quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Dormir...

"Dormir é a melhor coisa deste mundo. Nem leitura, nem diversão, nem uma boa mesa, nada se compara. Sexo então é fichinha perto. É um momento de magia quando você, só cansaço, cansaço da pesada, deita o seu corpo e a sua cabeça numa cama e num travesseiro. Ensaio, prosa, poesia, modernidade, tudo isso vai para o brejo quando você escorrega gostosamente da vigília para o sono. É o nirvana!"
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(Raduan Nassar)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sanfona...

"Me perdoa por eu querer de uma forma tão intensa tocar em você que te maltrato. Minha mão acostumada com um mundo de chatices e coisas feias fica tão gigante quando pode tocar algo lindo e puro como você, que sufoca, esmaga e estraçalha. Me perdoe pela loucura que é algo tão pequeno precisando de amor e ao mesmo tempo algo tão grande que expulsa o amor o tempo todo. Eu sou uma sanfona de esperança. Eu tenho estria na alma".
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(Tati Bernardi)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sobre meninas e fadas...

"O sol ainda não veio. Minhas mãos estão acanhadas, tateando o escuro. E bem devagar pra não bater nas paredes. Tenho gasto mais tempo com as exterioridades, que com o coração. E uma coisa é certa. Elas têm mais formas que fundo. Outra vez, estão todas duas trancafiadas num porão. A menina da saia de Chita e a Criança Sonho. A vida não tem sido muito educada. Vezenquando um anjo torto as vela. Mas a missão é temporária. Quando anoitece ele se vai. Temos feito um esforço enorme para subir mais depressa a escadaria das fadas, mas ela se quebra com o nosso peso. E nada sobra de cor-de-rosa. É que o homem não tem alimentado as fadas direito. E com isso o jardim encantado ameaça secar. Ele nos toma o direito dos sonhos. E em troca nos dá uma realidadezinha medíocre e ordinária. Mas deixemos as portas abertas e o copo d'agua com açúcar. Uma hora elas devem voltar".

Pipa-Cris. [a duas mãos]

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Amargo...

(...) perdido entre tantos pensamentos que de lá por pouco o distraíam, sua atenção lhe era mais uma vez arrancada do longe. Inevitáveis eram seu retorno e sua fuga, frente ao desespero que o exauria. E ainda que confinado em suas fraquezas, recusava-se a engolir mais uma vez tal desaforo. Sujeito aos caprichos dos que obedecia, aguardava no distante porvir, a sua liberdade. E sentindo reprovação sufocar, tentava estancar choro arranhando garganta e engolindo a seco. Esqueceu-se de quantas vezes havia passado por isso e mal sabia quantas vezes mais ainda enfrentaria tamanha provação. Não sabia mais o quê fazer, nem como argumentar. Via-se assim, derrotado pois, inevitável o sabor amargo. Ia mesmo ter que engolir; os seus legumes. Queria sair para brincar no quintal.

Impulso...

"A vida se aprende nas perdas. É perdendo a liberdade que a gente descobre que não se encaixa, é perdendo alguém que a gente descobre que não vale a pena lutar por futilidades, é perdendo o apoio que a gente descobre que o resto do mundo não para só porque nosso mundo parou. A gente vai aprendendo a viver assim, na marra, no grito, no sufoco, no impulso".
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(Verônica H.)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Gota de mel...

"E tô achando bom, tô repetindo que bom, Deus, que sou capaz de estar vivo sem vampirizar ninguém, que bom que sou forte, que bom que suporto, que bom que sou criativo e até me divirto e descubro a gota de mel no meio do fel. Colei aquele "Eu amo você" no espelho. É pra mim mesmo".
(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O encontro...

(...) e foi então que ele a notou; e depois que a viu, passou ali nada mais notar. Entre todas se destoava. Entre tudo se sobressaía. Teria a sorte lhe aprontado assim, tanto? Sem ensaio, sem dar aviso algum de sua visita? Ela estava ali, toda para ele; e delicada, veio perto com sorriso de salvar a gente da tristeza, com perfume de se levar aos campos mais bonitos. Arrebatado, lia todos seus movimentos em tons de encanto e mais fácil se apaixonava. Pensou no que dizer, mas não disse nada. Aliás, disse sim, ao respondê-la sem prestar atenção nas próprias palavras e na pergunta solicita dela. Sem também perceber que hoje, e tão somente hoje ela atenderia a todos os seus pedidos. Ignorou saber pelo turvo fáscinio exercido que aqueles vivos olhos castanhos a decifrar suas vontades e sua doce gentileza, eram apenas truques para conseguir o seu intento. Vender. Ela era definitivamente o seu número. O da sua camisa. E assim se enganou. Às vésperas do Natal, voltaria para trocar.

Um verbo hoje...

 "Vamos jogar aberto. A culpa é minha. Eu dei meu coração. Eu criei expectativas. Então, com sua licença. A culpa é minha. Minha culpa. Minha feia culpa que é minha e de mais ninguém. Minha culpa de sete pontas. Minha culpa que me faz olhar a vida e me sentir personagem principal de uma página triste. E não é só triste. É uma culpa boa. Porque também me faz exercitar um sentimento maior (e mais brilhante que o mundo): o perdão. Se eu pudesse escolher um verbo hoje, eu escolheria perdoar. Assim, conjugado na primeira pessoa, com objeto direto e ponto final: eu me perdôo. Não, eu não te perdôo porque não tenho porque te perdoar. Tenho que perdoar a mim. A mim, que me ferrei. Me iludi. Me fudi. Me refiz. Me encantei. A culpa é minha. Minhas e das minhas expectativas. Minha e das minhas lamentáveis escolhas. Minha e do meu coração lerdo. Minha e da minha imaginação pra lá de maluca. Então, com sua licença, deixe eu e minha culpa em paz. Eu e meu delicioso perdão por mim mesma. Eu só te peço uma coisa. Pare de culpar a vida. Pare de ter pena de você. Se assuma. Se aceite. Se culpe. Se estrepe. Se mate. Mas se perdoe. Pelo amor de Deus, se perdoe." (Fernanda Mello)

sábado, 4 de dezembro de 2010

Cilada...

"Se, por medo da frustração, a gente esquece os sonhos mais preciosos que tem e não espalha ações pelo caminho com a intenção de realizá-los, como eles podem lembrar que a gente existe?"
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(Ana Jácomo)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Nunca cabe...

"A verdade é que a vida é assim, a gente não precisa de tanto quanto imaginamos que precisamos pra ser feliz, a gente precisa só daquilo que cabe aqui dentro e que faz bem, e aqui dentro não cabe muito do que nos fere, nunca cabe."

(Thaisa Schelles)

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Espinho...

"Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
de ser o coração singelo que perdoa,
a solícita mão que espalha, sem medidas,
estrelas pela noite escura de outras vidas
e tira d’alma alheia o espinho que magoa."
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(Helena Kolody)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Político...

Charmoso insensível, sabia bem da arte de capturar corações; e ainda que partisse alguns, tudo bem, outras mais conquistava. Por vezes falava das coisas bonitas do mundo; não porque eram bonitas em si, mas sim porque bonitas eram as pernas de suas interlocutoras. Refinado nos predicados sutis da eloquência, permeava-se pelos corações o seu intento. Colecionar aventuras e romances como diplomas a se gabar na parede de sua sala. Queria marcar territórios, ser aplaudido em todos os seus encontros, conquistar sei lá o quê.  Exercia deste modo, a ditadura do carisma sem se deixar perceber, envolvendo toda e qualquer uma em seu labirinto de elogios; em armadilha emocional de colo e carinho. Sua lábia era seu mel e, resistir era inútil. Queria mais, e muitas e todas. Não apenas para saciar sua lascívia, mas para alimentar sua vaidade desmedida. Aproveitou-se assim, de multidões. Impôs todas suas vontades. Canalhocracia era sua política. Devia renunciar em breve. Havia de pagar.

"Política é a arte de servir-se das pessoas dando-lhes a impressão de estar servindo a elas".