita e pelo belíssimo sermão. Estou voltando ao convívio do grupo.”

(Autor desconhecido)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Estatuto do Homem...

"Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:

O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

(...)

Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor."

(Thiago de Mello)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Maneira...

"O rio passa ao lado de uma árvore, cumprimenta-a, alimenta-a, dá-lhe água... e vai em frente, dançando. Ele não se prende à árvore. A árvore deixa cair suas flores sobre o rio em profunda gratidão, e o rio segue em frente. O vento chega, dança ao redor da árvore e segue em frente. E a árvore empresta o seu perfume ao vento... Se a humanidade crescesse, amadurecesse, essa seria a maneira de amar."
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(Osho)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Prosas e poesia...

E foi de repente que eu senti uma coisa boa; uma sensação de (re)encontro consigo mesmo. Um encantar-se em si através do outro; através do silêncio que se comunica e se faz presente em nós. Que fala de nós mesmos a transbordar dentro de página a se completar em versos que hoje tem nome e lugar pra se viver, mas que alcança o atemporal. E você veio prosear sobre um algo mais; você veio falar poesia. Aquela que a gente escuta quando ao longo do tempo se constrói espaço vasto e vazio aqui dentro, mas não vazio de significado. Um espaço suficiente pro novo vir habitar. E você veio. Pelo menos, é assim como eu gosto de ver; de tecer minha existência com fragrâncias de fantasia e gentilezas imaginadas do dia-a-dia. Você veio contar sobre aquilo que é maior do que eu, mesmo eu não sabendo lá muito bem quem eu sou, embora eu vá me encontrando com cada cantinho-meu-aqui-dentro que é solicitado a responder em determinado momento ou desafio da vida. Isso faz vontade trazer o outro pra vida da gente com tudo o que se tem direito; ainda que dê um frio na barriga. Talvez seja porque a gente viva no conhecido, às claras, e o que vêm é sempre estranho. Estranho porque desconhecido. Aí quando o coração começa a se acostumar, faz do novo a sua casa. E ninguém melhor do que você, a recitar as chaves, declamando versos da cor da parede, cantando o som do ventilador do quarto; dividindo gavetas e sentimentos; lavando azulejos e tristezas. Que janelas abrimos! E a culpa é toda tua; pois contas ao coração aquilo que ele até então não havia pensado como melhor sentir. Qual palavra caberia, em que ordem ou com qual intensidade. Mas aí veio você e traduziu: a minha vida inteira. Espero abraçar sempre essa lembrança quando eu sentir saudades.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

De que resto...

"A vida se retrata no tempo formando um vitral de desenho sempre incompleto, de cores variadas, brilhantes, quando passa o sol. Pedradas ao acaso acontece de partir pedaços ficando buracos irreversíveis. Os cacos se perdem por aí. Às vezes eu encontro cacos de vida que foram meus, que foram vivos. Examino-os atentamente tentando lembrar de que resto faziam parte. Já achei caco pequeno e amarelinho que ressuscitou de mentira um velho amigo. Achei outro pontudo e azul, que trouxe em nuvens um beijo antigo. Houve um caco vermelho que muito me fez chorar, sem que eu lembrasse de onde me pertencera". (Maria Antônia)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Promoção...

"Estou cansada dessa promoção de mim. Cansei de me entregar tanto e nunca me entregar por completo, de ser só a promessa, a vertigem e a decepção. E então esse cansaço que não sei se é dos outros ou de mim mesma."

(Verônica Heiss)