quinta-feira, 30 de julho de 2009
Impassível...
terça-feira, 28 de julho de 2009
Meu Amor...
Meu amor perdeu-se. Não sei se um belo dia decidiu fugir de livre e espontânea consciência, ou se foi uma idéia que lhe surgiu de repente. Nunca foi distraído, o meu amor. Nunca deu-se a arroubos de insanidade nem a inconsciências transitórias. Penso que talvez esteja sofrendo de amnésia ou Alzheimer, com sorte quem sabe apenas um surto passageiro de estafa. Sumiu faz algum tempo – tempo demais para este meu coração danado de ansioso – e faz-me uma enormíssima falta. Já não há capuccinos que cheirem a canela, não há livros que me façam chorar. Abandonaram-me as músicas que eu sei de cor e que são obrigatórias por lei serem cantadas com as janelas do carro bem abertas, ou para que os vizinhos ouçam e riam. Enegreceu qualquer coisa que deveria estar por perto e agora não se acha, desertaram os perfumes da terra, da chuva, das manhãs de sono, de cabelos molhados, de café com pão, dos inícios das tardes quentes que contrariam as frentes frias.
Meu amor saiu e não voltou mais e não há o que possa suprir sua falta, não há o que possa ocupar seu lugar. Sem meu amor eu não sou eu, sou o forro roto do meu casaco, a pedra fria da minha casa, sou um corpo deambulante e oco que dormita dia e noite. Se alguém o encontrar, é favor devolvê-lo com a máxima urgência, avisar os bancos de sangue, a polícia militar, chamar a ambulância, convocar a assembléia de condomínio, tocar trombetas, marcar cirurgia, decretar feriado, publicar na imprensa de grande circulação, gritar por mim. Por favor.
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(Patricia Antoniete)
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Sobre a dor...
E ele respondeu:
"Vossa dor é o quebrar da concha que encerra vossa compreensão.
Como a semente da fruta deve se quebrar para que seu coração apareça ante o sol, assim também deveis conhecer a dor.
E aceitaríeis as estações de vosso coração, como sempre aceitastes as estações que passam sobre vossos campos.
E esperaríeis com serenidade durante os invernos de vossa aflição.
É o remédio mais amargo com o qual vosso médico interior cura o vosso Eu doente.
Portanto, confiai no médico, e bebei seu remédio em silêncio e tranqüilidade:
Porque sua mão, embora pesada e dura, é guiada pela suave mão do Invisível.
E a taça que ele vos dá, embora queime vossos lábios, foi fabricada com o barro que o Oleiro umedeceu com Suas lágrimas sagradas."
sábado, 25 de julho de 2009
Se não usar seus talentos...
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Mulher detesta receber livro de presente...
Quando decidiram morar juntos, depois de um namoro curto de cinco meses, um projetava grandes expectativas no outro. Um romance saudável não combina com expectativas elevadas: a frustração costuma ser letal. Espere pouco de um caso de amor e as chances de ele florescer são, paradoxalmente, maiores. Eles esperaram muito um do outro, e depois se culparam mutuamente pela decepção.
No final, o que restara de bom fora, apenas, a vida sexual.. Ele não conseguia se deitar ao lado dela na cama sem querer possuí-la. Parecia um feitiço. Ele gostava dos sons dela no sexo, dos gemidos suaves e constantes. Gostava do cheiro dela, do contorno delicado de seu corpo miúdo e bem feito. Do jeito de fechar e de abrir os olhos quando ele estava por cima dela. Gostava da expressão dela quando ficava sobre ele. Uma vez a fotografara assim e depois dera à foto o nome de Orgasmo Poltersgeist. Ela se sentia lisonjeada com o fascínio sexual que exercia sobre ele. Poucas sensações elevam tanto uma mulher quanto a de saber que é desejada. Mas o sexo bom apenas retarda o fim de uma história de amor, não o evita.
“Uma vez você falou que me dava orgasmos como ninguém”, ela disse na conversa final com ele. “Você achava que isso era suficiente. Mas não. Orgasmo uma mulher pode ter com um vibrador. Um casamento é muito mais que uma fábrica de orgasmos. Um casamento é feito fora da cama, não nela. Um casamento se constrói quando estamos de pé, e não deitados.”
Ele riu sozinho. Essa frase dela lembrou a ele uma tirada clássica de Churchill, o líder inglês da Segunda Guerra. “Sente-se em vez de ficar de pé, se você pode. E se deite em vez de ficar sentado, se der.” De Churchill ele se lembrava de outra tirada clássica. Uma mulher dissera a ele, numa festa da aristocracia inglesa, que poria veneno na sua bebida se fosse casada com ele. Churchill replicara que se fosse marido dela tomaria o veneno alegremente.
Ela tinha um vibrador, guardado na gaveta de calcinhas. Comprara pela internet para evitar o embaraço da compra pessoal. Homens se sentem constrangidos ao comprar preservativos, e mulheres sentem o mesmo ao comprar vibrador. Ele viu no vibrador - rosa, delicado, efeminado até, mas eficiente em suas cinco fases de vibração - um competidor. De uma forma estranha ele preferia que, se era para ter orgasmos sem ele, que fosse com outro homem e não com uma maquininha cor de rosa. A aquisição se fizera no final do casamento.
“Você não me enxergava nem nos presentes que dava para mim”, ela disse ao despedi-lo. Olhou para uma esstante cheia de livros que ele lhe dera. Uma mistura exótica e desconexa de letras. Greene, Llosa, Confúcio, Roth, Updike. “Você sabe que eu adoro ler. Ter um bom livro nas mãos me dá um prazer quase sexual.” No momento ela estava lendo A Menina Má, de Llosa. Vagava lenta e com atenção extrema pelas linhas e pelas páginas de Llosa. Ele dizia nos bons tempos, brincando, que ela era sua menina má.
“Mas. Porém. No entanto.” A cada palavra a voz dela subia de tom. “Caraca. Será que você nunca vai entender que mulher detesta receber livro de presente?”
Os amantes que iniciam uma guerra talvez subam aos céus nas reconciliações sexuais, mas inapelavelmente descerão ao inferno para daí não mais saírem, miseravelmente derrotados. O inferno só vai terminar com o fim da relação. Acabado o romance, se o homem e a mulher estiverem inteiros, o máximo que conseguirão dizer de tantas coisas que viveram juntos é: sobrevivi. E não será pouco. Porque muita gente não sobrevive. Digo fisicamente mesmo. Um dos destinos clássicos da guerra amorosa, como na guerra convencional, é o caixão. Uma imagem que trago perene na mente é a do sangue numa calçada em que um casal desvairadamente apaixonado se matou com uma faca. Eu jamais soube quem pegou primeiro a faca. Ou quem morreu primeiro. O fato é que ambos saíram mortos daquela que seria sua última briga.
Eu falei acima do teste. Em casais que decidam testar a tese bélica da revista americana. Mas errei. A guerra no amor, como a globalização, não é escolha. É destino. Os tambores já começam a rufar, anunciando a guerra, quando certos homens e certas mulheres nem trocaram ainda o olhar de flerte. Pode ser que ele, o homem, tenha sido, em todos os outros relacionamentos, tão pacífico quanto uma ovelha tibetana. E ela também. Mas, ao se encontrarem, por alguma química estranha, os exércitos se mobilizam. E não demora muito para que alguém aperte o gatilho.
É o amor neurótico em ação. O amor neurótico é generoso como nenhum outro tipo de amor: proporciona momentos inigualáveis, sobretudo no sexo. E é também cruel como um cossaco russo. (Meu tio Fábio, falecido homem sábio do interior, é que me contava que não havia nada tão cruel quanto um cossaco russo. Jamais conferi a veracidade histórica dessa afirmação, mas confio integralmente na sabedoria de meu tio.) Céu e inferno, inferno e céu.
Uma característica essencial no amor neurótico é que você pega o pacote todo ou não pega nada. Não dá pra ficar com a parte boa e desprezar a ruim. Infelizmente, é impossível ter sexo com alta nota na escala Pacino - Diabo e, ao mesmo tempo, assistir de mãos dadas à novela das 8 comendo pipoca. A fraternidade é uma impossibilidade científica no amor neurótico.
Uma outra característica vital do amor neurótico é que, no princípio o êxtase predomina sobre a fúria. Há muito céu e pouco inferno. Cada vez mais no inferno, cada vez menos céu. Você mal acredita que um dia as coisas andaram tão bem, tão destruidora a relação se tornou. É tempo de encerrar. Isto é, se você ainda estiver vivo para cair fora. Eu quase iria dizendo, pueril e inutilmente: fuja, fuja do amor neurótico enquanto há tempo. Mas não adianta: você é capturado muito antes de se dar conta de que se trata de um amor neurótico. Então termino dizendo apenas a quem está vivendo ou vai viver uma paixão dessas: boa sorte.
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(Fábio Hernandez)
terça-feira, 21 de julho de 2009
Pão bolorento...
Aquela era a noite de jantar na casa do amigo. Seu melhor amigo, se dá pra dizer que homem tem dessas coisas. Gostava mesmo do cara. E também adorava acasa dele, a mulher dele, os filhos dele. Da vida dele. E dele. Mas, é claro também, não pretendia dizer isso nunca.
Era um gostar que passava longe da inveja, da ziquizira. Estava mais pro suspiro de satisfação diante de uma sobremesa gostosa. Era um alento saber que existia uma relação com o que ela implica-- mulher, família, contas, empregadas, vícios-- e que, ainda assim, deixava espaço para amigos e boa bebida.
Pronto, ficou. Toca pra lá de novo.
Ah, devia ser. Ele jamais faria besteira com aquela mulher ou aquela família. Com aquela vida. Jamais colocaria em risco aquilo tudo.
O álcool é mesmo uma merda: nos faz duvidar da sanidade até de quem conhecemos a encarnações. Se tinha certeza de algo na vida, era a de que ele nunca colocaria em risco aquilo tudo. O risoto estava ótimo. Como sempre.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Personagens...
Esta é uma história sobre quatro pessoas: Todo mundo, Alguém, Qualquer um, Ninguém .
Havia um importante trabalho a ser feito e TODO MUNDO tinha certeza de ALGUÉM o faria.
QUALQUER UM poderia tê-lo feito, mas NINGUÉM o fez.
ALGUÉM zangou-se porque era um trabalho de TODO MUNDO.
TODO MUNDO pensou que QUALQUER UM poderia fazê-lo, mas NINGUÉM imaginou que ALGUÉM ou mesmo TODO MUNDO deixasse de fazê-lo.
Ao final, TODO MUNDO culpou ALGUÉM quando NINGUÉM fez o que QUALQUER UM poderia ter feito.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
"Urubus comedores de carniça..."
“Yellow journalism is a type of journalism that downplays legitimate news in favor of eye-catching headlines that sell more newspapers. It may feature exaggerations of news events, scandal-mongering, sensationalism, or unprofessional practices by news media organizations or journalists” - Wikipedia gringa sobre yellow journalism, o equivalente a imprensa marrom.
A imprensa brasileira, mais uma vez, nos presenteia com um show de horrores, transformando a tragédia pessoal de alguns num espetáculo de todos. O que se assiste na televisão, nos portais e nos jornais é um caldo de notícias desencontradas, não-confirmadas e cruelmente manipuladas para dar um toque de sensacionalismo barato. O blog Salve a Rainha teceu ontem um comentário mirando nas headlines sobre o acidente aéreo que ocorreu nesta segunda-feira de uma maneira que não concordo, mas acabou acertando em cheio nos despropósitos daqueles que deveriam informar em favor da verdade.
A verdade é que o acidente com o voo da Air France deve ter uma explicação, tem que ter investigação e informações oficiais sobre esforços de buscas afim de um desfecho devem ser noticiadas. Só isso? Trata-se de algo que já daria muito trabalho a jornalistas sérios para pesquisar e informar. Entretanto, não é este o único esforço de enormes equipes, que dizem praticar jornalismo sério. É tanta pauta que sobra até para uma Ana Maria Braga entrevistar especialistas sobre aviação e engenharia aeronáutica.
Como o referido post do blog Salve a Rainha insiste, o que adianta noticiar que havia um casal em lua de mel no voo? De que vale para a busca dos fatos saber que um dos passageiros tinha medo de voar? Por trás desta humanização de uma notícia, afim de torná-la mais próxima de nós, reles mortais que poderiam estar num voo com um trágico e igual fim, o jornalismo marrom praticado pela imprensa brasileira exibe cada detalhe de carniça sensacionalista para ávidos leitores, hipnotizados pelo mistério e pela esperança de um desfecho milagroso.
Duas coisas devem ser comentadas sobre o que está ocorrendo neste momento em uma série de redações canarinhas:
1. Nesta busca pela headline mais impactante, quanto esforço está sendo colocado para cutucar a ferida daqueles que estão num momento difícil? Será o mesmo esforço que o jornalista está fazendo para entender laudos técnicos que virão a seguir para não ficar repetindo termos como grooving, reversor ou transponder, entre outros repetidos de maneira vazia no passado, em um infográfico para leigos?
2. Vale mesmo a pena correr atrás da melhor headline em detrimento de dar a notícia corretamente? Se valer, o que impede um jornalista destes de tentar comprar, por exemplo, um assessor de imprensa para que ele forneça comunicados oficiais vazios apenas para que sua equipe tenha um “furo”? Aqui vai uma notícia para vocês: não impede e eu tenho convicção que alguns colegas assessores de imprensa que já passaram por um gerenciamento de crise sério como este já receberam assédios semelhantes.
Há algo muito mais podre do que toda a coleção de discussão sobre ética em blogs elevada ao quadrado nestas fábricas de notícias. E onde há podridão, não podem faltar os urubus de plantão. Eu não desejo uma tragédia pessoal que alardeie a opinião pública na vida de ninguém, pois só quem já viu de perto sabe como lambe o beiço (ou o bico) um jornalista marrom louco pela notícia. Parafraseando os Racionais MCs, urubus filhos da puta, comedores de carniça.
Mas eu ainda não acabei. Nós aqui do time do Social Media, a turminha descolada do Twitter e dos blogs que adora uma confusão, que faz história, vira mito e revoluciona a comunicação, não somos mais do que expectadores deste showzinho sem fim, auxiliando o conteúdo da web com piadinhas de gosto duvidoso, boatos que são espalhados sem a menor noção do que está sendo provocado por ele, e, claro, a tonelada de posts para atrair paraquedistas torpes querendo fotos de cadáveres. Não é melhor em nada do que as práticas dos jornalistas descritos neste post.
Para finalizar este post grande, uma notícia a todos que esperam pela porra da lista de passageiros, como já ouvi por aí: a França não permite que se espetacularize uma notícia. Cada uma das famílias é acionada e, em geral, opta por não vincular o nome da vítima ao acidente. Lá, a imprensa respeita (ou é obrigada a respeitar) cada uma das famílias e amigos, que não podem ser importunados, tomar microfonada, nada. Como a empresa é francesa, tal qual uma boa parte das vítimas deste voo, investiga-se lá e respeita-se as regras de lá. Se alguém mencionar algum tipo de lei para fazer o mesmo por aqui, provavelmente vai ter que ouvir muita ladainha sobre censura, ditadura e liberdade de imprensa. Que me desculpem os colegas comunicadores e me chamem de direitista, eu opto pelo bom senso.
Desejo força aos familiares e amigos das vítimas e um caloroso abraço aos amigos jornalistas sérios que querem os fatos e que ajudaram com as informações deste post."
.. daqui.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
terça-feira, 14 de julho de 2009
O alvo...
"Eu falo de amor à vida,
Você de medo da morte.
Eu falo da força do acaso
E você de azar ou sorte.
Eu ando num labirinto
E você numa estrada em linha reta.
Te chamo pra festa,
Mas você só quer atingir sua meta.
Sua meta é a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Eu olho pro infinito
E você de óculos escuros.
Eu digo: "Te amo!"
E você só acredita quando eu juro.
Eu lanço minha alma no espaço,
Você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era.
E o que era?
Era a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Eu grito por liberdade,
Você deixa a porta se fechar.
Eu quero saber a verdade
E você se preocupa em não se machucar.
Eu corro todos os riscos,
Você diz que não tem mais vontade.
Eu me ofereço inteiro
E você se satisfaz com metade.
É a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa não te espera!
Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?
Sempre a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?"
segunda-feira, 13 de julho de 2009
O livro de Mirdad...
A PALAVRA CRIADORA
As coisas, sejam quais forem as suas formas e espécies, são somente véus e ataduras com que a Vida está atada e velada. Como poderão os vossos olhos, que são em si mesmo um véu e uma atadura, levar-vos a algo que não seja às ataduras e véus?
E as palavras? Não são elas seladas por letras e sílabas? Como poderão os vossos lábios, que são em si mesmo selos, balbuciar algo que não seja selo?
Deixai as coisas como elas são e não vos esforceis para modificá-las. Porque elas parecem ser o que parecem devido a vós parecerdes o que pareceis. Se elas vos falarem asperamente, atentai para vossas línguas. Se vos parecem feias, procurai a fealdade, em primeiro e último lugar, nos vossos próprios olhos. Não deveis pedir às coisas que se dispam dos seus véus. Tirai vós próprios os vossos véus, e elas perderão os seus.
Pelo mero pronunciar eu, trazeis à vida uma multidão de palavras, cada qual símbolo de uma coisa; cada coisa, símbolo de um mundo; cada mundo, parte de um universo. Esse universo é criação do vosso eu, o qual é, ao mesmo tempo, o criador e criatura. Se houver alguns duendes em vosso universo, podeis estar certos de que foi o vosso eu quem os criou. Conforme for a vossa consciência, assim será o vosso eu. Conforme for o vosso eu, assim será o vosso mundo. Se o vosso eu for uno, o vosso mundo será uno; e vós tereis a paz eterna com todas as hostes celestiais e os habitantes da Terra. Se o vosso eu for múltiplo, o vosso mundo será múltiplo; e estareis em perpétua guerra com vós mesmos e com todas as criaturas dos domínios imensuráveis de Deus.
O que é ciume?
De outra maneira, se você deixa de comparar, o ciúme desaparece. Assim você simplesmente sabe que você é você e ninguém mais, e que não há nenhuma necessidade de ser outro alguém. É bom que você não se compare com as árvores, senão você começaria a se sentir muito ciumento: porque você não é verde? E porque Deus tem sido tão duro com você – e nenhuma flor? É melhor você não se comparar com os pássaros, com os rios, com as montanhas; do contrário você irá sofrer. Você só se compara com os seres humanos, porque você foi condicionado a só se comparar com os seres humanos; você não se compara com os pavões e com os papagaios. Senão seu ciúme seria bem maior; você estaria tão sobrecarregado de ciúmes que você não seria capaz de viver de maneira nenhuma.
A comparação é uma atitude muito tola, porque cada pessoa é única e incomparável. Uma vez que esse entendimento se estabelece em você, o ciúme desaparece. Cada um é único e incomparável. Você é apenas você mesmo: ninguém nunca foi como você e ninguém nunca será como você. E você também não precisa ser nenhum outro.
. Deus cria somente originais; ele não acredita em cópias carbono.
Um grupo de galinhas estava no quintal quando uma bola de futebol passou por sobre a cerca e caiu no meio delas. Um galo chegou gingando, estudou-a, e então disse, “Não estou reclamando garotas, mas vejam o trabalho que eles estão fazendo no vizinho ao lado”.
Na porta do vizinho grandes coisas estão acontecendo: a grama é mais verde, as rosas são mais rosadas. Todo mundo parece estar tão feliz – exceto você. Você está continuamente comparando. E a mesma coisa está acontecendo com os outros, eles também estão comparando. Talvez eles também achem que seu gramado é mais verde – sempre parece mais verde à distância – que você tem uma esposa mais bonita... Você está cansado, você não pode acreditar como você permitiu se envolver com essa mulher, você não sabe como se livrar dela – e o vizinho pode estar com ciúmes de você, que você tem uma mulher tão bonita! E você pode estar com ciúmes dele...
Todo mundo tem ciúmes de todo mundo. E com ciúmes criamos um tal inferno, e com ciúmes nos tornamos muito medíocres.
Um velho fazendeiro estava mal-humoradamente avaliando os estragos da inundação. “Hiram!” Gritou o vizinho, “seus porcos foram todos levados pela correnteza”.
“E quanto aos porcos do Thompsom?” Perguntou o fazendeiro.
“Eles também foram levados”.
“E os de Larsen?”
“Também”.
“Hum!” Exclamou o fazendeiro, comemorando. “Não foi tão ruim como eu pensava”.
Se todos estão na miséria, isso parece bom; se todos estão perdendo, isso parece bom. Se todos estão felizes e bem sucedidos, isso tem um sabor muito amargo.
Mas por que antes de tudo a idéia do outro entra na sua cabeça? Deixe-me lembrá-lo novamente: porque você não permitiu sua própria seiva fluir; você não permitiu sua própria felicidade brotar, você não permitiu seu próprio ser florescer. Daí você se sentir vazio no íntimo, então você olha para o exterior de cada um e de todo mundo porque isso é só o que você pode ver.
Você conhece seu íntimo e você conhece o exterior dos outros: isso gera ciúmes. Eles conhecem seu exterior e eles conhecem o interior deles: isso gera ciúmes. Ninguém mais conhece seu íntimo. Lá você sabe que você não é nada, não vale nada. E os outros parecem tão sorridentes exteriormente. O sorriso deles pode ser falso, mas como você pode saber que são falsos? Talvez seus corações sejam também sorridentes. Você sabe que seu sorriso é falso porque seu coração não está sorrindo de maneira alguma, ele pode estar lamentando e chorando.
Você conhece sua interioridade, e só você a conhece, ninguém mais. E você conhece o exterior de todos, e as pessoas fizeram o exterior delas parecer bonito. Exteriores são vitrines e são muito enganadoras.
Há uma antiga história Sufi:
Um homem estava muito oprimido pelo seu sofrimento. Ele costumava orar diariamente a Deus, “Porque eu? Todos parecem ser tão felizes, porque só eu estou sofrendo tanto?” Um dia, em grande desespero, ele orou a Deus, “Você pode me dar o sofrimento de qualquer um outro e estou pronto para aceitar isso. Mas leve o meu, não posso mais suportá-lo”.
Aquela noite ele teve um belo sonho, belo e muito revelador. Ele sonhou naquela noite que Deus aparecia no céu e dizia para todos, “Tragam todos os seus sofrimentos para o templo”. Todos estavam cansados de sofrer – na verdade todos tinham orado alguma vez ou outra, “Estou pronto para aceitar o sofrimento de qualquer um outro, porém leve o meu sofrimento, é demais, é insuportável”.
Assim todo mundo colocou seu próprio sofrimento em sacolas e levaram para o templo e todos pareciam muito felizes; o dia havia chegado, suas preces foram ouvidas. E esse homem também correu para o templo.
E então Deus falou, “Coloquem suas sacolas na parede”. Todos as sacolas foram colocadas na parede e então Deus declarou: “Agora vocês podem escolher. Podem pegar qualquer sacola”.
E a coisa mais surpreendente foi: que esse homem que tinha estado sempre orando, correu em direção a sua sacola antes que alguém mais pudesse escolhê-la! Ele contudo, ficou surpreso porque todo mundo correu para sua própria sacola e todos estavam contentes com a escolha. O que aconteceu? Pela primeira vez, todos viram a miséria dos outros, o sofrimento dos outros – as sacolas deles eram tão grandes, ou até mesmo maiores!
E o segundo problema era, as pessoas tinham se acostumado com os seus próprios sofrimentos. E agora escolher o sofrimento de outra pessoa – quem sabe que tipo de sofrimento estará dentro da sacola? Pra que se incomodar? Pelo menos você está familiarizado com o seu próprio sofrimento e você já está acostumado com ele, e ele é suportável. Por tantos anos você o tolerou – porque escolher o desconhecido?
E todos foram para casa felizes. Nada havia mudado, eles estavam trazendo o mesmo sofrimento de volta, mas todos estavam felizes e sorridentes e alegres porque conseguiram suas próprias sacolas de volta.
Pela manhã ele orou para Deus e disse, “Grato pelo sonho; nunca mais pedirei novamente. Tudo que você me tem dado é bom para mim, tem que ser bom para mim; eis porque você me deu isso”.
Devido ao ciúme você está em constante sofrimento; você torna-se medíocre para os outros. E por causa do ciúme você começa a ficar falso, porque você começa a fingir. Você começa a fingir coisas que você não possui, você começa a fingir coisas as quais você não pode ter, que não são naturais a você. Você se torna cada vez mais artificial. Imitando os outros, competindo com os outros, que mais você pode fazer? Se alguém tem alguma coisa e você não tem, e você não tem a possibilidade natural de ter isso, o único jeito é arranjar algum substituto barato para isso.
Eu soube que Jim e Nancy Smith divertiram-se muito na Europa nesse verão. É tão legal quando um casal finalmente tem a oportunidade de realmente viver bem. Eles estiveram por toda parte e fizeram de tudo. Paris, Roma... Você diz o nome, eles estiveram lá e viram tudo.
Porém foi tão embaraçante voltar para casa e passar pela alfândega. Vocês sabem como a os oficiais da alfândega espionam todos os seus pertences. Eles abriram uma sacola e tiraram três perucas, cuecas de seda, perfume, tintura para os cabelos... Realmente embaraçante. E era apenas a sacola de Jim!
Basta olhar para dentro de sua mala e você irá encontrar tantas coisas artificiais, falsas, coisas fictícias – pra que? Porque você não pode ser natural e espontâneo? – devido aos ciúmes.
O homem ciumento vive no inferno. Pare de comparar e os ciúmes desaparecem, a mediocridade desaparece, a falsidade desaparece. Mas você só pode deixá-los se seus tesouros íntimos começarem a crescer; não existe outra maneira.
Cresça, torne-se um individuo mais e mais autêntico. Ame e respeite a si mesmo do jeito que Deus lhe fez e então, imediatamente, as portas do paraíso se abrem para você. Elas sempre estiveram abertas, você simplesmente nunca deu atenção a elas.
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(Osho, Extraído de: The Book of Wisdom, Chapter 27)
