quarta-feira, 29 de março de 2017

Carta IV...

[...] a outra coisa é que iremos atrair para a nossa vida as experiências que confirmem as crenças que temos sobre nós. A repetição dos padrões e frustrações se dão por conta das questões interiores que para cada uma delas ainda não olhamos profundamente e com generosidade. O que penso é que ciente dos nossos engessamentos poderemos mudar a narrativa emocional que andamos a escrever e a repeti-la diariamente. Dissolvendo os nós e libertando-nos do passado, ganhamos a liberdade e o espaço para permitirmos que o novo realmente venha. Quanto mais olharmos para nós, melhor enxergaremos a vida. Quanto mais nos amarmos, mais o amor poderá chegar. Creio que esta seja a lei.

(Carta a uma amiga)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Sem muito doer...

Quando deus se mostrava feio ou a vida zangada, procurava-me. A salvar-se na palavra. A apoiar-se na beira da culpa sem cair. Quando a angústia a condenava, procurava-me. A salvar-se na palavra e abrigar-se da maldade e dos próprios erros. Costurei palavras para dar-lhe tempo de tornar-se outra apenas por imaginar-se outra que pudesse se tornar. A verdade concede-nos uma viagem sem regressos. Quando deus se mostrava feio ou a vida zangada, a literatura servia a ela como um pequeno milagre de se repetir. Sem muito doer.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Companhia...

Enquanto bebo uma cerveja, aguardo o amor vir sentar-se do outro lado da mesa. Não carece saber o que me dirá em seguida. O que quer que me diga será o suficiente.

Afinal, não é sempre que o amor nos faz companhia.

terça-feira, 21 de março de 2017

Saiam...

Aos demônios, convido a se retirarem.

Obrigado.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Emocionais, é claro.

A previsão do tempo nos permite escolhermos ou não os guarda-chuvas. Apenas isto. Sem garantias, como gostariam nossas ansiedades. Sem certezas, como precisariam nossos controles.

A previsão do tempo é apenas um pretexto para prevermos.

Somos dependentes das previsões e receitas de bolo.
Emocionais, é claro.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Desamor...

O desamor é um vício que pode prender-nos entre os altos e baixos de uma abstinência amorosa. O amor que não há é o exato vazio que nos sufoca. Sair do inferno é um lento e gradual recomeço. Afastá-lo equivale a restaurar o amor próprio. O fato é que se pode, mesmo distante, ainda sentir a falta do enxofre. O mero primeiro frescor pode disparar o desejo de se regressar ao inferno apenas por ser um (in)suportável conhecido. Uma maneira perversa de procurarmos onde não há: maneira ingênua de buscarmos a felicidade na infelicidade. E isto porque nos foi a única notícia que recebemos nos últimos tempos.

Sair do inferno demora porque o inferno precisa sair igualmente de nós.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Humanidade...

Amar alguém é amar todos os outros. Assim como matar alguém é matar todos os outros. Isto se considerarmos a humanidade que nos atravessa indistintamente como uma verdade que nos comunica e nos define.

(Um atrevimento como resposta ao pensamento de Albert Camus)

quarta-feira, 8 de março de 2017

Uma falta de sentido...

A vida tornou-se um uníssono de pressas. Era importante que homens e mulheres imitassem a beleza para os encontros: belezas exageradas que não lhes pertenciam. Deviam assemelhar-se à alegria natural que carregavam para cada noite de festas. A ilusão do esquecimento a dar-lhes um pouco de sossego e fuga e sonho. Mas, era o dia seguinte quem lhes despertava. Era o espelho recente da memória quem mostrava suas sucessivas tolices. A vida tornou-se um uníssono de pressas que celebramos para convencer-nos de que celebramos. E era importante que homens e mulheres chegassem a lugar nenhum. Como um peito vazio; uma falta de sentido; uma saudade.

A saudade, por exemplo, era um lugar nenhum.

segunda-feira, 6 de março de 2017

E não o contrário...

O amor perdeu o amor. 
O amor perderá o amor. Os amores. 
O amor se perderá. 
Mas, o amor jamais perderá o amar. 
E o amar há de perdoar o amor.

É o verbo quem nos salva das desesperanças.
Uma e outra vez e cada vez mais. Sempre.

É o amor quem nos conjuga no tempo, e não o contrário.

sábado, 4 de março de 2017

Em nós...

alegrava-me por desaguar 
em nós o me
destino.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sensatez...

O perigo de ser um excessivo sonhador era não viver o bastante para redimir-se de qualquer coisa que não havia lhe dado outro futuro e melhor oferta ao peito. O risco era bastar-se com suas interiores ilusões e invisíveis esquecimentos, prendendo a vida imensa no limitado da própria cama. Era nítido o contraste disto com as esperanças; estas que não permitia entrada no quarto a despertá-lo para continuar a procura de melhores destinos e algum amor.