domingo, 11 de maio de 2008

Clareza...

Podemos escolher não tocar em determinados assuntos e tentar não permitir que eles nos toquem. Afastar os olhos, os ouvidos, o coração, o máximo possível. Podemos fazer de conta, sobretudo para nós mesmos, que não ouvimos seu pedido de atenção. Podemos nos especializar em emendar uma atividade na outra para fugir da ameaça do encontro que o intervalo sugere. Podemos atropelar a maioria dos instantes com ruídos capazes de calar a boca do silêncio.
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Podemos nos anestesiar com variados recursos para evitar entrar em contato com o nosso sentimento. Mas, como uma pedrinha no sapato, ele está lá, incômodo. Podemos inventar jeitos de caminhar sem percebê-la, mas basta um pequeno descuido na nossa vigilância para notar o desconforto que ela provoca. Nosso controle costuma funcionar até a página quinze.
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Uma das maneiras mais eficazes para potencializarmos nossos medos e angústias é fingir ignorá-los. Melhor puxar a cadeira, chamá-los para uma conversa amistosa, deixar que desengasguem e nos contem tudo, tintim por tintim. Melhor ouvi-los com a escuta mais atenta de que somos capazes. Terminado o papo, podemos não ter a mínima idéia do que fazer a respeito, mas há uma espécie de alívio, de esvaziamento, de serenidade, que começa com a clareza.
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(Ana Jácomo)

sábado, 10 de maio de 2008

Saudades...

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
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Mas o que mais dói é a saudade. Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
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Doem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
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Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam-se onde.
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Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter. Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio.
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Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia. Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu.
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Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupada, se ele tem assistido as aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua preferindo Malzebier, se ela continua preferindo suco, se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados, se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor, se ele continua cantando tão bem, se ela continua detestando o MC Donald's, se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
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Saudade é não saber mesmo! Não saber o que fazer com os diasque ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que he cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
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Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela esta mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
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Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você, provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler...
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(Miguel Fallabela)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O Varal...

Um vizinho bateu à porta do Nasrudin e pediu:

- Nasrudin, você me empresta o varal de secar roupa que o de lá de casa se quebrou?

- Um momento, disse Nasrudin - vou perguntar à minha mulher.

Momentos depois Nasrudin voltou e disse para o vizinho:

- Desculpe vizinho, mas não vou poder emprestar o varal pois minha mulher está secando farinha nele.

O vizinho, surpreso, exclamou:

- Mas Nasrudin, secando farinha no varal??!!

E Nasrudin respondeu:

- É... quando não se quer emprestar o varal, até farinha se seca nele...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

A sua irritação...

"A sua irritação não solucionará problema algum...
As suas contrariedades não alteram a natureza das coisas...
Os seus desapontamentos não fazem o trabalho que só o tempo conseguirá realizar.
O seu mau humor não modifica a vida...
A sua dor não impedirá que o sol brilhe amanhã sobre os bons e os maus...
A sua tristeza não iluminará os caminhos...
O seu desânimo não edificará ninguém...
As suas lágrimas não substituem o suor que você deve verter em benefício da sua própria felicidade...
As suas reclamações, ainda mesmo afetivas, jamais acrescentarão nos outros um só grama de simpatia por você...
Não estrague o seu dia.
Aprenda a sabedoria divina,
A desculpar infinitamente,
construindo e reconstruindo sempre...
Para o infinito bem!"

(Chico Xavier)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Parar de comer...

Por que não posso parar de comer? Mas esse não é o problema; há algo mais por trás disso, alguma outra coisa. Parece ridículo...
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Não, não julgue. Se você disser que é ridículo, você já condenou, e isso pode ser parte do problema. Essa não é a forma de resolver qualquer problema. Não dê nome as coisas; tente compreendê-las.

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Se uma pessoa está comendo demais, isso é um sintoma de uma certa subcorrente.
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A comida é sempre um substituto do amor. As pessoas que não amam, que de alguma maneira perdem uma vida de amor, começam a comer mais; isso é um amor-substituto.

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Quando uma criança nasce, seu primeiro amor e sua primeira comida são o mesmo; a mãe. Assim há uma profunda associação entre comida e amor; de fato, a comida vem primeiro e então o amor vem depois. Primeiro a criança come a mãe, então pouco a pouco ela se torna cônscia de que a mãe não é exatamente comida; ela a ama também. Mas, é claro que para isso, um certo crescimento é necessário. No primeiro dia, a criança não pode entender o amor. Ela entende a linguagem da comida, a linguagem primitiva natural de todos os animais. A criança nasce com fome; a comida é necessária imediatamente. Amor não será logo necessário; não é muito uma emergência. A pessoa pode viver sem amor por toda a vida, mas ninguém pode viver sem comida; esse é o problema.
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Portanto, a criança se torna cônscia da ligação entre comida e amor. Pouco a pouco ela também sente que quando a mãe é muito amorosa, ela oferece seu peito de uma maneira diferente. Quando ela não é amorosa, porém raivosa, triste, ela oferece o peito muito relutantemente, ou não o oferece de jeito nenhum. Assim a criança fica cônscia que quando a mãe é amorosa, quando a comida está disponível, o amor está disponível. Quando a comida não está disponível, a criança sente que o amor não está disponível e vice-versa. Isso está no inconsciente.
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Em algum lugar você está perdendo uma vida de amor, por isso você come mais; isso é um substituto. Você vai se enchendo de comida e não deixa nenhum espaço dentro. Assim a questão do amor não surge, porque não há espaço dentro. E com comida as coisas são simples porque a comida é morta. Você pode continuar comendo tanto quanto você queira; a comida não pode dizer não. Se você parar de comer, a comida não pode dizer que você a está ofendendo. A pessoa é um mestre para a comida.
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Mas no amor você não é mais o mestre. Outro ser entra em sua vida, uma dependência entra em sua vida. Você não é mais independente e este é o medo.
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O ego deseja ser independente e o ego não lhe permitirá amar; lhe permitirá somente comer mais. Se você deseja amar, então o ego precisa ser abandonado.
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Não é uma questão de comida; a comida é simplesmente sintomática. Portanto não vou dizer nada sobre comida, sobre dieta ou fazer qualquer coisa. Porque isso não irá ajudá-lo, você não será bem sucedido. Você pode tentar de mil e uma maneiras; isso não irá ajudar. Melhor dizer; esqueça da comida, pode comer tanto quanto você quiser.
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Comece uma vida de amor, apaixone-se, encontre alguém que você queira amar, e imediatamente você verá que não está comendo tanto.
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Você já observou? - se você está feliz você não come tanto. Se você está triste você come demais, mas este é um absoluto nonsense. Uma pessoa feliz se sente tão preenchida que não tem espaço dentro dela. Um homem infeliz vai lotado comida dentro dele.
Portanto eu não vou tocar na comida de jeito nenhum... e você continua do jeito que você está mas encontre um amor.
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(Osho, Extraído de: Above All, Don't Wobble)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Sobre o prazer...

"Então um eremita que visitava a cidade uma vez por ano, avançou e disse: Fala-nos do prazer!
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E ele respondeu, dizendo:
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O prazer é uma canção de liberdade, mas não é a liberdade. É o desabrochar dos vossos desejos, mas não é os seus frutos. É um chamamento profundo para as alturas, mas não é profundo nem alto. É o encarcerado a ganhar asas, mas não é o espaço que o circunda. Sim, na verdade, o prazer é uma canção de liberdade. E bem gostaria que a cantásseis com todo o vosso coração;
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No entanto, não percais os vossos corações nos cânticos. Alguma da vossa juventude procura o prazer como se isso fosse tudo, e esses são julgados e punidos.
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Eu não os julgaria nem puniria.
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Gostaria que empreendessem a busca. Pois eles encontrarão prazer, mas não só.
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Sete são as suas irmãs, e a mais insignificante delas é mais bela que o prazer. Nunca ouviram a história do homem que cavava a terra para encontrar raízes e descobriu um tesouro? E alguns de vós, mais velhos, recordam os prazeres com remorsos.
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Como erros cometidos quando estavam bêbedos. Mas o remorso só obscurece o espírito e não o castiga. Deveriam lembrar-se dos prazeres com gratidão, tal como fariam após uma colheita no verão.
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No entanto, se os conforta sentir o remorso, deixai-os confortarem-se. E há entre vós aqueles que não são nem suficientemente jovens para empreender a busca, nem suficientemente velhos para se lembrarem;
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E no medo deles de procurarem e se lembrarem, conseguem afastar todos os prazeres, a menos que negligenciem o espírito. Mas até na antecipação reside o seu prazer. E assim também eles encontram um tesouro, embora procurem as raízes com mãos trémulas. Mas dizei-me, quem pode ofender o espírito?
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Será que o rouxinol consegue ofender a quietude da noite ou o brilho das estrelas? E as vossas chamas ou fumo conseguem carregar o vento? Pensais que o espírito é um lago imóvel que podeis perturbar?
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Muitas vezes ao negardes a vós mesmos o prazer, estais a ocultar o desejo nos recônditos do vosso ser. Quem sabe que o que parece ser omitido hoje espera por amanhã?
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Até o vosso corpo conhece a sua herança e as suas necessidades e não sairá desiludido. E o vosso corpo é a harpa da vossa alma, e é a vós que compete extrair dela uma doce melodia ou sons confusos.
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E no vosso coração, perguntais,"Como distinguiremos o que é bom no prazer do que não é?"
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Ide para os vossos campos e jardins e aprendereis que o prazer da abelha consiste em retirar o mel da flor. Mas também a flor tem prazer em dar o seu mel à abelha.
Pois para a abelha a flor é uma fonte de vida. E para a flor a abelha é mensageira de amor.
E, para ambas, abelha e flor, o dar e o receber de prazer é uma necessidade e um êxtase.
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Povo de Orfalés, olhai para os vossos prazeres como as abelhas e as flores."
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(O profeta. Khalil Gibran)

sábado, 3 de maio de 2008

Educação...

Conta-se que Licurgo, célebre orador ateniense, fora em certa ocasião, convidado a falar sobre a Educação.
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Aceitou o convite, sob a condição de lhe concederem três meses de prazo. Findo esse tempo, apresentou-se perante numerosa e seleta assembléia, que aguardava ávida de curiosidade, a palavra do consagrado tribuno.
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Licurgo apareceu, então, trazendo consigo em duas jaulas, separadamente, dois cães e duas lebres.
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Soltou o primeiro mastim e uma das lebres. A cena foi chocante e bárbara. O cão avançou furioso sobre a lebre e a despedaçou. A platéia entrou em desespero, atordoados.
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Após a primeira cena, soltou, em seguida, o segundo cachorro e a outra lebre. Para a surpresa dos presentes, que já esperavam outra atrocidade, o mastim pôs-se a brincar com a lebre, amistosamente.
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Ambos os animais corriam de um para outro lado, encontrando-se aqui e acolá para se afagarem mutuamente.
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Ergue-se, então, Licurgo na tribuna e conclui dirigindo a palavra ao seleto auditório:
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- Eis aí o que é a educação. O primeiro cão é das mesmas raça e idade do segundo. Foi tratado e alimentado em idênticas condições. A diferença entre eles, é que um foi educado e o outro não.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Soneto VIII - O Tempo...

Deus pede estrita conta de meu tempo,
É forçoso do tempo já dar conta;
Mas, como dar sem tempo tanta conta,
Eu que gastei sem conta tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo
Dado me foi bem tempo e não foi conta.
Não quis sobrando tempo fazer conta,
Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Oh! vós que tendes tempo sem ter conta
Não gasteis esse tempo em passatempo:
Cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, oh! se os que contam com seu tempo
Fizessem desse tempo alguma conta,
Não choravam como eu o não ter tempo.

(Laurindo Rabelo)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Todos nós somos bregas...

Quem é que nunca teve um Thiago, um Marcelo, um Felipe, um Ricardo, um Luciano, um Júlio, um Adriano ou um Alexandre na vida? Tudo bem, pode ser uma Rosângela, uma Andresa, uma Ana, uma Rúbia, uma Roberta, uma Patrícia ou uma Aline...
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Paquerar é bom, mas chega uma hora que cansa! Cansa na hora que você percebe que ter 10 pessoas ao mesmo tempo é o mesmo que não ter nenhuma, e ter apenas uma, é o mesmo que possuir 10 ao mesmo tempo!
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A "fila" anda, a coleção de "figurinhas" cresce, a conta de telefone é sempre altíssima. Mas e aí? O que isso te acrescenta?
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Nessas horas sempre surge aquela tradicional perguntinha: Por que aquela pessoa pela qual você trocaria qualquer programa por um simples filme com pipoca abraçadinho no sofá da sala não despenca logo na sua vida?
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Se o tal "amor" é impontual e imprevisível que se dane!
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Não adianta: as pessoas são impacientes! São e sempre vão ser! Tem gente que diz que não é... "Eu não sou ansioso, as coisas acontecem quando tem que acontecer."
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Mentira! Por dentro todo ser humano é igual: impaciente, sonhador, iludido... Jura de pé junto que não, mas vive sempre em busca da famosa cara metade! Pode dar o nome que quiser: amor, alma gêmea, par perfeito, a outra metade da laranja... No fim dá tudo no mesmo. Pode soar brega, cafona, piegas... Mas é a realidade. Inclusive o assunto "amor" é sempre cafonérrimo.
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Acredito que o status de cafona surgiu porque a grande maioria das pessoas nunca teve a oportunidade de viver um grande amor. Poucas pessoas experimentaram nesta vida a sensação de sonhar acordada, de dormir do lado do telefone, de ter os olhos brilhando, de desfilar com aquele sorriso de borboleta azul estampado no rosto...
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Não lembro se foi o "Wando" ou se foi o "Reginaldo Rossi" que disse em uma entrevista que se a Marisa Monte não tivesse optado pelo "Amor I love you" e que se o Caetano não tivesse dito "Tô me sentindo muito sozinho..." eles não venderiam mais nenhum disco. Não adianta, o público gosta e vibra com o "brega".
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Não adianta tapar o sol com a peneira. Por mais que você não admita:
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Você ficou triste por que o Leonardo di Caprio morreu em "Titanic" e ficou feliz porque a Julia Roberts e o Richard Gere acabaram juntos em "Uma Linda Mulher";
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Existe pelo menos uma música sertaneja ou um pagodinho que te deixe com dor de cotovelo;
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Quando você está solteiro e vê um casal aos beijos e abraços no meio da rua você sente a maior inveja;
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Você já se pegou escrevendo o seu nome e o da pessoa pela qual você está apaixonada no espelho embaçado do banheiro, ou num pedacinho de papel;
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Você já se viu cantando o mantra "Toca telefone toca" em alguma das sextas-feiras de sua vida, ou qualquer outro dia que seja;
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Você já enfiou os pés pelas mãos alguma vez na vida e se atirou de cabeça numa "relação" sem nem perceber que você mal conhecia a outra pessoa e que com este seu jeito de agir ela te acharia um tremendo louco;
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Você, assim como nos contos de fada, sonha em escutar um dia o tal "... e foram felizes para sempre" e adora quando passa na TV aqueles comerciais de margarina, a lá Doriana, no maior "super família feliz" durante o intervalo das novelas...

Bem, preciso continuar? Ok, acho que não...

Negue o quanto quiser, mas sei que já passou por isso, e se não passou, não sabe o quanto está perdendo....

"O problema de resistir a uma tentação é que você pode não ter uma segunda chance"

"Falo a língua dos loucos porque não conheço a mórbida coerência dos lúcidos."

(Luiz Fernando Veríssimo)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Chance...


Enquanto espirra o perfume de fragrância duvidosa, Emanuel pensa no tamanho da roubada em que está se metendo. Essa coisa de encontro às escuras, ou "blaindaiti" (como dizia seu amigo Cezar), definitivamente não é a melhor das idéias pra sair daquela melancolia danada. Tudo por causa da Glorinha. Mas agora já foi, são águas passadas, ela que seja feliz com o tal auxiliar administrativo do cartório, que em uma semana acabou com meses de planos. Caguei, diz ele se olhando no espelho. Um Alain Delon, diria sua avó.
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Ajeita a camisa, dá um último tapa no cabelo emplastado de gel e caminha até a porta. Pensa no momento de encontrar Isabela e suas pernas tremem. O suor começa. Puta merda, toca passar mais perfume!
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Essa coisa de conhecer gente pela internet é complicada. Você vê a foto ali, não sabe se a pessoa é aquela mesma, se não estão te enganando, se na hora de apalpar não é nada daquilo que você espera encontrar. Mas uma coisa o Cezar tem razão, precisa ir lá e conferir. Ainda mais no caso da Isabela, tão gatinha nas fotos, sorriso meigo, olhos delicados, peitos empinados, cintura fina, linda, linda, linda... mas, e se ela não for nada daquilo?
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Uma tremenda incerteza bate em Emanuel. Cara, essa menina não pode ser tão bonita como nas fotos. Por que uma gata dessas estaria numa sala de bate-papo? Garotas bonitas como ela não precisam disso, definitivamente.
Emanuel olha para suas mãos, elas tremem. Volta para o espelho, se analisa dos pés à cabeça. Acho que não vou. Mais uma olhada. Cara, deve ser alguém zoando com a minha cara, se bobear é o próprio Cezar querendo me pregar uma peça. Nem ferrando que vou cair nessa. Melhor, vou deixar ele lá, plantado, achando que vou cair feito um bestão nessa zoeira dele.
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Pipoca, pijama, Zorra Total na TV. É isso aí, que sair que nada, parei, não vou cair na do Cezar. Pensa que acreditei nesse papo de Isabela... prefiro ficar aqui pensando na Glorinha.
Enquanto isso, na porta do shopping está uma menina muito bonita, sorriso meigo, olhos delicados, peitos empinados, cintura fina, linda, linda, linda... seu nome é Isabela.
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(Nelson Botter Jr.)

terça-feira, 29 de abril de 2008

Realidade...

Era uma vez um cientista que não acreditava na existência de deus e de câmeras fotográficas. Ele dizia que faltavam evidencias e que, pessoalmente, nunca havia visto deus nem uma câmera fotográfica.

Foi então que, outro cientista, amigo seu, marcou para ele um encontro com uma câmera fotográfica no laboratório em que trabalhava. A câmera fotográfica chegou primeiro e ficou aguardando. O tempo foi passando, mas o cientista não aparecia.

Como já era tarde e a câmera precisava ir embora, ela teve a idéia de bater uma fotografia do laboratório e deixar sobre o balcão como prova de sua presença no encontro. Junto com a foto a câmera deixou um bilhete: "Olá Cientista, estive aqui para o nosso encontro, mas você não apareceu. Esta foto do laboratório é uma prova da minha presença".

No dia seguinte, o amigo do cientista lhe perguntou sobre o encontro. O cientista respondeu: "Meu carro quebrou no caminho. Quando cheguei no laboratório a suposta câmera fotográfica já havia ido embora e só encontrei esta foto do laboratório".

O amigo indagou se agora, com a foto de prova, ele acreditava em câmeras fotográficas.

O cientista respondeu: "Claro que não! Examinei cada detalhe da imagem e não encontrei a presença da câmera em lugar nenhum!".

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Há mais luz por aqui...

Alguém viu Nasrudin procurando alguma coisa no chão.

"O que é que você perdeu, Mullá?", perguntou-lhe;

"Minha chave!", respondeu o Mullá.

Então, os dois se ajoelharam para procurá-la.

Um pouco depois, o sujeito perguntou:

"Onde foi exatamente que você perdeu esta chave?"

"Na minha casa."

"Então por que você está procurando por aqui?"

"Porque aqui tem mais luz!"