terça-feira, 17 de março de 2009

O amor é uma doença...

Eu não sei guardar coisas. Se eu compro chocolates, como todos no mesmo dia. Se eu compro balas, chicletes, devoro todos em minutos, compulsivamente. Detesto saber que algo me espera, quero acabar logo com aquilo.
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Não sei lidar com a responsabilidade da felicidade. A felicidade guardada na bolsa ou na vida. Eu tenho um homem lindo me esperando essa hora, e eu quero com todas as células do meu corpo ir ao encontro dele. Mas eu não sei lidar com tanta felicidade, por isso estou planejando a morte dele.
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Estou planejando matá-lo com minha estupidez, quero que ele morra fulminado pelas minhas armas de boicote. Quero que ele perceba o quanto sou chata, ciumenta, louca e doente. E que ele enjoe logo da minha cara abatida de intensidade. Que ele pegue logo bode do meu cansaço em viver tanto, porque vivo muito mesmo quando estou deitada olhando para um ponto fixo.
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É tão cansativo ser eu mesma com todos os meus medos e neuroses, e quero que ele sinta o fardo do meu peso. Morra e me liberte dessa alegria incontrolável. Passe desta para uma melhor, porque eu sou um lixo.
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Eu lembro daquele conto da Clarice em que a garotinha ruiva guardava os contos para ler depois, porque queria prolongar o mistério da felicidade. Pois eu quero mais é botar fogo em todos os contos de felicidade que a vida escreve para mim, porque por alguma razão maluca a felicidade me escraviza, me paralisa, me faz ficar triste. Eu olho para você e tenho tanta, mas tanta alegria em saber que você existe, que sinto ódio. Ódio de eu não mais esperar por você.
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O sentido da minha vida era encontrar você. O motivo para eu seguir adiante nos corredores escuros e bater em portas obscuras, era a sua busca. Agora que você está sentado numa sala clara e óbvia, não preciso mais me enfiar em buracos. Mas os buracos eram a única trilha que eu conhecia.
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Você me soltou na atmosfera e eu estou voando. E eu sinto saudades do buraco, da espera, da angústia. Eu sinto falta de olhar triste para o espelho e me sentir metade. Agora que eu tenho você, nem perco mais meu tempo olhando para o espelho, porque só tenho olhos para você. Você me roubou de mim mesma. E eu sou tão ciumenta que estou com ciumes de mim. Você me tirou da minha vida incompleta. E me transformou numa completa idiota. O amor é uma doença. Eu sinto náuseas, febres, dores musculares. Eu acordo assustada no meio da noite. Eu choro à toa.
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Eu estava do lado da sujeira, eu era a outra, eu estava por dentro do crime. Você me fez sentir um mundo limpo, verdadeiro e eterno. E esse mundo é tão novo pra mim, que eu te odeio. Que eu estou pequena nele, e preciso de você o tempo todo para me abraçar e dizer que está tudo bem. E quando você não está por perto, eu caio. Porque não sei nada desse mundo de alegrias e coisas bonitas. Você não me deu saída. Você transformou todas as vozes que me davam escapatórias para outros corredores, em sons sem lábia. Minhas saídas perderam as escadas escuras e charmosas, porque você lavou meu chão de imundícies com amaciante Fofo.
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Se eu tentar fugir, escorrego no perfume da minha nova vida. A nova vida que não sei viver. A nova vida que quero viver ao seu lado. Ao lado do homem que eu odeio porque nunca amei tanto.
Ao lado da felicidade que eu odeio porque se ela acabar, não sei mais se consigo voltar pra casa. E nem se quero.
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Era eu, entende? Era eu que me atracava com o lado errado da vida para estar sempre certa. Era eu a resposta para todas as perguntas que ninguém tem coragem de perguntar. Sim, o mundo é imperfeito, as pessoas traem, o amor não existe, seu marido me come, seu namorado me come, o mundo quer me comer enquanto você borda seu laço cor-de-rosa.
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Agora eu estou aqui, inconformada com o seu passado, querendo matar suas lembranças. Com ciumes do seu silêncio porque ele está com você há mais tempo do que eu e eu tenho medo do quanto ele te consome, com ciumes do seu sono porque ele te leva do meu foco.
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Com raiva da sua importância porque ela me congela, com raiva do tempo que não dura para sempre quando você me olha sabendo das minhas loucuras e ainda assim me amando. Agora eu estou aqui, querendo que todos os amores do mundo durem para sempre, e que nenês nasçam, e que árvores cresçam e que garoras vagabundas não nos invejem e que os desejos das nossas sombras não nos traia.
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Agora eu estou aqui, de quatro, de lingua no chão, te odiando muito, virando a cara, socando você, cuspindo em você, te tratando mal, tudo isso porque não sei lidar com o mundo girando na minha barriga, a tontura do amor, o enjôo do vício em você, a dor do músculo quando me separo.
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Pode parecer maluco, mas todas as minhas súplicas para que você desista de mim, é um jeito maluco de pedir que você não desista nunca, pelo amor de Deus.
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(Tati Bernardi)

Amor de Florbela

"Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...

Versos! Versos! Sei lá o que são versos..
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!...

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via Láctea fechando o Infinito!...

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia...
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!

Mas a minha tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para gritar num verso a minha Dor!..."
(Florbela Espanca)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Medo...

Diante das minhas lágrimas, tenho medo.. muito medo.. d´eu ter fechado as portas do amor pra mim! Porque ninguém mais carrega as chaves.. se eu vê-las fechadas, saberei quem fechou!
Tenho medo de machucar..
Tenho medo de não..
Tenho medo do sim..
Dói,
E sei que vai passar.
Mas dói agora, e agora, eu sou!
Tenho medo de viver em fortalezas que construi, na armadura que confeccionei
.. por medo!
Quero deixar o caminho, abandonar a procura! Deixar de ir, que apenas venha!
Quero abandonar, mas que não me abandonem! Dentro de mim, minha grandeza e pequenez andam juntas..
Que a paz venha abrandar a nossa alma, os nossos corações
E o porvir venha me confirmar aquilo que eu sempre soube, mas que agora, esqueci!
De que tudo vai dar certo, porque na verdade, já deu!

domingo, 15 de março de 2009

A vida fica...

"Não se engane, meu amor, não se engane. A vida não passa. a vida fica, cada vez mais.
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Sabe aquele sorriso de ontem, o menino chorando agarrado ao pai, a bomba de creme da padaria, a vez que mandaste o chefe à merda, o gemido de prazer, o gol perfeito, o sol sobre o mar e o vento com maresia, o anel perdido, a tarde de férias, o amigo morto, o cheiro do cabelo da primeira namorada, a irritação com o taxista, a cerveja gelada entre os amigos que não mais se encontraram, o dia do casamento, a palavra mais dura de todas, o porre de Ano Novo, o cigarro na janela sobre os telhados, o abraço no saguão do aeroporto, o bolo de Fubá da avó, o livro roubado da biblioteca, a gripe mal curada, a manhã de domingo, o café com pão quentinho, o assalto à mão armada, a nuvem em formato de cachorro, aquele poema inacabado, a covardia de não ter tentado, o amor impossível?
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Fica. Tudo isso e todo o resto ficam.
A vida fica nos olhos, nas mãos, nas rugas nos cantos da boca, nos cabelos que aos poucos ganham as cores do tempo e dos invernos, nas pernas mais fracas, mais bambas, mais trôpegas e cada vez mais cansadas de levantar depois de cada tombo.
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A vida fica cada vez mais nos pulmões e no peito, com rastros de gritos e gargalhadas, soluços, rancores, tristezas, nas costas fica a vida como cicatriz das asas arrancadas, dos punhais, no encurvar dos ombros que suportam a carga dos anos e das culpas, fica a vida, cada vez mais a vida, que nunca passa. Fica nos planos dentro da gaveta, trancados e cheirando a mofo, fica na boca com gosto de comida e riso, de beijos, das palavras que não queríamos ter dito, das palavras que não deveríamos ter deixado de dizer.
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Não se engane, meu amor, não se engane. A vida não passa, não. A vida fica, cada vez mais, sempre e sempre mais.
Fica incrustada na pele que ganha marcas, que perde a cor, que fica opaca.
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Fica nas artérias, nos lábios que enrugam dos carinhos e dos assovios, das músicas e orações desaprendidas, nos ouvidos que vão ensurdecendo de desouvir.
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Fica nos pés tortos e calejados do andar incessante do mundo, no ventre que vai secando de desistências e recomeços, nos olhares cegos de desatenção e desmemória, nos braços enfraquecidos pela solidão construída palmo a palmo ao nosso redor, nas frustrações e nas canalhices, nas pequenas maldades debaixo das unhas, nas desconfianças mesquinhas atrás das orelhas, no amargo da língua cheia de ressentimentos.
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A vida não passa, meu amor, não se engane. A vida não passa, não. Nada disso vai passar. O tempo minora e ajeita, recobre a pele arrancada, mata o viço do brilho de outrora, mas a vida fica, sempre e cada vez mais, e se acumula e nos torna exatamente aquilo que fizemos e faremos dela. Exatamente.
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Portanto, meu amor, tenhamos coragem.
Façamos com a vida o que queremos que ela faça de nós."
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(Patrícia Antoniete)

sexta-feira, 13 de março de 2009

The Giving Tree..

Existiu certa vez uma árvore muito antiga e majestosa, com galhos que se estendiam para o céu. Quando ela florescia, borboletas de todas as formas, cores e tamanhos dançavam à sua volta. Quando ela dava frutos, pássaros vinham de longe para se empoleirar em seus galhos. Eles eram como braços abertos ao vento, à espera dos que procuravam sua sombra.
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Havia um garotinho que costumava brincar todos os dias sob essa árvore e ela passou a cultivar uma grande afeição por ele. O grande, o ancião, pode se afeiçoar ao pequeno e jovem se não tiver consciência de que é grande. A árvore não tinha essa consciência - só os seres humanos têm esse tipo de conhecimento - no entanto, afeiçoou-se ao garoto. O ego sempre tenta amar o que é grande, sempre procura se relacionar com o que é maior que ele. Mas, para o amor, ninguém é grande ou pequeno. Ele abraça qualquer um que esteja por perto.
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Assim, a árvore nutriu um grande amor por esse menino que costumava brincar perto dela. Seus galhos eram altos, mas ela o curvava e os inclinava para baixo, de modo que ele pudesse colher suas flores e comer de seus frutos. Ao contrário do ego, o amor está sempre pronto a se curvar. Se alguém tenta se aproximar do ego, ele procura se elevar ainda mais, esticando-se ao máximo para que não seja possível alcançá-lo. Todo aquele que é acessível, ele considera pequeno. Mas o que não se deixa atingir, o que está no trono do poder, ele considera grandioso.
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O garotinho vinha brincar e a árvore curvava seus galhos. Quando ele colhia suas flores, a árvore ficava radiante, todo o seu ser era preenchido com a alegria do amor. O amor sempre fica feliz quando pode dar alguma coisa; o ego só fica satisfeito quando consegue algo para si.
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O menino cresceu. Às vezes ele dormia sob a árvore, ás vezes comia seus frutos e outras vezes fazia uma coroa com suas flores e fingia que era o rei da selva. Qualquer um de nós vira rei quando está cercado pelas flores do amor, mas tornamo-nos pobres e miseráveis quando os espinhos do ego ferem a nossa pele. Ver o garoto usando a coroa de flores e dançando ao redor dela, enchia a árvore de alegria; ela balançava de amor e cantava ao sabor da brisa. O menino cresceu mais ainda e virou um rapaz. Ele começou a subir na árvore e a se balançar em seus galhos. A árvore sentia imensa alegria quando ele descansava em seus galhos. O amor fica feliz quando dá conforto a alguém; o ego só fica feliz quando tira o conforto de alguém.
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À medida que o tempo passava, o rapaz começou a ter outras tarefas e obrigações. Sua ambição aumentou; ele tinha de passar nas provas, tinha amigos a quem superar e por isso deixou de visitar a árvore com tanta frequência. Mas a árvore continuou esperando por ele ansiosamente. Chamava-o com toda a sua alma: - Venha, venha! Estou esperando você! - O amor sempre espera pela pessoa amada. O amor é uma espera. A árvore ficava triste quando o rapaz não vinha. O amor só tem uma tristeza: quando não pode ser compartilhado; o amor se entristece quando não pode se entregar; mas, quando pode se render totalmente, o amor é extremamente feliz.
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O rapaz ficou mais velho e quase não vinha mais visitar a árvore. Todos os que crescem e se tornam grandes no mundo da ambição têm cada vez menos tempo para o amor. O rapaz era agora ambicioso e só encontrava tempo para assuntos mundanos: "Árvore? Que árvore? Por que eu deveria visitá-la?"
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Um dia, quando ele passava, a árvore o chamou: - Ouça! Estou esperando-o, mas você nunca vem. Espero por você todos os dias!
- Por que você acha que eu tenho de ver você? O que você tem para me dar? - retrucou o rapaz. - Estou atrás de dinheiro. - O ego sempre tem uma motivação. - O que você tem a me oferecer? Só vou vê-la se receber algo em troca. - O ego sempre quer um motivo, um propósito. O amor não precisa de motivos nem propósitos. Poder amar é a sua maior recompensa.
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Chocada, a árvore disse: - Você só virá se eu lhe der algo em troca? Eu só posso dar o que tenho. - Aquele que nega não ama. O ego nega, o amor dá incondicionalmente. - Mas eu não tenho dinheiro. Isso é uma invenção humana. Nós, árvores, não temos essa doença e somos felizes assim. Flores brotam em nós. Frutos pendem de nossos galhos. Oferecemos uma sombra refrescante. Dançamos com a brisa e cantamos canções. Pássaros inocentes empoleiram-se nos nossos galhos e gorjeiam porque não temos dinheiro algum. No dia em que nos preocuparmos com dinheiro, também passaremos a ser fracas e miseráveis como os seres humanos, que frequentam templos e ouvem sermões sobre como conquistar a paz, como encontrar o amor... Não, nós não temos dinheiro nenhum.
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- Então por que eu deveria vir aqui? - perguntou o rapaz. - Eu tenho de ir aonde há dinheiro. Eu preciso de dinheiro. - O ego quer dinheiro porque dinheiro é poder. O ego precisa de poder.
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A árvore refletiu profundamente e então teve uma idéia: - Faça o seguinte. Colha os meus frutos e coloque-os à venda. Assim você ganhará dinheiro!
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Os olhos do rapaz brilharam. Ele subiu na árvore e colheu todos os frutos, até mesmo os que estavam verdes. A violência dele fez com que os galhos se quebrassem e folhas fossem arrancadas, mas a árvore ficou feliz e satisfeita. Mesmo a dor traz felicidade ao amor. Mas o ego, mesmo quando ganha algo, não fica feliz.
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O rapaz nem sequer se voltou para agradecer a árvore. Mas ela nem notou. Sentia-se grata só pelo fato de o rapaz aceitar sua oferta de amor: colher e vender seus frutos.
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O rapaz ficou muito tempo sem aparecer. Ele ganhara dinheiro e estava ocupado tentando fazer com que ele se multiplicasse. Esquecera totalmente da árvore. Anos se passaram. A árvore ficou triste. Ela esperava ansiosametne que ele voltasse, como a mãe que procura o filho perdido, com os seios repletos de leite. Todo o seu ser anseia pela criança, busca desesperadamente encontrá-la para que possa sentir algum alívio. Assim era o choro interior da árvore. Todo o seu ser estava em agonia.
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Depois de muitos anos, o rapaz, já adulto, voltou para ver a árvore.
- Aproxime-se, venha me abraçar - pediu a árvore.
- Que bobagem é essa?! - respondeu o homem. - Não sou mais criança. - O ego considera o amor uma bobagem, uma fantasia infantil.
Mas a árvore lhe fez um convite: - Venha, balance nos meus galhos. Venha dançar comigo!
- Pare com essa conversa fiada! - replicou o homem. - Quero construir uma casa. Você pode me dar uma casa?
- Uma casa?! - exclamou a árvore. - Eu não preciso de casa para viver.
Só os seres humanos vivem em casas. Nenhum outro ser deste mundo vive numa casa, a não ser o homem. E veja as condições em que ele está! Em que condição está esse homem que vive confinado entre quatro paredes? Quanto maior a casa, mais insignificante o homem se torna.
- Nós não precisamos de casa para morar - disse a árvore. - Mas você pode cortar meus galhos e construir com eles uma casa.
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Sem perder tempo, o homem foi buscar um machado e cortou todos os galhos da árvore. A árvore se tornou apenas um tronco nu. Mas ela estava feliz assim. O amor fica feliz mesmo quando seus membros são mutilados pelo ser amado. Amor é doação; o amor está sempre pronto para compartilhar.
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O homem não se deu ao trabalho de agradecer à árvore. Construiu sua casa. Os dias se passaram e se transformaram em anos.
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O tronco não se cansou de esperar. Ele queria chamar o homem, mas não tinha nem ganhos nem folhas que lhe dessem uma voz. O vento soprava, mas ele não tinha como chamá-lo. Mas, em sua alma, ainda ressoava um único apelo: - Venha, venha meu bem-amado. Venha!
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Um longo tempo se passou e o homem foi ficando velho. Certa vez, ele estava passando pela árvore e resolveu parar.
- O que mais posso fazer por você? - perguntou a árvore. - Faz tanto tempo que você não vem!
- O que pode fazer por mim? - perguntou o velho. - Meu desejo é viajar por terras distantes e ganhar mais dinheiro. Mas para isso preciso de um barco.
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Alegremente, a árvore disse: - Corte meu tronco e faça com ele um barco. Ficarei muito feliz em ser um barco e em ajudá-lo a ganhar mais dinheiro em terras distantes. Só não deixe de tomar cuidado e de voltar logo. Estarei esperando a sua volta.
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O homem trouxe uma serra, cortou o tronco, fez um barco e se pôs a navegar.
Agora a árvore era apenas um toco. Ela esperava pela volta do seu amado. Nunca se cansava de esperar. No entanto, já não tinha nada a oferecer. Talvez o homem nunca voltasse; o ego só vai aonde possa ter alguma vantagem. Ele nunca vai aonde não há nada a ganhar.
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Uma noite, eu estava descansando perto do toco da árvore. - Aquele amigo meu não voltou ainda - ela sussurrou para mim. - Estou muito preocupada, pois ele pode ter se afogado ou se perdido. Pode estar perdido num daqueles países distantes. Pode ser que nem esteja vivo. Como eu gostaria de ter notícias dele. Assim eu poderia morrer feliz. Mas ele não viria mesmo que eu pudesse chamá-lo. Não tenho mais nada para lhe dar e ele só entende a linguagem do pegar e tomar..."
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(Resumo do livro "The Giving Tree" (A árvore generosa) de Shel Silverstein.)

quinta-feira, 12 de março de 2009

Ninguém venha me dar vida...

"Ninguém venha me dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferido,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser,
e não quero me encontrar,
que estou dentro de um navio,
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.
Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.
Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis quem não me quis."

(Cecília Meireles, in "Ninguém venha me dar vida")

quarta-feira, 11 de março de 2009

Cagada...

Privada I: o homem e sua obra

"Este ódio de tudo o que é humano, de tudo
o que é 'animal' e mais ainda de tudo que é
'matéria', este horror dos sentidos (...) tudo isso
significa (...) vontade de aniquilamento,
hostilidade à vida, recusa em se admitir
as condições fundamentais da própria vida". (Nietzsche)
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O Homem é o novo rico da natureza. Assim que nos demos conta de que éramos os únicos na vizinhança que falávamos, fazíamos as quatro operações e conseguíamos encostar o dedão no mindinho, ficamos profundamente, irremediavelmente bestas. Cobrimos a pele com panos, penteamos o cabelo pra trás, passamos uma salivinha na sobrancelha, dissemos: adeus, bicho! e saímos da selva.
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Nem mal deixamos o bosque, passamos a esnobá-lo e a condenar as atitudes de todos os seus habitantes. Nós éramos superiores! Nós dominávamos a natureza! Nós usávamos ferramentas, meias e fio dental!
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Novo rico que se preze, no entanto, dá bandeira. Há sempre um douradinho além da conta, um sotaque suburbano escapando num momento de exaltação, um conversível rosa com a placa mom ou dad. Com a humanidade também é assim. Por mais que consigamos trocar nossos odores naturais por mentol, eucalipto ou tutti-frutti, gastemos um bilhão de dólares em pesquisa para criar lâminas capazes de raspar perfeitamente nossos pêlos e cubramos toda acrosta da terra com asfalto e carpete sintético, um ato sempre nos denunciará o passado selvagem, a natureza animal: a cagada. Ali não tem desculpa, não tem disfarce.
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A merda é nossa ligação perene com a floresta, com o barro de onde viemos. Aí não tem talher nem tailleur nenhum que nos diferencie da arara ou do tamanduá. Nus como as trutas, acocorados como os cães, expelimos a verdade universal, fisiológica, cilíndrica e obscura que por tanto tempo tentamos ocultar. Somos animais!
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Temendo uma reflexão mais elaborada sobre o assunto, e sabendo das conseqüências que tamanha verdade traria uma vez revelada, desde cedo cuidamos de camuflar o assunto. Fizemos com a bosta o que fazemos com as putas, as drogas e tudo aquilo que é necessário existir, mas não é preciso divulgar; marginalizamo-la. Condenamos as fezes ao ostracismo.
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No início, enquanto vagávamos nômades, a coisa era bem fácil. O sujeito simplesmente se afastava um pouco da horda, fazia o que tinha de fazer e ia embora, deixando as sujeiras para trás. Estávamos literalmente cagando e andando.
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Quando os primeiros povos dominaram as técnicas de irrigação e, portanto, a agricultura, passaram a viver fixos num determinado local, e defecar ficou um pouquinho mais complicado. O sujeito tinha que sair da aldeia, andar um pouco, achar uma moita, cavar um buraco, fazer e enterrar. Durante muito tempo a coisa rolou assim, trabalhosa, mas sem maiores problemas.
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Foi o crescimento da população e das aldeias que começou a complicar o processo. A moitinha ia ficando cada vez mais longe de casa, corria-sesempre o risco de se encontrar um conhecido por lá e, pior de tudo, cavar um buraco de segunda mão.
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Dizem que foi um bretão chamado Walter Collins que teve a brilhante idéia: cavar um buraco bem fundo no quintal de casa e cercá-lo por paredes. Em pouco tempo a invenção de Walter, assim como suas iniciais, já podiam ser vistas em grande parte do mundo. Parecia que o problema havia sido solucionado. Mas veio a revolução industrial, o grande êxodo para as cidades e os quintais, como se sabe, foram pra cucuia.
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Talvez tenha sido esse o momento mais difícil da humanidade frente aos seus excrementos, o clímax entre o Homem e sua sombra animal. Tivemos que trazer a bosta para dentro de nosso próprio lar. Para que isso fosse possível, bastava que jamais assumíssemos o verdadeiro fim do aposento que covardemente, eufemisticamente, chamamos de banheiro. Sim, meus caros, para não dar nas vistas, inventamos o chuveiro, a banheira, a higiene bucal, o secador de cabelo, o rímel, o blush e o batom, a acne e os tratamentos anti-acne e todas as outras coisas para se fazer ali. Além disso, criou-se um arsenal para se disfarçar o cocô: sprays com odor de rosas, sachês que deixam a água da privada azul, verde ou rosa, exaustores, bidês e papeis higiênicos perfumados.
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Ali, naquele ambiente cientificamente controlado, podemos aliviar as nossas necessidades com o máximo distanciamento possível. Após dar a descarga, nosso cocô é mandado para esgotos submersos, que desembocam em rios que vão dar lá longe no oceano. Sanamos o problema por enquanto, mas é só uma questão de tempo.
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Todo esse cocô está se unindo, formando o maior movimento underground do mundo. Nossas cidades, nossos países estão boiando sobre rios de merda. Fala-se muito no fim do petróleo e no fim da água, mas não será assim que nós morreremos. Numa incerta manhã um cidadão dará a descarga e, como na piada, ouvirá o estrondo: o subsolo, entupido, explodirá. A verdade, reprimida por séculos e séculos, emergirá. Só nesse dia todos perceberão o tamanho dacagada em que nos metemos desde o dia em que resolvemos sair da floresta. Enão haverá sachê nem bom ar que dê jeito.
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Como se sabe, só as baratas sobreviverão.
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(Antônio Prata)

terça-feira, 10 de março de 2009

Tu e Eu..

Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.

Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobo
eu sou mais albônico.
Tu, fão.
Eu, fônico.

És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu, piniquim.
Eu, ropeu.

Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu, multo.
Eu, carístico.

És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu, cano.
Eu, clidiano.

Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu, tano.
Eu, femismo.
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(Luis Fernando Veríssimo)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Prevenção...

Como os assaltos crescem dia-a-dia, não podendo contê-los, a PM, sabiamente, dá conselhos aos cidadãos para serem menos assaltados:

1) Não demonstre que carrega muito dinheiro.
2) Jamais deixe objetos à vista, dentro do carro.
3) Levante todos os vidros, mesmo em movimento.
4) Não deixe documentos no veículo.
5) Na volta, ao se aproximar do carro, verifique se não há alguém suspeito por perto.
6) Não leve objetos de valor nem muito dinheiro para a praia.
7) Se, ao ir à praia, for de carro, coloque o veículo num ponto em que fique ao alcance de sua vista.
8) À noite, em locais escuros, use faróis altos.
9) Não dirija com o braço fora do carro.
10) Ao chegar em casa e antes de descer para abrir o portão, ou esperar por isso, verifique se não há pessoas suspeitas por perto.
11) À noite não se deixe aproximar por veículos com mais de dois homens.
12) Se assaltado, fique calmo. Não faça movimentos bruscos e evite encarar os assaltantes. Não discuta nem reaja.
13) Evite aglomerações. Nos locais em que todos se acotovelam os punguistas agem.

Depois de ler com extrema atenção estas instruções oficiais, acrescento as minhas, ou melhor, resumo:

1) Não saia de casa.
2) Se possível, não saia do quarto.
3) De preferência, não saia do cofre.
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(Millôr Fernandes)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Lennon...

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. (...)
Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos. Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto. Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente. Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo,v ai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.
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(John Lennon)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Pessoa...

"Se à vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios".

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Vinicius...

"Para viver um grande amor,
primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro
e ser de sua dama por inteiro
— seja lá como for".