segunda-feira, 26 de maio de 2008

Castigo Divino...

Um menino nasceu sem os braçoes e sem as pernas e devido a complicações do parto, perdeu a visão de um olho, 20% da audição e não consegue virar o pescoço pra esquerda. Sua vida inteira foi dentro de um hospital, por que devido a um tumor, ele só se alimenta por aparelhos.
Um dia, estava ele assistindo TV com o pai quando passa a enfermeira nova do hospital pelo corredor. Ele vira e grita: "Oh gostosa, vem aqui fazer uma massagem no meu pau!"
O Pai o repreende:
-"Isso é jeito de falar meu filho? Deus pode te castigar!"
-Ah é, e ele vai fazer o quê? Me despentear?"

sábado, 24 de maio de 2008

Strip-Tease...

Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.
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Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.
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Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".
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Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."
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Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".
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Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".
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Por fim, a última peça caía, deixando-a nua: "Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".
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E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.
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(Martha Medeiros)

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Oração dos estressados...

Senhor, dê-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as coisas que não posso aceitar, e sabedoria para esconder os corpos daquelas pessoas que eu tiver que matar por estarem me enchendo o saco.
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Também, me ajude a ser cuidadoso com os calos em que piso hoje, pois eles podem estar diretamente conectados aos sacos que terei que puxar amanhã.
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Ajude-me, sempre, a dar 100% de mim no meu trabalho... 12% na segunda-feira, 23%, na terça-feira, 40% na quarta-feira, 20% na quinta-feira, 5% na sexta-feira.
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E ajude-me sempre a lembrar, quando estiver tendo um dia realmente ruim e todos parecerem estar me enchendo o saco, que são necessários 42 músculos para socar alguém e apenas 4 para estender meu dedo médio e mandá-lo para aquele lugar!
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Amém.
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(Luis Fernando Veríssimo)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Surpresa desagradável...

Precisando de dinheiro, Nasrudin decidiu fabricar e vender iogurte.

Devido à sua inexperiência, só foi possível aproveitar pouquíssimo alimento.

Pegou então um pote, encheu-o de barro e por cima colocou uma fina camada de iogurte. Imediatamente, dirigiu-se ao mercado e ofereceu-o a um amigo seu que tinha um armazém.

Este, antes de pagar-lhe, resolveu provar a mercadoria. Pegou uma colher, mexeu o iogurte e, no mesmo instante, surgiu o barro reluzente.

— Mas, Nasrudin — exclamou, surpreendido, o comerciante —, debaixo desta fina camada de delicioso iogurte há um barro nojento!

— É natural — disse o Mullá —, sempre que se mexe algo que é delicioso por cima, pode-se encontrar uma surpresa desagradável por baixo.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Pensamento positivo...

A técnica de pensamento positivo não é uma técnica que o transforma. Ela está simplesmente reprimindo os aspectos negativos da sua personalidade. É um método de escolha. Ela não pode ajudar a consciência; ela vai contra a consciência. A consciência é sempre algo sem escolha.
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O pensamento positivo simplesmente significa forçar o negativo para o inconsciente e condicionar a mente consciente com pensamentos positivos.
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Mas o problema é: o inconsciente é muito mais poderoso, nove vezes mais poderoso que a mente consciente. Então, uma vez que uma coisa se torne inconsciente, se torna nove vezes mais poderosa do que antes. Ela pode não ser mostrada da maneira antiga mas irá encontrar novas maneiras de expressão...
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E isso é danoso e perigoso também.
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As idéias negativas da sua mente precisam ser liberadas, não reprimidas por idéias positivas. Você tem de criar uma consciência que não é nem positiva nem negativa. Isso será a consciência pura. Neste puro estado de consciência, você viverá a vida mais natural e plena de felicidade...
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O pensamento positivo é simplesmente a filosofia da hipocrisia - para lhe dar o nome correto.
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Osho

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Calma, vai passar...

Olhe, não fique assim não, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que você não vai agüentar, mas agüenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. (Fernando Pessoa escreveu, num momento parecido, "hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu")
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Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai agüentar, mas agüenta: as dores da vida. Pense assim: agora tá insuportável, agora você queria abrir o zíper, sair do corpo, encarnar numa samambaia, virar um paralelepípedo ou qualquer coisa inanimada, anestesiada, silenciosa. Mas agora já passou. Agora já é dez segundos depois da frase passada. Sua dor já é dez segundos menor do que duas linhas atrás. Você acha que não, porque esperar a dor passar é como olhar um transatlântico no horizonte estando na praia. Ele parece parado, mas aí você desvia o olho, toma um picolé, lê uma revista, dá um pulo no mar e quando vai ver o barco já tá lá longe. A sua dor agora, essa fogueira na sua barriga, essa sensação de que pegaram sua traquéia e seu estômago e torceram como uma toalha molhada, isso tudo - é difícil de acreditar, eu sei - vai virar só uma memória, um pequeno ponto negro diluído num imenso mar de memórias. Levante-se daí, vá tomar um picolé, ler uma revista, dar um pulo no mar. Quando você for ver, passou.
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Agora não dá mesmo pra ser feliz. É impossível. Mas quem disse que a gente deve ser feliz sempre? Isso é bobagem. Como cantou Vinícius: "É melhor viver do que ser feliz". Porque pra viver de verdade a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder.
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Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, eu sei como dói. Mas passa.
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Tá vendo a felicidade ali na frente? Não, você não tá vendo, porque tem uma montanha de dor na frente. Continue andando. Você vai subir, vai sentir frio lá em cima, cansaço. Vai querer desistir, mas não vai desistir, porque você é forte e porque depois do topo a montanha começa a diminuir e o unico jeito de deixá-la pra trás é continuar andando.
Você vai ser feliz.
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Tá vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto de agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que tô falando a verdade. Eu não minto. Vai passar.
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(Antonio Prata)

sábado, 17 de maio de 2008

Montanha Russa...

Ser feliz pra sempre é o final que todos nós esperamos para nossa história pessoal. Ninguém sabe direito o que é felicidade, mas definitivamente, não é acomodar-se.
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Acomodar-se é o mesmo que fazer uma longa viagem no piloto automático. Muito seguro, mas que aborrecimento! É preciso um pouquinho de turbulência pra a gente acordar e sentir alguma coisa, nem que seja medo.
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Tem muita gente que se distrai e é feliz pra sempre, sem conhecer as delícias de ser feliz por uns meses, depois infeliz por uns dias, felicíssimo por uns instantes, em outros instantes achar que ficou maluco, então ser feliz de novo em fevereiro e março, e em abril questionar tudo que se fez, aí em agosto ser feliz porque a ousadia deu certo, e infeliz porque durou pouco, e assim, sentir-se realmente vivo porque cada dia passa a ser um único dia.
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Eu não gosto de montanha-russa, o brinquedo, mas gosto de montanha-russa, a vida.
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Creio possuir um certo grau de responsabilidade que me permite saber até que altura posso ir e que tipo de tombo posso levar sem me machucar demasiadamente: Alto demais não vou, mas ficar no chão o tempo inteiro não fico.
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Viver não é seguro, não é fácil. E não pode ser monótono. Mesmo fazendo escolhas aparentemente definitivas, ainda assim podemos excursionar por dentro de nós mesmos e descobrir lugares desabitados que nunca colocamos os pés, nem mesmo em imaginação.
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E estando lá, rever nossas escolhas e recalcular a duração de "pra sempre".
Muitas vezes o "pra sempre" não dura tanto quanto duram nossa teimosia e receio de mudar.
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(Martha Medeiros)

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Buda e o tapa...

Buda estava sentado embaixo de uma árvore falando aos seus discípulos. Um homem se aproximou e deu-lhe um tapa no rosto.
Buda esfregou o local e perguntou ao homem:
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- E agora? O que vai querer dizer?

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O homem ficou um tanto confuso, porque ele próprio não esperava que, depois de dar um tapa no rosto de alguém, essa pessoa perguntasse: "E agora?" Ele não passara por essa experiência antes. Ele insultava as pessoas e elas ficavam com raiva e reagiam. Ou, se fossem covardes, sorriam, tentando suborná-lo. Mas Buda não era num uma coisa nem outra; ele não ficara com raiva nem ofendido, nem tampouco fora covarde. Apenas fora sincero e perguntara: "E agora?" Não houve reação da sua parte.
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Os discípulos de Buda ficaram com raiva, reagiram. O discípulo mais próximo, Ananda, disse:
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- Isso foi demais: não podemos tolerar. Buda, guarde os seus ensinamentos para o senhor e nós vamos mostrar a este homem que ele não pode fazer o que fez. Ele tem de ser punido por isso. Ou então todo mundo vai começar a fazer dessas coisas.
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- Fique quieto – interveio Buda – Ele não me ofendeu, mas
você está me ofendendo. Ele é novo, um estranho. E pode ter ouvido alguma coisa sobre mim de alguém, pode ter formado uma idéia, uma noção a meu respeito. Ele não bateu em mim; ele bateu nessa noção, nessa idéia a meu respeito; porque ele não me conhece, como ele pode me ofender? As pessoas devem ter falado alguma coisa a meu respeito, que " aquele homem é um ateu, um homem perigoso, que tira as pessoas do bom caminho, um revolucionário, um corruptor". Ele deve ter ouvido algo sobre mim e formou um conceito, uma idéia. Ele bateu nessa idéia.
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Se vocês refletirem profundamente, continuou Buda,
ele bateu na própria mente. Eu não faço parte dela, e vejo que este pobre homem tem alguma coisa a dizer, porque essa é uma maneira de dizer alguma coisa: ofender é uma maneira de dizer alguma coisa. Há momentos em que você sente que a linguagem é insuficiente: no amor profundo, na raiva extrema, no ódio, na oração.
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Há momentos de grande intensidade em que a linguagem é impotente; então você precisa fazer alguma coisa. Quando vocês estão apaixonados e beijam ou abraçam a pessoa amada, o que estão fazendo? Estão dizendo algo. Quando vocês estão com raiva, uma raiva intensa, vocês batem na pessoa, cospem nela, estão dizendo algo. Eu entendo esse homem. Ele deve ter mais alguma coisa a dizer; por isso pergunto: "E agora?"
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O homem ficou ainda mais confuso! E buda disse aos seus discípulos:
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- Estou mais ofendido com vocês porque vocês me conhecem, viveram anos comigo e ainda reagem.
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Atordoado, confuso, o homem voltou para casa. Naquela noite não conseguiu dormir.
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Na manhã seguinte, o homem voltou lá e atirou-se aos pés de Buda. De novo, Buda lhe perguntou:
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- E agora? Esse seu gesto também é uma maneira de dizer alguma coisa que não pode ser dita com a linguagem. Voltando-se para os discípulos, Buda falou:
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- Olhe, Ananda, este homem aqui de novo. Ele está dizendo alguma coisa. Este homem é uma pessoa de emoções profundas.
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O homem olhou para Buda e disse:
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- Perdoe-me pelo que fiz ontem.
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- Perdoar? – exclamou Buda. – Mas eu não sou o mesmo homem a quem você fez aquilo. O Ganges continua correndo, nunca é o mesmo Ganges de novo. Todo homem é um rio. O homem em quem você bateu não está mais aqui: eu apenas me pareço com ele, mas não sou mais o mesmo; aconteceu muita coisa nestas vinte e quatro horas! O rio correu bastante.
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Portanto, não posso perdoar você porque não tenho rancor contra você.
E você também é outro, continuou Buda. Posso ver que você não é o mesmo homem que veio aqui ontem, porque aquele homem estava com raiva; ele estava indignado. Ele me bateu e você está inclinado aos meus pés, tocando os meus pés; como pode ser o mesmo homem? Você não é o mesmo homem; portanto, vamos esquecer tudo. Essas duas pessoas: o homem que bateu e o homem em quem ele bateu não estão mais aqui. Venha cá. Vamos conversar.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Sobre a oração...

"Depois uma sacerdotisa disse: Fala-nos da oração.
E ele respondeu, dizendo:
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- Vós orais na aflição e na necessidade; também devieis orar na alegria e nos tempos de abundância.
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Pois o que é a oração senão a expansão de vós no ar vivo? E se vos dá consolo largar vossa escuridão no espaço, também vos deve dar felicidade lançar o vosso coração à aurora.
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E se só conseguirdes chorar quando a vossa alma vos chamar à oração, ela vos estimulará até que, ainda a chorar, vos comeceis a rir.
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Quando rezais encontrais no ar aqueles que rezam à mesma hora e que, senão fosse na oração, nunca encontrarieis.
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Por isso deixai que a vossa visita a esse templo invisível não seja senão para o êxtase e doce comunhão.
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Pois não deveis entrar no templo com outro objetivo que não seja o de pedir aquilo que não recebereis;
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E se lá entrardes com humildade assim permanecereis; Ou mesmo se lá entrardes para pedir favores para os outros não sereis ouvidos.
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É suficiente que entreis invisíveis no templo.
Não vos posso ensinar a orar por palavras.
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Deus não ouve as vossas palavras a não ser quando ele próprio as murmura... Através dos vossos lábios.
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E não vos posso ensinar a oração dos mares e das florestas e das montanhas.
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Mas vós que nascestes nas montanhas e nas florestas e nos mares, encontrareis a oração nos vossos corações, e se escutardes na quietude da noite, ouvi-los-eis dizer em silêncio:
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"Nosso Deus, que sois o nosso eu alado, é a vossa vontade em nós que quer. E o vosso desejo em nós que é desejado. É a vossa vontade para que tornemos as nossas noites que são vossas, em dias que são igualmente vossos.
Não vos podemos pedir, pois conheceis os nossos desejos antes de nós próprios nascermos, vós sois o nosso desejo, e em dar-nos mais de vós, dais-vos todo."
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(O profeta. Khalil Gibran)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Pensamento Tibetano...

Pensamento Tibetano do Século VIII

Encontrado nas ruínas do antigo aposento do monge Raksheh Vilmiintuch, no templo de Potala. O monge, mais tarde, chegou a ser um Dalai Lama.

"Tudo aquilo que algum filho da puta diz que é "urgente", sempre é algo que algum imbecil deixou de fazer em tempo hábil e quer que você se foda pra fazer em tempo recorde."

(Raksheh Vilmiintuch - Monge Tibetano)

domingo, 11 de maio de 2008

Clareza...

Podemos escolher não tocar em determinados assuntos e tentar não permitir que eles nos toquem. Afastar os olhos, os ouvidos, o coração, o máximo possível. Podemos fazer de conta, sobretudo para nós mesmos, que não ouvimos seu pedido de atenção. Podemos nos especializar em emendar uma atividade na outra para fugir da ameaça do encontro que o intervalo sugere. Podemos atropelar a maioria dos instantes com ruídos capazes de calar a boca do silêncio.
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Podemos nos anestesiar com variados recursos para evitar entrar em contato com o nosso sentimento. Mas, como uma pedrinha no sapato, ele está lá, incômodo. Podemos inventar jeitos de caminhar sem percebê-la, mas basta um pequeno descuido na nossa vigilância para notar o desconforto que ela provoca. Nosso controle costuma funcionar até a página quinze.
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Uma das maneiras mais eficazes para potencializarmos nossos medos e angústias é fingir ignorá-los. Melhor puxar a cadeira, chamá-los para uma conversa amistosa, deixar que desengasguem e nos contem tudo, tintim por tintim. Melhor ouvi-los com a escuta mais atenta de que somos capazes. Terminado o papo, podemos não ter a mínima idéia do que fazer a respeito, mas há uma espécie de alívio, de esvaziamento, de serenidade, que começa com a clareza.
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(Ana Jácomo)

sábado, 10 de maio de 2008

Saudades...

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
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Mas o que mais dói é a saudade. Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
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Doem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
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Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam-se onde.
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Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter. Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio.
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Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia. Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu.
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Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupada, se ele tem assistido as aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua preferindo Malzebier, se ela continua preferindo suco, se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados, se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor, se ele continua cantando tão bem, se ela continua detestando o MC Donald's, se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
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Saudade é não saber mesmo! Não saber o que fazer com os diasque ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que he cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
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Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela esta mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
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Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você, provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler...
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(Miguel Fallabela)